26.7.08

Tesouros























Mexendo em antigas fitas de vídeo, encontrei um montão de tesouros escondidos que contam a história da minha vida, junto com pessoas muito amadas.
Pude rever a fita de aniversário de um ano de minha filha, hoje com 20 anos. Quando as imagens começaram a surgir na TV, corri para acordá-la e assistimos juntas, ela no meu colo, as cenas que mostravam uma menininha linda, bochechuda, cabelos encaracolados, roupa branca e olhar de espanto para tudo o que estava acontecendo à sua volta. Hoje o seu pai é meu primeiro ex-marido e, como nos separamos quando ainda tinha dois anos, ela não se lembrava de nós dois juntos e achou muito estranho observar-nos como casal.
Também viajei para o passado quando vi meus dois filhos, atualmente com 15 e 14 anos, vestindo fraldas e brincando nas festinhas de aniversário. A hora do Parabéns registrada com a família toda junta, meu segundo ex-marido, nossos filhos, minha filha, fez com que meu coração segredasse que o amor nunca acaba, apenas se transforma.
As imagens também trouxeram muita saudade de algumas pessoas que não estão mais comigo, minha mãe, minha babá, minha tia, a babá de meu pai. Vi meu pai ainda sem as seqüelas do derrame. Mais uma lição sobre a importância de aproveitarmos um momento presente.
Revendo cenas já vividas, senti minha Alma celebrar os bons momentos que já compartilhei com pessoas queridas. Conectei-me com as bênçãos de um caminho recheado de amor, carinho, alegria, amizade e companheirismo.
Já tive várias estruturas familiares, mas a harmonia esteve presente em todas elas. Os amigos comentam que o nosso lar é sempre acolhedor, recebendo com alegria os que nos vistam para um café, um pão molinho ou uma conversa na varanda.
Para todas e todos que estiveram ao meu lado, tornando a vida mais feliz, a minha gratidão.

19.7.08

Esperança


Saiu uma foto no jornal que me chocou. Estava na primeira página, com o maior destaque, mostrando homens num pátio de uma grande prisão pernambucana. Todos estavam nus ou de cuecas, com as mãos na nuca, e em bando. Esta cena era conseqüência de uma rebelião.
Na hora senti um aperto no peito e pensei: já imaginou se esse muro caísse e todos esses homens saíssem da prisão agora? o que eles fariam? como tratariam a sociedade que os tratou sem um pingo de dignidade?
Estamos com prisões superlotadas. Buscamos alternativas de maior vigilância e mais repressão policial. Seria esse o caminho para acabarmos com a violência? Como tratar apenas a ponta do enorme iceberg que o fosso da má distribuição de renda no país provoca?
Tenho feito caminhadas em campanhas políticas e me assusto com a realidade que encontro. Ruas esburacadas, sem saneamento, onde as fezes convivem com a água de beber. Crianças descalças, mulheres com fome, homens desempregados.
Foram muitos anos de abandono e descaso para com os menos favorecidos economicamente. Muito já foi feito e muito há por fazer. Não podemos ficar de braços cruzados, fazendo o discurso de que ‘político é tudo igual, só quer saber de roubar’. Precisamos nos engajar em movimentos que transformem a realidade desumana que todos nós ajudamos a construir, por ações ou omissões. Todos nós somos responsáveis por cada assalto a mão armada, por cada criança que cheira cola, por cada pai de família que rouba queijo para alimentar seus cinco filhos com fome e vai parar na cadeia. É tão fácil julgarmos e condenarmos, a partir de nossos referenciais, com expressões de horror em nossas faces, pais, tios, irmãos que cometem o incesto, e esquecermos como vivem essas pessoas em seus barracos abarrotados de gente, todos dormindo juntos numa mesma cama, tratados como bicho e como bicho agindo.
Visitei uma comunidade do MST, também no interior Pernambuco, e me deparei com uma cena que me comoveu. Um filho chegou perto de sua mãe e disse um “Bença, Mãe”. Ela olhou para ele cheia de carinho e devolveu “Deus te abençoe, Filho. Cuidado com a pista”. E lá se foi o menino, todo limpo e arrumado a caminho da escola. Sorri emocionada. Não havia muito dinheiro por aquelas bandas, mas aquela criança nem imaginava o quanto era rica de amor e o quanto isso seria importante para o seu futuro. Naquela hora me lembrei de muitas outras crianças, mais ricas, muito mais ricas em dinheiro que ela, que vinham para meu consultório cheinhas de problemas emocionais pelo abandono dos pais, ocupadíssimos em seus trabalhos com o objetivo de dar o melhor para seus filhos.
Aprendi, com uma pessoa muito linda, que quando a esperança é nossa companheira temos a energia amorosa para caminhar em projetos que desenvolvam a paz e a justiça social no lugar em que vivemos. Reservei um lugar especial para a esperança em meu coração e estou com muito mais coragem para dar minha contribuição, ainda que pequena, para a construção de um mundo em que todos vivam em harmonia, em que as pessoas sonhem, realizem seus sonhos e sejam felizes, manifestando, assim, o Sagrado em suas vidas.
Poderíamos pensar que isso é muito bonito, mas que não passa de blá-blá-blá e que na prática ações assim são impossíveis de acontecer. Mas já tem muita gente fazendo alguma coisa. A Fundação A Arte de Viver ( http://www.artedeviver.org.br/ ) desenvolve um programa de respiração em prisões no mundo inteiro e está organizando sua primeira intervenção em prisões do nosso estado. Ainda há esperança.

18.7.08

Seu coração vibra?




















Quando é que seu coração vibra? Quando é que você sente uma alegria imensa por estar fazendo algo?
Acredito que nos momentos em que sentimos o coração vibrar estamos conectados com o Grande Espírito, como dizem os índios, e estamos realizando nosso Dom aqui na Terra.
Quase sempre nos perdemos no caminho. Na infância, ainda lembrávamos, de alguma forma, do que combinamos com o Sagrado antes de desembarcarmos aqui. Aos poucos, a memória vai se apagando, acho que para testar nosso livre arbítrio, e ficamos por conta própria. A rotina louca que praticamos, cheia de compromissos e de metas a conquistar, afasta-nos do nosso mundo interior e nos deixa no vazio de uma vida sem significado. Tentamos preencher o buraco com compras – roupas, sapatos, carros, casas -, com um cuidado exagerado na aparência, com a busca pelo sucesso profissional, com o apego a relações que não aquecem mais o coração, mas que nos dão a falsa sensação de segurança contra a solidão. O medo de encararmos que a vida vivida aconteceu enquanto nossas Almas não estavam lá faz com que corramos atrás de remédios que nos entorpeçam, tirando-nos do sofrimento e da vergonha de termos desperdiçado a oportunidade de vivermos a nossa vida por inteiro, de verdade, com toda a dor e a alegria que a inteireza trouxesse.
Precisamos de maturidade para entender que conhecimento e sabedoria não são a mesma coisa, para reconhecer que a verdadeira felicidade se esconde nas coisas simples. Respiração, meditação, contemplação, contato com a natureza, respeito ao ritmo da vida, alimentação saudável e, principalmente, fazer coisas que nos dão alegria para, assim, atrairmos nossos Espíritos Protetores, são alternativas para resgatarmos a vibração amorosa de nossos corações.
O difícil dessa alternativa é que não há uma receita pronta, pois o caminho é único para cada Alma que se propôs a aprender no planeta Terra. Temos que escutar nosso Self e seguir nossa intuição. Procuro sempre seguir o caminho que faz meu coração vibrar. E você?

14.7.08

Guardiões












Há algum tempo realizei um trabalho numa das comunidades mais violentas de Recife. Lá conheci uma pessoa muito especial que me contou que tinha o sonho de levar livros para todos, pois acreditava que através da leitura seus amigos poderiam conhecer outros mundos, outras possibilidades de vida e, assim, saírem do mundo das drogas e do crime. Falou que sonhava com um carrinho de mão cheio de livros e imaginava-se circulando pelas ruelas estreitas e todos pegando livros para ler.
Como também sou apaixonada pela leitura, resolvi ajudá-lo a realizar seu sonho. Comprei uma estante, livros, gibis, giz de cera; arrumei, também, caixas e fichários. Doei tudo para ele, incentivando-o a ir em frente e dando-lhe o nome de guardião.
Descobri que era um poeta maravilhoso, retratando com seus poemas a realidade da comunidade.
Um dia desses, meu celular tocou e recebi o convite para a inauguração da Biblioteca Popular Guardiões da Literatura. Chorei emocionada. Ele havia se superado. Fui lá, hoje, conhecer de perto o local sagrado e, devo confessar, fiquei em êxtase. A Biblioteca está instalada numa pequena palafita à beira do mangue – sua antiga casa. A estante doada está lado, bem como os livros. Mas o acervo já é muito maior, com doações de toda a comunidade. Crianças e jovens estavam sentadas pelo chão, cujas brechas nas madeiras do piso possibilitavam o olhar para o mangue. As paredes estavam recobertas com jornais e aqui e acolá apareciam recortes de poesias escolhidas a dedo. O banheiro tinha como porta um pedaço de chita colorida. Um lindo banco, achado no lixo, havia sido todo pintado criativamente e acolhia os visitantes. Havia um tapete de mariscos na entrada e o cheiro da maré invadia o ambiente. O mais importante disso tudo era a energia do lugar, cheio de alegria e entusiasmo.
Lembrei-me da frase ‘’É dos sonhos dos homens que uma cidade se inventa”. Que tenhamos mais coragem para sonhar e realizar!

12.7.08

Meu marido estava no Japão e ligava sempre para conversarmos por telefone. Num desses encontros, começamos a falar sobre as datas. ‘Aí já é sábado. Ainda estou na sexta’, disse-lhe eu. Depois que desligamos fiquei pensando, confesso que perplexa, sobre essa coisa louca que é o tempo. Ele estava no meu amanhã; eu estava no ontem dele; encontrávamo-nos no presente, no instante t em que nossos corações pulsavam, em que respirávamos o mesmo ar, ainda que distantes fisicamente.
Já havia lido sobre isso, mas nunca tinha vivido a experiência. Acho que magia é assim. Fantástico! Tudo é relativo.
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Noutro dia, uma forte chuva caía sobre a cidade. Ao entrar em minha rua, dirigindo o carro, deparei-me com uma verdadeira piscina. A rua estava completamente cheia d’água. Reduzi a marcha e um sentimento de irritação tomou conta de mim. ‘Essa cidade só existe sem chuva’, reclamei, falando sozinha.
Olhei de lado e vi dois meninos, de uns 12 anos, brincando e nadando naquela água. Sorri intimamente, pensando que o que estava sendo um transtorno para mim era uma alegria para eles.
Segui com cuidado para não atrapalhar a brincadeira. De repente, eles vieram para frente do carro e pediram para que passasse correndo e fizesse onda. Acatei na hora a sugestão. O carro na água provocou um verdadeiro tsunami. Olhei pelo espelho retrovisor e me encantei com os dois meninos gargalhando e rolando na água.
Fantástico! Tudo é relativo.

25.6.08

São João na Roça









Todo nordestino adora a festa de São João. É um momento para reunir a família, para comer muito ao redor da longa mesa cheia de guloseimas típicas, para aproveitar o frio e tomar vinho e chocolate quente, para viver um pouco do cotidiano do interior andando de cavalo e tomando leite do peito da vaca, para sentir o calor da fogueira e soltar fogos que enchem de fumaça o ar e iluminam com suas luzes o céu estrelado, para dançar, claro, o gostoso forró.
Neste ano tive um São João maravilhoso. Aluguei, com minha família, uma fazenda em Gravatá, num local bem distante da cidade. A estrada é cheia de buracos e pedras, mas a vista da casa compensa o sacrifício. Meus filhos levaram muitos amigos e fizeram a maior farra. Jogaram dominó, tomaram banho de açude e de piscina, soltaram fogos, comeram muito. Minha filha também levou sua turma e curtiu tudo do seu jeito, com violão e shows de forró no telão até o sol raiar. Meu irmão veio, com mulher e filho, de Petrolina, bem no coração do sertão nordestino, e se esbaldou aproveitando tudo, com direito até a queda de cavalo. A família do meu marido também foi e adorou a rede e o Bolo de Souza Leão, agora Patrimônio Cultural de Pernambuco. Brincamos muito e descansamos bastante graças aos dengos de dois anjos que cuidaram da cozinha e da limpeza da casa, proporcionando-nos o maior conforto.
Como colocar em palavras o prazer de dançar forró com meu marido numa noite de São João numa fazendo do interior? Como traduzir a paz e a felicidade de ver a família reunida em volta da mesa jogando conversa fora? Como não se emocionar ao olhar os filhos gargalhando com seus amigos e pedindo para ficar mais um pouco? Como não se encantar com a beleza da mesa da festa e com a música do vento nas bandeiras espalhadas por toda a casa?
Faltaram algumas pessoas queridas que por motivos particulares não puderam compartilhar esse momento mágico. Para elas, a minha saudade.
Uma frase, dita por um grande xamã que lá estava, traduz o espírito da festa: ‘Tá tão perfeito que a gente devia até fazer uma oração e agradecer ao cara lá de cima’. É isso aí. Obrigada, Grande Espírito.
Valeu!

13.6.08

Sexta-feira, 13, as bruxas andam soltas. Bruxa que sou, resolvi pegar minha vassoura e voar. Lá de cima vi coisas difíceis de acreditar, de tão absurdas, até pareciam coisas de novela.
Era a final do campeonato de vassoura-ball e estava ansiosa para o jogo, assim como meu marido. Fomos logo cedo para o estádio, mas tivemos a maior surpresa quando descobrimos que nossa vassoura havia sido roubada. Entre irmos para a polícia prestar queixa e irmos para o estádio, escolhemos a segunda opção. Ligamos para a seguradora e esta acionou a polícia. Aproveitamos cada segundo do jogo e nosso time foi campeão. Eu e meu marido curtimos a vitória como muitos beijos e carinhos. Parecíamos dois adolescentes. É estranho dar beijo de língua em público. Voltamos para casa exaustos e tranqüilos, já pensando na comemoração do Dia dos Namorados.
Flores ao amanhecer. Caixa com champanhe, taças, chocolates com pimenta, calcinhas, óleos de massagem, pirulitos eu te amo, dadinhos e cremes eróticos, um cartão imenso falando do tesão de fazer amor. Roupa nova, onça na intimidade. Almoço regado à cerveja gelada, sorvete e uma tarde inteirinha sob/sobre lençóis macios. Que delícia!
O melhor de tudo foi que, logo cedinho, descobrimos que nossa vassoura havia sido roubada pela ogre mais feia e má da cidade, pois estava morta de inveja e ciúme do nosso amor e havia planejado a operação com o objetivo de estragar nossa felicidade. Coitada. Ficou com a vassoura e eu espero que tenha feito um bom uso dela pelo menos no Dia dos Namorados, já que não tinha com quem/que se enroscar porque sua maldade afastava todo mundo.
Depois que uma ogre toca um objeto temos que jogá-lo fora e já compramos vassoura nova.
Eu e meu marido continuamos vivenciando o nosso amor. O feitiço saiu contra o feiticeiro. Sai de retro, Satanás! Ah! Ah! Ah!

9.6.08

Há algum tempo escrevi um texto sobre uma festa de casamento em que estavam presentes todos os ex do casal, amigos e familiares. Recebi muitos mails de felicitações pelas mudanças em minha vida e achei aquilo tudo muito estranho, pois o texto era uma ficção do início ao fim.
Por voltas que a vida dá e a gente não sabe explicar, separei-me e me casei novamente, mesmo sem a tal festa. Fui caminhando por outros lugares, conhecendo pessoas e aprendendo muito.
Na semana passada meu ex-sogro faleceu e eu, que estava em pé de guerra com meu ex-marido, o segundo, para especificar melhor, fui correndo ao seu encontro para lhe dar carinho e apoio. Nesse momento todas as desavenças e mágoas ficaram tão pequeninhas. O que eu queria era dar-lhe o colo que tive dele quando fui eu que perdi a minha mãe.
Encontrei-o sentado em uma cadeira, ao lado da sua namorada atual, e dirigi-me para abraçá-lo. Alisei sua cabeça, disse-lhe palavras de conforto, chorei a minha e a sua dor. Ajoelhei-me a seu lado e fiquei alisando e beijando suas mãos, tentando dizer-lhe que tivesse forças e confiasse no tempo como o grande curador. Só podia compartilhar o que tinha aprendido e, também, o meu amor. Não é mais o amor de marido e mulher; é um amor que ultrapassa papéis, situações e o tempo. Sei que estamos ligados por uma energia amorosa e, por isso, quero o seu bem.
Do hospital liguei para sua primeira ex-mulher e avisei do falecimento de seu ex-sogro, pedindo-lhe que comunicasse e apoiasse o filho deles. Quando saí de lá fiquei pensando que no dia anterior havia chorado muito com minha advogada discutindo os detalhes da pensão alimentícia para os nossos filhos e resolvendo a divisão dos bens que adquirimos juntos. Tudo ficou tão ridículo.
Fui ao velório com nossos filhos e minha filha, fruto do meu primeiro casamento. Meu pai foi depois; eram amigos-irmãos e a coroa de flores trazia um trecho da música/poesia de Mílton Nascimento: Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito. Fazia tempo que não via a família do meu ex e foi difícil reencontrar pessoas amadas que agora não eram mais parte do meu círculo familiar. Abraços e lágrimas se repetiram muitas e muitas vezes. Meu ex-marido chegou depois com a namorada.
Na missa de corpo presente, celebrada pelo padre que minha ex-sogra queria graças à intervenção da irmã do meu esposo, olhei muito para meu ex-marido enviando-lhe muito força. Amparei filhos, pai; fui acolhida por amigos. Na hora do caixão seguir para o túmulo, estava do lado de fora com nosso filho mais velho, que chorava muito. Meu ex-marido vinha à frente do cortejo e fez sinal para que nosso filho fosse para junto dele. Dirigi-me com ele. Demo-nos as mãos. Nosso filho caçula chegou com minha filha e também demo- nos as mãos. O filho mais velho de meu ex-marido veio com sua mãe e engrossaram a fileira. Seguimos assim, todos juntos, até o local em que o caixão seria colocado.
Ao final de tudo, mais abraços, mais carinho, mais conforto.
Saí feliz com o exemplo de amor e respeito que havíamos dado. Meu ex-marido, com suas ex-mulheres, seus filhos, minha filha, sua namorada atual, todos juntos contando uma história de amor. Acho que o Grande Espírito também ficou feliz com seus Filhos e meu ex-sogro descansou em paz.

1.6.08

Compra-se tudo?

Estranho essa coisa da gente se fazer presente pelas coisas que compra. Noutro dia uma amiga me contou que a atual esposa do ex-marido dela estava tentando comprar seu espaço. Achei esquisito e pedi para explicar melhor. Falou que ele sempre fora um furão e que havia conquistado muito do que era à custa dos esforços da minha amiga e que ficava se amostrando como se as vitórias fossem dele – este fora um dos motivos da separação. Para todo o círculo de amigos em comum ele se apresentava como um homem simpático e agradável, distribuindo uísque e churrasco financiados pelo bolso de minha amiga. Agora, sua esposa chegava cheia de presentes para as amigas íntimas de minha amiga – mulheres que ela nem conhecera antes – como se já existisse uma intimidade de muito e muito tempo. Também dera para comprar roupas e sapatos para os filhos do marido, como se tivesse assumido a total responsabilidade por eles. Para completar o circo, mandara levar para casa da minha amiga um monte de comida sofisticada porque as crianças adoravam comer aquelas guloseimas todas. Era verdade que a tal esposa tinha uma excelente situação financeira, mas minha amiga achava muito engraçado todas essas tentativas dela de se mostrar como a boazinha e que sempre agradava todo mundo. O que eu achava incomum era que minha amiga não se incomodava com tudo isso e dizia que esses valores não eram os dela, mas que achava que o casal da vez era o par perfeito, pois compartilhavam as mesmas atitudes.
Até que entendi a atitude da atual esposa, já que essa minha amiga é uma daquelas pessoas que são realmente inesquecíveis e não deve ser nada fácil ocupar um lugar que havia sido dela. Duro, muito duro conviver com seu fantasma.

27.5.08

Tim! Tim!

Há 20 anos comprava meu apartamento, financiado pela Caixa Econômica Federal. Meu Deus! Como o tempo voou! Parece que foi ontem que sonhei o sonho de ter a casa própria. Estava grávida, meu marido viajava e fui, com minha mãe, correr apartamentos pelo bairro que sempre fora minha paixão, cheio de árvores e pássaros.
Ao entrar na sala, vi, através da varanda, a copa de uma linda mangueira. Apaixonei-me na hora. Meu coração me disse que aquele seria o meu lar. Só que esse sonho seria impossível. Era caríssimo, o prédio tinha piscina, sauna, parque infantil, sala de computadores. O apartamento tinha até banheira de hidromassagem. Tudo isso era muito além de minha capacidade financeira. Mas, Pessoa já me ensinava que o Universo conspira a nosso favor e, com a ajuda da família, o sonho foi realizado.
Mudei sem armários, o freezer era onde guardavas as toalhas de mesa, sem cortinas, sem piso, sem móveis. O som das vozes ecoava pelo vazio da sala. Arrumei, apenas, o quarto do bebê, lindo, lindo, todo verdinho.
Àquela época, tracei o roteiro de minha vida: teria o bebê, faria mestrado em Ciência da Computação, iria para doutorado na Inglaterra, voltaria para a universidade, seria pesquisadora. O marido topou tudo. E a vida me levou por outros caminhos: tive meu bebê, abandonei o mestrado, não fiz o doutorado, o marido me deixou.
Novas possibilidades me conduziram para outros lugares, outras pessoas. Hoje quitei meu apartamento. Muitos me ajudaram a realizar o sonho. Ergo a taça de champanhe em gratidão a todos eles. Reverencio meus filhos, pois nosso lar é a extensão do meu útero, um local seguro e aconchegante para amar. Brindo, sozinha, a mim, por ter tido a coragem de sonhar e de realizar. Tim! Tim!

20.5.08

A gênia

Quando eu era pequena adorava ver o seriado da televisão Jeannie é um gênio. Sonhava com a possibilidade de realizar desejos só com um cruzar de braços e uma piscadela de olhos. Além disso, a gênia era linda, tinha um amo lindo e tudo para ser feliz, a partir de minha perspectiva infantil.
Peguei-me, outro dia, refletindo sobre o fato de Jeannie ir para dentro da sua garrafa, aprisionada, toda vez que realizava os seus próprios desejos. Ficava lá de castigo porque tinha contrariado a vontade de seu amo, senhor e dono. Muitas vezes ela usava seus poderes para salvá-lo de uma situação delicada e era parabenizada pelo feito. Mas quando usava seu feitiço para conseguir algo para si, as penas surgiam.
Na vida real isso também acontece. As mulheres realizam desejos das pessoas que amam, sejam filhos, maridos, pais, irmãos, amigos e amigas. E quando tentam realizar seus desejos, inclusive os mais secretos, o que acontece? Os maridos reagem se esses desejos não estiverem de acordo com o que pensam que suas companheiras podem realizar e criam mil obstáculos para que se percam ao vento: quer trabalhar? e vai abandonar os filhos e a casa? quer viajar? e vai me deixar aqui sozinho? cuidado com as lobas! vai voltar a estudar? isso é coisa de mulher que está procurando sarna para se coçar. Os filhos também têm dificuldades para perceber que mães também são mulheres e que possuem vida própria: que roupa ridícula! só quer ser a nova! olha a sucota, sucata com cocota! E o rol das observações das pessoas que estão em torno da mulher que sonha e que a colocam para o mundo das impossibilidades é enorme.
O que fazer para usarmos o nosso poder de bruxa a nosso favor e não ficarmos presas na garrafa, sem direito à vida e à liberdade?

Criando um clima

Muitas mulheres comentam sobre seus momentos de intimidade, quando estão a dois, no aconchego de seus ninhos. Todas falam sobre a mesma coisa: o quanto faz falta um pouco de romantismo para criar um clima de amor. Já têm anos de casadas e sentem que muitas vezes a relação sexual é quase que um ato mecânico, tipo bateu tesão, e é algo muito longe de um encontro de amor. Não querem apenas mais uma trepada; querem, sim, fazer amor.
Lembro-me, agora, de uma cena de amor, vivida por duas personagens de uma novela. Eles se amavam muito e tinham sido impedidos durante a trama de viverem essa relação em sua plenitude, já que o homem era casado. Quando finalmente ele ficou livre, foi ao encontro da amada e, louco de desejo, quis tê-la completamente em seus braços. Ela quase sucumbiu à tentação, mas conseguiu controlar a situação e pediu que ele voltasse na noite seguinte. Passou, então, o dia preparando-se e preparando o momento tão esperado. Perfumou-se, passou cremes, separou vinho e taças bonitas, forrou a cama com lençóis macios, acendeu velas e incensos, espalhou pétalas de rosas pelo quarto e colocou uma boa música para encantar ainda mais o ambiente. Quando ele chegou ficou fascinado pelos detalhes e, bem devagar, com muito carinho, foi construindo junto com sua amante, um encontro de amor.
Quando vi a cena também fiquei deslumbrada e me lembrei de como somos responsáveis por tudo que vivemos. Se queremos que nossos encontros na cama tenham mais romantismo, no lugar de ficarmos só na reclamação, podemos fazer a nossa parte e criarmos o clima que desejamos. Aos poucos os amantes irão também aprender. Poderão chegar a comprar uma peça íntima maravilhosa e mandar entregar em casa numa linda caixa com orquídeas; poderão também reservar uma suíte de hotel e mandar um recado para a amada estar lá no momento do encontro; convidarão seus amores para jantar num restaurante super romântico a alguns quilômetros da cidade; poderão... tantas coisas. Não existe uma receita para criar o clima certo, porque cada casal tem suas próprias regras no jogo da sedução. O que importa, de verdade, é que tenhamos o cuidado para não banalizarmos nossa relação de amor. Lutemos por ela agora, porque, às vezes, quando despertamos para os detalhes já é tarde demais.