23.3.09

Os dois lados da mesma moeda











Na última quarta-feira saí do meu consultório muito cansada. Só consegui tomar um café e cair na cama, exausta.
No outro dia, fui com minha irmã, duas amigas e nosso fiel escudeiro, o motorista, procurar casa em Gravatá para alugar na Semana Santa. Adorei uma e fechei na hora. Depois fomos conhecer o palácio de uma das amigas que estavam no carro. Ficamos encantadas com os detalhes carinhosos que se espalhavam por todos os lugares daquele cantinho de descanso. Comemos sanduíches e seguimos viagem para Lagoa dos Gatos, terra de minha mãe.
Minhas amigas nunca haviam estado lá, na terrinha santa, e se deslumbraram com a beleza da cidade, cheia de montanhas, pedras e água. Tiramos fruta do pé e chupamos pitomba. Depois fomos visitar nosso apartamento, mantido na cidade como o ponto de apoio quando viajamos para o interior. Adoraram tudo e ressaltaram a harmonia da decoração. Concordo com elas, pois lá colocamos o que tínhamos de melhor, já que seria nosso ninho de amor e de aconchego familiar.
Voltamos para Gravatá e fomos comer charque e cartola. Uma delícia para coroar o final do nosso passeio.
Na sexta-feira à noite fomos para a casa da outra amiga comer um autêntico bacalhau português, preparado por seu marido, com direito a bolinhos de bacalhau fritos por sua sogra, uma portuguesa legítimo. Tudo de dar água na boca. Também tomamos vinho, muito vinho.
Sábado de manhã, mais uma vez na estrada, agora só as três amigas, indo em direção à nova casa de praia. Sol, mar, cerveja, camarão e sorvete para celebrar mais um momento de alegria e amizade. Uma das minhas amigas ainda não conhecia essa casa na praia e adorou a decoração que mistura o artesanal com o sofisticado. Tudo azul!
Isso é um lado da moeda. O outro lado...
No sábado à noite assisti com meu marido a vídeos que documentam o problema do lixo no Brasil. Fui dormir inquieta. No domingo pela manhã, fomos andar pelo bairro para verificar a situação de um parque próximo do local onde moramos. Comemos azeitona roxa, tirada na hora por meninos da comunidade. Compramos jornal, fomos para a praça e nos sentamos à sombra das árvores para lê-lo com tranqüilidade. Almoçamos e mais filmes sobre o lixo.
À noite, no domingo, já tinha informações suficientes para não conseguir dormir com o tanto que tem para ser feito com o objetivo de ajudar outras pessoas a terem condições dignas para viverem em paz.
Gosto de viver desse jeito, na alternância entre o balanço da rede e o choque da vida, Funciona como a respiração. No Universo tudo tem um ritmo. O meu é esse. Já estou de mangas arregaçadas para começar o trabalho, ainda que meio zonza.

14.3.09


Uma amiga me contou que seu filho perguntou:
- Mãe, quando eu crescer eu vou virar menina?
Esta pergunta era fruto da intensa convivência de seu filho com mulheres adultas. Ela é mãe solteira e mora com a mãe, viúva, e a irmã, solteira. São muitas mulheres no universo do menino que não consegue achar uma figura adulta masculina para se identificar.
Fiquei preocupada com as questões freudianas e completamente encantada com a inteligência da criança. A ingenuidade e a pureza fornecem a liberdade necessária para a criatividade.
Numa viagem pelo sertão nordestino também pude encontrar algumas pérolas de sabedoria.
Conheci uma senhora de 84 anos, moradora de uma cidadezinha com duas ruas, uma praça com televisão, uma igreja. A cidade tem água encanada, mas ela não tinha deixado os canos entrarem em sua casa porque tinha muito medo de ratos. A água só ia até uma torneira em sua sala e carregava baldes e mais baldes de água para a cozinha e o banheiro. Diante de minha surpresa, respondeu:
- Ah, minha filha, é que eu tenho muita ciência.
Noutra ocasião, comentando sobre a segunda esposa de um conhecido dela, afirmou orgulhosa:
- Foi uma ótima troca.
Traduziu, numa frase simples, tudo o que pensava sobre casamentos. Não está dando certo aqui, experimenta ali. Mais sabedoria popular, tendo a linguagem a seu serviço.
Uma senhora, já idosa, num encontro com diversos municípios pernambucanos para a discussão sobre melhores condições de vida da população expressou sua posição e concluiu:
- Eu sou fraca nas letras e forte no trabalho.
Muito lindo.

12.3.09

Foi assim. Recebi, por mail, um convite para uma reunião com a turma do colégio. Poxa! Fazia mais de 30 anos que não nos víamos e fiquei muito animada com a idéia. Iria matar a saudade de todo mundo, saber como a vida tinha acontecido para cada uma das minhas amigas e colegas de escola. Lembraríamos os trabalhos em equipe, as professoras, as freiras, as conversas nos recreio. Tantas lembranças gostosas...
Será que fulaninha tinha conseguido casar com sicraninho, naquela época, o grande amor da sua vida? E aquela amiga que sonhava ser embaixatriz? Como estaria a usineira que sempre se esmerava em aprender como dispor com classe e elegância a prataria à mesa nos jantares solenes? E a filha do deputado? Será que casara com algum político e se mantivera no ciclo de poder da sua cidadezinha do interior?
Todas essas perguntas passaram pela minha cabeça enquanto estava à frente do computador. Corri para resgatar álbuns com fotos da escola: festas, jograis, São João, feiras de Ciência. As pernas finas, os cabelos presos em coques, as transformações corporais de menina para mulher, as festas de quinze anos, a primeira transa.
- Aconteceu uma catástrofe: não sou mais virgem. Naquele tempo isso era motivo de preocupação, pois a moça poderia ficar falada. Parece que foi ontem e tanta coisa mudou de lá para cá. Mas é só fechar os olhos que ainda sinto a mesma emoção que senti quando minha melhor amiga me informou que estava grávida aos dezenove anos.
Sarros nos playgrounds dos prédios, namorados escondidos embaixo da cama, fugas para a praia, cigarros no banheiro da escola, pílulas enfiadas entre cadernos. Era até proibido ler alguns livros de Jorge Amado porque despertavam o interesse pela coisa proibida muito cedo. Tudo tem seu tempo, diziam os mais velhos.
Agora, com o convite, de que lado eu estaria? Seria ainda a adolescente cheia de esperança ou me tornara a adulta repleta de receios e cuidados? Será que me sentiria pertencendo àquela turma?
O encontro aconteceria na sexta-feira, à tarde, claro, pois os maridos não concordariam em ficar em casa enquanto suas mulheres estavam na rua. Isso não ficaria bem para mulheres casadas e de boa fama. Estava ansiosa, pois me conheceram como uma quase freira, bem ligada aos valores da igreja católica, e eu me apresentava no momento como bruxa. Como reagiriam? Como contaria minha história de casamentos, separações, abortos, filhos, tesão, busca, alegrias e dores? Tinha mudado de profissão e estava tentando ser escritora. Você trabalha aonde? Em canto algum. Ah! E aquele olharzinho de coitada, está desempregada. Não sabia se teria vontade de explicar que não era bem assim, que tinha largado vários empregos para tentar essa nova atividade, que não gostava de me sentir presa e que a vida de escritora me dava a liberdade que tanto havia buscado. Será que compreenderiam?
Chegou o grande dia e me peguei escolhendo com cuidado a roupa que iria usar na festa, pois não queria aparecer com cara de velha. Foram só trinta anos. Só?! Escolhi uma calça jeans, uma camiseta básica e um salto alto. Levei algumas fotos dos filhos e do maridão. O coração acelerou e me dirigi para a mesa da turma reunida. Abraços, sorrisos, alegria, um zona total, com todo mundo falando ao mesmo tempo. De vez em quando, estourava uma gargalhada, com alguma história daquela época.
De repente, todo barulho foi ficando longe e percebi que eu havia me desligado do ambiente e estava apenas como observadora. Minhas amigas estavam todas usando máscaras. Terninhos de executivas, para as que tinham vindo direto do trabalho, já que juízas e promotoras usam essa fantasia; as que tinham permanecido dondocas estavam com roupas de marca e totalmente na moda; também havia as que se rebelaram contra o sistema e usavam roupas mais alternativas e escutavam comentários tipo ‘você sempre foi diferente, uma revolucionária’.
Todas contavam as mesmas histórias de sucesso e felicidade. Estavam super bem casadas, os maridos eram maravilhosos, os filhos eram lindos e trabalhavam no que adoravam. Os corpos lindos e jovens eram fruto de uma alimentação saudável e de exercícios físicos. Um verdadeiro conto de fadas!
O vinho foi fazendo efeito e as máscaras começaram a cair. O casamento não era lá essas coisas, quase não gozavam, quando transavam era muito mais uma trepada do que um ato de amor, não havia carinho, os filhos eram uma carga pesada, trabalhavam muito, na maioria das vezes sem ser no que queriam, gostariam mesmo era de ter liberdade. Os corpos perfeitos tinham cicatrizes de plásticas, botox, silicone, lipo. Contaram que maridos tinham amantes, que tinham amantes. Essa parte era sem culpa, ‘pelo menos nesses momentos tenho prazer e me sinto viva’. Nada de confissões aos padres e às freiras e ‘Deus que nos perdoe’.
Pose para as fotos. Pose para a vida. Apenas por esta tarde, pudemos voltar àquele tempo mágico em que sonhávamos com uma vida perfeita. Seríamos felizes, sim. Seríamos amadas e realizaríamos muita coisa. Deixaríamos a nossa marca no mundo. O que aconteceu nesse lapso de tempo?
Tive, então, a idéia, de fazer a pergunta:
- Se cada uma de nós pudesse voltar atrás, exatamente para o momento em que terminamos a escola, o que cada uma faria de diferente?
Silêncio total. Lágrimas disfarçadas. O garçom chegou com a conta. Despedidas. E aquelas frases banais, ‘a gente se vê’, ‘foi muito bom te encontrar’, ‘você está ótima’. As máscaras voltaram para o lugar. É mais fácil usá-las do que buscar a verdadeira face refletida no espelho.
Voltei para o carro naquele estado de euforia típico de uma adolescente. Comecei a dirigir e a música do carro começou a me dizer ‘o futuro é uma astronave que tentamos pilotar’. Perfeito. A minha pergunta se voltou para mim.
- Se você pudesse voltar atrás, exatamente para o momento em que terminou a escola, o que faria de diferente?

9.3.09

Conversei hoje com uma amiga que é psicóloga e trabalha como funcionária púbica. Ela estava triste porque o dinheiro é pouco; perguntei-lhe se não gostaria de trabalhar uma parte do dia em consultório, pois teria uma renda extra. Segredou-me que adoraria mesmo era trabalhar com arte, um sonho de menina que nunca realizou.
Lembrei-me, então, de outras amigas e amigos com outros sonhos de infância que nunca foram realizados. Uma, trabalha com computadores, mas gostaria de ser arquiteta; tem outra que é professora e leva o maior jeito com moda. Conheci uma pessoa na minha adolescência que queria ser geólogo porque amava o contato com a natureza. Hoje é engenheiro, ou melhor, dono de uma empresa que constrói edifícios e vive trancado em seu escritório, talvez, apreciando o pôr do sol pela janela fechada por conta do ar-condicionado. Convivi também com um excelente técnico em informática que dominava completamente a lógica dos computadores e que sonhava ser fazendeiro; adorava o cheiro da bosta do gado e ficava horas contemplando cavalos. Soube que continua trabalhando com tecnologia e que seus ombros estão curvados, imagino eu que não resistiram ao peso de seu cotidiano. Um outro amigo trabalha com eletrônicos e dá aula até tarde da noite, mas adora mergulhar e fazer trilhas de bicicleta; precisa sentir seu corpo em movimento e passa seus dias num ritmo lento, tão lento quanto seu andar quase sem vida.
Pensei no meu percurso. Quando pequena sonhava ser aeromoça para poder viajar muito e conhecer lugares diferentes. Depois quis ser freira e trabalhar na África em missões religiosas. Viajei muito pouco e de freira não tenho coisa alguma, já que casei três vezes. Adorei livros desde muito cedo e desejei viver no meio deles, mas fui trabalhar com tecnologia e, depois, como psicóloga. Tenho filhos e pessoas que ainda dependem dos meus cuidados e justifico assim o desvio que fiz no meu caminho.
Em que bifurcação da estrada de minha vida tomei o rumo errado? Por trás de que árvore abandonei meus sonhos de menina? Por onde deixei meu coração? Quando vendi minha alma ao diabo? Será que ainda dará tempo?
Era uma vez...

26.2.09











Gosto de Carnaval e brinco desde a época de minha infância. Foram as bombas d’água, as bombas de cano, os confetes e as serpentinas, as fantasias, os corsos em carros abertos, os bailes infantis. Na adolescência, vivi os bailes nos clubes, o Boca Preta e o Boca Branca, no mercado público de Lagoa dos Gatos, e o carnaval de rua de Olinda. Já adulta, comecei a aproveitar os blocos do Recife Antigo. No ano passado, visitei o fantástico encontro de Maracatus em Nazaré da Mata.
Pela primeira vez, participei dos bastidores do Carnaval de Recife. Meu marido estava na equipe da organização municipal e trabalhou muito, antes e durante o Carnaval. Nunca imaginei que a festa envolvesse tanta gente dando apoio; é um verdadeiro exército. Definem-se os blocos, os trios e as atrações de cada pólo e de cada bairro onde a festa vai ocorrer. Há uma concentração no Recife Antigo, mas existem grandes palcos por toda a cidade. Só de polinhos são 43, com valorização dos grupos culturais da própria comunidade e, também, com convidados ilustres. Em cada palco existe toda a infra-estrutura necessária: banheiros, camarim, iluminação, som, decoração, policiamento, limpeza e fiscalização. Tudo é pensado para que o folião possa brincar com tranqüilidade e alegria.
Visitei alguns pólos grandes, como o de Santo Amaro, com o espetáculo do Cordel do Fogo Encantado, e o de Nova Descoberta, com show de Mano Shaw (não sei se é assim que se escreve, pois é um grupo francês e na sua apresentação havia muitos turistas estrangeiros, apesar da forte chuva que caía). Também estive em polinhos: o da Rua da Lama, com apresentação de pagode; o da Mustardinha, lindíssimo, com decoração toda com material reclicável, e um artista da comunidade comandando o frevo para famílias inteiras brincarem; o do Bongi, com uma emocionante apresentação de maracatus, onde idosos e crianças se misturavam num rito de religiosidade e beleza.
Nunca fiquei tão atenta à chuva, ao lixo pelas calçadas, ao entupimento de galerias, ao acesso aos principais locais da festa. Quando você trabalha para que tudo dê certo num evento grandioso como esse, você assume a postura de co-responsável. O Carnaval não era apenas uma responsabilidade do Prefeito: agora, também era minha, assim como de todas as pessoas que vi envolvidas no processo; todo mundo, numa só ciranda, no mesmo ritmo, em harmonia, fazendo a festa acontecer.
Meus filhos se esbaldaram nos cinco dias de folia. Voltavam quando o sol já tinha raiado. Chuva? “E vou deixar de brincar por causa da chuva? Nunca.”. Eram o termômetro do clima da festa.
Um Carnaval MultiCultural, com a energia do povo recifense, sempre alegre e hospitaleiro, expressa no fantástico trio elétrico que entrou na Guararapes no Galo da Madrugada, tendo no comando nada mais, nada menos que Lenine, Silvério Pessoa, Spock, Antônio Carlos Nóbrega, entre tantos outros. Só delírio!
Contagem regressiva para o próximo.

24.2.09

Tive uma experiência muito chocante na última semana. A esposa de nosso motorista, uma mulher de quarenta e poucos anos, mãe de três filhos pequenos, com problemas neurológicos que a colocaram numa cadeira de rodas, teve um AVC, acidente vascular cerebral. Primeiro, ficou com a voz embolada, depois não conseguia mais engolir a comida e, por fim, apresentou dificuldades para respirar. Ligaram para ele e saiu correndo para socorrê-la. Levou-a uma policlínica, onde recebeu os primeiros socorros: foi colocada no oxigênio e no soro. Por lá ficou até conseguir que uma ambulância a transportasse para um hospital. Isso demorou um pouco porque as ambulâncias estavam apenas com cadeiras (e as macas?). Conseguiu uma vaga num hospital em Cavaleiro, Jaboatão dos Guararapes. Então, começou o calvário. Ela foi colocada numa cama e continuou no soro. Ao seu marido foi informado que ela teria que ter acompanhante feminina ou não poderia permanecer na unidade, inclusive com a sugestão, pelo grupo de auxiliares de enfermagem, de que assinasse um termo de responsabilidade e a levasse dali. Ligou-me desesperado, pois sua esposa não tem irmãs, a mãe dela já é acamada, também vítima de AVC, e uma vizinha sua estava tomando conta das crianças que haviam ficado chorando em casa. O que fazer? Pedi para conversar com a chefe de enfermagem e a orientação mudou. “Não era bem assim”, “ele não havia entendido direito”, “é que havia muitas pacientes e a equipe de enfermagem não poderia dar uma assistência completa a cada uma”, “claro que ela deveria ficar lá, pois não teria condição alguma de remoção”. Ele foi para casa e, no outro dia, levou ao hospital lençol e fraldas descartáveis, além do material pessoal de higiene de sua esposa. O hospital não tem lençol para os leitos, pois, segundo informações da equipe técnica os mesmos são roubados pelos próprios pacientes. Também não há fraldas descartáveis e cada uma tem que levar as que irá usar. Ficou lá a manhã toda esperando pela médica que iria fazer o exame nas pacientes, a evolução, como chamam os doutores da medicina, mas ela não apareceu. A explicação? Estava dando plantão em outro hospital. Veio outro médico, chegou até cedo, mas não poderia olhar a esposa dele porque era responsável pelos pacientes da outra ala. Inclusive, foi embora bastante irritado porque havia pedido um Raio-X há vários dias e o mesmo não tinha sido providenciado, o que impediria a alta de um paciente.
Diante da situação caótica, fui com ele ao hospital. Chegamos na hora do almoço. Logo na entrada, um grande número de mulheres, crianças e idosos se aglomeravam numa fila à espera de atendimento ambulatorial. Dirigimo-nos à internação e o vigia nos deixou entrar porque estávamos com fraldas para a paciente. Encontramos um grupo de auxiliares de enfermagem conversando por trás de um balcão. Perguntei pela esposa de meu amigo e responderam que estava no leito e que já havia tomado banho. Comecei a perguntar pela médica e confirmaram as informações que ele havia me passado. Enquanto respondiam laconicamente às minhas perguntas, chegou uma senhora gritando de dor, sendo apoiada por sua filha. Nenhuma das enfermeiras saiu do lugar e apontaram uma sala para a filha depositar a mãe. Questionei o porquê de outro médico não a ter visto, não houve resposta; quis saber o nome do diretor do hospital; “é melhor a gente chamar a enfermeira chefe”.
A enfermeira foi muito gentil, repetiu a história da médica, disse que ela viria no dia seguinte e que se a paciente tivesse qualquer coisa grave, seria atendida pelo médico de plantão. Quis saber o que deveria fazer, já que neste hospital não havia neurologistas e o quadro dela era neurológico. Orientou-nos a aguardar até o dia seguinte, pois na visita da médica ela solicitaria a transferência para uma unidade hospitalar que tivesse essa especialidade e isso seria mais fácil porque haveria o pool de vagas dos hospitais da região e já iria com a senha para internamento imediato. Também liberou a permanência do meu amigo ao lado da esposa, no turno da noite.
Ele passou a noite toda lá, sentado em uma cadeira, até a chegada da médica, perto das nove horas da manhã. Explicou o caso, solicitou a avaliação neurológica e ouviu um “eu não posso fazer isso não, o senhor não deveria ter aceitado que o médico da policlínica a encaminhasse para cá”. Acanhado, respondeu que era motorista, que entedia tudo de carro, mas que não poderia mandar no médico e, sim, confiar no que ele havia dito quando falou que esse hospital era muito bom e que iria cuidar da esposa dele muito bem. Vai pra lá, vai pra cá, a tal médica conseguiu a transferência para um grande hospital público de Recife, com indicação para avaliação neurológica. Depois de esperar pela ambulância, de novo sem as macas, foi direto para o hospital, onde fez os exames necessários, tomografia computadoriza, e se constatou um AVC com conseqüências nada animadoras para a paciente e sua família: seu quadro é irreversível. Está no soro, sem conseguir falar, andar ou se mexer, com alimentação através de uma sonda. O médico chegou a falar em alta, pois não havia muito a ser feito. Ela ficou na maca, no corredor do hospital, e seu marido foi mandado para casa.
Voltou no outro dia e quase era impedido de entrar pelo policial que fazia a segurança e que pediu um dinheirinho para que o deixasse passar. O maqueiro também pedia um agrado para priorizar o transporte de alguns pacientes no lugar de outros.
Ah! Lá descobriu porque as ambulâncias estavam sem as macas. Só neste hospital, oito delas serviam de leitos para os pacientes, pois não havia camas suficientes para todos.
Ela ainda está neste hospital, seu marido tem ido visitá-la, o médico tem recebido meu amigo com respeito e carinho, disse-lhe para não levar mais lençol e fraldas porque o próprio hospital forneceria tudo que precisasse.
Fiquei indignada diante disso tudo. Claro que há falhas no sistema público de saúde. Não há camas, as macas estão servindo de leitos, mas isso inviabiliza o transporte de pacientes nas ambulâncias. Um erro aqui, afeta ali. Todo o sistema está interligado. Mas, soube através de um médico amigo, que o sistema único de saúde paga certo número de diárias quando há o internamento e aí os hospitais conveniados ficam com o paciente durante este período, mantendo-os com os custos mínimos, só no soro, no caso de minha amiga. Um verdadeiro depósito de pacientes, representados apenas pelas cifras financeiras. Onde está a humanidade? Como se justificar que uma médica que prestou o seguinte juramento, proponha-se a estar em dois lugares ao mesmo tempo?
"Eu, solenemente, juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade. Darei como reconhecimento a meus mestres, meu respeito e minha gratidão. Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade. A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação. Respeitarei os segredos a mim confiados. Manterei, a todo custo, no máximo possível, a honra e a tradição da profissão médica. Meus colegas serão meus irmãos. Não permitirei que concepções religiosas, nacionais, raciais, partidárias ou sociais intervenham entre meu dever e meus pacientes. Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. Mesmo sob ameaça, não usarei meu conhecimento médico em princípios contrários às leis da natureza. Faço estas promessas, solene e livremente, pela minha própria honra."
Claro que sei que a vida do médico não é fácil, que muitas vezes trabalham em condições precárias, mas quando se assume um emprego, qualquer que seja ele, enfrenta-se o que se tem ou se pede para sair dele. O que não dá é para fazer de conta que se cuida, quando a doença não pode apenas fingir que existe. Ela provoca dor e morte. Onde estão, na consciência dessa médica, as palavras proferidas em seu juramento, “Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade. A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação.”
O que constatei é que fica fácil para a população condenar o Estado, pois sente na pele a ineficiência do serviço de saúde, está faltando médico na hora em se precisa de socorro, está faltando lençol, a equipe de enfermagem não é suficiente, mas a população não sabe que o médico foi pago e que não está lá por causa de esquemas pessoais que fazem corar aqueles que abraçam a profissão por vocação, que o Estado paga ao hospital exigindo condições de instalação, que pelo contrato estão sendo cumpridas, que também paga para a enfermagem trabalhar e apoiar os pacientes.
O que leva um grupo de auxiliares de enfermagem, pagas pelo Estado, a não reagirem diante de uma mãe que berra de dor e de uma filha que faz um esforço enorme para conduzi-la para os primeiros socorros? O que faz um policial, pago pelo Estado para servir à população, a extorquir dinheiro de pessoas pobres, num momento de grande desespero? O que provoca no maqueiro, também pago pelo Estado, a roubar – a outra palavra para isso? – das famílias para que seus entes queridos sejam socorridos na sua dor?
Sei que não é fácil lidar com a dor, com a morte, e que, talvez, como mecanismo de defesa, os trabalhadores de saúde precisem se embrutecer para suportar o que vêem todos os dias. Se assim for, precisamos criar instrumentos de apoio que os ajudem a enfrentar esse dilema e devolva para cada um deles a dignidade humana, neles próprios e em todas as pessoas que encontrarem pelo caminho.
Precisamos resgatar o conceito de servidor público, pois este é pago pelo Estado com o dinheiro do povo, para servir com qualidade ao povo. O que não podemos é nos calar diante de situações como estas. Temos que denunciar e provocar uma nova forma de organização popular e de gestão pública, para que juntos, como co-responsáveis, façamos valer o direito de saúde para todos. Não podemos ficar apenas culpando o governo, os profissionais de saúde. Como cidadãos, podemos fazer a diferença na hora de agir, não aceitando o pagamento de propinas, não aceitando tratamento desrespeitoso, procurando os canais competentes para garantir nossos direitos.
Vamos fazer a nossa parte!

19.2.09















FOTOS: ROBERTO ARRAIS
Desde que me propus a abraçar a vida de escritora, percebi que observo muito mais os detalhes simples do cotidiano e me peguei sentindo poesia nas pequenas coisas.
Encanto-me com o brilho do mar na hora que o sol começa a cobri-lo com sua luz (qual a cor do mar neste instante?), deslumbro-me com a melodia das palhas do coqueiro que dançam ao som do vento, fico em êxtase com o canto dos pássaros e com a coreografia das lavadeiras no chão cheio de desenhos da areia da praia. Adoro beber água do mar; é tão salgadinha. Mergulho devagar, deixando apenas os olhos de fora e contemplo o horizonte. É só mar e céu azul, com a linha que marca o encontro dos dois ao longe. Não há mais nada, apenas a Perfeição. Do coqueiro, no jardim, caem os coquinhos que formam um tapete no chão gramado. Fica lindo o colorido do verde com o marrom. Há, também, as cores das flores, o cheiro do manjericão, o perfume do jasmim e a delícia das jabuticabas.
Fico, com meu marido, a aguar nosso jardim, contemplando o vai e vem das ondas do mar. O som das ondas é outro que me coloca em transe. Tudo é impermanência. Este movimento se reproduz no balanço das redes no terraço, onde nos largamos em momentos de leitura.
Comemos e lavamos os pratos olhando o mar. Vemos os pescadores com seus barcos e suas redes, vemos as mulheres catando mariscos, vemos as crianças construindo castelos de areia. O nosso lar não é de areia e é um pedacinho do nosso Paraíso. Lá reabastecemos nossas energias. Ao sentir tão de perto a energia da natureza, confirmo que tudo está interligado e me maravilho com as manifestações do Sagrado na Terra. Só a agradecer.

18.2.09

Fiquei pensando, noutro dia, que há pessoas que participam da vida e outras que apenas a assistem. Lembrei-me da imagem que registrei quando fui assistir ao show de Maria Betânia numa grande casa de espetáculo. O palco todo iluminado, público enorme, vigilância redobrada contra os possíveis ataques de fãs à artista. Observei alguns homens, todos fortes, vestidos de terno preto, de costas para o palco, verificando o movimento da massa. Enquanto isso acontecia, a cantora emprestava sua voz às poesias que entoava.
Os ingressos estavam esgotados dias antes do show. Aqueles homens tinham o privilégio de estarem a poucos metros da artista e, no entanto, não assistiam, de verdade, à sua apresentação. Não suspiravam a cada canção de amor, não viajam pelos lugares que Betânia descrevia em suas melodias. Às vezes, as pessoas ficam assim frente à vida: tão perto e tão distante.
Quando é que se começa a ser espectador e não autor da vida? Certa vez, em viagem pelo interior, vi uma menininha comprar um pirulito numa venda e, assim que o abriu, o pirulito foi ao chão. A menina olhou para ele com uma tristeza profunda, percebeu que eu presenciara a cena e comentou: “Não tem problema, não”. Fiquei indignada com sua posição. Ajoelhei-me ao seu lado e comecei a conversar, tentando colocá-la em contato com os seus sentimentos.
Por que não lutar pelo que queremos? Por que desistir de nossos sonhos? Por que não viver a vida desejada, em segredo, em nossos corações? Por que não sermos autores de nossas próprias histórias?

10.2.09


Gosto de inventar coisas diferentes para fazer. Tive a fase da costura, das caixinhas de madeira, dos quadros e tantas outras que nem lembro agora. Sempre, porém, me acompanha a paixão pela leitura e pela possibilidade de viver o mundo através da escrita.
Quando estava pintando caixas de madeira, percebi que sentia um certo incômodo quando as cedia para uma outra pessoa. Elas iriam viver longe de mim e não poderia mais apreciar sua beleza, seus detalhes. Cada peça era única e eu ficava com saudades das minhas criações, como uma mãe sente falta dos filhos ausentes.
Com um texto é diferente. Escrevo-o, posso enviá-lo pela internet para uma enorme lista de amigos, coloco no blog, publico no livro, vários exemplares do mesmo livro, e o espalho pelo mundo afora. Mas ele continua sendo meu e fica pertinho de mim, no computador, na folha de papel ou no livro. Sinto como o peixe que Jesus multiplicou e que não acabava nunca. Quanto mais pessoas têm acesso ao texto, mas ele me pertence porque posso trocar idéias sobre ele com mais gente e mais vida ele ganha.
O mundo das idéias e o mundo dos objetos... reflexões filosóficas desde que o mundo é mundo.

25.1.09

Tenho o direito de saber


Estou com dificuldade para respirar. Sinto-me sufocada por uma enorme pressão no peito, resultado da angústia gerada pelo filme que acabei de ver. Tempo de Resistência, um filme que conta a podre história do Brasil na época da ditadura.
Os relatos daqueles que foram presos e torturados são um soco no estômago de qualquer ser humano. Como pudemos perder a noção de humanidade? Nos porões das delegacias e quartéis, crimes bárbaros foram cometidos. Houve tortura de corpos de homens e mulheres que tinham como crime o sonho de um Brasil para todos. Reforma agrária, reforma tributária, liberdade de imprensa, educação e saúde para todos. A classe mérdia, como dizia Gláuber Rocha, surtou com medo de perder as regalias, e, covardemente, apoiou o golpe dos militares, manipulados como bobos fantoches pelo capital americano. Abaixo os comunistas! São perigosos e comem criancinhas. Pra frente Brasil! Salve a Seleção!
Não, a elite não poderia perder a vidinha maravilhosa e compartilhar seus direitos de uma vida digna com camponeses e operários. Mais uma dose de uísque, por favor! Sempre houve divisão de classes no Brasil! Primeiro, os invasores acabaram com os habitantes, e legítimos donos do território, através do uso da força. E ainda construíram a imagem de que eram preguiçosos! Depois, arrancaram homens e mulheres livres de seus países e os trouxeram para cá para os trabalhos forçados nos engenhos de cana-de-açúcar. Vende-se uma linda e esperta negrinha de 12 anos; favor procurar o senhor fulanos de tal, na rua tal, número tal. Agora, em 1964, por que faremos diferente? Nós, elite pelo poderio econômico, não podemos abrir mão do que conquistamos para que todos tenham um pouco. Essas idéias subvertem a ordem e o progresso do país e são disseminadas por essas bestas humanas, os comunistas.
Treinamento para técnicas de tortura. Castigos físicos, choques, abusos sexuais, humilhações, violência contra as famílias. Palavras não conseguirão, jamais, retratar com fidelidade, a dor das vítimas de tão brutal processo.
Anistiados todos.
O que podemos fazer para que isso não se repita? Como fazer justiça e punir os culpados por tamanha selvageria?
Como cidadã brasileira, patricinha, fruto da alienação burguesa, que teve aulas de OSPB no colégio, que não compreendia o que acontecia com meus irmãos brasileiros no momento em que eu festejava a conquista da copa, e que hoje, graças às voltas que a vida dá, começo a entender todo esse processo sujo, quero saber quais os nomes desses criminosos hediondos que torturaram e mataram pessoas que lutaram por um Brasil mais justo.
Não quero conviver com qualquer um deles. Não quero eleger qualquer um deles. Não quero eleger hoje pessoas que estiveram ligadas aos torturadores no passado. Não quero que praças e pontes construídas com o dinheiro melado pelo sangue dos torturados homenageiem esses covardes que se esconderam atrás das fardas e permaneceram no anonimato.
Onde estarão Geisel, Médici, Fleury? Será que existe inferno? Onde estará o bárbaro Coronel Viloc que prendeu e torturou, arrastando pelas ruas de Recife um homem de mais de 60 anos, Gregório Bezerra, dizendo, aos berros, que mataria o comunista?
Há listas dos supostos subversivos. Quero as listas dos torturadores que cometeram esses crimes de guerra. Quero saber quem foram e quem são. Quero saber porque quero ensinar a menus filhos que não é dessa forma que se constrói um país, que não é dessa forma que se luta por ideais. Quero que meus filhos acessem informações para que usem o voto na escolha de homens e mulheres que não tenham em sua história qualquer conexão com essas pessoas que torturaram.
Ouvi no filme um depoimento de um homem, que foi torturado e que sobreviveu, em que ele conta que sempre haverá marcas invisíveis da tortura, tanto naquele que foi torturado como no que torturou. A diferença é que um deles foi a vítima e o outro foi o algoz. De que lado você gostaria de estar?

23.1.09

Há mais entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.

Tive uma formação religiosa dentro dos padrões da Igreja Católica. Estudei em colégios de freiras, fui batizada e fiz primeira comunhão. Mas quando chegou o momento de confirmar minha crença através da crisma, recuei. Havia lido o livro Ilusões, de Richard Bach, e aquele texto começou a iluminar, como a chama de uma vela, um caminho que me parecia familiar.
Na infância tive contato com uma amiga de minha mãe que viu dons mediúnicos em mim, o que foi logo descartado por todos. Brinquei com o copo na mesa, assisti à novela A Viagem e perdi meu tio, que mexia com o mundo dos espíritos, nessa época. Ainda me lembro dos pontos que ele cantava: Quem esse cacique que vem lá de Aruanda? É Oxó com seu cavalo e seu chapéu de banda. Pelo menos é assim que ficou registrado em minha memória. Deixei tudo isso de lado e segui minha formação católica.
Por volta dos 16 anos, comecei a brincar novamente com o copo deslizando na mesa e fiquei assustada quando percebi que o copo só mexia quando meu dedo estava sobre ele. Eu ficava exausta depois dessas sessões. Lembro uma vez que adormeci no colo de minha tia e resolvi que não faria isso mais nunca.
Depois de Richard Bach, comecei a ler outros livros mais esotéricos e decidi que não seria mais católica. O assunto ficou guardado e continuei vivendo minha fé na vida com muita convicção. Em momento algum perdi a crença no Sagrado.
Casei, tive uma filha, separei-me e engravidei de um amigo logo nas primeiras relações sexuais que tivemos. Estava na faculdade quando uma amiga espírita me disse que meu bebê era maravilhoso e que havia uma ligação amorosa muito forte entre nós dois porque ela via um lindo cordão azul ligando as energias dos dois espíritos: o meu e o dele. Depois do aborto, quando deitei em minha cama cheia de culpa, ouvi dentro de minha cabeça: “Não chore. Eu vou voltar”. Ouvi essa mesma frase de pessoas em centros espíritas que visitei e que não tinham conexão alguma entre si. Estava longe do pai dele e a vida nos ligou novamente. Tivemos mais dois filhos. Não sei se voltou.
Sei que fui a um centro perto da minha casa. Meu amigo não teve autorização do mundo espiritual para ir. Entrei e fiquei em pânico quando vi a galinha preta no meu pescoço, quando pessoas incorporavam outras entidades. Pomba Gira passou por mim, soltou fumaça ao redor do meu rosto e seguiu para as próximas pessoas. Voltou e me disse “Tu fez um aborto. Mas ele tá bem e vai voltar. Mas tu não vai ficar com o pai dele, não”. Essa previsão demorou 17 anos para se concretizar. De repente, lá, fui chamada para uma roda e senti meu pescoço dobrando, as pernas amolecendo. Percebi que algo estranho estava acontecendo e que se não retomasse o controle alguma entidade entraria no meu corpo energético. Comecei a rezar e a pedir para que isso não acontecesse. Não permiti. Voltei exausta para casa e coloquei mais uma vez a mediunidade embaixo do tapete. Só deixei que saísse um pouco quando escrevi duas cartas, possivelmente psicografadas. Mas também não quis dar muita importância a isso.
Terminei meu curso de Psicologia, fiz formação em Psicologia Transpessoal, em Regressão a Vidas Passadas e tive experiências fantásticas que provaram a conexão entre o mundo que vemos e o mundo da espiritualidade. Senti no corpo as mesmas sensações que senti em outras mortes que tive e compreendi melhor o que preciso aprender agora. Se isso é arquétipo, memória ou imaginação, não importa, mas sei que revivi situações difíceis para mim. O conflito entre a Bacharela em Ciência da Computação, com a razão na primazia de meu desenvolvimento intelectual, e a mulher que sentia que essa razão não era suficiente para justificar o que sentia, foi um grande torturador para a minha frágil convicção de que a realidade é a que observamos.
Fui para a Sibéria e tive iniciação em cura espiritual por xamãs siberianos. Vi milagres acontecerem, inclusive em minha própria vida. Coisas que eu diria que só aconteceriam em novelas começaram a fazer parte do meu cotidiano. E, confesso, tive medo.
No consultório pude experienciar cura com a imposição das mãos, pude confirmar a veracidade do tarô e pude perceber as energias que estão presentes nos momentos em que interajo com as pessoas que atendo. Não vejo a energia; apenas a sinto.
De tudo que já estudei, o mais forte e o mais complicado foi a astrologia. Fico chocada com a exatidão de um mapa astral. Viemos para a Terra com um guia para direcionar as nossas vidas. Pena que não sabemos como decifrar suas mensagens.
Senti grande interesse por parteiras e estou descobrindo que na tradição feminina são consideradas xamãs, ou, como uma amiga me chama, xamoas. Hoje, gosto de me reconhecer como xamoa, como uma mulher que transita entre o mundo real e o mundo espiritual. Aprendi a perceber a conexão entre todas as coisas. Ao contemplar as estrelas, sinto que estou ligada amorosamente a elas. Apesar do enorme sentimento de solidão e desamparo que as pessoas da contemporaneidade apregoam, sei que não estamos sós no Universo, como já nos ensinava Francisco de Assis.
Uma amiga diz que ser bruxa não é fácil. Concordo com ela. Mas se esse é o caminho, o que fazer? Não há saída feliz se não realizarmos o que viemos fazer aqui.
Já comprei meu caldeirão, meu chapéu e minha vassoura. Só falta voar.

22.1.09

Os Caminhos da Vida

Tenho hoje 46 anos e ainda me surpreendo ao constatar que o que aparentamos pode ser o oposto do que sentimos. As experiências que tenho vivido me fazem ver que Freud realmente explica.
"Não pago". "Apresente-me seu extrato". "Mostre-me seu cartão de crédito". Aparentes agressões que escondem "Vou continuar brigando porque essa é a forma que tenho para continuar vendo você", "Ainda quero controlar sua vida", "Não me deixe só". Por trás de tanta violência, um coração ferido e cheio e amor. É verdade que um amor não mais correspondido e agora camuflado em vingança. Mas, mesmo assim, amor e um grande amor que expressa toda sua força nas entrelinhas das limitações mundanas.
A Alma sabe o que sente. O Universo, com suas conexões mágicas, sempre faz justiça e a Lei do Retorno, você colhe o que planta, atua sobre todas as coisas.
Adoro duas frases de Cristo e procuro aplicá-las à minha vida. A primeira, "Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem". A segunda, "Pai, em Tuas Mãos eu entrego o meu Espírito". Esta fala da minha eterna confiança no Sagrado, pois me jogo na Vida como um filho pequeno se joga nos braços de um pai digno, como o que tive e tenho na Terra. Aquela me lembra de Darci Ribeiro quando disse que sentia muita gratidão por seus inimigos porque havia aprendido muito com eles e, principalmente, porque não queria ter as características que eles tinham e isso lhe possibilitava perceber que estava no caminho certo, no seu caminho.
Tive a coragem de confiar em minha intuição, de seguir a minha Alma e hoje sou uma mulher completamente feliz e realizada. Tenho filhos maravilhosos, faço o que gosto na minha vida profissional, tomo chá com meu pai, converso com minhas verdadeiras amigas coisas de arrepiar os cabelos, leio, escrevo, trabalho por um mundo melhor com muito carinho, cuido de plantas, tomo banho de mar, compartilho minha vida com irmãos incríveis, ainda recebo a energia amorosa dos meus ex-amores, sou cuidada por um grupo de pessoas que tornam meu viver mais cheio de dengo. Enfim, minha vida é coberta por bênçãos Sagradas que se expressam na simplicidade do meu cotidiano. É difícil as pessoas acreditarem que isso é possível. Mas esta é a minha verdade.
O mais fantástico, porém, é que acredito em duendes, fadas e príncipes encantados. Tenho um príncipe que ainda guardo como uma lembrança gostosa em meu coração. Agora, o mais maravilhoso é que sou casada com um Rei, mas não um rei que assumiu o posto porque seu pai deixou a herança do reino. Ele é um Rei que conquistou essa posição por méritos próprios, por sua imensa bondade e pelo enorme amor que coloca em tudo que faz. Sensível, carinhoso, brincalhão, delicioso, belo, forte, com um enorme campo energético, me faz derreter só de olhar para sua foto ou ouvir sua voz. Imaginem como me sinto quando vamos passear nas nuvens. Quando eu era criança e ainda nem tinha beijado na boca, dizia para todo mundo ouvir, inclusive para minha mãe e para as freiras repressoras do colégio religioso onde estudava, que eu sabia que uma relação sexual, um orgasmo, era a expressão máxima do Sagrado na Terra. Hoje, com meu Rei, comprovo essa tese nos mínimos detalhes. Vivencio essa magia e agradeço à Deusa esse presente.
Compartilho tudo isso para futucar um pouco as pessoas que tiverem acesso a esse texto. Queria dizer que não se conformem com pouco, não aceitem uma vida medíocre e vazia apenas pelo medo do novo. É possível, sim, um encontro de Almas e a felicidade existe. Nunca é tarde para se recomeçar um novo caminho, um novo projeto, uma nova vida.
Já ouvi de muitas mulheres, e até de alguns amigos homens, que isso que me aconteceu foi uma coisa rara que não acontece com todo mundo. Sou uma pessoa comum e minha vida não tem anda de especial para merecer dos Céus um presente assim. Beiro os 50 anos, tenho três filhos, as celulites já chegaram, não tenho muito dinheiro, não sou um exemplo da beleza das passarelas. Agora, é verdade que tenho uma inabalável fé na vida e me conecto o tempo todo com a abundância do Universo. Sei que esse é o meu Caminho. Cada um terá a sua forma de se fazer feliz aqui nesse planetinha e só precisa descobrir como manifestar o seu quinhão do Sagrado nessa vida que escolheu.
Sou Libriana, regida por Vênus, a Deusa do Amor. Amo e amo e amo. E poder amar e ser amada por um Rei maravilhoso é realmente um milagre. Mas quem disse que a vida não é feita de milagres e de magia.
Abracadabra!