12.4.11

Viagem ao Chile - parte 1

Chegamos ontem ao Chile. O voo, apesar de cansativo, foi muito tranquilo. Ao desembarcar em Santiago não fiquei tensa, como me senti em Moscou, quando vi mulheres com as caras duras, que me lembraram de um campo de concentração. Todo mundo é muito simpático. É gostoso ouvir a língua, além de ser semelhante a do Brasil.
Pegamos uma van (U$ 13.00 ou $6000/pessoa) que nos deixou no nosso aparthotel na Providencia, uma região bem movimentada, cheia de cafés e livrarias. O rio, que corta a cidade, passa ao lado do hotel; há um Parque das Esculturas. O metrô, Las Liones, está há alguns metros. A cidade é muito limpa e arborizada. Calçadas largas, muito trânsito, claro. Vi muitas pessoas fumando, coisa que já não é tão ocmum em minha terra. Queria que os meninos estivessem aqui. É engraçado isso: sempre levamos conosco, não importa o tempo e o lugar, o que trazemos no coração. Eita, que saudade dos meus tesouros!
Depois das orientações básicas de Ana Maria – como ferver a água, como ligar o chuveiro quente – oba! vou tomar banho! ufa! tem banheiro no quarto! – arrumei a bagagem nos armários e no banheiro e fomos comer. Escolhemos um café na calçada. Comemos sanduíche com cerveja mexicana e curtimos o modo de vida de um outro povo. Gostei de estarmos num lugar comum, cercads por pessoas comuns, sem ser um ponto turístico. Havia uma mesa com um senhor de paletó e gravata, outra com um grupo de senhoras, outra com apenas uma – alinhadíssima com sua bengala. As mesas eram pequenas, para quatro lugares, cobertas com toalhas de xadrez vermelho e barnco. Atravessamos a rua e fomos a uma loja de cds para comprarmos os discos dos heróis chilenos de meu marido. Compramos dois; estamos com pouco dinheiro nessa viagem. De lá, seguimos para um supermercado e organizamos nosso café da manhã. Para nosso final de tarde no terraço do 16º. Andar do flat, compramos vinho em caixa – só para experimentarmos. Voltamos para nosso lar aqui, arrumamos as coisas na geladeira e dormimos um pouco. Acordamos, colocamos roupa de banho e fomos para a piscina com nossa taça de vinho. Lá, a vista é linda. O céu estava azul e sem nuvens. O sol ainda brilhava, apesar do relógio apontar para oito horas da noite. A máquina fotográfica trabalhou bastante porque, além da bela vista da cidade, com seus parques e montanhas que a cercam, ao nosso lado, ali, bem pertinho, estava ela, imensa, quase uma miragem, completamente nua, permitindo-nos ver suas ranhuras, seu relevo: a Cordilheira dos Andes. Exuberante, apesar de estar sem a cobertura da neve. É tão grande e poderosa que provoca uma ilusão de ótica, como se a Terra alcançasse o Céu, tema tão comum na mitologia e tão real para meus olhos. Contemplá-la, ao por do sol e ao vento frio, colocou-me numa espécie de transe. A Natureza é a grande Majestade.
Voltamos para o quarto e eu apaguei. Meu marido ainda tomou banho, lanchou, mas não consegui ficar de pé até hoje de manhã. Aqui, o sol acorda mais tarde e tudo só começa a funcionar a partir das 10h. Organizamos nosso café da manhã, com direito à torradeira, lavei a louça, estou escrevendo e vou, finalmente, tomar um banho. Hoje vamos conhecer a cidade: casa/museu de Neruda, Mercado Central, alguns pontos históricos e a Fundação Victor Jara. Vamos ao Centro. No final da tarde tomaremos um café, num dos tantos que embelezam a cidade.







Fotos: Roberto Arrais

10.4.11










Aniversário de minha mãe. Onde estará?

...
Ontem à tarde, fiz doce de goiaba com minha filha. Pegamos aquelas frutas bem amarelinhas, lavamos todas, começamos a partir, uma por uma, em pedaços, surgiu o vermelho. Colocamos tudo numa panela, açúcar para transformar em doce, fogo baixo, tampa sem fechar tudo. Ainda não está no ponto, mais açúcar, o cheiro bom invadindo a casa, deixa engrossar mais o caldo.
Vamos aproveitar a chuva que cai forte lá fora e deitar no sofá para assistir ao seriado Divã. Hilário. Amante e esposa juntas. Isso é muito mais comum do que se pode imaginar, que o digam as psicólogas. Adorei e, mais uma vez, fiquei com inveja da escritora. Queria saber escrever assim.
O cheiro do doce nos levou para a cozinha. Pronto. Liquidificador, peneira, potes até esfriar. Hora de ir para as cobertas, ler um bom livro e cochilar.
...
Foi assim o final do meu dia onte, ao lado do meu marido e de minha filha. Os filhos tinham ido para a casa do pai, meu irmão e sua família estavam no shopping, minha irmã curtia com sua turma a ressaca da festa maravilhosa que nos proporcionou. Tudo calmo, tudo quieto, cada coisa em seu lugar. Paz.
Já havíamos conversado, entre uma cerveja e um doce, sobre a vida, sobre as novidades – tio Quinho ficou sem palavras -, sobre a festa. Muito bom rever todo mundo, muito bom dançar em família. Estava com as pessoas que amo: filhos, marido, irmãos, sobrinhos, cunhado, cunhada, sogra, tios e tias, primos e primas, amigos e amigas. Muito espumante, meus pimpolhos estranhando o comportamento da mãe, o marido tomando conta por conta do nível do álcool. Dançamos tanto que o corpo mal se mexia no outro dia. Festa de arromba, como diriam os da minha época.
Pena que não deu para ir para a praia, matar a saudade que todo mundo está de lá. A chuva continua chegando forte por aqui.
Eu consegui rever meus amigos da praia. Encontrei com os pássaros, com as marias-farinhas, nadei com peixinhos e com agulhas. Encantei-me com gaivotas e borboletas, ouvi o canto das ondas do mar e das palhas do nosso coqueiro. Bebi água salgada, conversei com as fadas e os duendes, cuidei das plantas, ajudei a limpar a casa, coloquei as redes, abasteci a geladeira de delícias. As camas já estão forradas, as toalhas atrás das portas. Só falta a alegria da nossa família para a casa voltar a ser o lar.
...
Nas fotos que meu marido fez hoje, há o registro de uma linda siriema descansando no pneu do carro em nossa garagem. Quando contemplo as diferentes formas de vida, fico pensando em como Deus é amostrado. Tudo perfeito.

23.3.11



Fotos: Gabriela Vasconcellos

Aos poucos estou aceitando a ideia de como mudei de dimensão quando vim morar no paraíso. Enxergo coisas que nunca consegui ver antes, sinto cheiros e sensações que não estavam presentes no meu cotidiano, ouço sons que me passavam despercebidos. O corpo está em conexão com minha alma. Tenho certeza, como estou respirando agora, que, apesar de viver no mesmo tempo/espaço da maioria das pessoas que vivem como autômatos – eita, ainda lembro a época da informática -, vivencio os meus dias com uma consciência diferente, em harmonia com os ritmos da natureza, expressando o Sagrado em tudo que faço no meu cotidiano. E tudo isso tem acontecido de uma forma espontânea, sem a razão determinando os passos do meu fazer.
Da varanda do meu quarto, do terraço ou do jardim, posso ver a muralha de pedra constiutída pelos prédios de uma cidade, a minha cidade, que está logo ali. As luzes dos apartamentos refletem os sonhos e os medos de seus moradores. Fico só imaginado os segredos de suas vidas. Quais monstros precisam manter sob controle? Quais voos desejam realizar? Daqui mando passes de liberdade, numa humilde atitude de oração.
Estava vendo/lendo um livro de Sebastião Salgado no sofá da sala, agora cedo, e, de repente, entre o som do canto das cigarras, escutei algo diferente, forte, livre, feliz: era a fala de uma águia que havia pousado num eucalipto que mora bem perto da varanda. Fui apagar a luz do abajur do meu recanto de oração e me deparei com uma cigarra descansando no fio do interruptor. Ops! Cuidado para não a assustar. Comecei a lavar os pratos e a rã, que mora perto do escorredor, saiu saltitando toda alegrinha. Há borboletas, pássaros, lagartixas, muitos insetos. Hércules, nosso cachorro, já se acostumou com as visitas constantes dos pavões, dos tô-fraco e da siriema. Também vejo o sol e a lua nascerem por trás das árvores, vejo estrelas no céu. O sol, quando vai dormir, incendeia o ceú com suas cores vermelhas, laranjas e amarelas. Tudo fica dourado.
Aqui, neste pedaço de paraíso, sinto-me completamente dissolvida na natureza. Noutro dia, deitada na minha cama, vi a enorme lua iluminando o céu. Contemplei-a e fiquei escutando seu chamado com uma vontade louca de me perder em sua magia – ‘a lua me chama eu quero ir pra lua’. Nessas horas, meu corpo fica pesado, aprisionando o voo de minha alma. Não é a morte que desejo; é a dissolução no Todo ao qual me sinto conectada, numa sensação de pertencimento. Acho que deve ser assim com as águas dos rios quando chegam ao oceano. Elas não acabam; apenas se integram a algo maior. Só que a diferença minha para elas é que sempre souberam disso e eu só estou ficando sabida agora.
Mas há também um outro paraíso, onde a energia é a do mar, que me completa, que me faz sentir inteira. Estou morrendo, fraquinha mesmo, de saudades da música das ondas, das areias mornas, da água quentinha, das marias-farinhas, do balanço dos coqueiros, das aves que gorjeiam apenas lá, do cheiro de sargaço, do gosto do sal. Logo, logo, também estarei neste pedacinho de mim e, na alternância do campo com o o mar, poderei viver a experiência do yin-yang e me sentir inteira.
Comecei a folhear, com todo reverência, o Livro Vermelho, de Jung, que me dei de presente como uma forma de me sustentar no momento da imensa dor pela morte de meu pai. Desde que o peguei em minhas mãos, senti algo estranho, pois intuio que ali há muitos mistérios revelados. Não sei se estou pronta para encará-los, pois minha alma canta a mesma música que a de Jung cantava. Não foram poucas as vezes que pedi para ele me ajudar a encontrar meu verdadeiro caminho. Fui devagar, emocionada, passando uma folha aqui, outra acolá. As mandalas surgindo, as letras desenhadas numa língua que não entendo. Chegou o texto traduzido e via que naquelas páginas havia uma energia diferente, uma luz que iluminava e cegava, ao mesmo tempo. Li algumas trechos, lágrimas chegaram, como se eu fosse sendo despertada para um conhecimento que trouxe comigo quando vim para este planeta lindo. Assustada, encantada, participando das conversas de Jung com sua alma, seu self, seu anjo, ou sei lá que outros nomes se pode dar a essa Energia que fala – não é bem uma voz que ouvimos – dentro de nossas cabeças (ou corações?). Eu sabia o que ele estava vivendo, compartilhava sua angústia diante do inexplicável – ‘o essencial é invisível aos olhos, só se ver bem com o coração’, dizia O Pequeno Príncipe -, pois, desde que me entendo por gente, tenho esse mesmo tipo de conversa. Finjo que não é comigo, finjo que esqueço, finjo que isso é loucura. E ela, a alma, numa paciência amorosa, vai e volta, na insistente tentativa de me despertar. Lembro que já segui seu caminho em outras vidas e foram muitas as responsabilidades e dores vividas. Acovardo-me diante de seu chamamento. Sei que não poderá ser para sempre. A vida cobra o destino.
Ontem vi um monstro sair do esconderijo quando seu dono perdeu o controle. Tive compaixão porque sei que também tenho os meus e estes vivem bem trancados pela covardia de não sair do controle de minha consciência. Enquanto isso, meu inconsciente fica lá, esperando o momento de sua libertação. Quando? Como é deixar de ser cientista e se tornar artista?
Clarice dizia que escrevia para tentar entender o inexplicável para si. Não inventava. Acho que traduzia. Percebi, numa conversa com alguém especial, que não imagino, não invento histórias. Interpreto, apenas, coisas que explodem dentro de mim. Acontecimentos, sensações, sentimentos, recordações, saudades, ausências, fatos. A interpretação, para a alma que me habita, passa pela dança das palavras. Será esta a minha loucura?

3.3.11








Fotos: Roberto Arrais


Em Pernambuco tudo começa depois do Carnaval. Na minha vida não está bem assim. Tive um segundo semestre do ano passado cheio de transformações e mudanças, inclusive físicas. Perdi meu pai, encerrei minhas atividades de consultório, aluguei meu paraíso na praia, mudei de apartamento para casa, providenciei o aluguel e a mudança do apartamento de meu irmão, e, mais uma vez, comecei minha vida como escritora. Só agora é que começo a entrar numa rotina que caracteriza este novo ciclo no meu viver. Os filhos saindo para aulas, o marido para o trabalho e eu, livre, leve e solta, sem desculpas para permanecer sendo andaime da vida de outros. Ao mesmo tempo, paraíso e inferno. Agora somos só eu e meu self e não é lá muito fácil este encontro. Imagino que o momento mais forte deste cara a cara é quando iniciamos a passagem para a outra dimensão, a da morte, pois creio que o que vivenciamos aqui na Terra passa como um filme em nossa mente e aí não dá para negar todos os segundos desperdiçados com coisas que não valiam a pena ou que não estavam em sintonia com a alma de quem parte. Experienciei algo assim quando ía me afogando em alto mar. O filminho veio todo, numa velocidade que ainda me impressiona, pois isso não ocorre no tempo do relógio. Ainda bem que, já àquela época, gostei do que vi. Hoje já caminhei mais um pouco em busca da minha inteireza e fico feliz com isso, apesar de, confesso, assustada.
Jung dizia que o que mais impede nosso crescimento são as possibilidades que temos de expressar todos os potenciais que trazemos na alma. Sinto esse medo vivo dentro de mim, mas, nos meus momentos de loucura, ouso e me entrego, ou, como diriam meus filhos, me jogo inteira, nos chamados da vida, seguindo sempre aquela vozinha (de voz, carinhosamente falando) que canta em meu coração.
Coisas que há tempos pensei que pudessem acontecer só na imaginação fazem parte do meu cotidiano. Trabalho agora na cidade que minha mãe nasceu, ajudando seus conterrâneos a sonharem com uma vida rica em realizações. Criei esta possibilidade em meus devaneios num passado e sonhei acordada com tudo que poderia fazer lá. Agora, mãos à obra. Também imaginei que poderia realizar um trabalho terapêutico diferente do que se faz tradicionalmente em consultório, cheio de trocas, de contato com a natureza, usando tudo que já aprendi na jornada de construção de conhecimento, transformado pelo afeto em sabedoria. Pude concretizar este outro devaneio e perceber que dá certo. Minha relação com o processo de ensino-aprendizagem é algo que faz minha alma vibrar e sempre fui uma ensinante cheia de novidades. Vivi um encontro com minha turma de pós em tecnologia no Jardim Botânico, num contato com a natureza, onde as sensações foram mais importantes que a razão. Depois do passeio viemos terminar a aula com um almoço em minha casa e passamos a tarde toda refletindo sobre o prazer de ensinar e o tesão de aprender, sentados num lindo jardim, ouvindo o canto de pássaros e cigarras, vendo pavões e tô fraco passeando por entre as plantas. Em um tempo de minha vida essa forma de ensinar e aprender foi um sonho que acalentei e coloquei energia para que no meu presente pudesse ser realidade. É nisso que acredito, é assim que vivo, é por isso que os milagres se manifestam em minha vida. Mérito meu? Não creio. O que acontece é que me coloco sempre na posição de canal da Energia Sagrada para que esta se expresse aqui neste planeta lindo.
Com certeza, a forma como vivo não seria suportada por boa parte de meus amigos e minhas amigas, pois tenho uma rotina extremamente simples, calma, sem a agitação dos passeios, dos shoppings e dos bares. Acordo muito cedo, organizo o café da manhã, faço exercícios xamânicos com meu marido, medito, fotografa, cuido das plantas, leio os jornais na internet, leio livros de verdade – não abro mão de sentir o cheiro do papel -, escrevo, converso muito com minha deusa – minha filha linda -, fico ababacada com a perfeição da natureza. Coisas assim, bobas, que me permitem usar short, camiseta e havaianas, ou até trabalhar descalça.
Ainda sinto a angústia de viver a vida de uma escritora. Fiz faculdade e aprendi a trabalhar com computadores. Fiz outra faculdade e aprendi a ser psi. E como se aprende a ser escritora? Como viver uma rotina de escritora?
Visitei a Livraria Cultura e lá achei alguns tesouros que estão na minha mesinha de cabeceira: Os ensaios, de Montaigne; O fogo da vida, peça teatral de Sônia Bierbard e Gustavo Falcão; Poemas, de Daniel Lima. Este último me foi apresentado na minha defesa de mestrado, lá em 2004, pelo meu mestre amado, Zeferino Rocha, quando declamou um poema que, para ele, sintetizava minha dissertação – A Bússola. Agora passeando pela Cultura no garimpo que sempre faço por entre livros, revistas, jornais, cds, dvds, encontrei o livro do poeta e me apaixonei completamente pelo seu texto, num arrebatamento tal que me senti traindo Pessoa.
Compartilho algumas mensagens que vão diretamente para o coração (formato do texto em poesia, deixarei para seu encontro com o livro).

“Viver é isto: saber, pela razão, a direção do norte, mas ir, pelo amor, na direção do oeste”.

“Estudei gramática, fiz filosofia, decifrei charada, li tudo que é livro, aprendi foi coisa mas não sei é nada”.

“A cada momento, se não há, invento; o que será, eu mudo”.

“O tempo é Deus que se dá aos pedaços no passar das horas”.

20.2.11











Fotos: Roberto Arrais


Ainda sob o impacto do filme Conversando com Deus. Belo. Um soco no estômago, quando escancara meus medos. Um brinde, quando me aponta as escolhas acertadas que já fiz nos caminhos que trilhei. A história do filme é a de todos nós, a de nossa teimosia em não escutarmos Deus conversando conosco, mostrando-nos o Amor como única forma de ‘gastar’ a vida vivendo e, não, morrendo.
Há tempos que venho tentando viver cada dia a partir do que sente meu coração. Vivo fazendo o que gosto, gasto meus segundos naquilo que vale a pena para mim, ou, como diria Lenine, cercada só do que me interessa. E também faz tempo que escuto a voz Dele, conversando comigo de todas as formas possíveis, até inimagináveis para mim quando ainda passava meus dias como autômato.
Como o autor, no filme, muitas vezes escrevo coisas, tenho ideias, que não sei identificar direito se vieram de minha própria mente ou se Alguém as plantou ali. Surgem apenas. A cada passo na entrega, mais conexão com o Sagrado, como gosto de nomear Esta Energia que a tudo envolve. Agorinha mesmo escuto o canto do galo e o som do pavão, este passeando pelo jardim da casa onde moro.
Logo cedo, depois do café delicioso, olhei o jardim da varanda e vi, encantada, que nele passeavam dois ‘tô fraco’- um branco e um preto com bolinhas brancas -, uma pavoa e seu filhote e uma linda siriema. Chovia fininho. Neste instante, olhei para aquela cena e senti a presença de Deus ali, no jardim, e sua bênção aqui, no meu coração.
Chamei depois todos, marido, filha, filho, filho, para assistir ao filme, com pipoca e refrigerante. Estava frio e nos enroscamos no sofá e nas poltronas, com almofadas e mantas. Senti uma emoção muito forte numa certa cena e quando olhei para meus companheiros de cinema, descobri-me em oração de gratidão, pois percebi meu marido deixando escorrer lágrimas de seus olhos e meus filhos completamente sintonizados com o Divino. Apertei os olhos, tornei a abri-los e rezei pedindo para nunca esquecer este momento mágico.
Não ensinei a meus filhos uma religião específica, mas sempre conversei com eles sobre o Sagrado, o Divino, o Deus ou a Deusa, a Energia Cósmica que a tudo envolve. Através do meu exemplo de fé na Vida, tento desabrochar a fé no coração de cada uma destas almas lindas que me dão o privilégio de seu convívio.
Para mim, Deus é absolutamente tudo e todas as coisas estão interligadas.
Ontem pude ver o crime brutal cometido contra centenas de jandaias, papagaios, tucanos, sendo traficados num comércio violento e ilegal, ainda sem penas e de olhos fechados. Um verdadeiro mutirão para salvar-lhes as vidas, num processo de alimentação com seringas e cuidados especiais. Arrancados de seu habitat natural, presos em caixas e gaiolas. Chorei e, ao olhar para dois tucanos numa gaiola minúscula, sem mais a liberdade de voar, deixei que minhas lágrimas fossem meu pedido de perdão, enquanto raça humana, a toda forma de vida que agredimos na nossa passagem pelo planeta Terra, nossa Grande Mãe.
É assim, nas coisa simples do cotidiano que vou conversando com o Deus que acredito que exista, agradecendo, perguntando o que Ele quer dizer com as coisas que me acontecem e que ainda não compreendo. Mais uma vez:
- Em Tuas mãos, entrego meu espírito.

18.2.11














Fotos: Roberto Arrais


5:30h. Acordo, abro a janela e deixo-me envolver pela melodia do amanhecer. Há uma verdadeira sinfonia sendo executada por cigarras, pássaros e outros insetos que não sei identificar. Minha cidade também vai despertando e, ao longe, vejo o sol, uma imensa bola amarela, iluminá-la, deixando-a envolvida numa luz dourada. Sinto o cheiro da terra orvalhada. As cigarras vão silenciando e os pássaros assumem a condução do som. Bem-te-vi, bem-te-vi. Também escuto o canto do galo. Bom-dia! Não apenas desperte, mas acorde para mais uma oportunidade de ser feliz. É assim que traduzo. Chega-me o mugido de uma vaca da vizinhança. Bom-dia! Calma. Entregue-se ao ritmo da vida. Escuto dessa forma seu Mooooommmmmmmmmmmmm! Mais galo cantando a oportunidade do dia nascer feliz! As árvores estão calmas. Hoje não dançam ao movimento do vento. As flores começam a se abrir. O pé de jabuticaba está carregado daqueles pontinhos pretos, doces, que me fascinam como os olhos lindos do meu marido. O jardim já recebeu a visita dos guinés, brancos e aqueles outros bem pretinhos e cheios de bolinhas brancas, iguais aos que se vê em desenhos animados e em toalhas bordadas para cozinha. Estão sempre em grupo e fazem questão de anunciar sua visita. Os pavões ainda não chegaram. Nunca mais vi a siriema por aqui. Na entrada da casa, roseiras, rosas e vermelhas, abrem seus botões perfumados e aveludados. As orquídeas, agora sobre troncos de uma mangueira que cansou de existir e se deixou ir ao chão, dão um ar de mistério à vida, tamanha sua beleza, pois que conciliam mistério e simplicidade. Também há pedras sertanejas e sinos, daqueles que se coloca em gado, pendurados no cajueiro que nos dá as boas-vindas. Numa das caqueiras nasceu um pau-brasil. Coisa de pássaros. Noutra, fizeram um ninho. Uma rã veio dormir em nosso quarto e Hércules estranhou sua presença. Na sala de jantar, uma borboleta enorme está passando uns dias. Cores, perfumes, gostos, texturas, enfim, diversidade, como na vida. Como a vida. Quem dera pudesse ter compreendido antes que a vida é para ser saboreada. Hoje me harmonizo com todos aqueles filmes, livros, músicas, poemas que falam sobre a magia de um jardim, sobre os segredos de uma mata, sobre a energia que emana da natureza. Completamente em sintonia com o Sagrado, agradeço. Sou abençoada. Lembrei-de de quem sou. Reencontrei o caminho daquele Amor que nos coloca no fluxo da seiva da vida. Bebo dela, estou nela, sou ela.
O sol já subiu mais um pouco e distribui seu calor com mais intensidade. Hora de descer e ir prepapar o leite dos meus filhos, coar o café e sentir aquele cheiro maravilhoso tomar conta da casa, esquentar pão com manteiga, fazer suco de laranja e acordar a família para mais uma refeição à mesa, numa interminável roda de conversas. Feliz, muito feliz, com a vida que sonhei para mim. Simples assim.

11.2.11

Parabéns Patrícia!
Que esse bebê seja motivo de muita felicidade na vida de vcs.
Bjs!!!

Parabéns! Tudo vai dar certo. Estava escrito e você foi escolhida.
Bjs.

Minha amiga,
que novidade boa!
Adoro fazer parte da sua vida e dessa grande felicidade. Parabéns!!!!! Conte sempre comigo e que Deus abençoe vocês todos e este anjinho.
Beijos no coração.

Mulher, é isso mesmo que entendi?
Se eu já estava extremamente feliz por você, por sua nova etapa de vida, essa nova forma de viver, sentir e amar cada um e cada coisa ao seu redor, agora então, estou mais feliz ainda.
PARABÉNS!!!
Que Deus e a Deusa continuem te guiando e te iluminando na tua caminhada!!!

Me pegou, eim danada! hehehhehehehe ;)
Que seja bem-vindo mais um filho metafísico! A criação gestada na mente criativa desta escritora...
Bjs.

Voce realmente esta gravida?
=) mais uma luz feito corpo!

Prima querida,
Não tenho palavras para expressar minha alegria...Só quero compartilhar com vc esse momento de alegria e dizer que estou super feliz por vcs.
Fica com Deus,
Bjs


Escrevi um texto no qual misturei dados da minha vida real com um pouco de imaginação. O resultado foi uma confusão danada, pois recebi mails me dando parabéns pela minha gravidez. Não estou esperando um bebê. Talvez até desejasse um filho fruto do amor com meu marido, mas a idade já não permite a realização deste sonho.
O que é real? O que é imaginação? Onde se encontra a realidade? E a vida é a vivida ou a criada através dos nossos desejos?
Esta experiência me fez sorrir um bocado e me mostrou a liberdade de criação de um autor através do jogo das palavras. Inventamos histórias, surgem personagens, fatos que nunca aconteceram nos fazem chorar, sorrir, sonhar, a nós, autores e leitores. Amei brincar de criar realidades.

- Essa escritora está muito convincente! KKKK!

10.2.11

?!
- Grávida.
Como? Já estava com quase cinquenta anos, preparando-se para a menopausa, imaginando os netos e, agora, essa novidade.
- É, milagres acontecem.
- Você não acredita que o Sagrado tudo pode?!
Ainda num estado de torpor, lembrou-se de quando era criança e se sentia mexida toda vez que lia aquela parte da Bíblia que narra a gravidez da prima idosa de Maria que gera seu filho graças a uma intervenção Divina. Algo naquela história ressoava em seu coração.
Depois de três filhos, todos já bem grandinhos, e três abortos, já não se imaginava gestante.
Porém sentiu algo estranho, um sono enorme, descontrolado mesmo, numa noite de sexta-feira e num sábado todo, há algumas semanas. Até pensou que estava passando por um processo de limpeza energética, estava sendo canal da Energia Cósmica. Até veio a imagem da gravidez na sua mente, muito rápido, mas a ideia era tão improvável, que nem deu muita atenção. Não era isso, mas talvez estivesse sendo preparada para compartilhar um projeto especial, como tantas outras vezes isso já ocorrera. Sabia que as coisas maravilhosas que inventava não saíam de sua cabecinha apenas. Ouvia o sopro dos Sonhos Universais.
Sentiu medo.
- E se o bebê não fosse saudável? E os recursos financeiros? Logo agora que resolvera ser escritora.
Parecia que a vida não queria mesmo que se pertencesse. Livre do cuidar por tão pouco tempo.
O futuro é imprevisível.
Agora, só esperar.

7.2.11

Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã.










Naquela Mesa


Sérgio Bittencourt
Composição: Sérgio Bittencourt

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre, o que é viver melhor.
Naquela mesa ele contava histórias,
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor.
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã.
E nos seus olhos era tanto brilho,
Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã.
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa no canto, uma casa e um jardim.
Se eu soubesse o quanto doi a vida,
Essa dor tão doída não doía assim.
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguem mais fala no seu bandolim.
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim.