25.1.09

Tenho o direito de saber


Estou com dificuldade para respirar. Sinto-me sufocada por uma enorme pressão no peito, resultado da angústia gerada pelo filme que acabei de ver. Tempo de Resistência, um filme que conta a podre história do Brasil na época da ditadura.
Os relatos daqueles que foram presos e torturados são um soco no estômago de qualquer ser humano. Como pudemos perder a noção de humanidade? Nos porões das delegacias e quartéis, crimes bárbaros foram cometidos. Houve tortura de corpos de homens e mulheres que tinham como crime o sonho de um Brasil para todos. Reforma agrária, reforma tributária, liberdade de imprensa, educação e saúde para todos. A classe mérdia, como dizia Gláuber Rocha, surtou com medo de perder as regalias, e, covardemente, apoiou o golpe dos militares, manipulados como bobos fantoches pelo capital americano. Abaixo os comunistas! São perigosos e comem criancinhas. Pra frente Brasil! Salve a Seleção!
Não, a elite não poderia perder a vidinha maravilhosa e compartilhar seus direitos de uma vida digna com camponeses e operários. Mais uma dose de uísque, por favor! Sempre houve divisão de classes no Brasil! Primeiro, os invasores acabaram com os habitantes, e legítimos donos do território, através do uso da força. E ainda construíram a imagem de que eram preguiçosos! Depois, arrancaram homens e mulheres livres de seus países e os trouxeram para cá para os trabalhos forçados nos engenhos de cana-de-açúcar. Vende-se uma linda e esperta negrinha de 12 anos; favor procurar o senhor fulanos de tal, na rua tal, número tal. Agora, em 1964, por que faremos diferente? Nós, elite pelo poderio econômico, não podemos abrir mão do que conquistamos para que todos tenham um pouco. Essas idéias subvertem a ordem e o progresso do país e são disseminadas por essas bestas humanas, os comunistas.
Treinamento para técnicas de tortura. Castigos físicos, choques, abusos sexuais, humilhações, violência contra as famílias. Palavras não conseguirão, jamais, retratar com fidelidade, a dor das vítimas de tão brutal processo.
Anistiados todos.
O que podemos fazer para que isso não se repita? Como fazer justiça e punir os culpados por tamanha selvageria?
Como cidadã brasileira, patricinha, fruto da alienação burguesa, que teve aulas de OSPB no colégio, que não compreendia o que acontecia com meus irmãos brasileiros no momento em que eu festejava a conquista da copa, e que hoje, graças às voltas que a vida dá, começo a entender todo esse processo sujo, quero saber quais os nomes desses criminosos hediondos que torturaram e mataram pessoas que lutaram por um Brasil mais justo.
Não quero conviver com qualquer um deles. Não quero eleger qualquer um deles. Não quero eleger hoje pessoas que estiveram ligadas aos torturadores no passado. Não quero que praças e pontes construídas com o dinheiro melado pelo sangue dos torturados homenageiem esses covardes que se esconderam atrás das fardas e permaneceram no anonimato.
Onde estarão Geisel, Médici, Fleury? Será que existe inferno? Onde estará o bárbaro Coronel Viloc que prendeu e torturou, arrastando pelas ruas de Recife um homem de mais de 60 anos, Gregório Bezerra, dizendo, aos berros, que mataria o comunista?
Há listas dos supostos subversivos. Quero as listas dos torturadores que cometeram esses crimes de guerra. Quero saber quem foram e quem são. Quero saber porque quero ensinar a menus filhos que não é dessa forma que se constrói um país, que não é dessa forma que se luta por ideais. Quero que meus filhos acessem informações para que usem o voto na escolha de homens e mulheres que não tenham em sua história qualquer conexão com essas pessoas que torturaram.
Ouvi no filme um depoimento de um homem, que foi torturado e que sobreviveu, em que ele conta que sempre haverá marcas invisíveis da tortura, tanto naquele que foi torturado como no que torturou. A diferença é que um deles foi a vítima e o outro foi o algoz. De que lado você gostaria de estar?

23.1.09

Há mais entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.

Tive uma formação religiosa dentro dos padrões da Igreja Católica. Estudei em colégios de freiras, fui batizada e fiz primeira comunhão. Mas quando chegou o momento de confirmar minha crença através da crisma, recuei. Havia lido o livro Ilusões, de Richard Bach, e aquele texto começou a iluminar, como a chama de uma vela, um caminho que me parecia familiar.
Na infância tive contato com uma amiga de minha mãe que viu dons mediúnicos em mim, o que foi logo descartado por todos. Brinquei com o copo na mesa, assisti à novela A Viagem e perdi meu tio, que mexia com o mundo dos espíritos, nessa época. Ainda me lembro dos pontos que ele cantava: Quem esse cacique que vem lá de Aruanda? É Oxó com seu cavalo e seu chapéu de banda. Pelo menos é assim que ficou registrado em minha memória. Deixei tudo isso de lado e segui minha formação católica.
Por volta dos 16 anos, comecei a brincar novamente com o copo deslizando na mesa e fiquei assustada quando percebi que o copo só mexia quando meu dedo estava sobre ele. Eu ficava exausta depois dessas sessões. Lembro uma vez que adormeci no colo de minha tia e resolvi que não faria isso mais nunca.
Depois de Richard Bach, comecei a ler outros livros mais esotéricos e decidi que não seria mais católica. O assunto ficou guardado e continuei vivendo minha fé na vida com muita convicção. Em momento algum perdi a crença no Sagrado.
Casei, tive uma filha, separei-me e engravidei de um amigo logo nas primeiras relações sexuais que tivemos. Estava na faculdade quando uma amiga espírita me disse que meu bebê era maravilhoso e que havia uma ligação amorosa muito forte entre nós dois porque ela via um lindo cordão azul ligando as energias dos dois espíritos: o meu e o dele. Depois do aborto, quando deitei em minha cama cheia de culpa, ouvi dentro de minha cabeça: “Não chore. Eu vou voltar”. Ouvi essa mesma frase de pessoas em centros espíritas que visitei e que não tinham conexão alguma entre si. Estava longe do pai dele e a vida nos ligou novamente. Tivemos mais dois filhos. Não sei se voltou.
Sei que fui a um centro perto da minha casa. Meu amigo não teve autorização do mundo espiritual para ir. Entrei e fiquei em pânico quando vi a galinha preta no meu pescoço, quando pessoas incorporavam outras entidades. Pomba Gira passou por mim, soltou fumaça ao redor do meu rosto e seguiu para as próximas pessoas. Voltou e me disse “Tu fez um aborto. Mas ele tá bem e vai voltar. Mas tu não vai ficar com o pai dele, não”. Essa previsão demorou 17 anos para se concretizar. De repente, lá, fui chamada para uma roda e senti meu pescoço dobrando, as pernas amolecendo. Percebi que algo estranho estava acontecendo e que se não retomasse o controle alguma entidade entraria no meu corpo energético. Comecei a rezar e a pedir para que isso não acontecesse. Não permiti. Voltei exausta para casa e coloquei mais uma vez a mediunidade embaixo do tapete. Só deixei que saísse um pouco quando escrevi duas cartas, possivelmente psicografadas. Mas também não quis dar muita importância a isso.
Terminei meu curso de Psicologia, fiz formação em Psicologia Transpessoal, em Regressão a Vidas Passadas e tive experiências fantásticas que provaram a conexão entre o mundo que vemos e o mundo da espiritualidade. Senti no corpo as mesmas sensações que senti em outras mortes que tive e compreendi melhor o que preciso aprender agora. Se isso é arquétipo, memória ou imaginação, não importa, mas sei que revivi situações difíceis para mim. O conflito entre a Bacharela em Ciência da Computação, com a razão na primazia de meu desenvolvimento intelectual, e a mulher que sentia que essa razão não era suficiente para justificar o que sentia, foi um grande torturador para a minha frágil convicção de que a realidade é a que observamos.
Fui para a Sibéria e tive iniciação em cura espiritual por xamãs siberianos. Vi milagres acontecerem, inclusive em minha própria vida. Coisas que eu diria que só aconteceriam em novelas começaram a fazer parte do meu cotidiano. E, confesso, tive medo.
No consultório pude experienciar cura com a imposição das mãos, pude confirmar a veracidade do tarô e pude perceber as energias que estão presentes nos momentos em que interajo com as pessoas que atendo. Não vejo a energia; apenas a sinto.
De tudo que já estudei, o mais forte e o mais complicado foi a astrologia. Fico chocada com a exatidão de um mapa astral. Viemos para a Terra com um guia para direcionar as nossas vidas. Pena que não sabemos como decifrar suas mensagens.
Senti grande interesse por parteiras e estou descobrindo que na tradição feminina são consideradas xamãs, ou, como uma amiga me chama, xamoas. Hoje, gosto de me reconhecer como xamoa, como uma mulher que transita entre o mundo real e o mundo espiritual. Aprendi a perceber a conexão entre todas as coisas. Ao contemplar as estrelas, sinto que estou ligada amorosamente a elas. Apesar do enorme sentimento de solidão e desamparo que as pessoas da contemporaneidade apregoam, sei que não estamos sós no Universo, como já nos ensinava Francisco de Assis.
Uma amiga diz que ser bruxa não é fácil. Concordo com ela. Mas se esse é o caminho, o que fazer? Não há saída feliz se não realizarmos o que viemos fazer aqui.
Já comprei meu caldeirão, meu chapéu e minha vassoura. Só falta voar.

22.1.09

Os Caminhos da Vida

Tenho hoje 46 anos e ainda me surpreendo ao constatar que o que aparentamos pode ser o oposto do que sentimos. As experiências que tenho vivido me fazem ver que Freud realmente explica.
"Não pago". "Apresente-me seu extrato". "Mostre-me seu cartão de crédito". Aparentes agressões que escondem "Vou continuar brigando porque essa é a forma que tenho para continuar vendo você", "Ainda quero controlar sua vida", "Não me deixe só". Por trás de tanta violência, um coração ferido e cheio e amor. É verdade que um amor não mais correspondido e agora camuflado em vingança. Mas, mesmo assim, amor e um grande amor que expressa toda sua força nas entrelinhas das limitações mundanas.
A Alma sabe o que sente. O Universo, com suas conexões mágicas, sempre faz justiça e a Lei do Retorno, você colhe o que planta, atua sobre todas as coisas.
Adoro duas frases de Cristo e procuro aplicá-las à minha vida. A primeira, "Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem". A segunda, "Pai, em Tuas Mãos eu entrego o meu Espírito". Esta fala da minha eterna confiança no Sagrado, pois me jogo na Vida como um filho pequeno se joga nos braços de um pai digno, como o que tive e tenho na Terra. Aquela me lembra de Darci Ribeiro quando disse que sentia muita gratidão por seus inimigos porque havia aprendido muito com eles e, principalmente, porque não queria ter as características que eles tinham e isso lhe possibilitava perceber que estava no caminho certo, no seu caminho.
Tive a coragem de confiar em minha intuição, de seguir a minha Alma e hoje sou uma mulher completamente feliz e realizada. Tenho filhos maravilhosos, faço o que gosto na minha vida profissional, tomo chá com meu pai, converso com minhas verdadeiras amigas coisas de arrepiar os cabelos, leio, escrevo, trabalho por um mundo melhor com muito carinho, cuido de plantas, tomo banho de mar, compartilho minha vida com irmãos incríveis, ainda recebo a energia amorosa dos meus ex-amores, sou cuidada por um grupo de pessoas que tornam meu viver mais cheio de dengo. Enfim, minha vida é coberta por bênçãos Sagradas que se expressam na simplicidade do meu cotidiano. É difícil as pessoas acreditarem que isso é possível. Mas esta é a minha verdade.
O mais fantástico, porém, é que acredito em duendes, fadas e príncipes encantados. Tenho um príncipe que ainda guardo como uma lembrança gostosa em meu coração. Agora, o mais maravilhoso é que sou casada com um Rei, mas não um rei que assumiu o posto porque seu pai deixou a herança do reino. Ele é um Rei que conquistou essa posição por méritos próprios, por sua imensa bondade e pelo enorme amor que coloca em tudo que faz. Sensível, carinhoso, brincalhão, delicioso, belo, forte, com um enorme campo energético, me faz derreter só de olhar para sua foto ou ouvir sua voz. Imaginem como me sinto quando vamos passear nas nuvens. Quando eu era criança e ainda nem tinha beijado na boca, dizia para todo mundo ouvir, inclusive para minha mãe e para as freiras repressoras do colégio religioso onde estudava, que eu sabia que uma relação sexual, um orgasmo, era a expressão máxima do Sagrado na Terra. Hoje, com meu Rei, comprovo essa tese nos mínimos detalhes. Vivencio essa magia e agradeço à Deusa esse presente.
Compartilho tudo isso para futucar um pouco as pessoas que tiverem acesso a esse texto. Queria dizer que não se conformem com pouco, não aceitem uma vida medíocre e vazia apenas pelo medo do novo. É possível, sim, um encontro de Almas e a felicidade existe. Nunca é tarde para se recomeçar um novo caminho, um novo projeto, uma nova vida.
Já ouvi de muitas mulheres, e até de alguns amigos homens, que isso que me aconteceu foi uma coisa rara que não acontece com todo mundo. Sou uma pessoa comum e minha vida não tem anda de especial para merecer dos Céus um presente assim. Beiro os 50 anos, tenho três filhos, as celulites já chegaram, não tenho muito dinheiro, não sou um exemplo da beleza das passarelas. Agora, é verdade que tenho uma inabalável fé na vida e me conecto o tempo todo com a abundância do Universo. Sei que esse é o meu Caminho. Cada um terá a sua forma de se fazer feliz aqui nesse planetinha e só precisa descobrir como manifestar o seu quinhão do Sagrado nessa vida que escolheu.
Sou Libriana, regida por Vênus, a Deusa do Amor. Amo e amo e amo. E poder amar e ser amada por um Rei maravilhoso é realmente um milagre. Mas quem disse que a vida não é feita de milagres e de magia.
Abracadabra!

7.12.08

Percurso

Há quase um mês tivemos uma festa de reencontro da família de minha mãe numa cidadezinha do agreste pernambucano. Fazia tempo que não íamos ao sítio para tomar banho de bica e cantarolar músicas, tendo como acompanhamento o assobio na boca da garrafa de cerveja.
Uma prima minha, bastante emocionada pela alegria do reencontro, comentou:
- O mais impressionante é que quem articulou tudo isso foi Patrícia, a pessoa que eu menos esperava, porque sempre foi muito afastada de nossa família.
E repetiu isso muitas vezes, com várias pessoas, sempre me agradecendo pela iniciativa.
Fiquei com aquilo na cabeça, e, claro que no coração, tentando compreender a verdade do que ela estava dizendo. De repente, o filminho da minha vida foi passando e percebi o porquê de poder estar me juntando à família de minha mãe só naquele momento.
Sou a filha mais velha. Havia o desejo de que o primeiro filho dos meus pais fosse um menino. Nasci muito inteligente para o português e a matemática. Isso já seria suficiente para ter um grande destaque na vida escolar e, para a época, fugir do estereótipo de que mulher não dava para cálculos. Fui sendo excluída pelos grupos de amigas que não gostavam dos números e, como tinha e tenho um grande poder de ação, aos poucos caminhei sozinha para o mundo masculino. Identificava-me com a família do meu pai e era lá que passava os finais de semana, entre livros e dormidas em camas de lona. Minha irmã ficou com o papel de menina da família e compartilhou sua infância com os primos e primas do lado materno. Meu irmão conseguiu ter uma vida mais independente. Claro que aqui tem muito mais coisa de Freud para explicar, como diria uma psicanalista que conheço e que sempre fala em castração.
Ia fazer Psicologia, mas mudei para Computação na semana de inscrição do vestibular. Casei-me e tive uma filha. Aí, a força da mulher falou mais forte e comecei a fazer as pazes com a minha energia feminina. Quis ir ao seu encontro, meu marido não deu conta e nos separamos. Voltei para a Psicologia. Casei novamente e tive dois filhos homens. A vida espiritual foi retornando bem devagarzinho e comecei a conhecer o mundo transpessoal, as vidas passadas, a mitologia e o xamanismo. Cheguei ao ápice no papel que desempenhava sendo regida pela lógica e pela razão e resolvi que não queria mais usar aquela máscara. Agora queria ficar quietinha e deixar que a energia feminina tomasse conta da minha alma, usando aqui tomar conta tanto no sentido de se apoderar como no de cuidar. Sentia-me como a semente que está sob a terra durante o inverno, apenas esperando a chegada da primavera para florir. Foram momentos muito especiais, onde pude me olhar e ver o que queria realmente para mim. O entorno não me entendia direito e cobrava meu posicionamento na vida profissional. Eu ainda não sabia o que a vida estava reservando para mim, mas tinha uma profunda confiança na energia amorosa do Universo e que apenas precisava me lembrar do meu Dom, do propósito de minha vida aqui neste planeta lindo. A solidão se fez presente e só em sua companhia pude escutar o meu verdadeiro canto. Sem ainda saber o que deveria fazer, resolvi que poderia ir tirando o que eu não queria mais em contato com minha Alma.
Realizei muitos trabalhos com mulheres, tanto em grupo como no consultório, e pude ir sentindo que dentro de mim suas vozes tinham eco. Escutei dores, angústias e sonhos de muitas mulheres e compartilhei todos esses sentimentos com elas. Vivenciei a energia das Deusas e percebi que no meu Todo sou muitas, concomitantemente. Fui reverenciando todas as Deusas em mim e, de repente, descobri-me Deusa.
Separei-me, casei-me de novo. Porém, dessa vez de uma forma diferente, pois sinto que estou inteira e ofereço o Sagrado Feminino para a relação a dois que construo com o meu amado. Estou feliz e em paz.
Por toda essa história, prima, é que só agora pude me aproximar da linhagem de minha mãe e celebrar a energia dela em mim e transmito essa alegria para a minha filha para que ela possa passar para suas filhas um feminino sem feridas.
E é esse feminino vibrante que me fez soltar uma gargalhada ao observar uma mulher numa loja exclamar:
- Meu Deus! Que coisa mais linnnnnnnnnnnnnnnnnnda! – referindo-se a um conjunto de panelas em teflon, expostas em uma caixa.
Só uma mulher para entender outra mulher num momento de êxtase como esse. Sim, agora achei a minha tribo e encontrei o meu lugar no mundo.

27.11.08

Depende de nós







É verdade que quase não se lê no nosso país. É verdade que não há livrarias e bibliotecas nas cidades do interior nordestino. É verdade que o poder público precisa fazer muita coisa para que se alcancem índices mínimos para uma educação de qualidade.
O que cada um de nós pode fazer para ajudar a mudar essa realidade?
Acredito que não podemos ficar só na queixa. Precisamos fazer a nossa parte.
Solidariedade se ensina, e desde pequenininhos, assim como se ensina a escovar os dentes e a tomar banho todos os dias.
Se fizermos a parte que nos cabe nesse latifúndio, construiremos um mundo melhor.



E é mentira?!

Tive a oportunidade de conhecer a cidade de Triunfo mais de perto e, devo confessar, apaixonei-me. Ela é linda. Casarios preservados, ruas, casas e estradas de pedra, açude com teleférico, povo hospitaleiro, bons hotéis e pousadas, tudo para você ir e não querer sair de lá.
Fiquei hospedada na Pousada da Baixa Verde. Um verdadeiro charme. Os funcionários atendem muito bem e a comida é uma delícia. Tudo lá é feito com capricho e carinho. O proprietário foi o grande incentivador do turismo local. Há ainda o engenho, com sua cachaça característica, seus licores e as famosas rapaduras de tudo que é jeito. Foi inaugurado o Parque das Águas com piscinas para adultos e crianças, sendo mais um local de lazer para triunfenses e turistas.
Tive a oportunidade de ir conhecer alguns lugares pitorescos com Antônio, o Barruada, uma figura maravilhosa e grande contador de causos. Quase morri de rir com suas histórias sobre Seu Lunga, personagem real que vive em Juazeiro do Norte. Contou Barruada:
“Seu Lunga queria entrar em casa e sua mulher estava sentada à porta, terminando de separar o arroz do almoço.
- Espera só um pouquinho, Lunga, que eu já tô terminando aqui.
Logo depois surge Seu Lunga com uma marreta e começa a derrubar a parede ao lado da porta.
- Que é isso, homem? – pergunta-lhe um vizinho.
- É que tô fazendo outra porta para poder entrar em casa. Aquela porta ali é só para a mulher separar arroz.”
E foi falando sobre mais histórias, virando a cabeça para trás sem olhar para a estrada íngreme e estreita, onde mal cabia sua veraneio azul. Bem que Pedro, da Baixa Verde, me avisou.
Visitei o Bico do Papagaio, o lugar mais alto de Pernambuco, ouvindo histórias sobre a época que Lampião esteve por essas bandas. Barruada diz que o cangaceiro foi o primeiro turista de Triunfo porque só ia lá para passear. Hoje a cidade o homenageia com o Museu do Cangaço. Conheci também as Furnas Holandesas e vi feijão cozinhando em panela de barro num fogão a lenha. A visita mais fantástica foi à Cacimba construída por Seu Neco há muito tempo atrás. Ele achou o local exato da água com uma varinha de madeira e começou a cavar o buraco sozinho. Fez a estrutura de pedra com mais dois ajudantes e um túnel incrível, também de pedra, para se chegar até a base da cacimba. Não usou cimento para encaixar as pedras uma na outra. A obra é tão bem feita que deixa muito engenheiro formado de água na boca.
O filho de Seu Neco estava na antiga casa de seu pai, ajeitando seu fogão de lenha, com cimento, areia e, por mais inacreditável que pareça, açúcar. Quando o provoquei dizendo que aquilo não iria prestar, ele sorriu e respondeu do alto de sua sabedoria, nada escolar, mas da vida, que o que tinha ali era muita química.
Na viagem de volta à cidade, Barruada ainda cantou músicas de Luiz Gonzaga e recitou um verso que ouviu num encontro de repentistas:
“O sol, a lua e as estrela têm um brilho muito fino. Mas os olho da mãe brilha mais, olhando o seu filho dormindo”.
Fiquei emocionada e quase fui às lágrimas. Mas logo depois soltei uma gargalhada, pois o nosso contador de histórias soltou essa, ao olhar para um casario em ruínas: “Isso aqui é tudo tombado. Tombou tanto que caiu.”
Imperdível Triunfo com Antônio Barruada como guia e a hospitalidade aconchegante da Pousada Baixa Verde. Quero voltar em breve.

17.11.08

O inferno é aqui

Ontem estive em São Severino dos Ramos e fiquei chocada com a ausência da administração pública.
O trânsito estava o caos. Ônibus por toda parte, paus-de-arara lotados. Alguns guardas municipais, ou algo assim, tentavam pôr ordem na confusão estabelecida. A sujeira se espalhava por todos os cantos. Copos descartáveis, restos de comida, sacos plásticos se misturavam aos romeiros que se amontoavam pelo chão em esteiras ou panos estendidos. Vendia-se de tudo. Lembrei-me do trecho da Bíblia que fala sobre os mercadores no templo. Aí não há nada de Sagrado. A fé é apenas uma mercadoria habilmente manipulada e vendida para um povo carente de esperança. Bares, restaurantes e barracas vendiam bebidas e comidas sem condição alguma de higiene. Havia ainda crianças vendendo água e outras coisas mais. Flores, cofrinhos, espelhos e o que mais se possa imaginar estavam nas bancas espalhadas pelas ruas, pelas calçadas, pela ponte. O rio, se é que se pode chamar aquelas poças de água de rio, estava cheio, mas era de gente fazendo piquenique. A música profana invadia o lugar e a cachaça reinava absoluta. Se o inferno existisse, deveria ser semelhante ao cenário que eu via.
Consegui entrar na igreja lotada de gente. Alguns rezavam, outros, sem camisa, fotografavam as imagens dos santos com câmeras de celular. Uma verdadeira zona, inclusive no templo. Percebi que um homem tomava conta daquilo ali. As pessoas colocavam aos pés de uma imagem do Senhor Morto peças que representavam pés, braços, como forma de agradecer pela graça alcançada. Este homem pegava as peças e as colocava depois para trás da imagem. Acredito que deveriam voltar para o local de onde saíram: a lojinha que vende peças para os pagadores de promessas. Há uma caixinha para que se coloque dinheiro. Os romeiros se arrastam, apóiam-se uns nos outros e vão até este local dar sua contribuição para o Santo. Porém, descobri, para minha surpresa, que a igreja, assim como todo o resto, é uma propriedade privada e todo esse dinheiro vai para os proprietários da mesma para 'a manutenção da igreja e para o pagamento dos funcionários'.
Não sou contra o desenvolvimento turístico estruturado pelo privado, mas aquilo lá é uma completa bagunça do público com o privado. Não importa quem seja o responsável, mas precisa da presença dos órgãos governamentais competentes para sua organização: trânsito, higiene e limpeza urbana, trabalho infantil e possibilidade de prostituição de crianças, menores consumindo bebida alcoólica, completa desorganização do comércio, gerência do meio ambiente e tantos outros problemas que um projeto para o desenvolvimento turístico dessa área daria uma tese de doutorado.
Desde que o mundo é mundo que as igrejas comercializam a fé. Vá lá que cada um e cada uma vai ter que arcar com as conseqüências energéticas dessa postura. Mas o dinheiro arrecadado lá está indo para o privado e o povo sabe disso? As igrejas comercializam a fé e investem algo em obras sociais. O que é feito em São Severino dos Ramos? O poder público pode custear essa estrutura com o dinheiro do meu imposto, do seu imposto, para os louros não voltarem para o povo? Cadê o orçamento participativo?Acho que precisamos refletir sobre isso. O local é lindo, há muitas pessoas trabalhando e tirando o seu sustento dessas romarias, há a fé. O que fazer?

10.11.08

Era uma vez...


Hoje deixei livros que escrevi com meus textos da fase acadêmica numa livraria. Confesso que, apesar de ainda não me considerar escritora porque estes não vieram de minha imaginação, fiquei emocionada. Não é que, aos pouquinhos, meu sonho de ser escritora vai se tornando realidade?! Já publiquei textos em duas coletâneas. Agora me organizo para publicar meu primeiro livro de verdade, uma história para crianças, ricamente ilustrada por uma mulher fantástica que se apaixonou pelo enredo e criou cenários belíssimos. Essa história eu contava para meus filhos quando eram crianças e vinham se deitar na minha cama com fraldas e mamadeiras. Era uma das nossas muitas histórias de boca, assim chamávamos as histórias inventadas. Quero compartilhá-la com outras crianças pequenas, pois meus filhos já estão grandes e não querem mais esses momentos mágicos.
É mágico, também, o passar do tempo. Ontem, eles eram bebês e eu os guiava pelos caminhos da vida segurando suas mãozinhas. Agora, muitas vezes, são meus filhos que me guiam para novas descobertas. Estive ontem à noite no Recife Antigo para assistir à apresentação de teatro de bonecos – sou fascinada por eles e tenho até um Benedito. Fui com minha filha, freqüentadora dos bares da região. De repente, segurou em minha mão e saiu me puxando e me orientando para chegarmos ao melhor lugar. Olhei para ela cheia de orgulho. Minha filhota cresceu e hoje é uma mulher linda que sabe o que quer. Agradeci ao Universo por mais um momento de magia.
E ainda dizem que fadas não existem. Pode?

4.11.08

Encontrei com uma amiga que não via há muito tempo. Fomos colegas de colégio e de faculdade. Fiquei em estado de choque ao descobrir que ela ainda estava casada com o seu primeiro marido, que também era seu primeiro namorado, que ainda trabalhava no local de seu primeiro estágio e primeiro emprego, que seu marido ainda trabalhava no mesmo setor do seu primeiro emprego e que ainda mantinham a mesma rotina de mais de 20 anos atrás.
Se isso tivesse acontecido comigo ou teria morrido de tédio ou teria enlouquecido. Percebi que a beleza da vida está nas diferenças. Que bom que podemos ser felizes percorrendo caminhos tão diversos! O mito do herói nos mostra que não adianta seguirmos fórmulas prontas, pois a jornada de cada herói é única. Enfrentamos os desafios que precisamos para evoluir.
Essa minha amiga viu meus filhos, conheceu meu terceiro marido, que por sinal havia morado no prédio dela com sua terceira esposa – eu sou a quarta -, soube que eu havia mudado de profissão pela terceira vez – já trabalhei com informática, com psicologia e agora quero ser escritora -, e comentou:
- Você sempre foi assim, revolucionária.
Foi o nome que ela encontrou para o que alguns e algumas chamam de loucura. Mas a verdade é que nunca me conformei com o morno. Adoro a intensidade e juro que até que tentei a mediocridade, mas algo sempre me impele para o novo. Começo projetos, estabilizo-os e já me lanço em outros desafios. Antigamente isso me angustiava, mas hoje entendo que é o meu dom, o meu jeito de ser no mundo. Então, aproveitemos esse talento.
Mais para bruxa que para fada, compreendi que ajudo outras pessoas a realizarem seus sonhos aqui na Terra. É a minha forma de apoiar cada uma delas a manifestar o Sagrado por aqui.
Tive um sonho, sonho mesmo, desses que a gente tem quando dorme, em que uma pessoa me perguntou na presença de outra:
- Doida?, dirigindo-se a mim.
- Feliz!, respondi eu.
Sinto-me livre para ousar e procuro seguir sempre o meu coração, pois acho que o Grande Espírito fala comigo através dele. Confio na vida e nela me jogo sem medo.
Deus proverá.

25.10.08

Quanto custa?



1 l de leite gelado

3 col (sopa) de Nescau

2 col (sopa) de Sustagen Kids

2 col (sopa) de leite Ninho

15.10.08

Sandálias

Estava eu numa cidade do interior pernambucano quando vi um grupo de meninos brincando pelos muros. Falei com um deles sobre o perigo de se machucar. Viram que eu estava com um broche brilhante e me pediram de presente. Começamos a conversar.
- Por que você está sem sandália? – perguntei.
- Porque a mãe dele morreu. – respondeu um amigo.
Ele, simplesmente, baixou o olhar.
- Como assim, porque a mãe dele morreu? Sua mãe morreu como?
- Morreu afogada no açude.
- Ah!
De novo, outro amigo fez uma intervenção.
- Ela morreu porque quis.
Aquele silêncio no grupo e meu coração cada vez mais apertado.
Continuou, então, a história.
- Era doente dos nervos.
- E você vai à escola descalço? – perguntei perplexa.
- A professora deixa, respondeu outro.
Dirigi-me ao menino, que continuava cabisbaixo e perguntei:
- E seu pai?
- Ele tá preso porque brigou com um homem de arma e matou ele.
Outro silêncio. Comecei a perguntar o que ele pediria a uma fada se ela aparecesse ali, naquele momento.
- Uma sandália, um sapato e uma roupa. Ah! Se pudesse, um carrinho vermelho.
Nessa hora os outros meninos começaram a fazer pedidos também. Argumentei que quem mais precisava ali era aquele que não tinha mãe, como eles mesmos haviam me dito. Então, meu novo amigo levantou o olhar e disse com coragem:
- A mãe dele também é doente dos nervos. E a dele também.
Sentimento de pertencer a uma tribo, ainda que dos excluídos. Não estava mais só.
Comecei a brincar perguntando que história era aquela de tantas mães doentes dos nervos. Contei que tinha filhos e que brigava com os meus, que perdia a paciência algumas vezes e que isso não significava que fosse doente dos nervos. Responderam que não era assim que as deles agiam e que eram doentes dos nervos mesmo. Conversamos mais um pouco, abraçamo-nos na despedida e fui embora sem fala.
Quanta coisa dita numa única frase:
- Porque a mãe dele morreu.
Aqui estão caracterizados o abandono, a falta de cuidado, a ausência de um ninho. Mora com a avó em um distrito dessa cidadezinha, em condições mínimas de sobrevivência, com o auxílio do bolsa-escola.
Visitei sua casa no outro dia e levei uma sandália para colocar quando fosse à escola. Conheci sua família, vi sua realidade, dura realidade. Sorriu quando nos encontramos.
No Dia das Crianças levei o que havia pedido à fada. Fui com meus filhos, meu marido. Apresentei-lhe minha família. Quis que ali fosse um encontro de duas pessoas, com histórias diferentes, mas duas pessoas, marcadas pela singularidade característica dos humanos. Não quis uma estatística, não quis um projeto governamental, não quis explicações sócio-econômicas, antropológicas, psicológicas. Não quis análise de dados sobre a violência ou sobre a exclusão social, menino negro, pobre, órfão de mãe, analfabeto, nordestino, pai preso, apelidos pejorativos, dificuldades de aprendizagem. Não quis pensar no futuro. Prendi-me ao instante, ao encontro dos nossos olhares que diziam muito mais que as palavras. Conectei-me ao enorme sentimento amoroso que emanava de meu peito. Não era um amor meu, era algo do Sagrado e eu apenas estava sendo canal.
De verdade, acredito em fadas, duendes, gnomos, príncipes encantados. Acredito em magia, acredito que o belo transforma e que o encantamento é o caminho para a esperança e para a fé na Vida.
Sonho com um mundo em que as crianças também acreditem em magia e que os adultos acreditem em milagres.

13.10.08

Se Maomé não vai à montanha...























Neste final de semana levamos livros para a feira de Lagoa dos Gatos. Foi uma experiência e tanto. O trabalho começou bem antes, com a separação dos livros, o transporte para a barraca logo cedinho, as bolhas de sabão. As pessoas se aproximavam um pouco desconfiadas, pegavam os livros, perguntavam se tinham que pagar alguma coisa. Quando descobriam que poderiam levar quanto livros quisessem e de graça, o entusiasmo se revelava no brilho do olhar. Apareceram crianças, idosos, jovens, professoras. “Tem livro de poesia? Eu queria um que me mostrasse todos os países do mundo. Tem Paulo Coelho? Quero de Cinderela. Tem de Psicologia? Adoro Paulo Freire. Posso levar muitos para trabalhar com meus alunos em sala de aula? Queria um de Matemática. Tem de Biologia? Adoro romances. Já li Machado de Assis, tem aí?”
De repente, nossa barraca estava lotada e mal conseguíamos atender todo mundo. Anotávamos nomes e livros e só.
Deu certo, muito certo, pois emprestamos mais de 200 livros. Uma criança que estava ajudando o pai na banca da feira veio um montão de vezes e pegava mais livros e lia lá mesmo e pegava mais. Algumas mães vieram devolver os livros com medo que seus filhos os rasgassem. Insistimos que levassem os livros e que não teria problema se isso acontecesse, pois as crianças precisariam entrar em contato com o mundo da leitura.
Saímos exaustos e felizes, comprometendo-nos a voltar dentro de um mês.
À tarde, mais cultura. Exibimos filmes da Turma da Mônica numa escola pública de uma comunidade carente. Conversamos sobre a vida na cidade grande e a vida no campo e descobrimos que as crianças preferiam a tranqüilidade da vida numa cidade do interior. Distribuímos bombons, pipoca e refrigerante. Brinquedos e dudus na saída.
Organizamos também a exposição de fotografias Então, é Primavera noutra escola pública do município, oportunizando o contato de jovens com o mundo da fotografia.
O ritmo das atividades foi intenso, trabalhamos muito, mas voltamos realizados e conscientes de que apenas começamos a caminhar, pois a jornada é longa e há muito ainda por ser feito.
Valeu!