25.1.11


Com a volta dos filhos ao lar, depois de um período de férias pelas praias de Pernambuco, a vida vai voltando ao normal. Já estamos na casa nova, apesar de ainda termos muito que arrumar, já alugamos nosso antigo apartamento, estamos alugando o do meu irmão, e também começo a me acostumar com a saudade de nossa casa de Maria Farinha, paraíso particular.
Foi uma delícia o jantar, massa e camarão, regado a vinho e coca, com toda a família reunida em volta da mesa. As conversas, as piadas, as novidades, as reflexões que as crias fazem e que me deixam de boca aberta e cheia de orgulho, são coisas simples que acontecem e que me fazem plenamente feliz. Não conseguiria viver longe dessa rotina, sem grandes eventos, mas que traduz a minha noção de felicidade. Adoro bater o leite deles no liquidificador, esquentar o sanduíche, ver filme com todos sentados pela sala, ouvir música na radiola, jogar conversa fora na rede e nas almofadas e, depois de um longo dia de momentos significativos, abrir as portas dos quartos e vê-los dormindo como anjos em suas camas. Quando os contemplo assim, meu coração se enche de alegria e agradeço ao Universo por ter me dado a oportunidade de ser mãe de almas tão especiais.
Agora é hora de ir para cama, deitar-me pé com pé ao lado do homem que amo, namorar, ler um bom livro, apreciar Hércules no seu colchão velando nosso sono. Mais gratidão.
Às vezes me pego pensando que quando escrevo sobre as coisas pequenas, para mim imensas, que fazem o meu dia a dia feliz, passo a impressão de que vivo alienada num mundinho cor de rosa, sem problemas, sem contas para pagar, sem sonhos a realizar, como se fosse uma vidinha perfeita, não simples, mas simplória. Bem longe da verdade seria esta falsa impressão. Há conflitos, tensões, desafios, sonhos adiados, frustrações, tudo que todo mundo vive sol após sol. A diferença, talvez, seja que sempre me pergunto, ‘o que tenho que aprender com isso?’, e vou tentando me conectar com os segredos que o Sagrado me revela em tudo que me acontece. Claro que com esta atitude sinto uma imensa paz no coração e brota dentro da minha alma uma estranha coragem para a entrega total aos caminhos que vão surgindo.
Porque já mudei um bocado de rota, tanto no que se refere à profissão quanto ao amor, algumas pessoas me avaliam como perdida, aquela que não sabe o que quer. Quando estou numa situação, estou inteira, transparente, completamente intensa e apaixonada. Se o tesão acaba, busco essa energia em outra possibilidade para me manter sempre num estado de encantamento pela vida.
Estive organizando livros antigos e percebi claramente este movimento. Quantas paixões já tive! Psicopedagogia, o brincar, contos de fadas, mulheres, xamanismo, cognição, informática na educação, dbase e tudo do mundo dos bits e bytes. Já fiz tanta coisa diferente, já desempenhei tantos papéis, já tive tantas máscaras... O que tem me deixado feliz com esta jornada é que ao me olhar no espelho, sem máscara alguma, aprecio o que vejo, amo o que me tornei. Caminhei, feri-me, consegui renascer várias vezes, e hoje estou mais perto do que vim para ser aqui na Terra. Ainda faltam muitos passos e vibro na estrada que escolhi para ser a minha, aquela que conhece os segredos do meu coração.

22.1.11


Foto: Roberto Arrais


Os textos/poemas que estão nos últimos pots do blog surgiram enquanto estava dormindo (meditando? em transe?) em Santiago, perto das Cordilheiras. Acordei e senti uma força me puxando, quase que me dando a ordem:
- Levante-se e escreva.
Peguei meu caderninho de anotações e fiquei rabiscando palavras na tentativa de traduzir o que o coração dizia. Estava frio, a noite cheia de estrelas, a música do Rio Mapucho embalando uma das mais fortes experiências que tive com a Criação. Ao mesmo tempo que escrevia, pensava na magia do ato de ser canal do Universo e deixar que esta força invisível se expresse através do seu corpo. Não estou falando de mediunidade, de canalização espírita e, sim, de arte. Como acontece o processo criativo de um artista? Como chega a inspiração? E este impulso que vem e que toma tudo, exigindo entrega total, até que se sinta satisfeito e a energia vaze se transformando em criação artística?
Gostei do que senti e, mais uma vez, percebi-me no caminho que minha alma escolheu para esta vida.
Agora sou escritora.

21.1.11



Fotos: Roberto Arrais



Coordilheira




Quieta.

Lua chamou.

Estrela cantou.

Folha caiu.

Seguiu-a.

Vento ficou frio.

Abriu os olhos.

Sentiu a imensidão.

Viu a majestade.

Estava nua.

Com as pontas dos dedos,

conheceu seus segredos.

Piscou.

Ainda lá?

Receio de ir.

Voltar a ser o que sempre fora?

Pequena.

Contemplara o silêncio.

Transformara-a.

Caminho sem volta.

Em que direção?

Liberdade.

20.1.11


Foto: Roberto Arrais



O mar



E
vai
e
volta.
E
vai
e
volta.
E
vai
e
volta.


Dissolve-se
em partículas
no ar.
E canta.
Música compassada,
repetida.
Sinfonia que traga.
Vai-e-vem que enfeitiça.
Nada
é para sempre.
Lugar
é imensidão.
Tempo
é eternidade.
Ser feliz
é agora.


E
vai
e
volta.
E
vai
e
volta.
E
vai
e
volta.

19.1.11

Quando era pequena sonhava em ser aeromoça quando crescesse. A vida me levou por outros caminhos e viajei muito pouco. Casei, tive filhos, cuidei dos meus pais. Também investi financeiramente na aquisição de casas de praia e de campo, com cortinas nas janelas, o que me deixou num útero por muito tempo.
Com o término de um ciclo da minha vida, estou novamente sentindo a liberdade que tinha aos dezoito anos quando apenas me pertencia. Esta tem sido uma sensação muito boa e estou reaprendendo a voar.
Comecei devagar, resgatando milhas – confesso que tive certa dificuldade para acertar como se faz todo o processo -, reservando pousada pela internet e marcando uma viagem para dois dias depois das minhas tentativas de abrir a gaiola. Consegui. Arrumei mala e segui, com meu marido, para Santiago do Chile, local sonhado por ele em sua adolescência como um lugar para se viver e se lutar pela justiça social.
Estava no avião todo chique, com tv e tudo mais, e fiquei pensando em quantas vezes deixamos de realizar sonhos porque não temos a coragem de arriscar. Como a inércia nos coloca numa zona de conforto! Estávamos sem dinheiro, sem a mínima possibilidade financeira de uma viagem para logo ali quanto mais para uma viagem internacional, e quase que nos conformávamos com a impossibilidade. Mas sou uma mulher que corre atrás do que deseja e que sempre se joga na realização de sonhos e, mais uma vez, confiei e me entreguei. De repente apareceram dólares guardados desde de uma viagem ao Japão, as milhas se transformaram em passagens de avião e tudo estava pronto como num passe de mágica, igual à história de Cinderela que vai ao baile numa abóbora transformada em carruagem por sua fada madrinha. O Universo sempre conspira para a realização de desejos e eu acredito em fadas, duendes e Papai Noel.

Destino

Na origem, o ovo.
Abastecida, alimentada, protegida.
O Todo

No caminho, o ninho.
Acompanhada e quieta.
A Falta.

O destino, o voo.
O Nada.
Solitária e livre.
Abrir as asas e ir às alturas.


Foto: Roberto Arrais


18.1.11


Foto: Roberto Arrais



Fora do ar por quinze dias, aproveitando uma merecidas férias. Viajamos para Santiago (Chile), voltamos para Recife e seguimos para o sertão nordestino, visitando Petrolina (PE), Salgadinho (BA) e o Parque Nacional Serra da Capivara (PI). Momentos fantásticos que renovaram nossas energias e ampliaram nossa forma de viver o mundo.
Sobre estas experiências vou escrevendo aos poucos, com calma, misturando relatos da viagem, com dicas de lugares e valores, algo bem prático, com a poesia da alma despertada em alguns encontros mágicos.
O texto que vai sair agora é em homenagem as minhas Bodas de Prata do meu primeiro casamento. Ontem, 17/01, fez vinte e cinco anos que me casei pela primeira vez. E comemorei feliz esta data, pois pude olhar para trás e sentir que cada momento que vivi valeu a pena. Mudei de estrada muitas vezes, houve guinadas enormes, muita dor, claro, e muita, muita, muita alegria. Já, já, farei 50 anos e gosto da sensação que surge quando penso que realizei uma vida em harmonia com o que sentiu meu coração.
Voltando à história do casamento, esta fase foi muita especial para mim. Casei, aos vinte e pouquíssimos anos, com o homem que amava, por quem sentia um calor de quarenta graus, com a vida profissional estabilizada, apartamento próprio completamente decorado, comida e bebida na geladeira, e muitos sonhos para um futuro a dois. Na véspera fomos ao apartamento arrumar a cama com um casal amigo, uma forma de bênção. Antes da meia noite o noivo me deixou em casa, pois dá azar o noivo ver a noiva no dia do casamento. Acordei cedo, imensamente feliz, mandei entregar um buquê de rosas vermelhas na casa do meu noivo, primeiro grande erro, fui para o cabeleleiro, fui fazer uma feirinha para a nossa noite de núpcias, pois iríamos dormir no nosso apartamento – outro grande erro -, voltei para terminar o cabelo e fazer a maquiagem. Cheguei em casa e estava aquele clima de festa, com presentes chegando, todo mundo se arrumando. Meus pais felizes e muito emocionados. Coloquei o vestido, posamos para as fotos, o carro chegou, fomos para a igreja. Na hora da entrada, segurando a mão de meu pai , trêmulo de emoção, caminhei para o altar em êxtase. Lá estava o meu amado, o homem com quem seria feliz por toda a minha vida. O padre havia mandado tocar Ave Maria e só depois ouvimos ‘você é isso, de uma beleza imensa, toda recompensa de um amor sem fim’. Na chegada do noivo a música foi ‘hoje, eu quero a rosa mais linda que houver, só para enfeitar a noite de meu bem’. Lembro que tivemos ainda ‘os sonhos mais lindos sonhei... és fascinação, amor’ e ‘se você vier, pro que der e vier comigo’. Muita gente querida na igreja e gente que entraria na minha vida de uma forma nunca antes imaginada, como o meu segundo marido que estava sentado nos bancos com sua esposa – como a vida é perfeita!. Na hora das alianças fizemos os votos com sinceridade. Falei tão alto que todo mundo riu. O beijo foi formal, pela timidez, pelo ritual. Saímos ao som da marcha nupcial, agora marido e mulher, uma união que marcava para sempre o laço de duas famílias amigas há muita tempo. Festa, todo mundo se abraçando, ‘já que não pôde ser com ele, que você seja muito feliz’ – disse-me meu ex-sogro e me entregou a flor que me ofertava todas as vezes que ía à sua casa, quando namorava seu filho. Fugimos para nosso apartamento, os primos descobriram, bateram na porta com a desculpa da pizza. Todo mundo feliz, meu pai com saudade da filha que agora pertenceria a outro homem, segundo ele falava entre um copo de uísque e outro, sentado no chão da sala da nossa casa, aliás, da casa de meus pais, porque a partir daquele dia, aquele não seria mais o meu lar.
Vivemos felizes, comparmos terrenos na praia e no campo, comparmos carro, viajamos. Tivemos nosso maior tesouro, uma filha linda. Fui mudando, meu marido foi mudando e, de repente, ouvi um ‘eu não gosto mais de você’, meu mundo caiu e veio a separação. Isso há mais de vinte anos. Seguimos caminhos diferentes, casamos novamente, eu me separei de novo, casei e estamos felizes.
Quando comentei ontem com uma amiga que estava comemorando minhas Bodas de Prata, ela me falou que só eu mesma para comemorar uma coisa que tinha acabado há tanto tempo. É verdade que acabou, mas o fato de ter acabado não significa que não existiu. Foi um fato, aconteceu e gosto de honrar esta encontro e as pessoas que fizeram parte dele. Hoje o amo de uma forma diferente, com um carinho enorme e uma imensa gratidão por tudo de bom que vivemos. Além disso, deixou-me um presente lindo, forte, doce, alegria da minha vida, nossa amada filha. Na imaginação, enviei-lhe o mesmo buquê de rosas vermelhas, só que agora com vinte e cinco flores, em homenagem à história de amor que vivemos. Quando falei isso, nossa filha riu e disse que ele morreria de susto e teria a certeza que a separação fora a coisa mais certa em sua vida, pois me consideraria louca. Também penso assim, mas gosto de imaginar a cara dele com o choque da minha liberdade. Isso me faz sorrir com um jeitinho de trela.
Por estas voltas que a vida dá, ontem à noite fomos a uma café, eu, meu amado marido e minha filha, com a irmã do meu primeiro marido e seu marido. Há vinte e cinco alguns de nós estávamos na igreja e agora juntos num contexto completamente diferente, ainda recheado de carinho, amor e respeito.
- Tim! Tim!

5.1.11











Fotos: Roberto Arrais

Estou ficando mal acostumada no meu processo de escrita, pois tenho contado sempre com a inspiração das belíssimas fotografias do meu marido. É que fico com pena de não compartilhar o que vejo ao vivo e a cores neste paraíso e que ele registra de forma tão sensível com sua câmera amiga.
Acho que também quero mostrar as coisas que valorizo e que me tornam o que estou sendo neste momento. Sim, estou sendo, pois não consigo dizer sou, pois soa como algo definitivo, pronto, acabado, o que me é muito semelhante ao processo da morte. Vida é movimento, transformação, algo sempre por fazer. Gosto de conhecer detalhes secretos que coloco nas entrelinhas de meus textos, ou jogo de palavras, palavras com grafias iguais e sons diferentes - acho lindo isso -, observações que só alguns sabem do que se trata, às vezes, só eu mesma sei o segredo que revelo codificado nas frases de algo que parece corriqueiro.
Não sou perfeccionista e aprecio o inacabado, aquilo que torna minha vida e minhas coisas recheadas de singularidades. Por exemplo, dei de presente de aniversário para o meu marido um São Francisco de barro, do artista Zezinho de Tracunhaém, que dá as boas vindas aos amigos que chegam à nossa casa. Esta peça tem um detalhe que a torna única: os pés do santo estão com sapato e ele sempre é representado descalço ou com sandálias, ficando seus dedos à amostra. Por que o nosso está assim, diferente? Porque o artista teve um prazo mínimo para fazer sua obra e deve ter esquecido este detalhe. O São Francisco do meu marido tem uma história para contar e isso o conecta com o que está vivo, pulsante. Assim são os inúmeros objetos que alegram nossa casa; cada um deles têm um significado e não estão relacionados à moda ou ao que é chique. É verdade que a mistura de estilos faz com que tudo junto lembre um mercado, uma loja de antiguidades, um brechó, mas, para mim, isso é o máximo.
Além dos objetos, os animais, as plantas, os sons, os cheiros, as texturas, revelam-me a magia do Sagrado. Tenho escrito repetidamente que descobri que Deus é muito amostrado. São fantásticas suas criações. Até que crio coisas bonitas, mas não consigo nem amarrar seus chinelos. A possibilidade de conexão com a natureza tem sido o meu caminho para a religiosidade, pois vivo em constante estado de encantamento.
Enquanto escrevo o texto, um lindo bem-te-vi entrou em nosso quarto, sinto o sol aquecendo minhas costas e ouço o cantar dos guinés, sempre em bando, que passeiam pelo jardim. Por isso, também tenho repetido esta cantiga, fico o máximo que posso em casa, fugindo da loucura que é o estilo de vida da cidade grande. Tive ontem que ir a banco, shopping e, confesso, fiquei tensa. Não gosto da selva de pedra de Boa Viagem, não gosto daquela confusão de carros, odeio o barulho dos shoppings e, quando observo as pessoas trancadas ali dentro, só me lembro de um filminho da Turma da Mônica, onde o Chico Bento vai ao shopping e diz verdades profundas sobre sua experiência no retorno à vida no campo.
Há alguns anos realizei, com toda minha família, uma atividade na cidade em que nasceu minha mãe, zona agreste de Pernambuco, e, para minha surpresa, nenhuma da pessoas com as quais conversamos - crianças, homens, mulheres, adolescentes, idosos e idosas -, desejavam vir morar na cidade grande, pois achavam que era loucura o que viam quando a visitavam. Todas preferiam a forma de viver das cidades do interior. Não é a toa que o movimento de migração está se invertendo no mundo todo: das grandes cidades para a paz de uma rotina numa cidadezinha.
Mais uma vez, imitando Lenine, eu quero estar cercada só do que me interessa.

4.1.11










Olhando as fotos que tirei de biquine na praia com minha filha, constatei o óbvio: o tempo é implacável com nosso corpo, trazendo marcas da velhice em todos os pontos. A barriga já está flácida, há pele sobrando no pescoço e em volta dos olhos. Puxando à família de meu pai, ainda não tenho os cabelos brancos. Não é fácil se ver assim. Mas, por outro lado, é maravilhoso perceber o ciclo da vida ocorrendo tão pertinho da minha intimidade. Agora a bela deusa já não sou mais eu e passo o cetro do meu reinado, com muito orgulho, para minha filha, assim como, há tempos atrás, minha mãe passou para mim. É muito bom quando as gerações não rivalizam e a energia da Deusa Tríplice se expressa em toda sua plenitude. Gosto de ver que minha descendência é mais sábia que eu, além de mais bela, mais inteira, mais intensa, e, principalmente, mais livre.
Lembro, com certa tristeza, a conversa que tive com a mãe de uma amiga querida quando aquela me dizia que não aceitava a filha se transformando em uma bela mulher enquanto envelhecia.
Minha mãe se arrumava e ficava linda, reverenciando a Afrodite que nela existia. Com a energia desta deusa, também me embelezava, ensinando a mim e a minha filha, os truques da maquiagem e da combinação das roupas. Acho que foi a mulher que conheci que mais tinha em si todas as deusas integradas. Adorava a natureza, era a sensualidade em pessoa, excelente e poderosa dona de casa, uma verdadeira anja, sempre ajudando todo mundo, laureada no curso de Direito aos 60 anos, e de uma religiosidade pura que expressava na sua fé por São Sebastião, padroeiro de sua terra. Não rivalizamos e acolheu minha beleza e meu poder, ensinando-me o caminho que hoje trilho com minha filha.
Reverencio com alegria a energia feminina e o ciclo da vida.

3.1.11




Primeiro final de semana do ano e abençoada com uma rotina de coisas que amo fazer. No sábado, logo cedo, organizei o café da manhã, com direito a suco de laranja e um café bem forte, fiz os exercícios xamânicos, meditei, lavei pedras e cristais com sal grosso, troquei a água dos cálices, acendi incenso, ajeitei as flores nos vasos, escrevi, vi meu marido fotografando, li, observei a natureza, fiz leite para meus filhos, tomei banho de mar com minha filha, ouvi boa música e, para terminar o dia, jantei munguzá com champanhe. No domingo, também organizei nosso café da manhã, com a ajuda do maridão que também colocou lindos discos cubanos em nossa radiola, trouxe o vaso com arruda para o centro de nossa mesa, fiz exercícios xamânicos, li, meditei, escrevi, preparei chá com alho, limão e mel para meu filho dodói, fui fazer bruxaria na casa de uma amiga de meu marido.

Fazia tempo que não se encontravam, ela tem mais de oitenta anos e contam histórias de muita amizade na adolescência e juventude dele. Conversa vai, conversa vem, sua amiga comentou que gostaria de rever a irmã dele, não se viam há uns vinte anos.
- Simssalabim!! Bim!! Bimm! Realizem-se seus desejos.
Foi o que pensei bem dentro de minha cabeça (ou de meu coração?) e falei:
- Então, vamos agora.
Ela concordou em sair, apesar de sua imensa dificuldade de locomoção, consequência de um avc.
Quando chegamos na casa dos pais de meu marido a emoção tomou conta de todos. Uma alegria imensa invadiu tudo e ficamos tomando cerveja e beliscando deliciosos salgadinhos. Histórias e mais histórias surgiam das lembranças daqueles, hoje adultos maduros, que se viam como crianças num tempo em que tudo era brincadeira.
É assim, nas coisas simples, na realização dos desejos daqueles que cruzam meu caminho, que me sinto bruxa. A tudo isso chamo magia.
Voltamos para nossa casa e fomos nos refrescar na piscina. Meu marido leu o que havia escrito sobre a morte de seu irmão e juntos choramos um bocado. No almoço, preparamos, com meus filhos, deliciosas lagostas e, em volta da mesa, ao som dos Beattles, celebramos nossa família com champanhe.
Para completar a magia, uma visita à Livraria Cultura para comprarmos um guia de viagem, pois estamos indo visitar Neruda.
Esta é a parte mais mágica da história: não temos dinheiro sobrando no momento e conseguimos viajar, realizando um sonho de meu marido. Milhas, albergues e outras coisas simples tornaram esta jornada possível. Apenas me entrego e sigo o coração.
- Simssalabim!! Bim!! Bimm! Realizem-se seus desejos.

2.1.11












Há vinte anos meu primeiro marido se separou de mim. Tínhamos uma filha bem pequena, com dois anos, e aprendemos, todos três, a contornar as dores dos momentos de ausência. Um dos mais difíceis para mim era o primeiro dia do novo ano que se iniciava, pois ela sempre passou a virada de ano com a família do pai. Durante um tempo, passava na casa de praia do Janga, onde eu havia saboreado o seu primeiro ano novo ao lado do meu amado marido. Depois, as comemorações se transferiram para Tamandaré.
Não importando a distância, no primeiro dia do ano novo sempre fui vê-la, levar meu colo, meu beijo e tê-la um pouquinho em meus braços. Nunca foi muito simples este ritual que introduzi em minha vida. Doía chegar na rua do Janga, ambiente que já tinha sido meu, e perceber que agora aquilo tudo já não me pertencia. Chegava com o carro, estacionava na rua, ela vinha ao meu encontro, ficava grudadinha em meu colo e conversávamos disfarçando a dor. Às vezes saíamos para um sorvete rápido e depois voltávamos para que pudesse seguir suas férias e eu suportar o vazio de sua ausência em nossa casa. Não foram poucas as ocasiões em que tive que parar o carro, algumas ruas à frente, pois as lágrimas não me deixavam enxergar nada.
Quando já estava mais velha me contou que sentia muito minha falta ao perceber que todas as outras crianças estavam com suas mães ao lado e não tinha a dela ali. Foi duro escutar sua dor. Também eu sentia como se estivesse a abandonando, já que não poderia cuidar dela, trocar seu biquine, preparar seu leite e contar histórias nas hora de dormir.
Veio mais um casamento, novos filhos chegaram, a caravana aumentou e o carro seguia cheio para as tradicionais visitas na praia. Os anos foram passando, os rituais se repetindo e aprendemos a lidar com essa situação. Quando me separei do meu segundo marido, meus dois filhos com ele já estavam grandes e foi mais fácil repetir com eles o mesmo ritual. É um pouco mais complicado conciliar as praias, já que cada pai está num ambiente diferente. Sempre dou um jeito. Faz tanto tempo e ainda hoje choro quando entro em contato com o sentimento que experienciava àquela época.
Ontem, primeiro dia do novo ano, consegui ver todos eles. Os meninos só chegaram em casa perto de meio dia e fui fazer o nosso famoso leite batido, sanduíches, pão assado e ovo. Aí, sim, pude seguir para a praia e dar meu saudoso abraço na filha que longe estava. Fui, com meu atual marido, preparada para vê-la no carro, dar beijos nas suas bochechas gostosas e voltar para casa abastecida para mais um período de saudade. Foi muito melhor do que eu esperava. Tomamos juntos, eu, ela e meu marido, nosso primeiro banho de mar do ano! Delícia rir ao seu lado. A vida sempre cheia de supresas...
Ah! Ando pensando na pergunta que fiz: quando é que se é escritora? Uma resposta que tem feito sentido para mim, por enquanto, claro, é que se é escritora quando se sente uma necessidade visceral de traduzir em palavras o que se vive, o que se sente, o que se vê, o que se cheira, o que se toca, o que se sonha. Fico inquieta quando a brisa suave traz o perfume dos cajus para o meu corpo, pois não me sinto capaz de traduzir em palavras todo o encantamento que sinto quando isso acontece. Um dia chego lá.

1.1.11









Fotos: Roberto Arrais


Novo ciclo. Nossos ancestrais sabiam que a vida dos humanos precisa se conectar com os ciclos da natureza. Parece que esquecemos este valioso ensinamento e apenas nos ligamos ao ritmo dos relógios. Tudo na Terra segue os ciclos das estações, realizando o que o simbolismo de todas as tradições já representam: nascimento, vida, morte, renascimento.
O início de um novo ano concentra as energias para as possibilidades que todos teremos de fazermos diferente, de tomarmos aquela atitude que nos fará felizes, mas que adiamos achando que a vida é eterna. Na verdade, deveríamos viver cada novo dia como se fosse o início de um novo ano, focalizando tudo que podemos realizar para a felicidade acontecer no aqui e agora. Porque, se pararmos para pensar, veremos que não sabemos se continuaremos vivos no dia de hoje e se sentiremos a alegria de acordarmos para um novo bom dia!
Aprendi, na pele, estes ensinamentos com meus pais e minha tia: meu pai tomou uma dose de uísque e teve um avc que o deixou limitado por dez anos; minha mãe foi dormir e não acordou mais; minha tia foi ao banheiro e quando voltou e se sentou no sofá teve um avc que a colocou em coma por mais de dois anos. Por que fugimos da realidade que a morte está sempre à espreita, empurrando-nos para saborear a vida em toda sua plenitude?
E se você não tiver um amanhã?

31.12.10







A cada dia que vivo, assumo mais o meu lado bruxa. Hoje, último dia de 2010, comecei com orações, de todos os credos, exercícios xamânicos, meditação. Comprei flores e arruda, já fiz rituais e a mesa estará pronta com todos a simbologia que representa os valores que me são caros. Água, vinho, pão a partilhar. A cada novo ciclo renovo meu compromisso com a Vida. Não quero uma existência que passe como uma ventania, sem me permitir perceber o significado das coisas que me acontecem. Sob as bênçãos da Deusa, procuro expressar o Sagrado do Feminino aqui neste planeta lindo, iluminado pelas estrelas, pela lua e pelo sol.

No final da tarde coloquei tarô para me conectar com as energias que me envolverão no novo ano. Gostei do que descobri. Muito trabalho e o começo do meu renascimento.
Lembro que em 1999, no finalzinho de novembro, papai sofreu o avc e tivemos uma virada de ano muito difícil. Em 2001, mamãe se foi e nosso reveillon foi doloroso. Agora, em 2010, quem partiu foi papai e estou aqui, cheia de saudade, procurando forças para seguir em frente. Minha filha está longe, com o pai. Meus irmãos também não estão ao meu lado. Os filhos cheios de ideias para festas com os amigos. Reverencio os amores que tive e nesta noite mágica também peço pela felicidade de cada um deles. A casa está em silêncio. Pela primeira vez, nada de festa. Uma experiência diferente.
Apesar das perdas, este ano também me trouxe muitas realizações. Meus filhos realizaram muitos dos seus projetos, meu marido retomou a estrada de seu coração e eu tive a oportunidade de me entregar ao sonho de infância, sou escritora. Além disso, conseguimos vir morar na casa que apaixonou toda nossa família e estamos convivendo com bichos, plantas e estrelas numa forma nunca imaginada antes. Só fico triste quando penso na nossa casa de praia, que está alugada, pois estou morrendo de saudades dela. Em abril estaremos novamente lá.
Quando viramos o ano passado, não sabíamos o que nos aconteceria no ano que se iniciava. Gosto desta sensação de mistério. Ninguém faz ideia do que vem lá, como Lenine canta na música. E 2011, que surpresas nos trará?