13.7.09




As primeiras lembranças que tenho de minha infância são na Praça Osvaldo Cruz, nos passeios com minha babá e minha irmã mais nova. Não é uma coisa contínua, mas uma cena parada, como numa fotografia. Nós três, andando pela praça, de mãos dadas.
Depois me lembro, também numa cena apenas, de eu e minha irmã brincando no quarto de nosso apartamento da Madalena e de nossa babá querendo arrumar tudo. Chamou, chamou, nós não saímos. Meu pai veio e mandou a gente passar já e levamos uma tapinha na bunda. Ele também contava que quando eu era uma recém-nascida, ele estava estudando e eu não parava de chorar. Perdeu a paciência e deu uma palmada na minha bunda; engulhei e parei o choro na hora. Isso é o que ele diz. Pronto, foram as duas vezes em que apanhei. Todos os outros momentos foram de carinho, brincadeiras e colo.
Uma vez eu tinha estudado muito e estava aperreada porque achava que não sabia do assunto da prova no dia seguinte. Ele chegou do trabalho, viu minha agonia, colocou minha cabeça em seu colo e começou a alisar meus cabelos dizendo:
- Não precisa se preocupar. Se amanhã ainda não estiver pronta, não vai fazer prova. Se todos os problemas da vida fossem esse.
Naquela época eu não tinha idade para compreender exatamente o que ele dissera, mas me senti segura e protegida por sua figura forte e amorosa, naquele momento e durante toda a minha vida.
Também lembro os nossos passeios de domingo para a casa da família de minha mãe. Todo mundo junto, as crianças brincando, os adultos jogando buraco. Na volta, já com sono, eu deitava no banco lá de trás do nosso Fusca e ele vinha cantando:
- Estamos perto ou estamos longe? – na tentativa de evitar que caíssemos em sono profundo.
Ainda cantava ‘na minha fazenda tem um boi e esse boi se chama barnabé...’ ou ‘tava a mosca em seu lugar e veio a barata lhe atentar...’ou ‘e a Kodak não tinha capacidade, só tirou uma metade da bochecha de ...’. Tantas canções recheadas de alegria.
Minha mãe estava sempre presente, orientando nossos estudos, dirigindo pra lá e pra cá. Apesar de sua formação em matemática, era do lar. Depois, quando já estávamos adultos, foi fazer Direito para se proteger dos advogados – ‘todo advogado é ladrão’, dizia ela – e foi a laureada de sua turma com sessenta anos de idade.
Nas festas de São João ganhávamos lindos vestidos, todos desenhados por ela, soltávamos fogos com meu pai e comíamos as comidas típicas da época. Eu tinha uma vizinha muito rica, filha de político, que usava vestidos maravilhosos, comprados nas boutiques mais chiques, com sua governanta e seu motorista. Eu tinha uma pena dela, sempre tão sozinha. Dormíamos com mamãe contando histórias e eu adorava a do príncipe que reencontrava seu amor, depois de muito tempo separados.
Nada de muito luxo. Tudo muito simples. Uma vez, no Natal, ganhamos a boneca Amiguinha. Mal podíamos com ela. No ano seguinte, minha mãe Noel comprou uma boneca bem pequena, que eu adorei, para que nos acostumássemos com o simples também.
Tive assim, uma infância tranqüila e muito feliz.
Na adolescência, mudamos para o Espinheiro devido às inúmeras cheias que sofremos. Só vim entender o drama das enchentes quando cresci porque lá em casa era sempre uma festa: sobe tudo lá pro primeiro andar, vamos ver como está o rio. E assim, enfrentávamos o vai-e-vem das águas do rio e a limpeza de nossa casa que sempre aguardava nosso retorno.
Vivi momentos mágicos no P2 do meu prédio novo. A turma toda descia depois do jantar e ficava conversando até as 22h, pois as luzes se apagavam e precisávamos subir. Comecei a namorar e fui muito amada por meu príncipe encantado. Eu achava que a vida era perfeita e que nada de mal poderia acontecer em meu conto de fadas. Estudava, namorava, passeava, saía com minha família, curtia meu irmão jogando bola. Fiz vestibular, entrei na faculdade, tirei carteira de motorista. E aí, acabou-se o meu período da vida de ser guiada. A partir deste momento, quem dirigiu a minha vida fui eu.
E o que fiz dela?

12.7.09

Continuo me encantando com o Sagrado que se expressa na natureza. Talvez, não consiga abandonar o meu olhar de criança descobrindo o mundo.
Estava deitada na cama, ouvindo a música do balanço das palhas dos coqueiros que circundam minha casa. De repente, o sol foi mudando seu caminho e percebi um dourado lindo iluminando as folhas verdes que dançavam ao vento. Pensei:
- É tudo perfeito, mesmo!
Hoje, já em minha outra cama, vi o sol acordar e me deslumbrei com o azul do céu e suas nuvens brancas que refletiam uma luz fluorescente. Os pássaros saudavam o novo dia com uma sinfonia maravilhosa. Mais uma vez:
- É tudo perfeito, mesmo!
E esse espetáculo se renova a cada dia. Por que não o observamos? Por que não aproveitamos o dia de hoje para ser feliz?
Só temos o presente como presente da vida. Meu pai estava bonzinho e, de repente, teve um AVC. Mais nunca foi o mesmo. Minha mãe jantou com a gente, foi dormir e não acordou jamais. Minha tia foi ao banheiro, sentou-se no sofá e permaneceu em coma por dois anos, deitada em uma cama.
Quase sempre, pela nossa dificuldade em lidar com a morte e com a finitude, jogamos o que queremos fazer de verdade embaixo do tapete e fingimos que vamos ter todo o tempo do mundo para, um dia, quem sabe, realizarmos nossos sonhos.
Quando é que vamos dizer ‘te amo’ ou ‘me perdoe’, ou ainda, ‘senti tanto sua falta’?
Às vezes, deixamos a dor e o rancor tomarem conta de nossas vidas e perdemos pelo caminho pessoas e coisas que nos são importantes. O tempo é agora. Não sabemos quando nossa amiga, a Morte, vai passar e nos arrematar para seu rio de águas profundas.
Costumo dizer que São Pedro, na hora de nossa passagem pela porta do céu, vai perdoar tudo: gaia, assassinato, roubo, preguiça. Só uma coisa ele não vai admitir: não termos desenvolvido, aqui na Terra, o Dom que nos foi confiado pelo Sagrado. Poxa, é um pedaço do Universo que vem com cada um que nasce para que esse taco evolua e, com isso, o Todo também fique mais harmonioso. A responsabilidade é grande. Ficamos arrumando desculpas para esconder de nós mesmos essa grandeza e dizemos:
- Amanhã eu começo, o novo projeto, o novo amor, o novo trabalho, a nova alimentação, a nova vida.
E se não houver amanhã?
O Mistério nos rodeia o tempo todo e nos cobra a Entrega completa à vida. Precisamos confiar e deixar que a Energia Cósmica faça através de nós o seu trabalho no mundo, como diz Sandra Celano, expressando uma idéia que adoro repetir.
Se não aprendemos pelo amor, com certeza, vamos aprender pela dor. Quando a dor chega e nos derruba, no lugar de procurar entendê-la e descobrir qual lição nos está dando, jogamo-nos na cama, enfiando a cabeça nos travesseiros, como a avestruz enfia a cabeça na areia, e tomamos mil remédios para fugir da realidade que nós mesmas construímos em nossas vidas. Mas o efeito das drogas não dura para sempre e, quando passa, temos que encarar novamente nossa droga de vida.
Cada novo dia é um convite para que nos entreguemos à vida e nos deslumbremos com a beleza de cada detalhe que foi planejado para que tudo no Universo flua em harmonia.
Eu, com meus limites, tenho tentado me jogar na vida com a confiança de uma criança: se Ela me chama, eu vou. Nem sempre é fácil. Às vezes, estou sentada em minha zona de conforto e Ela me tira dessa posição, empurrando-me para novos começos. E lá vou eu, de novo, enfrentar novos desafios, aprender coisas diferentes e perceber detalhes lindo que ainda se mantinham escondidos para mim.
Quando for o momento de minha passagem para o lado de lá, irei tranqüila. Vivi a vida que quis, não vou carregar na bagagem o remorso por não ter seguido minha Alma. Mas, confesso, levarei em meu coração uma enorme saudade desse planeta maravilhoso que me acolheu em sua plenitude, revelando-me seus segredos mais secretos. Lembrarei para sempre do calor do sol sobre meu corpo, da delícia que é um banho de mar em águas mornas, da paciência das árvores seculares de ouvirem nossos sonhos, do canto dos pássaros e da beleza de seus vôos de liberdade, do doce sabor da jabuticaba em minha boca, da meladeira ao chupar um caroço de manga sentada em um banco de madeira.
Também sentirei saudade das minhas coisas. Como é delicioso aguar o jardim e sentir a grama verde sob meus pés! Como é fantástico descobrir o mundo invisível dos insetos, escondidos por entre as flores e os frutos que enchem de cor e perfume aquele pedaço sagrado de terra. Não irei mais tomar suco de laranja, café com pão, leite com sustagem. Não sentirei mais a água bem quente na hora do banho. Não ouvirei mais música, nem poderei cantar para meus filhos dormirem. Não tomarei chá com meu pai. Não lerei meus livros mágicos. Não farei mais amor com minha outra metade. Tudo isso ficará por aqui. Levarei comigo, aí, sim, as lembranças de todos esses momentos amados que seguirão para sempre marcados em minha Alma.
Partirei sem medo, pois fui inteira, sem excluir nada de mim. E, de verdade, se alguém contasse para mim a história da vida que vivi, eu iria querer experimentar a vida contada, cheia de altos e baixos, de fins e começos, mas cheia de amor, alegria e coragem.
Será este texto apenas uma reflexão ou será uma despedida?
Acredito tanto em sinais...

6.7.09


Sou um anjo e fui para a Terra com a incumbência de entender o amor entre um homem e uma mulher.
Tive a oportunidade de observar uma conversa de mulheres em um café. Todas falavam de seus amores e das características de seus homens. Uma delas, uma bonita mulher madura, relatava que já havia tido dois casamentos e que os homens não prestavam, pois só queriam sexo e não sabiam o que era amor. O seu último marido, inclusive, a havia traído com primas, amigas e irmãs da igreja. Comentava que os homens também não sabiam mais satisfazer uma mulher na cama e, por isso, tantas estavam se tornando homossexuais.
Confesso que fiquei surpreso e chocado. No céu, o planejamento do Todo Poderoso para o encontro amoroso de homens e mulheres era bem diferente do relato que estava ouvindo por aqui.
Consegui participar como observador de uma reunião, agora de homens, em uma mesa de bar:
- As mulheres não sabem mais ser femininas. Só querem mandar. Numa casa tem que haver um comandante. Não agüentei mais a minha e saí de casa.
- E o pior é que agora só querem saber de homem que tenha dinheiro. Não existem mais Amélias como antigamente.
Saí arrasado de lá. Então, só havia desencontros no amor?
Cheguei à outra mesa, onde um juiz, junto com advogados e clientes, concluíam um processo de separação litigiosa. A energia do ambiente era muito carregada e custei a acreditar que aquele casal um dia tinha se amado e seus corpos nus se abraçado sob lençóis.
Passei, rapidamente, para outro local, onde pudesse aprender alguma coisa boa sobre o amor. Estava ao lado de um homem, viúvo, que convalescia numa cama de UTI. Consegui ler seus pensamentos e o que vi começou a me dar um novo alento. Ele lembrava os bons momentos com sua esposa quando os dois sorriam abraçados e conversavam sobre o seu dia. Viu a cena que jogavam baralho e a que ela colocava seu café quente no pires para que esfriasse mais rápido e não o atrasasse para o trabalho. Fora feliz e tinha na bagagem da saudade os instantes de cumplicidade e companheirismo. Estava pronto para a travessia porque tinha a certeza de seu encontro com o grande amor de sua vida.
Resolvi que precisava acompanhar o cotidiano de um casal que estivesse vivendo um casamento comum. Percebi um que estava indo ao cinema, apesar do adiantado da hora e do cansaço de uma longa jornada de trabalho. Compraram os ingressos, comeram cachorro-quente, assistiram ao filme, com pipoca e guaraná, abraçadinhos.
Voltaram para casa, fizeram amor e adormeceram enganchados um no outro. No outro dia acordaram, tomaram café e foram caminhar pela praia. Observaram um pássaro com a perna machucada, encantaram-se com a perfeição do buraco da maria farinha. Na volta, jogaram totó, sinuca e pingue-pongue. Não havia competição entre eles e não se importavam com quem iria ganhar. Tomaram cerveja, ouviram música, dançaram, comeram macarrão com azeite e alho e conversaram muito. Prepararam um delicioso banho de banheira, namoraram num ambiente com velas e incensos. Consegui ouvir os pensamentos dele, deliciando-se com os momentos maravilhosos e com a beleza da companheira amada. Já os pensamentos dela revelavam o encantamento pelo seu marido e como estava feliz por compartilhar sua vida com um grande homem. Adormeceram ouvindo o barulho das ondas do mar e das palhas do coqueiro ao vento. Mais amor ao acordarem. Depois ficaram na cama lendo e ouvindo música, tudo na mais perfeita paz e harmonia.
Percebi a linda e poderosa energia que os unia, exatamente como havia planejado a Energia Sagrada lá de cima.
Minha esperança havia sido renovada, pois enquanto houvesse amor na Terra, tudo o mais, por acréscimo, seria dado aos homens e mulheres de boa vontade.
Parti para meu lar com o coração abastecido de alegria e o desejo de também encontrar o meu par.

30.6.09




















O São João sempre foi uma festa celebrada em nossa família. Gosto de preparar a mesa, cuidando dos mínimos detalhes. Arrumei tudo com capricho, fiz bandejas e toalhas, comprei bandeirinhas, organizei bolos, brigadeiros, beijos, cocadas, bombons, pipocas, canjicas, pamonhas e milho. Os fogos ficaram com a criança da família.
Porém, desta vez, a noite não teve o mesmo brilho, pois meu pai estava doente, internado no hospital.
No próximo ano, tenho certeza, a festa vai ser maravilhosa.



17.6.09







Como mãe de adolescentes em uma cidade grande do nordeste brasileiro, no século XXI, fico com o coração na mão diante das informações sobre todas as formas de violência que os rodeiam. Manchetes de jornais divulgam acidentes, brigas em jogos de futebol, assaltos, assassinatos, envolvimento com o consumo e tráfico de drogas ilícitas - maconha, cocaína, crack - e lícitas - cigarros, bebidas alcoolícas -. Parece que vivemos, nos dias atuais, as imagens descritas no Apocalipse.
O que fazer quando tantos perigos rodeiam meus rebentos? Trancá-los em casa, impedindo-os de viver essa fase linda da vida, não é a solução. O primeiro recurso que minha Alma pede é a oração. Entrego-os aos deuses e às deusas e confio que estão protegidos.
Depois dessa fase, procuro me lembrar que são meus filhos desde que nasceram e, portanto, participaram de um processo educacional, fruto das coisas que penso e sinto. Portanto, também confio no que realizamos juntos ao longo do tempo. Foram muitos momentos de carinho, de conversas na cama, de contação de histórias, de dengos, de passeios, teatros, cinemas, viagens. Ouvimos juntos música de qualidade no carro, enquanto íamos e vínhamos da escola. Assistimos muitos filmes, regados a brigadeiro e pipoca. Escolhemos livros incríveis que nos faziam pensar e sonhar com um mundo encantado.
Tudo isso deu uma provisão de segurança e amor que os abasteceu até aqui e vai servir de base para que sejam, para sempre, pessoas maravilhosas que espalham luz e alegria por onde passam.
Sabemos que somos uma família diferente. Rimos juntos, confiamos uns nos outros, dizemos sempre a verdade, dialogamos todos os dias à mesa, tomamos suco de vampiro e leite com sustagem, vamos a museus, emprestamos livros nas feiras públicas, dançamos e cantamos comendo camarões. Tudo é muito simples e intenso em nosso lar.
Talvez, por todos esses detalhes, a casa esteja, com frequência, cheia de amigos que se amontoam nas colchas pelo chão. Aliás, não apenas a casa, mas as nossas casas, porque não importa se a de Casa Forte, a da praia, ou a do interior, todas elas são ninhos de amor, de braços abertos para acolher aqueles que querem compartilhar nossa energia.
Então, quando ouço histórias, contadas por pessoas que não compreendem a nossa forma de viver, ouço minha Alma que diz:
- Fique tranquila. Eles, apenas, são inteiros.
Ou ainda:
- O direito à liberdade não se mendiga, mas se conquista.
Eles não estão perdidos. São livres. Podem ser o que desejarem, Rei Leão ou Dragão. Em silêncio, rogo pelos que têm medo da inteireza:
- Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem.













Há uns três anos, escrevi um texto sobre uma comemoração fracassada do Dias dos Namorados, vivida por uma grande amiga minha. Enviei-a para todos da lista de mails, homens e mulheres. Nesta história eu relatava que minha amiga havia preparado uma mesa linda para seu amado, com flores, velas, incensos, tinha comprado camisola nova, óleos para massagem e muitos outros detalhes para tornar a noite inesquecível. Mas o seu namorado não aparecera e não valorizara os mimos. Recebi respostas de muitas mulheres, reforçando a idéia de que os homens são todos iguais, são uns insensíveis e todo aquele discurso que já conhecemos bem. Porém à época, recebi dois mails de amigos homens que se pronunciaram contra essa imagem de que os homens são todos iguais, pois eles eram sensíveis, valorizavam essas demonstrações de carinho, compravam flores para as namoradas e adorariam ter alguém que fizesse uma festa assim para eles. Um deles chegou a escrever que seria 'o homem mais feliz do mundo' se vivesse isso em sua vida.
Na semana passada, recebi deste amigo um mail com as fotos que estão neste post, dizendo que tinha encontrado sua alma gêmea e que ela havia organizado uma noite maravilhosa para os dois, com incensos, velas, flores, massagens e outras coisas que ele não poderia me contar.
Sorri com seu empenho em me dar o retorno de uma história compartilhada há tanto tempo e compreendi que ele precisava dividir com alguém a alegria de ter se tornado 'o homem mais feliz do mundo'. Obrigada, amigo.
O mundo dá voltas e nunca sabemos como vai ser o amanhã.

11.5.09


Passei hoje a tarde em casa. Li, li e li. Quando percebi, já era noite e fui tomar banho para esperar meu marido chegar do trabalho e jantarmos com a família toda reunida em volta da mesa.

Já no chuveiro, lembrei-me dos pais de meu primeiro namorado e me emocionei quando revi, em minhas recordações, a cena em que esperava por seu marido aguando o jardim no final da tarde. Arrumava-se, perfumava-se, colocava uma roupa bonita, um batom suave, e ficava esperando a Caravan branca chegar. Ela era alta, com quadris largos e a pele mais alva que posso me lembrar de ter visto. Ele era um homem forte, queimado pelo sol que o castigava em seu trabalho no campo. Mas como era doce, carinhoso, com uma voz mansa e um sorriso no rosto.

Vejo, como se fosse hoje, cada detalhe da casa, planejada por seu dono: o jardim com as palmeiras e o monte no centro; o terraço com jardim de inverno; as salas arrumadas que só eram utilizadas em festa; a cadeira de vime com balanço; o balanço de ferro; o telefone embaixo da escada. As cozinhas e as longas conversas em torno da mesa. Ainda sinto o gosto da água gelada tomada no copo de inox. Achava o máximo jogar a roupa do banheiro lá de cima e a roupa suja já cair direto na lavanderia. Os quartos eram enormes e davam para uma área íntima com uma grande prancheta.

Cigana, já velhinha, me recebia com o rabo abanando. Fiquei muito triste quando morreu, quase cega e sem conseguir andar.

Foi lá que ouvi pela primeira vez o Bolero de Ravel; também foi lá que conversei sobre astrologia com minha cunhada. Eu adorava aquela casa e aquela família.

Por voltas que a vida dá e ninguém sabe explicar, terminei o namoro e tive que cortar a ligação com aqueles que amava, pois a nova namorada não aceitava nem que pronunciassem o meu nome e, sinceramente, meu ex não merecia que nada de ruim lhe acontecesse - já bastava todos os problemas de saúde que nosso rompimento trouxera.

Tudo com eles era tão mágico, verdadeiro e profundo, que nossa ligação afetiva suportou a separação física. Meu ex-sogro foi ao meu casamento e me presenteou com a flor do seu jardim, que tinha por hábito me dar quando eu chegava por lá e ficava aspirando seu perfume.

- Já que não pôde ser com ele... Quero que você seja muito feliz.

Minha ex-cunhada também se emocionou na cerimônia e lágrimas rolaram por seu rosto quando me viu entrando vestida de noiva na igreja.

As fotografias do meu casamento foram vistas por meu ex com o respeito que nossa relação merecia.

Visitaram-se quando tive minha primeira filha, ainda na maternidade. Minha alegria foi tanta que esqueci que estava operada e ajoelhei-me para abraçá-los.

Separei-me, casei novamente, e numa festa encontrei com o casal amado. Ele puxou meu novo marido num canto e, olhando bem dentro de seus olhos, disse:

- Cuide bem dessa moça, faça-a feliz, porque ela é uma pessoa muito especial.

De novo, emocionei-me com o carinho que sempre nos uniu.

Não vejo meu ex-namorado há mais de vinte anos. Soube da morte de sua mãe e quis muito ir ao enterro para dar um abraço apertado em todos da família. Mas, por respeito ao meu ex, não fui para não criar constrangimento com sua mulher.

Descobri, depois, que sua mãe comentava com familiares que eu a havia visitado na UTI do hospital. Não estive lá porque não sabia que estava doente. Se soubesse, com certeza, teria levado meu beijo e meu afago.

Queria que tivessem sido eles o casal, bem casado, que forrasse minha cama na noite do meu primeiro casamento. Por motivos óbvios, não os fiz o convite.

Nunca os esqueci e até sei as datas dos aniversários de todos.

Casei pela terceira vez e acho que agora eles ficariam contentes com minha escolha, pois o meu marido cuida de mim com o mesmo carinho que seu filho um dia cuidou. Tenho certeza que aprovariam minha união e isso me deixa muito feliz.

Há laços de amor que não precisam de convivência para serem mantidos. Em momento algum, durante esse longo tempo de separação, duvidamos da verdade de nossos sentimentos. Confiamos na força de nossa amizade.

Para vocês, família amada, a minha saudade e a minha gratidão por ter compartilhado da sua intimidade no aconchego de um lar recheado de amor e respeito.


4.5.09

_._._._._._.
Um longo e um curto; um longo e um curto; um longo e um curto.
Era assim o canto do pássaro que ouvia de minha janela. Não conseguia vê-lo e, mesmo assim, sua harmoniosa melodia, emocionou-me.
O que estaria a dizer?

29.4.09


Uma amiga comentou comigo noutro dia:
- Nossa! Nossas amigas estão todas plastificadas.
Referia-se ela às cirurgias plásticas que amigas fizeram, quase ao mesmo tempo. Parece até que deu a louca na mulherada para todas desejarem uma imagem de corpo diferente.
Fiquei com aquela frase na cabeça, mulheres plastificadas. A princípio, pensei que o significante plástico dava uma idéia de artificial, de algo que não era natural. Então, nossas amigas estavam tentando ter um corpo que, de verdade, originalmente, não era o delas. Bem, isso era real, mas muito superficial.
Voltei à época dos meus 20 anos, quando também fiz plástica, plástica de mama, porque queria sentir em meu corpo a reparação que havia feito em minha alma: tornara-me mulher, uma mulher livre para o gozo dos prazeres da carne.
Lembrando-me das inúmeras conversas que tivera com essas amigas, tive um insight sobre o verdadeiro motivo para tantas intervenções externas em seus corpos: o que cada uma delas queria era manifestar, registrar fisicamente, no próprio corpo, as transformações ocorridas em sua alma. Não bastava ficar no campo do significado, das interpretações. Era necessário ver para crer. O corpo precisava mostrar que as feridas da Deusa Afrodite haviam sido curadas. Agora poderiam assumir sua energia feminina, sem culpa, sem medo, sem sentimentos de inferioridade ou de pecado. Gozar o corpo, gozar a vida, gozar o gozo.
Um brinde às mulheres que têm coragem de cortar suas amarras em sua própria carne:
- Tim! Tim!

27.4.09


Tenho encontrado pessoas que não via há algum tempo e a pergunta é sempre a mesma:
- E, você, está trabalhando onde?
- Em nada. Tô com consultório, poucos clientes, e treinando para ser escritora.
Os olhos delas ficam enormes e traduzem a perplexidade diante do fato de uma mulher madura, inteligente, saudável, não ter um emprego sério, em pleno século XXI.
Não tenho e não quero. Vivi a vida ao contrário. Muito jovem já era uma executiva, de pasta na mão e voando de lá para cá para cumprir uma intensa agenda de reuniões. Chefias, cargos, poder, tudo isso tinha e não me sentia feliz. O peso da responsabilidade e dos compromissos era enorme e carregava o mundo nas costas.
Hoje sinto necessidade de outras coisas. Preciso de tempo livre para ler e para escrever. Gosto de me perder e me achar na internet, navegando por sites de conteúdos inusitados. Amo ficar com minha família, conversando à mesa do jantar. Mas, principalmente, preciso ter tempo para contemplação, da natureza, da vida. São esses momentos que me abastecem. E isso tem sido tão forte que é quase visceral, primitivo mesmo. Desacelerei.
Minha rotina é simples e cheia de magia. Encontrei, hoje, com um casal amigo; ele descrente de tudo do mundo espiritual. Começamos a conversar, não sei explicar como, mas senti que algo muito especial estava acontecendo ali. Percebi que havia mudança na freqüência energética dele e que deveria ajudá-lo nesse processo. Doei-me com o coração cheio de amor. Mais tarde recebi o telefonema de um amigo meu que está num presídio. Ligou-me arrasado porque havia brigado com a namorada na visita e tinha quebrado os dedos dela. Pediu-me para ser o pombo correio dos dois. Concordei em fazer esse papel, mas só amanhã, para que pensasse mais um pouco na besteira que fizera. Novamente me senti canal de amor.
Agora quero beber da sabedoria da vida, num ritmo mais lento, com mais tranqüilidade. Poder acordar e perceber que pássaros cantam ao amanhecer e que o sol muda a cor do céu ao acordar. Quero sentir que as fases da lua mexem com minha energia feminina e sua influência me deixa leve ou azeda.
Desde pequena adoro contemplar formigas. No meu presente, posso aguar plantas e me comunicar com borboletas e beija-flores que passeiam por meu jardim. Isso me deixa plena.Não entendo essas posições que assumo como a receita da felicidade. Não gosto de livros de auto-ajuda. Faça assim para ser feliz, faça assado para deixar a tristeza de lado. Sei, apenas, que esse é o meu caminho e meu caminho no momento. Amanhã, sabe-se lá o que vou inventar!

25.4.09

Meus tesouros































Eles cresceram e agora querem trilhar seus próprios caminhos. Momento difícil esse, para uma mãe galinha, como eu. Que saudade do tempo em que me sentia com poderes para protegê-los de tudo. Era tão simples. Bastava proteger as quinas dos móveis, colocar telas nas janelas, bóias nos braços, ou no auge da loucura, depois de uma experiência traumática, escrever o número do celular em seus braços para o caso de se perderem.
- Só tome refrigerante fechado.
- Não vá ao banheiro sozinha.
- Cuidado com estranhos que ofereçam pipoca e sorvete.
Se os perigos ainda fossem só esses...
Lembro-me de cada gestão, de cada parto, do cheirinho da colônia no banho, da hipoglós sujando as fraldas. Tão lindos quando se entregavam ao sono, depois de um banho e de uma mamadeira! Um suava muito, outro tinha uma almofadinha que segurava na hora de dormir, outro dizia tim-lim-lim-lim, telo leite. E eu ía passando de quarto em quarto, ninando-os com músicas inventadas ou com cantos religiosos carregados de desejos de paz, amor e proteção. Até hoje temos Maria de Nazaré como referência desses momentos sagrados.
Os banhos de chuva, as brincadeiras de teatro e de escolinha, os legos, os bonecos, as bonecas, simba, os livrinhos de histórias. Ah! Todos na cama da mamãe, de pijama e fralda, segurando a mamadeira e adormecendo ao som do Era uma vez... e foram felizes para sempre.
Não me arrependo por ter diminuído o ritmo do meu curso de Psicologia para ter condições de dar apoio para minha filha quando voltava estressada do final de semana com o pai -compreendia a sua dor por ficar longe dele -, ou, ainda, por ter renunciado a cargos e propostas de trabalho que me tomassem mais o tempo. Foi delicioso acompanhá-los nas aulas de natação. Foram maravilhosas nossas tardes de filminho, pipoca e brigaderio. E os passeios a parques, museus, livrarias, teatros e cinemas!
A praça de Casa Forte foi um capítulo à parte. Comida para os peixinhos, bem cedo, vestidos de pijamas e camisola. As festas da Vitória Régia eram um sucesso absoluto, com direito a acompanhamento desde a montagem dos brinquedos.
Suco de vampiro, leite com nescau, sustagem e leite ninho. Guaraná, para um; coca-cola, para o outro. Um só gostava de bolo branco, o outro só gostava do de chocolate. As refeições em volta da mesa, sem direito à tv ligada, sempre foram momentos de encontro e de troca.
E foi assim, respeitando o jeito de cada um, vivendo uma rotina simples e recheada de amor e harmonia, que construímos uma relação sólida, verdadeira, baseada no diálogo e na confiança.
Aproveitei, por mim, o melhor de cada fase de vida deles.
Os adolescentes, homens agora, não me querem mais por perto. Nada de beijinhos. No lugar de ouvir 'você é a mulher mais linda do mundo', ouço 'que bicha chata'. Como psi acho o máximo porque reconheço nessas situações a saúde mental característica da fase de desenvolvimento que vivem, tão bem descrita por Freud. A jovem adulta já não rivaliza tanto, pois está achando seu caminho, apesar de ainda não ter muita paciência para meu jeito de contar histórias. Freud também explica isso. Mas uma coisa é a teoria, outra é a dor provocada no coração de uma mãe quando todas essas situações começam a acontecer.
Ainda há o pânico dos monstros que existem no mundo real e que não são mais o bicho-papão: violência, drogas, bebidas, cigarro, abuso sexual, assalto, acidentes de carros. Que saudade do tempo em que não dormia porque ficava coçando a cabeça de um deles que havia acordado de um pesadelo! Não durmo mais um sono tranqüilo até que todos cheguem de seus programas. Ao ouvir a útima batida na porta e o 'mãe, cheguei', o coração, finalmente assossega.
Acredito na capacidade de cada um de realizar seus sonhos e ser feliz aqui nessa vida. Claro que do jeito único que vão escolher. Construir com eles um ninho de amor foi a minha missão. Agora, só posso dar-lhes a confiança de que podem voar seus próprios vôos e sempre, sempre, sempre, estarei de braços e coração abertos, para o retorno, quando quiserem se reabastecer de dengo e voarem novamente, cada vez mais alto.
Comigo ficam as lembranças e a saudade.





24.4.09

Mais uma vez, vejo uma tartaruga morta numa praia nordestina, aqui bem pertinho mim. A primeira vez foi em Maria Farinha, Paulista; hoje foi em Olinda. A última, só vi pelos jornais e, mesmo assim, me deu um aperto no coração. A outra, eu vi de corpo presente.
Estava na praia e começou aquela agitação. Corri para o local em que um grupo de pessoas estava aglomerado e me deparei com uma das cenas mais tristes que já presenciei: uma enorme tartaruga jazia na areia da praia. Estava machucada – rede de pescadores? - e não tinha conseguido sobreviver aos ferimentos, ao calor, à ação humana. Fiquei contemplando aquele ser imenso, com uma forma tão diferente da minha. Alisei seu casco e chorei. Se pudesse, queria conversar com ela, como Francisco de Assis, e aprender sobre suas descobertas.
- Olá, Irmã Tartaruga!
Com certeza me ajoelharia ao seu lado, numa posição de reverência.
- Por favor, conte-me o que aprendeu durante todos esses longos anos de vida.
E a ouviria contar histórias fantásticas sobre o fundo do mar, sobre com é lindo o luar quando estamos contemplando a lua da superfície do oceano, sobre como é gostoso o calor do sol num descanso nas areias da praia.
Com certeza me falaria da harmonia existente entre todos os seres marinhos. Relataria seu encanto pela beleza das plantas, pelo colorido dos peixes, pelo silêncio mágico que o ambiente aquoso proporciona. Talvez, durante sua longa jornada, tivesse encontrado humanos desbravando os oceanos, e me falasse sobre seu espanto por criaturas tão estranhas e esquisitas, tentando uma adaptação num habitat que não era naturalmente seu.
- Irmã Tartaruga, você já viu Deus?
Sorriria diante de minha ingenuidade e diria:
- Você está Me vendo agora, Filha.

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E eu compreenderia, de repente, de um fôlego só, o que sempre soubera minha Alma: o Sagrado expressa-se sempre na natureza.
Sinto que é assim com tartarugas e baleias encalhadas. Elas se oferecem em sacrifício para que saibamos que a Divindade está aqui, ali, acolá, em tudo, absolutamente tudo, que existe no Universo. Estes seres atravessaram a barreira do tempo, aprenderam com o Sagrado, viajaram por dimensões e têm uma enorme sabedoria a compartilhar.
O mesmo acontece com as árvores enormes e seculares. Gosto de contemplá-las, de ouvi-lhes os segredos. Quantas juras de amor não foram pronunciadas sob suas sombras! Quantos beijos foram levados pelo farfalhar de suas folhas! Quantos sonhos de criança ficaram guardados em suas raízes!
Gosto das coisas que duram muito tempo vivas. Sempre sinto esse desejo de ouvir suas histórias. Quem sabe se essa coisa de me tornar escritora não é para contar, para colocar em palavras, essa Sabedoria? Por que não conseguimos ter olhos para vê-la? Por que não temos ouvidos para escutá-la?