Venho aprendendo novas formas de ler o mundo. Agora, através da literatura, a arte tomou posse de minha alma. O Caleidoscópio é um brinquedo que muda a configuração de uma mandala a cada novo movimento. Acho que sou um Caleidoscópio.
9.11.10
Acordo quase de madrugada para ter um tempo só para mim. Leio uma revista que fala sobre Clarice Lispector, minha autora favorita. Depois, antes de começar meu dia de verdade, corro pra o computador para escrever um pouco. Agora, sim, estou sendo alimentada pelas coisas que pertencem exclusivamente a minha alma. Ler e escrever, dois prazeres que me fazem vibrar. Algo, ao mesmo tempo, intenso e suave. Sinto necessidade deles como sinto do ar que respiro. Andava fraquinha, sem tempo para me dar estes dengos, ou, dizendo mais a verdade, para me priorizar.
Venho numa loucura de rotina que quase me enlouqueceu mesmo. Atendendo à demanda dos outros que amo, organizei muitas coisas, realizei outras tantas e fui me colocando num plano de prioridades bem lá embaixo, mas dizendo ‘é só até amanhã; depois poderei voltar para mim’. Só que este dia, que seria vivido por mim para mim, estava difícil de chegar. Por isso, encontrei esse artifício: meu dia que me pertence pode ser vivido enquanto os outros ainda dormem.
A casa está em silêncio e só tenho Hércules, nosso cachorro, como companhia. O computador, no birô que foi de meu pai, ilumina o teclado, pois deixo o quarto no escuro para não perturbar o sono de minha filha.
Quando estou muito triste ou vivendo um momento de muita dor, tenho que escrever, tenho que ler, para me reabastecer e continuar com a vida comum, a vida ditada pela cultura na qual estou inserida.
De repente, minha vida saiu do lugar e experiências que nunca imaginei surgem como verdadeiros terremotos. Num só dia, meus auxiliares mais diretos adoecerem e se ausentaram do trabalho. Pela primeira vez tenho que dar conta dos afazeres domésticos, dos compromissos sociais, do trabalho. Adoro ser muitas numa única existência, mas realizar tudo isso tem sido um grande desafio. Três horas, em pé, passando roupa! Impossível prever que esta seria uma tarefa na rotina de minha vida. Fico pensando e tentando conciliar a intelectual, a artista e a dona de casa – esposa e mãe – que sou. Por que um dia só tem vinte e quatro horas?
Claro que quando as transformações surgem, elas chegam com força e intensidade, como numa grande tempestade. Esta lição já havia aprendido com a astrologia. Sinto que estou no finalzinho do canal do parto, pronta para um novo renascimento. Deixando de ser terapeuta, preparando-me para ser escritora, mudando-me para uma nova casa, louca para ter de volta o meu nome de batismo.
Esta última coisa, o divórcio, foi uma das experiências mais difíceis que já tive. Claro que tenho raiva do ex, mas a ira mesmo é contra mim: como puder amar alguém assim, com uma alma tão pequena?! Encontrei-o ontem em mais uma inútil tentativa de conciliação nos processos que travamos na justiça. Parecia um menino. Blusinha de garotão, apesar dos cabelos brancos. Decepção, pena e a pergunta: como não percebi isso antes? O mais difícil foi ver, mais uma vez, em sua enorme sombra, as mentiras que contava, a sua arrogância e a sua prepotência. Por que eu tenho que ser a pessoa escolhida pelo Universo para ensinar-lhe que não está acima das leis, dos homens e das Sagradas? Por que ele foi o eleito para me ensinar a lutar pelos valores que acredito aqui na Terra? Às vezes faltam-me forças para travar a batalha. Tão mais simpples ceder, seguir minha vida em paz e feliz, com meus filhos – meus tesouros -, meu marido lindo e gostoso! Qual será o desafio agora?
26.10.10
Fotos: Roberto Arrais
Eu estava cansada. Havia trabalhado o dia todo, caminhado muito e os pés pareciam duas bolas, Deitei-me na rede para descansar um pouco, depois de um banho bem quentinho. Meu marido desceu para preparar alguma coisa para comermos. Adormeci e acordei com ele me dando um beijo e me chamando para o jantar. Desci as escadas e encontrei a sala às escuras. Fui acender a luz do abajur e, de repente, deparei-me com uma linda mesa posta, cheia de velas acesas, incenso, taças cheias de vinho, pães de queijo e uma música maravilhosa tocando em nossa radiola. Claro que chorei emocionada e o beijei apaixonadamente. Jantamos, dançamos agarradinhos, tomamos vinho e beijei muitas e muitas vezes suas mãos mágicas. Apesar de estarmos sentados à mesa, ouvindo a música do mar e dos coqueiros, vendo a lua e as estrelas, na minha imaginação, secretamente, eu estava de joelhos diante dessa alma grande, meu homem, meu amor, e agradecia ao Sagrado a oportunidade de tê-lo em minha vida.
Passamos assim, juntinhos, o final de semana, descansando, trabalhando, fotografando, escrevendo, namorando, namorando, namorando. Preparamos café da manhã, eu faço o suco de laranja, ele organiza os pães. Mais música na radiola, mas dança de rostinho colado na cozinha enquanto toda a casa é invadida pelo cheiro delicioso de ovos fritos em cebola, alho e azeite. Uma delícia de café, com direito à vista para o mar e à visita de nossos amigos, os passarinhos. Lavo a louça, lê jornal, separo o lixo reciclável, varre a varanda.
Ainda tivemos que voltar ao ritmo do tic-tac e nos desconectamos do ritmo da vida. Haverá um tempo em que poderemos viver assim e que nosso trabalho será a escrita e a fotografia, tendo o mundo como cenário, as pessoas como tema e nossa casinha de praia como refúgio. Já sinto saudades do que vem lá.
23.10.10
Ando preocupada com os rumos das eleições no Brasil. Acredito que esse negócio de misturar religião com política não dá certo. Até porque, muitos desses que se dizem religiosos, na verdade, são exploradores financeiros da ignorância do povo. Acredito no Sagrado, mas não aceito que essa conexão mágica seja manipulada em nome da moral e dos bons costumes, a partir do ponto de vista de quem mesmo?!
Como Psi, fiquei revoltada com a postura de alguns vereadores 'religiosos' do Recife que detonaram um trabalho desenvolvido pela Secretaria de Educação sobre sexualidade. Nunca vi 'se dizer tanta besteira com tamanha convicção', como se fala num ditado popular. Hipocresia pura.
Além da discussão sobre o bem e o mal a partir de ideias religiosas, também sobre educação sexual, os políticos religiosos estão querendo definir, para todos os habitantes do país, o que deve e o que não deve ser feito no caso de uma gravidez indesejada. Aborto é pecado, bradam como se fossem os novos santos e profetas da era pós-moderna. Também não seria pecado sua conduta no parlamento?
Sou totalmente contra o aborto, pois acredito que já há vida quando o óvulo e o espermatozóide se encontram. Mas, eu já tive abortos e já fiz aborto em momentos muito, muito difíceis e dolorosos de minha vida. Por isso, acho que cabe à mãe a decisão de ter ou de não ter um filho, pois somente ela pode dar conta de sua própria subjetividade. Carrego minha dor até hoje e derramo lágrimas de saudade por um filho que não tive.
Mas, voltando para as questões políticas, sou fruto da educação censurada da ditadura, na época em que se ensinava nas escolas que o Brasil foi descoberto - e não invadido - por Portugal, que os índios eram preguiçosos, que os negros eram de uma raça inferior e que os comunistas comiam criancinhas. Típica patricinha alienada, que retirava as jóias para ir fazer caridade em orfanatos. Mas, tudo tem seu tempo, e, em um certo momento acordei. Acordei para as injustiças sociais, para os preconceitos, para a exploração do trabalhador. E, aí, não teve mais jeito, me engajei e sonhei com um país mais justo, mais livre e mais feliz. Pude votar e transformar, com meu voto, o lugar onde vivo e que desejei melhor para meus filhos e os filhos de todos os outros brasileiros. Chorei muitas vezes nas eleições que não conseguimos colocar o Lula lá, mas não perdi a esperança e continuei votando, votando, até que um dia, pude gritar que a esperança venceu o medo e que, como dizia meu lindo Chico, apesar de você - ditadores de plantão - amanhã vai ser outro dia, e o amanhã havia chegado, era o hoje.
Não me arrependo, muito pelo contrário. Tive orgulho de viver num país governado por um retirante nordestino, operário, e, acima de tudo, um sonhador, com força e garra para transformar seus sonhos, os meus sonhos, os nossos sonhos, em realidade, sem perder a ternura do olhar.
Gosto de tentar entender o que dizem os olhos das pessoas e olhei nos olhos de Dilma, a agora candidata à presidência do meu país que continuará os projetos que transformaram para melhor a vida de muitos e muitos brasileiros. Sinto-os verdadeiros. Ela tem um olhar forte, de quem vê lá na frente. Gosto de ficar pensando no que passa por sua cabeça quando sabe que existe a real possibilidade de governar o povo pelo qual lutou, foi presa por anos, torturada, humilhada. Sei que pensa que sua luta valeu a pena e que hoje toda essa gente tem condições mais dignas de vida. Ainda teve sua doença e a superação de um momento tão difícil. Devo confessar que me dá uma vontade enorme de lhe dá um pouco do dengo nordestino, tipo um cafuné no colo, para que reabasteça suas energias e continue a luta por um futuro melhor.
Tive a oportunidade de ouvir um relato de uma senhora de 84 anos que conviveu com a esposa de um político perseguido pela ditadura militar, e que na época do ocorrido tinha mais de sessenta anos, contando que a amiga lhe confidenciara que havia sido presa e obrigada a desfilar nua para aqueles que a prenderam e torturaram. Já pensou se isso fosse com a mãe ou a avó de cada um de nós? Então, pergunto-me, o pessoal que estava do lado dessa turma covarde de torturadores, hoje, nessa eleição, está apoiando qual candidato? Quero a resposta porque o que eles estiverem defendendo, com a certeza que estou respirando, não receberá o meu voto. Preciso honrar a memória de todos aqueles que defenderam a liberdade e o povo do meu país. É o mínimo que posso fazer agora, já que me alienei quando houve as lutas.
Meu marido participou ativamente da história de luta pela liberdade no Brasil, tendo aprendido muito com homens como Gregório Bezerra e Luiz Carlos Prestes. Agora quem aprende com ele sou eu. Tenho três filhos que são engajados, discutem política com uma lucidez que me faz inveja e, claro, me enche de orgulho. Sabem a história real, não a manipulada para enrolar o povo, lutam por seus direitos e pelos direitos de um Brasil mais feliz. Também aprendo com eles e também é por eles que continuo votando com alegria e esperança. Sei que graças ao meu voto, eles hoje vivem num país melhor. Desejo que também construam para seus filhos um mundo de paz.
9.9.10
Valores da Carta da Terra
Final de semana do feriado de 07 de setembro. Feriadão. Abertura da temporada de praia, sol, mar quentinho. Fui, com minha família, curtir nossa casa de praia. Cerveja. cachaça, churrasco, para a turma jovem. Meu marido ficou trabalhando em sua dissertação de mestrado; minha filha estava no MIMO; minha sogra, minha secretária e eu, aproveitamos mais o vento gostoso que balançava nosso coqueiro.
Condomínio chique, lotado de gente que tem saldo positivo nas contas bancárias. Parece-me que este pequeno fato provoca grandes transformações nas pessoas: acham-se senhores do mundo, acima do bem e do mal, além das leis da natureza. Havia muitos quadriciclos circulando pela área interna do condomínio e na faixa da praia reservada aos banhistas e aos outros habitantes deste cadinho da Terra, como marias-farinhas, peixes, pássaros, borboletas. Pela lei, proibição total. Mas os motoristas destes verdadeiros tanques de guerra cometeram crime ambiental quando circularam com seus carros por cima da vegetação rasteira que segura a areia impedindo o avanço do mar. Morreu tudo.
Ontem, depois que os invasores irracionais foram embora, fui passear pela área ferida: o mar invadiu mais um pouco, a areia foi embora, as raízes das plantas, ainda vivas, estavam expostas ao sol, numa mistura de verde, amarelo e vermelho. Quando vi o vermelho, pensei, no mesmo instante, que sangravam e choravam a dor da mutilação.
Olhei o mar, vi pássaros voando, as ondas indo e vindo, o sol brilhando, e entendi o EU SOU. Isso é a Natureza, Isso é o Sagrado. Não importa o que se faça enquanto raça humana, a Terra se transformará e continuará exuberante. Quando falamos em Apocalipse, mais uma vez, estamos assumindo que o Universo foi criado apenas para nos servir. Visão pequena esta. Somos apenas mais um fio da teia da vida. Quando não se aprende pelo amor, aprende-se pela dor. Houve um tempo em tínhamos dinossauros por aqui. Haverá um outro tempo em que não teremos mais humanos respirando esse ar?
- Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade
- Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor
- Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas
- Assegurar a generosidade e a beleza da Terra para as atuais e às futuras gerações
- Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial atenção à diversidade biológica e aos processos naturais que sustentam a vida
- Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução
- Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário
- Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover o intercâmbio aberto e aplicação ampla do conhecimento adquirido
- Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental l Garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma equitativa e sustentável
- Afirmar a igualdade e a equidade dos gêneros como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência de saúde e às oportunidades econômicas
- Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, com especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias
- Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e prover transparência e responsabilização no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões e acesso à Justiça
- Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável
- Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração
- Promover uma cultura de tolerância, não-violência e paz
Fonte: site http://www.cartadaterrabrasil.org/
Condomínio chique, lotado de gente que tem saldo positivo nas contas bancárias. Parece-me que este pequeno fato provoca grandes transformações nas pessoas: acham-se senhores do mundo, acima do bem e do mal, além das leis da natureza. Havia muitos quadriciclos circulando pela área interna do condomínio e na faixa da praia reservada aos banhistas e aos outros habitantes deste cadinho da Terra, como marias-farinhas, peixes, pássaros, borboletas. Pela lei, proibição total. Mas os motoristas destes verdadeiros tanques de guerra cometeram crime ambiental quando circularam com seus carros por cima da vegetação rasteira que segura a areia impedindo o avanço do mar. Morreu tudo.
Ontem, depois que os invasores irracionais foram embora, fui passear pela área ferida: o mar invadiu mais um pouco, a areia foi embora, as raízes das plantas, ainda vivas, estavam expostas ao sol, numa mistura de verde, amarelo e vermelho. Quando vi o vermelho, pensei, no mesmo instante, que sangravam e choravam a dor da mutilação.
Olhei o mar, vi pássaros voando, as ondas indo e vindo, o sol brilhando, e entendi o EU SOU. Isso é a Natureza, Isso é o Sagrado. Não importa o que se faça enquanto raça humana, a Terra se transformará e continuará exuberante. Quando falamos em Apocalipse, mais uma vez, estamos assumindo que o Universo foi criado apenas para nos servir. Visão pequena esta. Somos apenas mais um fio da teia da vida. Quando não se aprende pelo amor, aprende-se pela dor. Houve um tempo em tínhamos dinossauros por aqui. Haverá um outro tempo em que não teremos mais humanos respirando esse ar?
- Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade
- Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor
- Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas
- Assegurar a generosidade e a beleza da Terra para as atuais e às futuras gerações
- Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial atenção à diversidade biológica e aos processos naturais que sustentam a vida
- Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução
- Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário
- Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover o intercâmbio aberto e aplicação ampla do conhecimento adquirido
- Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental l Garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma equitativa e sustentável
- Afirmar a igualdade e a equidade dos gêneros como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência de saúde e às oportunidades econômicas
- Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, com especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias
- Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e prover transparência e responsabilização no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões e acesso à Justiça
- Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável
- Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração
- Promover uma cultura de tolerância, não-violência e paz
Fonte: site http://www.cartadaterrabrasil.org/
29.8.10
Amiga
Não, amiga, ainda não.
Preciso de mais um chope gelado
para refrescar minha memória
sobre os prazeres da vida.
Tudo tem sido tão amargo.
Quero mudar o rumo desse caminho,
árido como o chão seco do sertão nordestino.
Amiga, o que fazes quando
a chuva molha toda aquela terra rachada
e sua opositora toma conta de cada pedaço,
com pássaros, flores e rios?
Como conter tanta alegria?
Não, amiga, ainda não.
Espera mais um pouco, quietinha,
para que ninguém, nem eu mesma,
perceba tua presença a me espreitar nas esquinas.
Não quero voltar para casa.
Desejo beijos molhados,
cheios de amor e tesão,
em cima da cama ou do gramado do jardim.
Não, amiga, ainda não.
Vou tomar banho de mar,
em plena chuva de verão.
Vou pegar a lua com a língua
e engoli-la de uma só vez
para falar de amor
nos ouvidos daqueles que se sentem solitários
e sonham acordados
com príncipes, princesas e finais felizes.
Não, amiga, ainda não.
Amanhecerei beija-flor
e, a partir de hoje,
não me confinarei nas gaiolas
que inventei para me esconder
das possibilidades de escolhas.
Beijarei todas as flores e
serei todas as cores.
Prometo, amiga,
se me deres mais uma oportunidade,
que serei a liberdade
e percorrerei os lugares livre como o vento,
ora suave, ora forte,
mas sempre inteiro.
Não, amiga, ainda não.
Estou com medo.
Permita-me beber mais um gole,
não mais do chope gelado,
mas da vida que desperdicei e que não vi passar.
A vida, a minha vida, está logo ali.
Não, amiga, ainda não.
Preciso de mais um chope gelado
para refrescar minha memória
sobre os prazeres da vida.
Tudo tem sido tão amargo.
Quero mudar o rumo desse caminho,
árido como o chão seco do sertão nordestino.
Amiga, o que fazes quando
a chuva molha toda aquela terra rachada
e sua opositora toma conta de cada pedaço,
com pássaros, flores e rios?
Como conter tanta alegria?
Não, amiga, ainda não.
Espera mais um pouco, quietinha,
para que ninguém, nem eu mesma,
perceba tua presença a me espreitar nas esquinas.
Não quero voltar para casa.
Desejo beijos molhados,
cheios de amor e tesão,
em cima da cama ou do gramado do jardim.
Não, amiga, ainda não.
Vou tomar banho de mar,
em plena chuva de verão.
Vou pegar a lua com a língua
e engoli-la de uma só vez
para falar de amor
nos ouvidos daqueles que se sentem solitários
e sonham acordados
com príncipes, princesas e finais felizes.
Não, amiga, ainda não.
Amanhecerei beija-flor
e, a partir de hoje,
não me confinarei nas gaiolas
que inventei para me esconder
das possibilidades de escolhas.
Beijarei todas as flores e
serei todas as cores.
Prometo, amiga,
se me deres mais uma oportunidade,
que serei a liberdade
e percorrerei os lugares livre como o vento,
ora suave, ora forte,
mas sempre inteiro.
Não, amiga, ainda não.
Estou com medo.
Permita-me beber mais um gole,
não mais do chope gelado,
mas da vida que desperdicei e que não vi passar.
A vida, a minha vida, está logo ali.
Não, amiga, ainda não.
19.8.10
Estou aderindo ao movimento.
Hoje é dia de bloguinaço!
(texto postado no site http://rededebibliotecascomunitarias.wordpress.com/)
A Rede de Biblioteca Comunitária caiu na rede da internet através de uma rede de parceiros e amigos blogueiros, parece confuso, mas não é, espera que eu vou explicar.
Hoje, 19 de agosto acontece o Bloguinaço, uma iniciativa de vários parceiros e amigos blogueiros de prestarem uma força a Rede de Biblioteca Comunitária da Região Metropolitana na sua campanha “Pra Gostar de Ler é Preciso Bibliotecas Vivas” que tem como meta arrecadar doações em dinheiro para a manutenção e reforma das estruturas das Bibliotecas, compra de livros e equipamentos que poça ser usado na melhoria do atendimento aos freqüentadores das oito Bibliotecas que compõe a Rede.
Essa iniciativa de fazer o Bloguinaço surgiu da parceria entre a Rede de Biblioteca com escritores, jornalistas e blogueiros, uma idéia de Ivan Moraes e de Silvinha Goes de ocupar o espaço democrático da internet, então começou a articulação de vários outros parceiros para juntos fazerem essa grande corrente e grande barulho e foi escolhido esse dia de hoje para simbolizar essa luta fraterna pela democratização da leitura e pelas Bibliotecas Comunitárias, essa idéia acabou chamando a atenção da mídia oficial para a situação que passam esses espaços de acesso a leitura e a cultura, que são muitas vezes os únicos nas comunidades onde elas atuam.
www.interblogs.com.br/homerofonseca/
www.porqueeueumoutro.blogspot.com
www.bodega.blog.br
www.estuario.com.br
www.acertodecontas.blog.br
www.caotico.com.br
www.wellingtondemelo.com.br
www.cezarmaia.com.br
www.pebodycount.com.br
www.locoporti.blog.br
www.rededebibliotecascomunitarias.wordpress.com
bpcoque.wordpress.com
palavraspontes.blogspot.com
www.escritoresetal.com.br
nospos.blogspot.com
http://www.freeporto.wordpress.com
www.quemerospoemas.blogspot.com
Esses são alguns dos blogs que estão fazendo parte do Bloguinaço.
Nós da Rede de Bibliotecas Comunitárias Agradecemos imensamente a todos que estão dando essa força a Campanha, aos escritores, jornalistas, blogueiros, Jornais, TVs, Rádios que abraçaram essa causa, não só a Rede Agradece, como as crianças, jovens e adultos que têm nas Bibliotecas Comunitárias a única opção de ter contato com esse mundo maravilhoso dos livros e da leitura.
Sobre a Campanha quem freqüenta o Blog da Rede Já Sabe, não é?
É só deposite qualquer quantia na:
Caixa Econômica Federal / Conta corrente número: 544-5 / Agência: 2193 / OP: 003
Ou ligar para os números 3244-3325 / 8850-5507
E doar equipamentos em bom estado que possa ser usado em uma biblioteca.
A Rede.
Hoje é dia de bloguinaço!
(texto postado no site http://rededebibliotecascomunitarias.wordpress.com/)
A Rede de Biblioteca Comunitária caiu na rede da internet através de uma rede de parceiros e amigos blogueiros, parece confuso, mas não é, espera que eu vou explicar.
Hoje, 19 de agosto acontece o Bloguinaço, uma iniciativa de vários parceiros e amigos blogueiros de prestarem uma força a Rede de Biblioteca Comunitária da Região Metropolitana na sua campanha “Pra Gostar de Ler é Preciso Bibliotecas Vivas” que tem como meta arrecadar doações em dinheiro para a manutenção e reforma das estruturas das Bibliotecas, compra de livros e equipamentos que poça ser usado na melhoria do atendimento aos freqüentadores das oito Bibliotecas que compõe a Rede.
Essa iniciativa de fazer o Bloguinaço surgiu da parceria entre a Rede de Biblioteca com escritores, jornalistas e blogueiros, uma idéia de Ivan Moraes e de Silvinha Goes de ocupar o espaço democrático da internet, então começou a articulação de vários outros parceiros para juntos fazerem essa grande corrente e grande barulho e foi escolhido esse dia de hoje para simbolizar essa luta fraterna pela democratização da leitura e pelas Bibliotecas Comunitárias, essa idéia acabou chamando a atenção da mídia oficial para a situação que passam esses espaços de acesso a leitura e a cultura, que são muitas vezes os únicos nas comunidades onde elas atuam.
www.interblogs.com.br/homerofonseca/
www.porqueeueumoutro.blogspot.com
www.bodega.blog.br
www.estuario.com.br
www.acertodecontas.blog.br
www.caotico.com.br
www.wellingtondemelo.com.br
www.cezarmaia.com.br
www.pebodycount.com.br
www.locoporti.blog.br
www.rededebibliotecascomunitarias.wordpress.com
bpcoque.wordpress.com
palavraspontes.blogspot.com
www.escritoresetal.com.br
nospos.blogspot.com
http://www.freeporto.wordpress.com
www.quemerospoemas.blogspot.com
Esses são alguns dos blogs que estão fazendo parte do Bloguinaço.
Nós da Rede de Bibliotecas Comunitárias Agradecemos imensamente a todos que estão dando essa força a Campanha, aos escritores, jornalistas, blogueiros, Jornais, TVs, Rádios que abraçaram essa causa, não só a Rede Agradece, como as crianças, jovens e adultos que têm nas Bibliotecas Comunitárias a única opção de ter contato com esse mundo maravilhoso dos livros e da leitura.
Sobre a Campanha quem freqüenta o Blog da Rede Já Sabe, não é?
É só deposite qualquer quantia na:
Caixa Econômica Federal / Conta corrente número: 544-5 / Agência: 2193 / OP: 003
Ou ligar para os números 3244-3325 / 8850-5507
E doar equipamentos em bom estado que possa ser usado em uma biblioteca.
A Rede.
5.7.10
O Sagrado é um tema que tem ocupado muito minha mente e meu coração. Adoro ler deitada na minha cama, tendo como companhia meu cachorro Hércules. Quando o contemplo, completamente entregue a um sono tranquilo, imagino que o Sagrado está ali. E, quando ele me olha, olhos nos olhos, sinto que Deus está me olhando através dele. Noutro dia, estávamos nessa situação de olhos nos olhos, e eu falei:
- Olá, Deus! – dirigindo-me a ele.
Meu irmão ía passando nessa hora e comentou:
- Endoidou de vez. Agora o nome de Hércules é Deus.
Mas é assim que sinto quando encontro o olhar de Hércules, quando vejo o sol nascer, quando a lua torna o mar prateado, quando o coqueiro dança ao vento, quando os pássaros fazem festa no ar, quando o café espalha seu cheiro pelo casa toda, quando abro as portas dos quartos e vejos meus filhotes dormindo lindamente em suas camas, quando escuto a sandália do meu pai pelo corredor, quando beijo na boca meu marido, quando leio, quando escrevo, quando pinto, quando rezo. Acho que Deus é tudo isso e que Ele está sempre nos dando dengo, através das coisas que amamos. Eu, me entrego. Assim.
E por acreditar que tudo, absolutamente tudo, tem espírito, no sentido de uma energia sagrada, chorei muito quando fui visitar o jardim zoológico, que deveria ser chamado de zoo-ilógico, pois o que existe lá é a mais absoluta crueldade. Como podemos admitir situações em que um animal é arrancado de seu habitat natural, separado de sua família e de seus costumes, trancado em uma jaula minúscula, completamente diferente de onde morava, vivendo agora uma vida artificial?! Qual o objetivo disso tudo? Educação ambiental? Belo exemplo estamos dando! O que estamos ensinando para nossas crianças é que o ser humano está acima das leis da natureza, que pode tudo destruir e que o planeta Terra foi criado para ser seu brinquedinho. Absurdo! Chocante!
Fiquei com vergonha de ser humana. Ao olhar, olhos nos olhos, cada um daqueles que lá estavam presos, pedi perdão e revenciei sua força. Havia um cartaz que informava que o chipanzé que lá estava trancado era 99% idêntico, geneticamente, ao ser humano, e, portanto, era muito inteligente e sensível ao barulho, por isso, silêncio. Afinal, ele merecia respeito, pois havia cinquenta anos que lá estava trancafiado. Isso me cortou o coração.
Vi uma onça linda, rosnando para proteger o seu filhote, num cubículo em que ela mal podia se mexer. Vi ursos nadando num tanque numa cena patética. Vi o rei dos animais numa situação humilhante, urrando de saudade, condenado a uma eterna solitária.
Nessas horas rogo pelo Apocalipse. Não precisamos que a Besta venha para fazer o julgamento final. Nós mesmos já construímos nossa condenação e determinamos nossa destruição. Gosto de imaginar a cena das naves espaciais chegando, prendendo nós, humanos, em jaulas e nos levando para seus planetas para que suas crianças aprendam os hábitos e os costumes dos homens, das mulheres e das crianças. Afinal, nas viagens espaciais, os ets precisam aprender, como nós fazemos aqui na Terra nos zoo-ilógicos, como respeitar e conhecer a biodiversidade do universo.
Olho por olho, dente por dente!
Fotos: Roberto Arrais
- Olá, Deus! – dirigindo-me a ele.
Meu irmão ía passando nessa hora e comentou:
- Endoidou de vez. Agora o nome de Hércules é Deus.
Mas é assim que sinto quando encontro o olhar de Hércules, quando vejo o sol nascer, quando a lua torna o mar prateado, quando o coqueiro dança ao vento, quando os pássaros fazem festa no ar, quando o café espalha seu cheiro pelo casa toda, quando abro as portas dos quartos e vejos meus filhotes dormindo lindamente em suas camas, quando escuto a sandália do meu pai pelo corredor, quando beijo na boca meu marido, quando leio, quando escrevo, quando pinto, quando rezo. Acho que Deus é tudo isso e que Ele está sempre nos dando dengo, através das coisas que amamos. Eu, me entrego. Assim.
E por acreditar que tudo, absolutamente tudo, tem espírito, no sentido de uma energia sagrada, chorei muito quando fui visitar o jardim zoológico, que deveria ser chamado de zoo-ilógico, pois o que existe lá é a mais absoluta crueldade. Como podemos admitir situações em que um animal é arrancado de seu habitat natural, separado de sua família e de seus costumes, trancado em uma jaula minúscula, completamente diferente de onde morava, vivendo agora uma vida artificial?! Qual o objetivo disso tudo? Educação ambiental? Belo exemplo estamos dando! O que estamos ensinando para nossas crianças é que o ser humano está acima das leis da natureza, que pode tudo destruir e que o planeta Terra foi criado para ser seu brinquedinho. Absurdo! Chocante!
Fiquei com vergonha de ser humana. Ao olhar, olhos nos olhos, cada um daqueles que lá estavam presos, pedi perdão e revenciei sua força. Havia um cartaz que informava que o chipanzé que lá estava trancado era 99% idêntico, geneticamente, ao ser humano, e, portanto, era muito inteligente e sensível ao barulho, por isso, silêncio. Afinal, ele merecia respeito, pois havia cinquenta anos que lá estava trancafiado. Isso me cortou o coração.
Vi uma onça linda, rosnando para proteger o seu filhote, num cubículo em que ela mal podia se mexer. Vi ursos nadando num tanque numa cena patética. Vi o rei dos animais numa situação humilhante, urrando de saudade, condenado a uma eterna solitária.
Olho por olho, dente por dente!
Fotos: Roberto Arrais
19.6.10
Entrei algumas vezes em um hospício. Uso esta palavra para tentar traduzir como me senti esmagada durante o tempo que passei entre aquelas paredes que escondem os segredos da loucura. Em nenhuma das ocasiões tive experiências fáceis e sei que fiquei mal porque aquela energia mexeu muito com o que ainda tenho de sanidade, arremessando-me para o fio da navalha por onde caminho, tentando equilibrar-me para não passar para o outro lado.
O olhar daquele a quem chamamos de louco é, ao mesmo tempo, profundo e vazio. Desconcertante. Fita-nos sem nos enxergar, preso que está em um mundo só seu. O que o levou para lá? Como tirá-lo de lá? Onde ou o quê é esse lá?
Não foram poucos os momentos em que senti uma vontade imensa de me esconder lá, que não sei exatamente onde fica, porque o cá estava muito, mas muito mesmo, doloroso. Nessas crises, o peito apertava, o raciocínio não seguia lógica alguma, a angústia chegava a um nível intolerável, e, por algo que não conseguia identificar, o surto não vinha e me mantinha presa(?) à realidade.
Mas, que realidade? Lembro que, vinda da área da computação, no meu primeiro dia de aula no curso de Psicologia o professor falou que a realidade não existia. Claro que achei que o cara era o próprio doido. E a vida ensina. Hoje, assino embaixo, assumindo como minha esta afirmação. O que é real? Os sonhos fazem parte dessa dimensão? E os devaneios? E as comunicações com aqueles que já estão no mundo dos mortos? E as viagens através do tempo, onde passado-presente-futuro se apresentam apenas como portas a serem abertas? E as materializações de objetos? Tudo isso pentence ao mundo da loucura?
Quando assisti ao filme Uma Mente Brilhante não consegui sair do cinema assim que terminou a sessão porque estava numa crise de choro enorme. Aquilo foi um soco no meu estômago, ou melhor, no meu cérebro e no meu coração. Para mim, claro estava que o cientista brilhante via espíritos e podia se comunicar com eles. Mas, por tentar ser normal, recusou-se a aceitar os fenômenos que experienciava e para os quais a ciência, seu deus, ainda não explicava, submeteu-se a tratamentos que foram verdadeiras torturas para poder recuperar sua sanidade. Que sanidade? Adoro o conto do mestre Machado de Assis, O Alienista, onde ele brinca com os conceitos de normal e louco. O que se considera normal num tempo presente e numa determinada cultura, pode ser visto como uma loucura completa nessa mesma cultura variando-se apenas a passagem do tempo ou, o que é pior, num mesmo tempo, coisas podem ser vistas como insanas em um lugar e completamente normais em um outro. Quem define os critérios para esta avaliação?
Na última vez que visitei um hospício, ouvi uma voz que berrava, trancada entre as paredes do prédio e presa em seu próprio mundo, uma frase que se repetia como uma melodia alegre:
- Vai sofrer! Vai sofrer! Vai sofrer!
Quem vai sofrer? Ele, o louco, ou nós que nos acreditamos sãos?
O olhar daquele a quem chamamos de louco é, ao mesmo tempo, profundo e vazio. Desconcertante. Fita-nos sem nos enxergar, preso que está em um mundo só seu. O que o levou para lá? Como tirá-lo de lá? Onde ou o quê é esse lá?
Não foram poucos os momentos em que senti uma vontade imensa de me esconder lá, que não sei exatamente onde fica, porque o cá estava muito, mas muito mesmo, doloroso. Nessas crises, o peito apertava, o raciocínio não seguia lógica alguma, a angústia chegava a um nível intolerável, e, por algo que não conseguia identificar, o surto não vinha e me mantinha presa(?) à realidade.
Mas, que realidade? Lembro que, vinda da área da computação, no meu primeiro dia de aula no curso de Psicologia o professor falou que a realidade não existia. Claro que achei que o cara era o próprio doido. E a vida ensina. Hoje, assino embaixo, assumindo como minha esta afirmação. O que é real? Os sonhos fazem parte dessa dimensão? E os devaneios? E as comunicações com aqueles que já estão no mundo dos mortos? E as viagens através do tempo, onde passado-presente-futuro se apresentam apenas como portas a serem abertas? E as materializações de objetos? Tudo isso pentence ao mundo da loucura?
Quando assisti ao filme Uma Mente Brilhante não consegui sair do cinema assim que terminou a sessão porque estava numa crise de choro enorme. Aquilo foi um soco no meu estômago, ou melhor, no meu cérebro e no meu coração. Para mim, claro estava que o cientista brilhante via espíritos e podia se comunicar com eles. Mas, por tentar ser normal, recusou-se a aceitar os fenômenos que experienciava e para os quais a ciência, seu deus, ainda não explicava, submeteu-se a tratamentos que foram verdadeiras torturas para poder recuperar sua sanidade. Que sanidade? Adoro o conto do mestre Machado de Assis, O Alienista, onde ele brinca com os conceitos de normal e louco. O que se considera normal num tempo presente e numa determinada cultura, pode ser visto como uma loucura completa nessa mesma cultura variando-se apenas a passagem do tempo ou, o que é pior, num mesmo tempo, coisas podem ser vistas como insanas em um lugar e completamente normais em um outro. Quem define os critérios para esta avaliação?
Na última vez que visitei um hospício, ouvi uma voz que berrava, trancada entre as paredes do prédio e presa em seu próprio mundo, uma frase que se repetia como uma melodia alegre:
- Vai sofrer! Vai sofrer! Vai sofrer!
Quem vai sofrer? Ele, o louco, ou nós que nos acreditamos sãos?
17.6.10
Ainda sobre o filme Cartas para Julieta, há uma cena em que ela encontra um dos possíveis amados, olha-o bem dentro dos olhos e diz que aquele não é o homem que procura. Os que a acompanham lhe perguntam como sabe e ela responde que aquele não é o olhar que guardou em seu coração por cinquenta anos.
Em uma outra cena, os dois amantes se encontram pela primeira vez e a cena é lindíssima, de uma delicadeza enorme, quando os dois se fixam apenas no olhar. Belo, belo!
Emocionei-me com esses detalhes sutis do filme, pois já vivi momentos semelhantes, quando a boca emudecia, o corpo não podia falar o que sentia o coração, mas os olhos, ah! os olhos, estes revelavam todos os segredos que eu teimava em guardar.
Lembrei-me da música de Nana Caymmi que diz:
“Se queres saber
Se eu te amo ainda
Procura entender
A minha mágoa infinda
Olha bem nos meus olhos
Quando eu falo contigo
E vê quanta coisa
Eles dizem que eu não digo
O olhar de quem ama diz
O que o coração não quer
Nunca mais eu serei feliz
Enquanto vida eu tiver”
Os olhos, para sempre, a janela da alma.
Em uma outra cena, os dois amantes se encontram pela primeira vez e a cena é lindíssima, de uma delicadeza enorme, quando os dois se fixam apenas no olhar. Belo, belo!
Emocionei-me com esses detalhes sutis do filme, pois já vivi momentos semelhantes, quando a boca emudecia, o corpo não podia falar o que sentia o coração, mas os olhos, ah! os olhos, estes revelavam todos os segredos que eu teimava em guardar.
Lembrei-me da música de Nana Caymmi que diz:
“Se queres saber
Se eu te amo ainda
Procura entender
A minha mágoa infinda
Olha bem nos meus olhos
Quando eu falo contigo
E vê quanta coisa
Eles dizem que eu não digo
O olhar de quem ama diz
O que o coração não quer
Nunca mais eu serei feliz
Enquanto vida eu tiver”
Os olhos, para sempre, a janela da alma.
16.6.10
Acabei de chegar do filme Cartas para Julieta. Pensei que seria mais uma história romântica, tipo água com açúcar, que adoro. Mas o filme tocou em pontos que me são caros.
Um amor da adolescência pode seguir pela vida afora, guardado no coração, e, depois de 50 anos re-surgir com força total e possibilitar o encontro por toda a vida dos amantes separados por tanto tempo?
Atá quando a vida esperará, pacientemente, que acordemos do estado de dormência e alienação que nos colocamos para nos escondermos de nossos próprios sonhos?
Como sabermos que aquele amor, que pensamos perfeito, não poderá ser levado adiante porque o nosso suposto amado não nos enxerga de verdade, não conhece os segredos que guardamos em nossas almas?
O que precisa acontecer para que vivamos a verdadeira vida que temos que experienciar aqui na Terra? Como descobrir qual o caminho a ser seguido nesta jornada?
Tive um amor, um grande amor, na adolescência e o guardo até hoje num lugar muito especial do meu coração. Não o vejo há quase trinta anos, apesar de morarmos na mesma cidade. Hoje, vivo plena e feliz ao lado de um outro amor e rogo para que ele também esteja bem. Ainda gostaria de encontrá-lo, conversar sobre os caminhos que trilhamos e sobre o que aprendemos durante todo este tempo. Quem sabe se a vida não me trará este presente?!
Desde a infância que sou louca, completamente apaixonada, por livros. Adoro o cheiro, a textura, a aventura e o mistério prontos para serem revelados a partir do meu encontro com eles. Tenho ainda minha máquina de escrever laranja e a guardo num lugar de honra da minha casa. Entro em transe quando me deito para ler, enrolada em lençóis e travesseiros. Se estiver na rede da casa da praia, então, fico em dúvida se estou na Terra ou no Paraíso. Em todos os cantinhos que habito há livros espalhados por todo lado. Mas, o que me impede de ser escritora, de viver para a escrita? Já publiquei livro infantil, já participei de coletâneas, porém, não tenho uma rotina de escritora. Trabalho em consultório, cuido da família e das muitas casas que possuo, e, quando vejo mais uma semana se foi e não coloquei no meu cotidiano a escritora que mora em mim e que está presa, acorrentada em algum cômodo escuro de minha alma.
Quando era uma mulher das ciências exatas e desejei ser psi, fui fazer faculdade de Psicologia. Mas para ser escritora não há uma universidade. Posso até fazer alguns cursos, oficinas, participar de grupo, ler livros que discutem o ofício. Porém, as palavras têm que vir lá de dentro. Ninguém pode fazer esse trabalho por minhas mãos. Fui buscar na criança qua habita em mim as respostas para essas perguntas. Descobri que durante muito tempo ela foi a boazinha, a que fazia tudo para agradar as outras pessoas, a que ouvia as amigas, a que dava conselhos. Esta sua postura perante a vida, fazia com que não tivesse voz, não expressasse seus desejos, seus sonhos e medos, pois funcionava para os outros apenas como um objeto de projeção das necessidades desses outros, que não se importavam com o que sentia e pensava de verdade. Fora destinada ao silêncio. E ela, a criança, continuava lá, quieta, calada, com medo de se expor e ser rejeitada. Descobri que precisava libertar essa criança, que precisava fazer-lhe gritar seus sentimentos. Ainda não sei direito como fazer, trato-a com carinho e a conduzo com cuidado para a luz, pois sei de sua fragilidade. Pensei, então, que também poderia aprender com a que ainda serei. Só que nesse caso a situação é um pouco mais complexa, pois a que serei só habita o mundo das possibilidades e, portanto, não há uma única e, sim, tantas quantas possibilidades existirem. Resolvi conversar com a escritora. Amei-a logo de cara. Feliz, livre, com um cotidiano que adorarei viver. Lê e escreve diariamente, tendo seu cachorro como companhia. Não gosta muita de participar de feiras, concursos e lançamentos, mas conta com uma equipe que há apóia nessas situações. Mora numa casinha linda, bem pertinho da mata. Isto durante uns dias na semana, porque em outros se refugia na praia e toma deliciosos banhos de mar. Medita, caminha, pinta, cozinha, costura, cuida do jardim. Irradia uma enorme alegria. Também conheci a outra que serei, aquela que não teve a coragem de dar o salto e se tornar escritora. Vive bem, até. Mas nos seus olhos há um quê de saudade, de tristeza, de fracasso, por não ter manifestado aqui tudo que poderia ter feito. Vai levando a vida. Esta última me olhou e me perguntou:
- Por que você me traiu? Por que me condenou a uma vida sem significado?
Saí desse encontro arrasada e descobri que se não me tornasse uma escritora arruinaria a vida que tenho. Voltei para aquela feliz e perguntei o que teria que fazer para escolher o caminho certo, para seguir minha vocação, para escutar o chamado:
- Comprometa-se. Se esse é o sonho da sua vida, se é para isso que você nasceu, o quanto de si você está dedicando a este projeto? Quanto vale a sua verdadeira vida? Pense nisso e distribua o seu tempo de acordo com sua resposta. Foi exatamente assim que fiz e hoje sou plena.
Voltei novamente para o aqui e agora e agradeci a sabedoria da que serei.
Fiquei pensando em como o Universo tem seus próprios métodos para nos despertar para a nossa Verdade, pois usou um filme inocente e provocou em mim uma completa noite de encontros. Até que não estou tão perdida assim, pois no que se refere ao amor, não tive medo de mostrar o novo amor que surgiu em meu coração e me despi completamente. Deu certo. Estou feliz, muito feliz. Agora sei que meu próximo desafio será Doida? Feliz!, o título do livro que logo, logo, vocês encontrarão nas livrarias.
Um amor da adolescência pode seguir pela vida afora, guardado no coração, e, depois de 50 anos re-surgir com força total e possibilitar o encontro por toda a vida dos amantes separados por tanto tempo?
Atá quando a vida esperará, pacientemente, que acordemos do estado de dormência e alienação que nos colocamos para nos escondermos de nossos próprios sonhos?
Como sabermos que aquele amor, que pensamos perfeito, não poderá ser levado adiante porque o nosso suposto amado não nos enxerga de verdade, não conhece os segredos que guardamos em nossas almas?
O que precisa acontecer para que vivamos a verdadeira vida que temos que experienciar aqui na Terra? Como descobrir qual o caminho a ser seguido nesta jornada?
Tive um amor, um grande amor, na adolescência e o guardo até hoje num lugar muito especial do meu coração. Não o vejo há quase trinta anos, apesar de morarmos na mesma cidade. Hoje, vivo plena e feliz ao lado de um outro amor e rogo para que ele também esteja bem. Ainda gostaria de encontrá-lo, conversar sobre os caminhos que trilhamos e sobre o que aprendemos durante todo este tempo. Quem sabe se a vida não me trará este presente?!
Desde a infância que sou louca, completamente apaixonada, por livros. Adoro o cheiro, a textura, a aventura e o mistério prontos para serem revelados a partir do meu encontro com eles. Tenho ainda minha máquina de escrever laranja e a guardo num lugar de honra da minha casa. Entro em transe quando me deito para ler, enrolada em lençóis e travesseiros. Se estiver na rede da casa da praia, então, fico em dúvida se estou na Terra ou no Paraíso. Em todos os cantinhos que habito há livros espalhados por todo lado. Mas, o que me impede de ser escritora, de viver para a escrita? Já publiquei livro infantil, já participei de coletâneas, porém, não tenho uma rotina de escritora. Trabalho em consultório, cuido da família e das muitas casas que possuo, e, quando vejo mais uma semana se foi e não coloquei no meu cotidiano a escritora que mora em mim e que está presa, acorrentada em algum cômodo escuro de minha alma.
Quando era uma mulher das ciências exatas e desejei ser psi, fui fazer faculdade de Psicologia. Mas para ser escritora não há uma universidade. Posso até fazer alguns cursos, oficinas, participar de grupo, ler livros que discutem o ofício. Porém, as palavras têm que vir lá de dentro. Ninguém pode fazer esse trabalho por minhas mãos. Fui buscar na criança qua habita em mim as respostas para essas perguntas. Descobri que durante muito tempo ela foi a boazinha, a que fazia tudo para agradar as outras pessoas, a que ouvia as amigas, a que dava conselhos. Esta sua postura perante a vida, fazia com que não tivesse voz, não expressasse seus desejos, seus sonhos e medos, pois funcionava para os outros apenas como um objeto de projeção das necessidades desses outros, que não se importavam com o que sentia e pensava de verdade. Fora destinada ao silêncio. E ela, a criança, continuava lá, quieta, calada, com medo de se expor e ser rejeitada. Descobri que precisava libertar essa criança, que precisava fazer-lhe gritar seus sentimentos. Ainda não sei direito como fazer, trato-a com carinho e a conduzo com cuidado para a luz, pois sei de sua fragilidade. Pensei, então, que também poderia aprender com a que ainda serei. Só que nesse caso a situação é um pouco mais complexa, pois a que serei só habita o mundo das possibilidades e, portanto, não há uma única e, sim, tantas quantas possibilidades existirem. Resolvi conversar com a escritora. Amei-a logo de cara. Feliz, livre, com um cotidiano que adorarei viver. Lê e escreve diariamente, tendo seu cachorro como companhia. Não gosta muita de participar de feiras, concursos e lançamentos, mas conta com uma equipe que há apóia nessas situações. Mora numa casinha linda, bem pertinho da mata. Isto durante uns dias na semana, porque em outros se refugia na praia e toma deliciosos banhos de mar. Medita, caminha, pinta, cozinha, costura, cuida do jardim. Irradia uma enorme alegria. Também conheci a outra que serei, aquela que não teve a coragem de dar o salto e se tornar escritora. Vive bem, até. Mas nos seus olhos há um quê de saudade, de tristeza, de fracasso, por não ter manifestado aqui tudo que poderia ter feito. Vai levando a vida. Esta última me olhou e me perguntou:
- Por que você me traiu? Por que me condenou a uma vida sem significado?
Saí desse encontro arrasada e descobri que se não me tornasse uma escritora arruinaria a vida que tenho. Voltei para aquela feliz e perguntei o que teria que fazer para escolher o caminho certo, para seguir minha vocação, para escutar o chamado:
- Comprometa-se. Se esse é o sonho da sua vida, se é para isso que você nasceu, o quanto de si você está dedicando a este projeto? Quanto vale a sua verdadeira vida? Pense nisso e distribua o seu tempo de acordo com sua resposta. Foi exatamente assim que fiz e hoje sou plena.
Voltei novamente para o aqui e agora e agradeci a sabedoria da que serei.
Fiquei pensando em como o Universo tem seus próprios métodos para nos despertar para a nossa Verdade, pois usou um filme inocente e provocou em mim uma completa noite de encontros. Até que não estou tão perdida assim, pois no que se refere ao amor, não tive medo de mostrar o novo amor que surgiu em meu coração e me despi completamente. Deu certo. Estou feliz, muito feliz. Agora sei que meu próximo desafio será Doida? Feliz!, o título do livro que logo, logo, vocês encontrarão nas livrarias.
14.6.10
Por que a vida só se dá para quem se deu...
- E aí, como foram as comemorações do Dia dos Namorados?
Perguntei no meio do nosso sagrado almoço das segundas. Minhas amigas sorriram. Algumas, de alegria; outras, aquele sorriso amargo que revela decepção e tristeza.
- Ah! O Carlos me levou para um final de semana no Rio. Fantástico! – comentou Marisa.
Como a conheço bem, senti que havia um quê de solidão em sua voz.
- Mas como foi a noite romântica? Dançaram? Tomaram vinho? – perguntou Manuela.
Os olhos de Marisa, marejados de lágrimas, focaram e chão e ela respondeu:
- Na verdade, o Rio estava lindo, como sempre, mas a viagem foi cheia de shopping, cerveja, tv ligada nos jogos da Copa, encontros com amigos cariocas. Ele nem notou minha camisola nova e sensual.
As mulheres trocaram entre si aquele olhar que, sem uma palavra, traduz a compreensão de tudo que se sente. A grande maioria já havia passado por algo semelhante e se solidarizava com a amiga, tentando enviar a mensagem ‘homem é tudo igual’.
Mariana, na tentativa de quebrar o clima pesado, foi logo contando:
- Reunimos uns amigos lá em casa e fizemos um jantarzinho. Foi super legal! Dançamos até quatro horas da manhã. E, vocês não vão acreditar, André dançou brega!!!!!!!
Gargalhadas. Impossível imaginar aquele homem culto, fino, inteligente, apreciador da boa música, dançando aquilo outro que alguns têm a coragem de chamar de música. O que o amor não faz.
- E você, Manu, como foi o seu encontro romântico? – perguntou Marisa, já controlando novamente as emoções.
- O básico de sempre. Augusto passou lá em casa. Trocamos presentes: dei para ele uma camisa de marca e ele me deu um relógio podre de chique. Elogiou meu cabelo, ainda bem porque passei a tarde toda dando surra de escova nele. Saímos para jantar num restaurante famoso. A fila estava enorme e esperamos tomando uns aperitivos. Comemos um camarão delicioso, tomamos um bom vinho e fomos namorar numa suíte linda do Laranja. Claro que também tivemos que enfrentar aquela fila básica de motel em dia de comemorações. Mas valeu a pena! Passei o domingo acabada de tão cansada que fiquei. – revelou-nos com aquele tom picante que só as mulheres sabem dar a umas simples palavrinhas e que fazem toda a diferença.
- Mas, apesar de tudo ter saído conforme o script, algo me incomodou e não sei dizer o que foi. – complementou Manu.
- Você tá reclamando de barriga cheia – emendou Gui – porque fiquei a noite sozinha, tentando me concentrar nos filmes que passavam no sábado à noite na tv. Fiz o possível e o impossível para não lembrar que estava sozinha, mais uma vez, no dia consagrado ao amor. Claro que vocês podem dizer que esta data é uma data comercial e que isso não importa de verdade. Mas, continuo só. Saio, beijo, fico, mas é só auê, sem envolvimento emocional, essa é a regra do jogo nas noites da cidade. Muito barulho, muita luz, muita bebida, vale tudo para esquecer o vazio que há dentro do coração de todo mundo ali. As mulheres, atrás de maridos; os homens, querendo encontros sexuais. Um saco esses desencontros.
Um longo silêncio no grupo.
- Gui, suas observações são verdadeiras, mas isso não significa que as mulheres que estejam acompanhadas ou que tenham maridos estejam felizes. Tiro por mim. Sinto tanta superficialidade na minha relação com Augusto. Falamos sobre o que acontece no mundo, mas não falamos sobre nossos medos, sobre nossos sonhos. Talvez porque a gente quer se proteger ou, talvez, porque a gente nem sabe o que tem dentro mesmo. – ponderou Manu.
Outro silêncio.
Acredito que esses silêncios gritam o que nossos corações sentem. Fiquei pensando no que minhas amigas queridas tinham falado. Bateu uma tristeza. Como nos contentamos com pouco em nossas relações amorosas e vamos empurrando a vida com a barriga, esperando que ali, logo depois da esquina do tempo, algo aconteça e encha nossas vidas de luz, dando-nos um sentido e uma direção.
- E por que é que vocês continuam vivendo do mesmo jeito, reclamando da vida que levam e acomodadas nessa realidade? Por que não chutam o pau da barraca e buscam novas histórias para serem vividas? – perguntei.
Olhos arregalados, tipo, surtou?!!!
- É.., por que, no lugar de viverem a vida de vocês como se estivessem sendo leitoras, não mudam de lugar e se tornam escritoras, autoras, de suas próprias vidas? Claro que há riscos, que isso implica em responsabilidade, mas, como já li em algum lugar, ‘o direito à liberdade não se mendiga; se conquista’. Quantos dias ainda teremos de vida? Quem aqui sabe quando nossa amiga morte irá chegar? Só temos o dia de hoje para vivermos a vida como um presente!! – continuei, apesar de saber que elas não me viam como a pessoa mais indicada para dar conselhos sobre a vida amorosa, pois já estou no meu terceiro casamento.
- Para você é fácil estar sempre correndo atrás do que deseja, apesar desse desejo mudar a cada novo dia. Já tem o carimbo de doidinha mesmo. Além disso, você tem a segurança financeira de uma pensão do seu pai. Os seus filhos já estão encaminhados na vida. E, para que buscarmos novas relações, se todas elas sempre trazem problemas? Você mesma já trocou de marido várias vezes e sempre teve reclamações deles também. – respondeu Marisa.
- Não estou falando só de casamento, amores. Estou falando da vida, das nossas vidas. Quais eram os sonhos que sonhávamos na infância, na adolescência, quando ainda éramos livres para ver a vida como uma estrada cheia de possibilidades? Onde estão estes sonhos? Quem tirou a nossa liberdade de ser? Ou, pra ficar mais forte a pergunta: quem nos roubou de nós mesmas?, imitando o título de um livro que vi. Não consigo acreditar que nos transformamos em mulheres covardes, acomodadas em gaiolas douradas e, o que é pior, com as portas abertas, sem coragem para sair e voar!!
Os olhos, agora, focaram o chão. Ou melhor, tentaram enxergar o que batia dentro do peito.
- Vocês mesmas falaram que já passei por vários casamentos. É verdade. Todas aqui acompanharam as minhas dores e o meu sofrimento a cada fim e a minha alegria e a minha esperança a cada novo começo. Não consigo viver sem acreditar que há algo combinado entre mim e o Sagrado e que como condição básica dessa combinação prévia está a felicidade. Eu é que muitas vezes não consegui decifrar logo as mensagens enviadas para mim. Mas sempre me entreguei ao desconhecido e confiei que havia um propósito para cada coisa que acontecia em minha vida. Hoje vivo uma história mágica, tanto no amor como na profissão, e vocês sabem o quanto me ralei e me machuquei antes de merecer este conto de fadas.
Sorrisos de confirmação. Mariana, sorrindo agora marotamente, comentou:
- Mas não se acha um homem como o seu em qualquer esquina. Nem irmão gêmeo ele tem!.
Agora quem riu fui eu.
- Nada disso. Você mesma achou um melhor. Perfeito, para você.
Mari deu uma gargalhada porque agora vivia dizendo que estava com o homem mais lindo do mundo.
- Só que não acredito que foi assim comigo. Acho que primeiro aconteceu em mim uma transformação, tornei-me uma pessoa melhor, ou ainda, como sempre gosto de falar, cuidei do meu jardim e a linda borboleta veio beijar minhas flores. Vibrando numa energia mais sutil, atraí uma pessoa que também vibra na mesma frequência. Quando vocês estavam contando as comemorações do Dia dos Namorados, fiquei pensando que já vivi muitas iguais as que relataram e que também senti vazio e solidão depois dos jantares e motéis. Mas, aprendi com o meu amor, que há encontros que não podem ser desencontrados porque tudo se encaixa - corpos, sonhos, projetos, medos, bocas, coxas, para não falar daquele resto maravilhoso.
- Ih! Já vi que este Dia dos Namorados foi o máximo. – falou Manu.
- Foi mesmo. Simples, como é o Divino, e perfeito. Acordamos cedo e li para ele, aquele poema de Pessoa que adoro e que diz que a vida toda a gente foi preparado para o encontro e amou um ao outro desde o início, antes mesmo daquele instante em que os olhos se encontraram. Depois ele me deu uma caixa linda, com calcinhas, meia e uma camisola maravilhosa. Sempre sonhei com um presente assim. A camisola é sensual, delicada, romântica, erótica. E o melhor foi o cartão que escreveu, falando coisas especiais. Não tivemos nada de extraordinário, mas o essencial para nós dois. Chorei tanto de felicidade. E, confesso, que entre lágrimas, agradeci à Deusa o presente que é o meu presente.
Lágrimas de alegria nos olhos de minhas amigas.
- Lembram como já sofri preparando comemorações que não foram valorizadas pelos meus amados à época? Não desisti e hoje estou plena. Os sonhos de vocês são únicos, diferentes dos meus, com certeza. Se insisto nessa história de vocês correrem atrás dos sonhos e dos príncipes encantados, é porque desejo que encontrem e realizem seus desejos. Aconteceu comigo, por que não irá acontecer com vocês?
Lágrimas de esperança nos olhos de minhas amigas.
Perguntei no meio do nosso sagrado almoço das segundas. Minhas amigas sorriram. Algumas, de alegria; outras, aquele sorriso amargo que revela decepção e tristeza.
- Ah! O Carlos me levou para um final de semana no Rio. Fantástico! – comentou Marisa.
Como a conheço bem, senti que havia um quê de solidão em sua voz.
- Mas como foi a noite romântica? Dançaram? Tomaram vinho? – perguntou Manuela.
Os olhos de Marisa, marejados de lágrimas, focaram e chão e ela respondeu:
- Na verdade, o Rio estava lindo, como sempre, mas a viagem foi cheia de shopping, cerveja, tv ligada nos jogos da Copa, encontros com amigos cariocas. Ele nem notou minha camisola nova e sensual.
As mulheres trocaram entre si aquele olhar que, sem uma palavra, traduz a compreensão de tudo que se sente. A grande maioria já havia passado por algo semelhante e se solidarizava com a amiga, tentando enviar a mensagem ‘homem é tudo igual’.
Mariana, na tentativa de quebrar o clima pesado, foi logo contando:
- Reunimos uns amigos lá em casa e fizemos um jantarzinho. Foi super legal! Dançamos até quatro horas da manhã. E, vocês não vão acreditar, André dançou brega!!!!!!!
Gargalhadas. Impossível imaginar aquele homem culto, fino, inteligente, apreciador da boa música, dançando aquilo outro que alguns têm a coragem de chamar de música. O que o amor não faz.
- E você, Manu, como foi o seu encontro romântico? – perguntou Marisa, já controlando novamente as emoções.
- O básico de sempre. Augusto passou lá em casa. Trocamos presentes: dei para ele uma camisa de marca e ele me deu um relógio podre de chique. Elogiou meu cabelo, ainda bem porque passei a tarde toda dando surra de escova nele. Saímos para jantar num restaurante famoso. A fila estava enorme e esperamos tomando uns aperitivos. Comemos um camarão delicioso, tomamos um bom vinho e fomos namorar numa suíte linda do Laranja. Claro que também tivemos que enfrentar aquela fila básica de motel em dia de comemorações. Mas valeu a pena! Passei o domingo acabada de tão cansada que fiquei. – revelou-nos com aquele tom picante que só as mulheres sabem dar a umas simples palavrinhas e que fazem toda a diferença.
- Mas, apesar de tudo ter saído conforme o script, algo me incomodou e não sei dizer o que foi. – complementou Manu.
- Você tá reclamando de barriga cheia – emendou Gui – porque fiquei a noite sozinha, tentando me concentrar nos filmes que passavam no sábado à noite na tv. Fiz o possível e o impossível para não lembrar que estava sozinha, mais uma vez, no dia consagrado ao amor. Claro que vocês podem dizer que esta data é uma data comercial e que isso não importa de verdade. Mas, continuo só. Saio, beijo, fico, mas é só auê, sem envolvimento emocional, essa é a regra do jogo nas noites da cidade. Muito barulho, muita luz, muita bebida, vale tudo para esquecer o vazio que há dentro do coração de todo mundo ali. As mulheres, atrás de maridos; os homens, querendo encontros sexuais. Um saco esses desencontros.
Um longo silêncio no grupo.
- Gui, suas observações são verdadeiras, mas isso não significa que as mulheres que estejam acompanhadas ou que tenham maridos estejam felizes. Tiro por mim. Sinto tanta superficialidade na minha relação com Augusto. Falamos sobre o que acontece no mundo, mas não falamos sobre nossos medos, sobre nossos sonhos. Talvez porque a gente quer se proteger ou, talvez, porque a gente nem sabe o que tem dentro mesmo. – ponderou Manu.
Outro silêncio.
Acredito que esses silêncios gritam o que nossos corações sentem. Fiquei pensando no que minhas amigas queridas tinham falado. Bateu uma tristeza. Como nos contentamos com pouco em nossas relações amorosas e vamos empurrando a vida com a barriga, esperando que ali, logo depois da esquina do tempo, algo aconteça e encha nossas vidas de luz, dando-nos um sentido e uma direção.
- E por que é que vocês continuam vivendo do mesmo jeito, reclamando da vida que levam e acomodadas nessa realidade? Por que não chutam o pau da barraca e buscam novas histórias para serem vividas? – perguntei.
Olhos arregalados, tipo, surtou?!!!
- É.., por que, no lugar de viverem a vida de vocês como se estivessem sendo leitoras, não mudam de lugar e se tornam escritoras, autoras, de suas próprias vidas? Claro que há riscos, que isso implica em responsabilidade, mas, como já li em algum lugar, ‘o direito à liberdade não se mendiga; se conquista’. Quantos dias ainda teremos de vida? Quem aqui sabe quando nossa amiga morte irá chegar? Só temos o dia de hoje para vivermos a vida como um presente!! – continuei, apesar de saber que elas não me viam como a pessoa mais indicada para dar conselhos sobre a vida amorosa, pois já estou no meu terceiro casamento.
- Para você é fácil estar sempre correndo atrás do que deseja, apesar desse desejo mudar a cada novo dia. Já tem o carimbo de doidinha mesmo. Além disso, você tem a segurança financeira de uma pensão do seu pai. Os seus filhos já estão encaminhados na vida. E, para que buscarmos novas relações, se todas elas sempre trazem problemas? Você mesma já trocou de marido várias vezes e sempre teve reclamações deles também. – respondeu Marisa.
- Não estou falando só de casamento, amores. Estou falando da vida, das nossas vidas. Quais eram os sonhos que sonhávamos na infância, na adolescência, quando ainda éramos livres para ver a vida como uma estrada cheia de possibilidades? Onde estão estes sonhos? Quem tirou a nossa liberdade de ser? Ou, pra ficar mais forte a pergunta: quem nos roubou de nós mesmas?, imitando o título de um livro que vi. Não consigo acreditar que nos transformamos em mulheres covardes, acomodadas em gaiolas douradas e, o que é pior, com as portas abertas, sem coragem para sair e voar!!
Os olhos, agora, focaram o chão. Ou melhor, tentaram enxergar o que batia dentro do peito.
- Vocês mesmas falaram que já passei por vários casamentos. É verdade. Todas aqui acompanharam as minhas dores e o meu sofrimento a cada fim e a minha alegria e a minha esperança a cada novo começo. Não consigo viver sem acreditar que há algo combinado entre mim e o Sagrado e que como condição básica dessa combinação prévia está a felicidade. Eu é que muitas vezes não consegui decifrar logo as mensagens enviadas para mim. Mas sempre me entreguei ao desconhecido e confiei que havia um propósito para cada coisa que acontecia em minha vida. Hoje vivo uma história mágica, tanto no amor como na profissão, e vocês sabem o quanto me ralei e me machuquei antes de merecer este conto de fadas.
Sorrisos de confirmação. Mariana, sorrindo agora marotamente, comentou:
- Mas não se acha um homem como o seu em qualquer esquina. Nem irmão gêmeo ele tem!.
Agora quem riu fui eu.
- Nada disso. Você mesma achou um melhor. Perfeito, para você.
Mari deu uma gargalhada porque agora vivia dizendo que estava com o homem mais lindo do mundo.
- Só que não acredito que foi assim comigo. Acho que primeiro aconteceu em mim uma transformação, tornei-me uma pessoa melhor, ou ainda, como sempre gosto de falar, cuidei do meu jardim e a linda borboleta veio beijar minhas flores. Vibrando numa energia mais sutil, atraí uma pessoa que também vibra na mesma frequência. Quando vocês estavam contando as comemorações do Dia dos Namorados, fiquei pensando que já vivi muitas iguais as que relataram e que também senti vazio e solidão depois dos jantares e motéis. Mas, aprendi com o meu amor, que há encontros que não podem ser desencontrados porque tudo se encaixa - corpos, sonhos, projetos, medos, bocas, coxas, para não falar daquele resto maravilhoso.
- Ih! Já vi que este Dia dos Namorados foi o máximo. – falou Manu.
- Foi mesmo. Simples, como é o Divino, e perfeito. Acordamos cedo e li para ele, aquele poema de Pessoa que adoro e que diz que a vida toda a gente foi preparado para o encontro e amou um ao outro desde o início, antes mesmo daquele instante em que os olhos se encontraram. Depois ele me deu uma caixa linda, com calcinhas, meia e uma camisola maravilhosa. Sempre sonhei com um presente assim. A camisola é sensual, delicada, romântica, erótica. E o melhor foi o cartão que escreveu, falando coisas especiais. Não tivemos nada de extraordinário, mas o essencial para nós dois. Chorei tanto de felicidade. E, confesso, que entre lágrimas, agradeci à Deusa o presente que é o meu presente.
Lágrimas de alegria nos olhos de minhas amigas.
- Lembram como já sofri preparando comemorações que não foram valorizadas pelos meus amados à época? Não desisti e hoje estou plena. Os sonhos de vocês são únicos, diferentes dos meus, com certeza. Se insisto nessa história de vocês correrem atrás dos sonhos e dos príncipes encantados, é porque desejo que encontrem e realizem seus desejos. Aconteceu comigo, por que não irá acontecer com vocês?
Lágrimas de esperança nos olhos de minhas amigas.
26.5.10















Tinha passado um final de semana mole, com febre, dor de cabeça e dor de barriga. Havia interrompido o trabalho no consultório porque o corpo já não obedecia as minhas ordens de resistência. Resolvi seguir o conselho que sempre dou a minhas clientes, o corpo fala, e me aquietei. Não muito, é verdade, porque meu irmão chegou com o filho para se prepararem para uma cirurgia. Na hora do almoço meu marido chegou e avisou que iríamos viajar no dia seguinte, logo cedinho, para São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Apesar da moleza, fiquei feliz porque fazia muito tempo que não visitava estas cidades. Era uma viagem a trabalho, mas poderia estar com ele e visitar lugares importantes para nós dois. Quando chegou à noite e viu minhas roupas arrumadas sobre a cama, prontas para irem para a mala, disse:
- Olha, não conseguimos reservar hotel em São Paulo, vamos ter uma reunião logo cedo e teremos que ir direto do aeroporto, pegando metrô e ônibus. É melhor levar só uma mochila nas costas. Vai ficar mais fácil para a gente andar lá.
Fiquei sem acreditar no que estava ouvindo. Como assim, uma mochila? Onde iria colocar meus casacos, minhas botas, meus cremes e perfumes? Metrô? Não tem mais táxi em São Paulo? Depois do susto, respirei fundo e percebi que essa não seria apenas mais uma viagem, mas a viagem e que eu aprenderia muito nela. Coloquei pouquíssima coisa na mochila e me preparei para a aventura.
Acordamos de madrugada, pegamos o avião e chegamos em São Paulo. Informações no balcão para turistas, reservamos uma pousadinha bem simples, pegamos um ônibus, pegamos o metrô, andamos e, finalmente, uma cama. Sonho meu. Só deixamos as mochilas e seguimos para a reunião, no Jardim Botânico, claro que de ônibus e metrô. O lugar é lindo e a máquina fotográfica trabalhou um bocado. Na volta, mais ônibus, metrô e um café-almoço-jantar numa padaria perto da nossa morada temporária. Lavei o rosto na pia dentro do box do chuveiro e cai na cama como uma pedra.
No outro dia, mais reunião, mais metrô, mais ônibus e... muito encantamento. O encontro foi na Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo e lá encontrei uma fada, uma deusa, um ser iluminado. A proposta da Secretraia é baseada na Carta da Terra, numa cultura de paz. Ficamos em êxtase, pois é exatamente nessa concepção de mundo que acreditamos. Também fomos ao Ibirapuera e conhecemos ‘Bom dia, Cempre!’.
Novo avião e estávamos no Rio. Táxi para o hotelzinho simples, localizado na Glória. Já era noite quando chegamos e quase desmaiei quando o carro foi se aproximando do local em que iríamos ficar: só havia, bundas, peitos e travestis. O motorista do táxi foi logo dizendo que ali não era muito bom e tal. Luzes piscando no hotel. Pensei: reservaram um puteiro. Para completar, havia um estrangeiro com uma mulata linda, sem bagagem, dando entrada no hall do hotel. Tive a certeza que estávamos num prostíbulo. Como já havíamos pago um pedaço das diárias, tivemos que ficar. Relaxei e gozei. Dessa vez a pia não era dentro do box, mas ganhava no quesito tamanho: era a menor já vista. Tomamos banho e aproveitamos. No outro dia, quando saímos a pé ao encontro da Biblioteca Nacional, percebemos muitos mascates vendendo coisas usadas em panos estendidos no chão. Achei aquilo surreal. Andamos um pouco e chegamos ao meu santuário. Entrei num transe mágico e me emocionei tanto que não consegui conter as lágrimas. Era tudo lindo demais. Um local sagrado. Não podemos ficar por muito tempo porque as reuniões nos esperavam. Fomos para uma, para outra, para outra e finalmente chegamos na do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Convidei Clarice, a Lispector, claro, para entrar comigo e me falar como circulava por aquelas palmeiras e como o silêncio daquele lugar mágico a inspirava a escrever. Sentamos para um café, nós três, eu, meu marido e Clarice. A máquina fotográfica também começou a trabalhar muito, registrando toda aquela imensa beleza. Circulamos num carrinho elétrico, muito bem conduzido pela responsável pelo lugar, e fomos conhecer o espaço dedicado a Tom Jobim. Sem palavras, como disse nosso educadíssimo diretor.
A gripe me pegou com jeito e tive dificuldades para usufruir da energia da Cidade Maravilhosa. Fomos de metrô para Ipanema e saímos andando até o Leblon. Encontramos parques, uma banca de revista que só vendia artigos antigos, um sebo que é a sede da Estante Virtual, e, finalmente, a Letras e Expresões, paixão de minha filha, mas que estava em reforma. Tomamos um chope no calçadão e fomos almoçar no restaurante Lamas, frequentado por meu marido na sua época de militância na clandestinidade. Agora, quem se emocionou foi ele. Mais um momento que eu não perderia por nada no mundo. Bondinho de Santa Tereza, Arcos da Lapa, Festa Literária, cheia de chope, samba, livros e brinquedos recicláveis. Dançamos agarradinhos e, mais uma vez, me senti plena. Fomos andando para o nosso hotel e almoçamos no restaurante da esquina. Nessa viagem não conheci o Rio do turista, mas aquele do carioca, que compra pão na esquina e frutas na mercearia, pois foi exatamente isso que fizemos nos dias que passamos lá.
Mais uma vez, avião, aeroporto, ônibus, táxi, hotel. Estávamos em Curitiba. Só que agora, além de nossas mochilas, tínhamos uma mala com mais de trinta quilos de livros. Lembrei-me muito do xamã siberiano que dizia: mala quadrada, cabeça quadrada. Instalamo-nos e saímos para conhecer a noite curitibana. Demos sorte e ficamos num maravilhoso restaurante russo. Meu marido quase surtou de alegria. No outro dia, frio de rachar, assim como meu sapatinho sertanejo que rachou na sola, e fomos bater no escritório errado. Saímos caminhando e comprei um casaco num tabuleiro. Como esta peça básica salvou minha vida! Mais reuniões e um encontro com os catadores de lixo reciclável. Fantástico. No final da tarde, na visita a um parque, o silêncio sagrado me permitiu escutar o som de um cisne negro: uh! uh! À noite, comida alemã na parte histórica da cidade. Mais um dia, mais reuniões, mais aviões, agora de volta para casa. Estava com saudade, muita saudade, dos meus amados filhos, do meu pai, da minha cama, da minha comida caseira. Além disso, estava louca para encontrar minhas amigas e contar que tinha viajado apenas com uma mochila e, o que é pior, não havia usado quase nada. Inacreditável!
- Olha, não conseguimos reservar hotel em São Paulo, vamos ter uma reunião logo cedo e teremos que ir direto do aeroporto, pegando metrô e ônibus. É melhor levar só uma mochila nas costas. Vai ficar mais fácil para a gente andar lá.
Fiquei sem acreditar no que estava ouvindo. Como assim, uma mochila? Onde iria colocar meus casacos, minhas botas, meus cremes e perfumes? Metrô? Não tem mais táxi em São Paulo? Depois do susto, respirei fundo e percebi que essa não seria apenas mais uma viagem, mas a viagem e que eu aprenderia muito nela. Coloquei pouquíssima coisa na mochila e me preparei para a aventura.
Acordamos de madrugada, pegamos o avião e chegamos em São Paulo. Informações no balcão para turistas, reservamos uma pousadinha bem simples, pegamos um ônibus, pegamos o metrô, andamos e, finalmente, uma cama. Sonho meu. Só deixamos as mochilas e seguimos para a reunião, no Jardim Botânico, claro que de ônibus e metrô. O lugar é lindo e a máquina fotográfica trabalhou um bocado. Na volta, mais ônibus, metrô e um café-almoço-jantar numa padaria perto da nossa morada temporária. Lavei o rosto na pia dentro do box do chuveiro e cai na cama como uma pedra.
No outro dia, mais reunião, mais metrô, mais ônibus e... muito encantamento. O encontro foi na Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo e lá encontrei uma fada, uma deusa, um ser iluminado. A proposta da Secretraia é baseada na Carta da Terra, numa cultura de paz. Ficamos em êxtase, pois é exatamente nessa concepção de mundo que acreditamos. Também fomos ao Ibirapuera e conhecemos ‘Bom dia, Cempre!’.
Novo avião e estávamos no Rio. Táxi para o hotelzinho simples, localizado na Glória. Já era noite quando chegamos e quase desmaiei quando o carro foi se aproximando do local em que iríamos ficar: só havia, bundas, peitos e travestis. O motorista do táxi foi logo dizendo que ali não era muito bom e tal. Luzes piscando no hotel. Pensei: reservaram um puteiro. Para completar, havia um estrangeiro com uma mulata linda, sem bagagem, dando entrada no hall do hotel. Tive a certeza que estávamos num prostíbulo. Como já havíamos pago um pedaço das diárias, tivemos que ficar. Relaxei e gozei. Dessa vez a pia não era dentro do box, mas ganhava no quesito tamanho: era a menor já vista. Tomamos banho e aproveitamos. No outro dia, quando saímos a pé ao encontro da Biblioteca Nacional, percebemos muitos mascates vendendo coisas usadas em panos estendidos no chão. Achei aquilo surreal. Andamos um pouco e chegamos ao meu santuário. Entrei num transe mágico e me emocionei tanto que não consegui conter as lágrimas. Era tudo lindo demais. Um local sagrado. Não podemos ficar por muito tempo porque as reuniões nos esperavam. Fomos para uma, para outra, para outra e finalmente chegamos na do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Convidei Clarice, a Lispector, claro, para entrar comigo e me falar como circulava por aquelas palmeiras e como o silêncio daquele lugar mágico a inspirava a escrever. Sentamos para um café, nós três, eu, meu marido e Clarice. A máquina fotográfica também começou a trabalhar muito, registrando toda aquela imensa beleza. Circulamos num carrinho elétrico, muito bem conduzido pela responsável pelo lugar, e fomos conhecer o espaço dedicado a Tom Jobim. Sem palavras, como disse nosso educadíssimo diretor.
A gripe me pegou com jeito e tive dificuldades para usufruir da energia da Cidade Maravilhosa. Fomos de metrô para Ipanema e saímos andando até o Leblon. Encontramos parques, uma banca de revista que só vendia artigos antigos, um sebo que é a sede da Estante Virtual, e, finalmente, a Letras e Expresões, paixão de minha filha, mas que estava em reforma. Tomamos um chope no calçadão e fomos almoçar no restaurante Lamas, frequentado por meu marido na sua época de militância na clandestinidade. Agora, quem se emocionou foi ele. Mais um momento que eu não perderia por nada no mundo. Bondinho de Santa Tereza, Arcos da Lapa, Festa Literária, cheia de chope, samba, livros e brinquedos recicláveis. Dançamos agarradinhos e, mais uma vez, me senti plena. Fomos andando para o nosso hotel e almoçamos no restaurante da esquina. Nessa viagem não conheci o Rio do turista, mas aquele do carioca, que compra pão na esquina e frutas na mercearia, pois foi exatamente isso que fizemos nos dias que passamos lá.
Mais uma vez, avião, aeroporto, ônibus, táxi, hotel. Estávamos em Curitiba. Só que agora, além de nossas mochilas, tínhamos uma mala com mais de trinta quilos de livros. Lembrei-me muito do xamã siberiano que dizia: mala quadrada, cabeça quadrada. Instalamo-nos e saímos para conhecer a noite curitibana. Demos sorte e ficamos num maravilhoso restaurante russo. Meu marido quase surtou de alegria. No outro dia, frio de rachar, assim como meu sapatinho sertanejo que rachou na sola, e fomos bater no escritório errado. Saímos caminhando e comprei um casaco num tabuleiro. Como esta peça básica salvou minha vida! Mais reuniões e um encontro com os catadores de lixo reciclável. Fantástico. No final da tarde, na visita a um parque, o silêncio sagrado me permitiu escutar o som de um cisne negro: uh! uh! À noite, comida alemã na parte histórica da cidade. Mais um dia, mais reuniões, mais aviões, agora de volta para casa. Estava com saudade, muita saudade, dos meus amados filhos, do meu pai, da minha cama, da minha comida caseira. Além disso, estava louca para encontrar minhas amigas e contar que tinha viajado apenas com uma mochila e, o que é pior, não havia usado quase nada. Inacreditável!
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