26.4.11

Encontrando o xamanismo siberiano - parte 6

6. Voltando a Recife


Chegamos a Recife com uma enorme energia. Meus filhos e meu marido me esperavam no aeroporto e fiquei muito feliz com nosso reencontro. Vim para casa e ainda fui para uma festa numa cidade do interior.
A crença na cura espiritual se fez presente em minha prática clínica e muito dos ensinamentos que recebi do xamanismo começaram a fazer parte da minha vida cotidiana.
Eu, Ana e Lígia organizamos um trabalho sobre o xamanismo siberiano (que segue mais à frente no texto) e apresentamos o conhecimento sagrado para toda a turma de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco, sob a coordenação de Frei Tito. Tivemos que estudar mais sobre o xamanismo e descobrimos coisas incríveis. O nosso trabalho foi um sucesso e as nossas vidas nunca mais foram as mesmas.
Promovemos uma meditação dinâmica para compartilharmos com nossos amigos o que havíamos aprendido na Sibéria.

7. Perun em Recife

Organizamo-nos para receber Perun. Ana não quis mais coordenar o trabalho e Lígia estava vivendo um momento pessoal de muitas transformações. Por isso, assumi com a ajuda de companheiras especiais – Andréa e Suzy -, toda a agenda de Perun em sua primeira vinda a Recife
Na segunda vez que veio a Recife, Perun contou com Luciene, grande amiga, para organizar sua agenda.

8. Xamanismo Siberiano – Palestra de Perun

(Palestra realizada em Recife/PE, no programa de pós-graduação de Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco. - transcrição livre)

O Xamanismo tem mais de 40.000 anos de desenvolvimento.
Um xamã é um homem que conecta o mundo das pessoas com os outros mundos; ele é um canal entre esses mundos; um poeta genial é um xamã quando transmite energia amorosa.
Antigamente, as tribos, os reis, os faraós tinham seu próprio xamã, que não tinha envolvimento social, mas sabia de tudo.
Sempre foram realizados rituais xamânicos com o objetivo de puxar a energia e manter o estado elevado dessa energia.
Um xamã poderoso tem muita energia e viaja por diversos universos, realizando pesquisas como os cientistas. Porém, existe uma diferença: ele realiza essas pesquisas através de suas percepções.
O homem comum tem um campo pequeno de percepções, pois só utiliza como recursos os seus cinco sentidos. Mas existem muito mais possibilidades. Através da intuição os xamãs podem prever eventos, pois percebem coisas além do mundo comum, sentem realidades diferentes, viajando pelo passado e pelo futuro, em diferentes mundos.
Quando um homem atinge um elevado nível de consciência, ele tem a consciência de todo o Universo.
Houve um tempo que os xamãs faziam uso de chás ou de algumas outras substâncias alucinógenas, porém eles perceberam que dessa forma não havia total controle sobre seus corpos e sobre as viagens que faziam. Hoje, as viagens xamânicas são realizadas alterando-se o estado de consciência do xamã, mas o seu corpo está sob controle e ele pode decidir aonde ir, quando (em que época) e retornar quando quiser para onde estava.
Existem diversos tipos de vida que não têm corpo físico, mas têm um elevado nível consciente de energia. Estes são os ‘espíritos’. Os espíritos podem se tornar auxiliares. Um xamã poderoso tem muitos espíritos auxiliares, que os ajudam a realizar o processo de cura.
A cura xamânica é diferente da cura realizada pela medicina, pois os médicos curam o corpo comum, no campo comum de nossa percepção. O xamã vê que as doenças de um homem, em seu corpo físico, estão relacionadas com as diferentes situações vividas, com vidas passadas, com as influências energéticas negativas.
Um xamã não pode conhecer o xamanismo apenas pelo estudo do conhecimento sagrado; ele precisa viver as experiências xamânicas.
Um homem descobre que é um xamã através da ‘crise xamânica’, que geralmente vem associada com uma doença. Ele vai percebendo que a energia dele é muito maior e, no auge da crise, lembra-se de tudo, de todo o conhecimento que já foi experienciado em todas as suas vidas.
Então, aliando sua experiência ao conhecimento sagrado, o xamã cura realizando mudanças no mundo dos homens. Eis alguns pontos que devem ser observados numa cura xamânica:
1. o xamã nunca faz nada com o seu próprio poder;
2. a cura nunca é feita com a energia do curador, pois ele é apenas um canal; se der sua energia, pode adoecer e morrer;
3. o xamã tem que ver a razão profunda da doença, pois faz uma viagem xamânica ao mundo do doente.
Somente um xamã pode curar a loucura, pois ele vai a outros mundos buscando onde está a percepção do louco e traz essa percepção para o mundo atual.
O Psicanalista também tenta sentir o mundo interior e ajudar as pessoas. Porém, ele só trabalha no mundo mental, utilizando um sistema de símbolos. O xamã talvez não use uma palavra, mas faz uma intervenção energética direta, buscando bloqueios cármicos (ciclos que se repetem na vida). A cura xamânica desfaz o nó cármico. O xamã faz isso com o poder superior e ele tem consciência de todo o processo.
Todo homem é influenciado por uma hierarquia. Tudo que um homem faz retorna para ele. Por isso, ele precisa ficar atento, percebendo sempre quais são suas verdadeiras intenções. Um homem só fica livre da lei do carma se está iluminado. Na Terra não há essa liberdade, pois somos regidos pelas forças do destino e de nosso poder pessoal. No nosso planeta existem os Mestres, que são homens que direcionam uma grande quantidade de energia.
O xamã puxa energias negativas, promovendo mudanças nas vidas das pessoas, quebrando programas de insucesso e de hábitos energeticamente fracos. Ele não procura curar apenas o corpo físico ou liberar o homem de suas dificuldades, mas tenta conectar o homem com essa força superior, harmonizando o homem com tudo que está à sua volta.
Os xamãs sabem que os homens são muito influenciados por espíritos e que nem sempre as energias desses espíritos são de luz. Há também xamãs negros que buscam poder, riqueza e usam magia negra. Porém, eles precisam ter muito cuidado, pois a energia que eles direcionam para o mundo sempre retorna para eles.
Qualquer pessoa pode começar a aprender o conhecimento xamânico. Mas para ser um forte xamã é necessário que o homem seja escolhido, às vezes até contra sua vontade. Quando ele desenvolve muitas de suas supercapacidades pode se tornar um mestre.
No começo dos tempos só os xamãs desenvolviam suas super habilidades, através de rituais mágicos, onde entravam em contato com as energias de luz e sombra. Porém, muitas religiões se tornaram rituais vazios, pois não mais buscam a iluminação, com o elevado nível de energia, mas buscam apenas o controle social.
Para o xamanismo existe uma hierarquia cósmica regida por noventa e seis leis e cada homem possui sete níveis de consciência, onde cada um desses níveis apresenta diferentes níveis de energia. O homem seria como uma sociedade de espíritos e os espíritos superiores coordenam os outros.
A cura xamânica desperta os espíritos superiores do homem.


9. Fundamentação teórica

Xamanismo Siberiano

(Trabalho apresentado na disciplina Antropologia das Religiões pelas alunas Ana Maria Lyra, Lígia Feijó e Patrícia Vasconcellos.)

O Xamanismo é um conhecimento muito antigo, com cerca de 40.000 anos, oriundo das tribos siberianas – povos tungus, que se espalhou pelo mundo. Mantém uma relação íntima com a natureza e a ancestralidade, gerando possibilidades de cura.
O antropólogo Michael Harner, em seu livro ‘O Caminho do Xamã’ (2002) nos oferece uma excelente descrição do processo de cura no xamanismo:

“O Xamanismo é uma grande aventura mental e emocional, onde tanto o paciente como o curandeiro xamã ficam envolvidos. Através de sua heróica viagem e de seus esforços, o xamã ajuda seus pacientes a transcenderem a noção normal e comum que têm acerca da realidade, inclusive a noção de si próprios como doentes. Faz sentir aos seus pacientes que eles não estão emocional e espiritualmente sozinhos em suas lutas contra a doença e a morte. Faz com que eles partilhem de seus poderes especiais, convencendo-os, em profundo nível de consciência, de que há outro ser humano desejoso de oferecer seu próprio Eu para ajudá-los. A abnegação do xamã provoca no paciente um compromisso emotivo correspondente, um senso de obrigação de lutar ao lado do xamã para se salvar. Zelo e cura caminham juntos”.

O xamã é aquele que, consegue entrar e sair dos diversos estados alterados de consciência quando quer, trazendo ensinamentos e curas para si e para os outros, com técnicas que lhes são exclusivas e a ajuda de espíritos auxiliares, ou entidades. Ele pode acessar diversas dimensões (realidade habitualmente oculta), entrar em contato com espíritos auxiliares em seus trabalhos de cura, autocura e expansão da consciência. Distingue-se de mágicos e curandeiros pelo uso que faz do estado de consciência chamado de êxtase – onde sua alma deixa o corpo e sobe ao céu ou desce ao submundo para trabalhar na cura de um paciente, restaurando a energia vital ou extraindo a energia negativa. As técnicas xamânicas são simples e eficazes, mas exigem autodisciplina e dedicação. O estado xamânico de consciência observa as percepções do estado comum de consciência como ilusórias, assim como as pessoas em seu estado comum de consciência entendem as percepções do estado xamânico de consciência como ilusórias. A vantagem do xamã é que ele transita entre esses dois estados, conforme a sua vontade. Na perspectiva xamânica o conceito de fantasia não existe, pois tudo na natureza tem seu lado oculto, uma realidade incomum. Todas as coisas são dotadas de espírito: a doença, a alegria, a tristeza, a prosperidade, as pedras, as plantas, o fogo, a água, o ar, etc. O xamã está sempre acompanhado de seu espírito guardião e espíritos auxiliares. Tem o dom da cura, e supercapacidades, como clarividência, visão do passado, presente e futuro. Se for necessário usar droga num ritual de cura, é o xamã quem a toma, mais raramente o xamã e o paciente, pois é usada para atingir um estado elevado de consciência e isto é de responsabilidade do xamã. A dança é utilizada não somente para entrar em estados xamânicos de consciência – transe, mas também para revitalização e harmonização dos chacras, canalização da energia sexual, despertar da kundaline, etc. O tambor e o chocalho são instrumentos que facilitam esse processo, assim como o hamus, utilizado também para atrair espíritos – da beleza, da alegria, da prosperidade, da cura, etc. Na Sibéria, os xamãs referem-se aos seus tambores como cavalos ou canoas, que os transportam ao mundo profundo ou ao mundo superior.
A conexão entre o mundo dos humanos e o mundo dos animais é essencial, pois através do seu animal de poder o xamã faz conexão com o poder do mundo animal.
O xamanismo é uma atividade parcial. O mestre xamã participa ativamente nas questões econômicas, sociais e políticas da comunidade. Um xamã poderoso atua com sucesso nas duas realidades diferentes, a xamânica e a comum.
No Xamanismo a manutenção do poder pessoal é fundamental para o bem-estar. Não há distinção entre ajudar a si próprio e ajudar aos outros. Ajudar aos outros além de ser uma fonte de júbilo proporciona o aumento de poder. O Xamanismo vai além de uma transcendência egoística da realidade comum, pois tem como propósito o auxílio à humanidade.
Ao praticar o Xamanismo, você encontrará o seu caminho, sozinho. A citação do livro ´Saber do Xamã Siberiano’ ilustra bem esse conceito:
“A Felicidade independe de qualquer caminho, até mesmo do mais atraente. Ela encontra-se na liberdade sem qualquer obrigação de percorrer uma estrada após entender que todas elas nada mais são que um simples sonho”.
O Xamanismo Siberiano tem uma forma muito especial de compreender a criação do Universo, trazendo a concepção de quatro reinos. Eis a sua abordagem (livro ´Saber do Xamã Siberiano’).

COSMOLOGIA

Os Quatro Reinos

No início era apenas o oceano primordial da inexistência, Díi, o Deus principal. Resolvendo criar o universo, transformou-se em cisne e botou o ovo de ouro – seu filho, Svarog, Deus do nosso universo conhecido. (1) Svarog dividiu o ovo em duas partes, (2) em cima, (3) em baixo – o céu e o inferno. Da clara, (4) no meio, fez-se a terra. A terra tornou-se sua esposa Lada e juntos deram a luz a todos os deuses, criando assim os 4 reinos:

1. O Reino de Tengri – A eternidade
2. O Reino de Érlik – O passado
3. O Reino de Ulguém – O Futuro
4. O Reino de Umai – O Presente

Todo esse politeísmo não é nada mais do que a expressão de um único e verdadeiro Deus, Díi. Em miniatura, cada ser humano constitui o universo contido no ovo de Svarog, sendo uma face, um aspecto, uma expressão do único Deus, é Díi, o cisne, o espírito puro, o não existir.

O Arco de Tengri

De seu arco, Tengri dispara a flecha que penetra Umai, e na terra nasce um novo ser. A Flecha é um ser animado, composto de 5 partes – almas:
1. Kut (alce – energia vital – reino de Umai);
2. Sur (corpo – alma humana – Terra ), Corpo;
3. Tios (peixe – alma do reino de Érlik), Pensamentos;
4. Bos (pássaro – alma do reino de Ulguém), Sentimentos, Inteligência;
5. Ayi (olho onividente – alma do reino de Tengri).

Com a chegada da morte, a flecha se quebra e as almas partem, cada uma em direção ao seu criador.
A finalidade máxima do ser humano é despertar a alma Ayi, cuja função é observar, contemplar o trabalho da inteligência, do sentimento e do corpo. Para isso, precisa ampliar sua alma Kut, livrar-se dos pensamentos fracos da alma Tios, desenvolver sua alma Bos, direcionando-a para o caminho espiritual. Para ser um xamã, o ser humano precisa “desenvolver também a alma Sur e estar consciente de não apenas viver no mundo físico, mas, sobretudo, no universo do devaneio, das imagens, das alucinações”... até porque, “é no mundo dos sonhos que habita a alma Sur”.
Em seu livro ‘Círculo de Xamãs’ (2002), Olga Kharitidi faz um emocionante depoimento sobre as transformações ocorridas em sua via profissional após as suas vivências xamânicas em Altay:

“Apesar da recuperação dramática de minha paciente, algum tempo depois as minhas experiências em Altay ainda criavam uma considerável confusão profissional para mim. Entre outras coisas, eu agora achava difícil não poder traçar uma linha distinta entre a teórica irrealidade da psicose e a normalidade supostamente firme da sanidade. Então com a ajuda do ato de escrever e através da descoberta do meu poder de cura interior, a minha confusão foi substituída por uma compreensão mais profunda da natureza humana, que me ajudou a me tornar uma médica mais confiante e eficiente.
Comecei a estudar rituais nativos e cerimônias de cura, e a aplicá-los na minha prática junto com o tratamento convencional, criando novas formas de terapia. A crença siberiana na animação total – que tudo que existe está vivo, possui seu próprio espírito, e pode ser contatado – se tornou uma das minhas ferramentas psiquiátricas mais úteis. Descobri o que os xamãs querem dizer quando afirmam que cada doença possui o seu próprio espírito.” (p. 194)

Abordando ainda sobre o processo de cura, Harner (2002) nos diz que:

“O recente acúmulo de dados experimentais que comprovam que os profissionais iogues e de casos regenerativos podem manipular processos físicos básicos, antes considerados pela medicina ocidental incontroláveis pela mente, é apenas uma parte do novo reconhecimento da importância que a prática espiritual e mental têm para a saúde. Particularmente estimulante e implicitamente a favor da abordagem xamânica da saúde e da cura é a nova evidência médica de que, em estado alterado de consciência, a mente pode pôr em ação o sistema imunológico do corpo, através do hipotálamo. É possível que, com o tempo, a ciência venha a descobrir que a mente inconsciente da pessoa que é tratada pelo xamã, sob a influência do som lento, está sendo “programada” pelo ritual a ativar o sistema imunológico do corpo contra a doença.
O campo da medicina holística que vai desabrochando cada vez mais, mostra uma extraordinária quantidade de experimentos que se dirigem à reinvenção de várias técnicas há muito praticadas pelo xamanismo, tais como, a vidência, o estado alterado de consciência, aspectos da psicanálise, a hipnoterapia, a meditação, a atitude positiva, a redução do esforço e a expressão mental e emocional da vontade para obtenção da saúde e da cura. Em certo sentido, o xamanismo está sendo reinventado no Ocidente, precisamente porque está sendo necessário.”


10. Reflexões Finais ou Iniciais

Entendo que o conhecimento xamânico é um conhecimento contemporâneo, pois como L. Strauss, acredito que a ciência ocidental não explica tudo: há a arte, a poesia e os mitos.
O xamã reencanta a ciência quando faz ciência trabalhando com uma percepção ampliada da realidade.
Estou buscando essa forma de compreender o Universo. Não consegui ainda integrar na minha subjetividade tudo que vivenciei através do conhecimento xamânico.
Autores renomados fundamentam minhas experiências: Jung, L. Strauss, Morin e tantos outros. Meu cotidiano respalda o que me dizem os xamãs. A minha prática clínica buscando a cura espiritual, traz-me uma nova forma de fazer terapia.
Como integrar tudo isso numa ciência que insiste num ideal inalcançável de restrita objetividade? O que fazer?
Talvez a resposta esteja na simplicidade e na sabedoria de Francisco de Assis:

Doce é sentir em meu coração
Humildemente vai nascendo o amor
Doce é saber, não estou sozinha
Sou uma parte de uma imensa vida
Que generosa reluz em torno a mim
Imenso Dom do teu amor sem fim
O céu nos deste e as estrelas claras
Nosso irmão sol, nossa irmã a lua
Nossa mãe terra com frutos, campos, flores
O fogo e o vento, o ar e a água pura
Fonte de vida de tua criatura
Imenso Dom do teu amor sem fim
Imenso Dom do teu amor sem fim!!!


Entender que somos todos Uno, que “há muito mais coisas entre o céu e a terra do que possa imaginar nossa vã filosofia”, ou ainda, “que o essencial é invisível aos olhos” não é uma tarefa fácil.
Lembrei-me de que certa vez estava realizando um mergulho com cilindro e observei que a roupa de meu companheiro de mergulho tinha uma faixa vermelha. À medida que descíamos, o vermelho da faixa desapareceu e se tornou cinza. No momento da subida, a faixa voltou a ficar vermelha. Onde está a verdadeira realidade, objetiva e observável? Numa outra ocasião, estava numa praia distante dos centros urbanos e houve uma longa interrupção no fornecimento de energia elétrica. O céu ficou maravilhoso, completamente cheio de estrelas que me hipnotizavam e capturavam o meu olhar e a minha alma. Depois de certo tempo, o fornecimento da ‘luz’ foi normalizado e não via mais as estrelas, mas elas ainda estavam lá. Mais uma vez, a pergunta, ‘o que é a realidade?’.
Às vezes as pessoas questionam se isso tudo que os xamãs falam e fazem não é balela, enganação, uma tentativa de ganhar dinheiro explorando a ignorância das pessoas, ou ainda, uma magia negra, onde buscam apenas poder. Talvez, a partir do paradigma que predomina na sociedade ocidental, esses argumentos encontrassem alguma ressonância. Porém, não é assim que sinto intuitivamente dentro do meu coração, nem foi dessa forma que percebi nos momentos de minhas experiências com os xamãs. Além disso, minha vida não é mais a mesma, a minha compreensão de mundo não é mais a mesma, eu não sou mais a mesma.

Namastê!


Referências Bibliográficas

Centro Esotérico Internacional Altay de Ouro (2002). Livro do Saber do Xamã Siberiano.
Harner, Michael (1995). O Caminho do Xamã: um guia de poder e cura. – São Paulo: Cultrix
Kharitidi, Olga (2001). Círculo de Xamãs: uma iniciação aos segredos da antiga sabedoria siberiana. – Rio de Janeiro: Rocco
Gramacho, Derval e Gramacho, Victória (2002). Magia Xamânica: roda de cura. – São Paulo: Madras
Walsh, Roger N. (1993). O Espírito do Xamanismo: uma visão contemporânea desta tradição milenar. – São Paulo: Saraiva




25.4.11

Encontrando o xamanismo siberiano - parte 5

Fizemos vários trabalhos de resgate do Sagrado do Feminino. O mais significativo foi o de Magia de Cleópatra em que aprendemos a fazer maquiagem, como uma atividade meditativa, tornando-nos verdadeiras Deusas. Sirena conduziu esse encontro, exclusivo para as mulheres.

Aprendemos também a elevar o nosso nível de energia com movimentos pélvicos semelhantes ao símbolo de infinito (o nosso famoso oitinho). No final dessa vivência estávamos todos com muiiiiiiiiiiiiito calor. Houve ensinamentos para rituais de rejuvenescimento com massagens energéticas na face.
Todos os dias fazíamos meditação dinâmica, onde dançávamos músicas específicas para o trabalho de elevação de energia pelos sete chakras. Existe um cd xamânico com músicas para essa atividade. No Brasil ele é vendido por R$ 50,00; na Sibéria, por U$ 50.00. Os xamãs pregam um mundo harmonioso, sem divisão de países. Imagine o arrependimento de quem deixou para comprar o cd lá!!
Fiz uma consulta com o grande xamã que reconheci no ônibus (chamava-o carinhossamente de ‘meu velhinho’, devido aos seus lindos cabelos brancos) e me organizei para um ritual de iniciação em Cura Espiritual. Foi um ritual muito bonito, onde fui vinculada à egrégora de Shambala. Recebi uma pedra azul para utilizar nos rituais que conduziria depois.
Uma das questões que levantei no encontro com o xamã foi a minha solidão no trabalho espiritual e os compromissos com minha família que limitariam as minhas possibilidades de atuação. Na saída havia algumas peças, talismãs, para venda e comprei um colar e uma pulseira que tinha três medalhas penduradas nela, onde cada medalha representava uma área da minha vida: família, prosperidade e espiritualidade. Quando subi para o salão de encontros a medalhinha da família caiu; recoloquei-a no lugar; logo depois ela caiu novamente. Uma xamã percebeu o que estava acontecendo e me aconselhou a não colocar a medalha no lugar até que ela tivesse uma resposta dos espíritos através da meditação. Alguns dias depois ela me procurou e me disse que não poderia colocar a medalha na pulseira, pois os amuletos atraem a energia de ataque ao que estão protegendo e que eu precisaria re-organizar a minha relação com minha família e realizar a minha ‘missão’. Orientou-me a enterrar a medalha em Altay ou levá-la numa caixinha para o Brasil e colocá-la num altar em minha casa. Escolhi a segunda opção. Há pouco tempo outra medalhinha caiu. Qual o significado disso?
Só conseguimos falar com nossas famílias no dia da saída de Altay. Foi com muito amor e emoção que consegui falar com meu marido. Na Sibéria, fiz essa oração por meus amores:


Oração pelos Meus Amores!

Namastê!
O Deus que está em mim, saúda o Deus que está em você!
Que a Energia amorosa do Universo ilumine o seu caminho!
Que a Energia Divina flua através de você!
Que você manifeste todos os seus dons de Divindade, encontrando, assim o seu Coração!
Que a abundância cósmica seja uma constante no seu caminhar, expressando-se através dos espíritos do Amor, da Saúde, da Paz, da Família, do Trabalho, da Alegria, da Criatividade, do Dinheiro, da Amizade, da Solidariedade, da Aceitação e da Coragem!
Que o pulsar do seu coração seja um canal para que Deus ame através de você todo o mundo e realize todos os seus desejos!
Namastê!


Levamos as malas para o ônibus e um amigo nosso ficou surpreso como ele não conseguiu tirar do chão uma sacola que um dos xamãs carregou com a maior tranqüilidade.
Saímos de Altay, rumo a Novsimbinsk, para o encontro com o Mestre Bogomudr Altay Khan. Antes da partida, uma última olhada, uma saudade e a certeza da magia de Altay.



Altay Sagrado

O cume das montanhas,
o canto dos pássaros,
o frio do vento,
a leveza da neve,
o fluxo do rio,
a solidez das rochas,
a segurança das árvores.
Tudo isso se manifestando
através dos espíritos de Altay.
Nessa manifestação, o encontro com o Divino.
Tantos medos, tanta insegurança, tantos desafios.
Mas Deus, com o seu Amor maior,
envia-nos o espírito da Coragem e, de repente,
tudo isso se torna uma coisa só.
Somos Uno!
Aum!


A viagem de trem foi muito mais tranqüila, pois tomamos um chá que nos ajudou a dormir.
Ficamos num local muito agradável e passamos o dia inteiro em preparação para o grande encontro.
Tivemos um encontro com lindas mulheres russas, as Sacerdotisas, que estão sempre com o Mestre nos locais em que vive, pois ele fica escondido nas montanhas. Elas falaram para cada um dos participantes do grupo sobre o que viam sobre nossa alma, em encontros individuais. Momento muito emocionante, mas que não registrei direito, na forma racional. Quando finalmente o Mestre chegou e passou na minha frente, dando-me um amuleto, levantei o meu rosto para olhá-lo e, simplesmente, não sei explicar o porquê, não consegui ver sua face, pois uma luz forte refletiu de seu rosto e me cegou por instantes. Acompanhei seu percurso até a saída da sala e seu gorro russo ia caindo quando passou pela porta e ele o segurou. Por isso, sei que tem mãos. Fiquei muito impressionada e quando pudemos falar novamente perguntei para as pessoas que estavam no grupo, umas trinta, como era o rosto dele. Ninguém havia conseguido ver!!!! Até hoje não compreendo o que aconteceu.
Depois desse encontro fomos dormir e iniciamos, ainda de madrugada, a nossa viagem de volta para o Brasil. Quando estávamos no aeroporto de Novsimbinsk, um primo de uma companheira nossa, de Recife, ligou para o celular dela e não acreditava quando ela dizia que estava na Sibéria. Nesse momento fui fotografá-la ao telefone e logo que o flash estourou um policial chegou avisando que era proibido tirar fotos no aeroporto.
Em Moscou conseguimos sair do aeroporto e conhecermos a Praça Vermelha. Que emoção!!! Tudo é lindíssimo e muito luxuoso. Bem diferente da pobreza da Sibéria.
Fomos almoçar no shopping center, onde tudo era de mármore e granito e as lojas eram de grifes famosas. Aproveitamos o momento e a irreverência e almoçamos numa MacDonalds, em plena Rússia.
Só podemos expor os amuletos quando chegamos à Suíça.
Aproveitamos a parada no aeroporto e fizemos nossa higiene pessoal.
Ao pousarmos no Brasil, senti uma alegria imensa: sol, cores, liberdade. Comecei a cantar: “Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza!”.
Afinal, o mantra dos brasileiros, que encantava a todos os outros do grupo era “Alegria!!!”.

24.4.11

Encontrando o xamanismo siberiano - parte 4

27/03/2003 – 18:30h – Recife. 28/03/2004 – 0:30h – na Rússia.


Saímos de Moscou rumo à região da Sibéria, com temperatura média de -33 graus centígrados. Não consigo imaginar que frio é esse! Na chegada a Moscou me emocionei quando me lembrei de seus heróis e das lutas por um mundo mais justo. O clima era tenso porque tudo é proibido. Fiquei cinza, segundo Lígia, quando chegamos e vi uma mulher com roupas militares checando-nos numa fila. Gatilho de memórias passadas? Tentarei trabalhar isso em Roger (Roger Woolger, Terapia Regressiva Integral).
Esperamos muito tempo no aeroporto. Várias russas nos levaram roupas, botas e tudo o mais. Tudo espalhado pelo chão e nós a escolhermos o que cabia em cada um. Parecia uma feira da sulanca, comum no interior do nordeste brasileiro. Só podíamos ir ao banheiro em grupo e não podíamos falar a palavra ‘xamã’. Se nos perguntassem o que estávamos fazendo na Rússia, tínhamos orientação para responder que éramos turistas.
Troquei 20 dólares por 506 rublos. Só o jantar foram 220 rublos. E olhe que pedi café e um sanduíche de queijo aberto (veio uma banda de pão de caixa com uma fatia de queijo em cima). Como não entendi se aquele já era todo o pedido e gesticulei para o garçom perguntando se essa era a comida; ele entendeu que queria mais sanduíches e quase desmaiei com o preço. Resolvi manter as mãos embaixo da mesa e não provocar mais gastos extras.
Até o aeroporto de Moscou viajamos com o xamã russo Mukhomor e com a tradutora Irina. Já na Rússia no encontramos com Soledad (xamã chilena) e Sirena (xamã russa) que estavam com um grupo de chilenas. Como sempre, elas estavam lindas e simpáticas.
Ainda não fui ao banheiro, nem fiz higiene pessoal. Quando penso no chuveiro quente de minha casa.
Mukhomor tem sido maravilhoso, sempre muito cuidadoso, um verdadeiro ‘pai’. Para mim, uma experiência nova, já que estou mais acostumada a cuidar.
Estou vestida com duas meias-calça, uma segunda pele e duas calças, além de uma meia de lã. Arrumei uma bota de lã; na parte de cima, segunda pele, blusa de lã e um casaco de pele e couro. Meu cabelo já está oleoso e coloquei um laço que foi de minha mãe.
Estou com saudades de casa... Sinto-me numa Torre de Babel, com pessoas falando línguas diferentes e com visões de mundo tão singulares. Esse é mais um ponto para reforçar a minha aprendizagem de que tudo é ilusão.
Estou cansada e com a sensação de entrega semelhante a que tinha quando ia para a sala de parto ter meus filhos. Sinto como os amo e como amo muito meu marido.
Meus pés pesam, as calças apertam as pernas. Mais uma vez, refeições sendo servidas a bordo. Não sei mais se é almoço, jantar, as percepções de meu corpo estão se diluindo... Segundo Mukhomor, estamos indo em direção ao sol.
[...]
Chegamos a Novsimbisk e estava muito frio. O que chamam de aeroporto é um galpão, sem aquecimento, da época do Regime. Tudo é muito frio e de uma cor só, onde predomina a cor cinza; clima pesado; pessoas carrancudas. Tive que ir ao banheiro e quase tive um ataque histérico quando descobri que o vaso sanitário era apenas um buraco no chão – isso no aeroporto – e eu teria que fazer xixi aí, estando com um monte de roupas e, ainda por cima, menstruada. Descompensei e comecei a rir sem parar. Depois tivemos que arrastar nossas malas até um ônibus (antigo); os carros são velhos, as condições de moradia muito precárias. Fomos lanchar e só comi crepe com geléia. Peguei na neve pela primeira vez na vida e fiquei muito emocionada.
Fiquei conversando com um russo, Pavio, que não falava inglês. Imagine a mímica!!!! Vi bebês na rua tão encapotados e duros que pareciam bonecos. Crianças brincando de bolas de neve e trenós. Nos locais chiques, as mulheres andam arrumadíssimas e se pintam desde cedo, logo de manhã.
Depois do lanche fomos para um parque, onde havia um ‘hotel’, e aí eu paguei todos os meus pecados, pois tive que carregar a bolsa de mão, a mala e tudo o mais, por uma boa distância, numa trilha cheia de pedras e de neve. Segundo Mukhomor, ‘mala quadrada, cabeça quadrada’. A essa altura do campeonato a minha mala já estava sem rodinhas, arrancadas pelas dificuldades da estrada. Pra que tanta coisa, se não tomo banho há dias?!!! Meu cabelo parece uma lata de óleo.
Descansamos um pouco nesse lugar, que tinha uma energia muita pesada, como se tivesse sido um presídio político ou hospício, na época do Regime, afinal estávamos na Sibéria. Segundo Sirena, um local com muitos espíritos. O quarto era bem simples, com duas camas e uma pia. Tentei tirar a colcha, mas a dureza dos lençóis era pior. Realmente, eu, nesse momento, já estava desapegada de tudo e não sabia mais quem eu era. Só fazia rir, junto com Antonieta.
Nesse momento eu aprendi que mais nunca, em todas as minhas vidas, eu iria fazer uma mala daquele tamanho. A exaustão foi enorme. Depois tivemos que trazer as malas de volta para o ônibus e soubemos que o ônibus havia quebrado e que iria demorar, pois "os espíritos da Rússia são muito brincalhões e gostam de imprevistos", segundo Mukhomor. Começou a nevar. Parei, larguei minhas malas no chão e pensei: “Daqui eu não saio mais para lugar nenhum e vou escolher a melhor posição para morrer congelada”.
Para nossa salvação, apareceu um senhor com os olhos mais doces e o sorriso mais iluminado que já vi e nos disse: “Eu sou o Espírito da Sibéria. Estou feliz por vocês estarem aqui e lhes ofereço o meu melhor espetáculo”. Fiquei pensando que tudo depende da forma como se vê, pois eu estava entendendo a neve como uma tragédia e o Espírito da Sibéria entendia a mesma neve como um presente de boas-vindas aos visitantes!!! Depois ele nos levou para fazer exercícios, numa vivência de olhos fechados no meio da neve e da floresta, enquanto outros xamãs ficaram com nossas malas, esperando pelo ônibus.
Quando o vi pela primeira vez no ônibus o reconheci de imediato e pensei que fosse algum jornalista famoso. Perguntei depois para Soledad o nome dele e ela me disse que ele era um poderoso xamã de cura espiritual. Fiquei realmente impressionada. Depois, já durante o curso, eu sentia a chegada dele na sala, ainda que eu estivesse de costas. Chocante!!!!
Finalmente fomos para a estação de trem e fiquei, literalmente, apavorada. A estação é a céu aberto. Era noite e tínhamos hora para entrar no trem. O caminho era longo, tinha escadas e eu tinha que levar todas as malas; ainda por cima estava muito frio. Quem me salvou foi o meu amigo russo que levou minha malona. Ficamos divididos em dois grupos: vagões 5 e 8. Quando subi no vagão 8 havia uma fila no corredor, os russos gritando e nós, brasileiros, não sabíamos o que fazer, qual o nosso leito e tudo mais. O alfabeto russo é diferente e não sabíamos ler nada do que estava escrito no bilhete, nem o nosso nome!!!! Sirena chegou e leu para todos nós os números das cabines e dos leitos. Um russo gritava com Socorro (uma integrante do grupo, vinda da Paraíba), dizendo-lhe que aquele leito não era o dela; na agonia ela perdeu o passaporte; ninguém passava. Pauluxo (um integrante do grupo, vindo de São Paulo) com um monte de malas no corredor, Socorro desesperada, os russos gritando, eu com minhas malas sem saber o que fazer. Nesse momento o pânico foi tão grande que eu experienciei o nada; literalmente, fiquei paralisada. Depois de Sirena ler nossos bilhetes, acomodamo-nos nos leitos. Fiquei com Pauluxo e mais um casal de russos, já idosos, que colocaram seus pijamas para dormir. Estava muito tensa e, apesar do calor, só tirei o casacão grande. Mukhomor nos serviu um café quente. Não forrei a cama e dormi de botas e tudo. Acho que essa situação engatilhou alguma outra de vidas passadas. Não dormi bem. Às 5:30h nos acordaram para descermos. Levantei logo porque estava com muito medo de me perder do grupo e fiquei no corredor cuidando das malas, pois o horário estava errado. Vi pequenos vilarejos muito pobres, de apenas umas seis casas, com pessoas saindo para trabalhar e usando o trem como transporte.
Vi o sol nascer nas cidadezinhas e me apaixonei ainda mais pela Rússia. Adormeci sentada e Thaís (uma xamã brasileira) foi me chamar para deitar em seu leito. Adormeci até que chegamos a Barnau, região de Altay, onde um ônibus nos esperava e nos levou direto para o lugar sagrado, onde ficaríamos durante todo o nosso encontro. 
Nesse ‘hotel’, as instalações são ótimas. Ana e eu ficamos num quarto, deixando em outro, Lígia, Salete e Antonieta. Arrumamos nossas coisas e depois fomos conhecer Perun, um xamã maravilhoso.
A chegada ao hotel em Altay trouxe-me um alívio enorme, pois eu estava exausta e a possibilidade de um banho quente e cama confortável me sugeria o paraíso na Terra. Dessa vez as escadas e as malas não precisaram de uma batalha maior, pois havia pessoas para levá-las para nossos quartos. Menstruada, há quatro dias sem tomar banho, vestindo várias peças de roupa, percebi que a viagem tinha me ajudado a me desapegar dos meus hábitos, do meu mundinho ‘real’.
Agradeci a Mukhomor pelos cuidados na viagem e ele me respondeu que estava apenas sendo um canal do amor do Mestre.
Depois das acomodações (eles não usam chuveiro, mas uma ducha numa enorme banheira), fomos para nossa primeira prática, num salão aquecido do terceiro andar.
Sirena nos orientou a descermos com material para banho, para tomarmos uma sauna. Foi um ritual maravilhoso. Primeiro, ficamos num salão onde deixamos nossas roupas, fomos para uma ducha e tomamos, finalmente, banho; em seguida, ficamos numa sauna seca e, por último, caímos numa piscina gelada. Os xamãs usam muito o contraste do quente-frio para harmonização, pois os associam aos conceitos de yin-yang (lembrei-me da sabedoria da minha mãe).
Após esse ritual, trocamos de roupa e fomos para o salão aquecido, onde tivemos a prática de nossa primeira refeição em conjunto. Plásticos no chão e todos em volta para compartilharmos não apenas a comida, mas a energia do alimento. O cardápio foi arroz, saladas, frutas, pão café, chá, água e biscoitos. Aprendemos que os xamãs usam o arroz como alimento para promover uma limpeza energética no corpo. Depois da prática, fomos nos deitar e desmaiamos de cansadas na cama.
Em todas as refeições havia a intenção de compartilharmos o Divino. Começávamos com um Namastê e agradecíamos pelo alimento. A alimentação é feita com muita consciência, onde saboreamos cada alimento, sentindo-o pelo gosto, pelo cheiro, pela textura, pela beleza. As refeições são feitas em silêncio.
No outro dia acordamos às 8h e colocamos todas as nossas roupas de frio para irmos fazer exercícios, nossa prática matinal, ao ar livre. Corremos e fizemos vários exercícios que sempre tinham um objetivo ‘espiritual’ - como o desenvolvimento da nossa consciência – e nos aqueciam, obrigando-nos a ir tirando todos os casacos. A paisagem é exuberante, com neve, árvores brancas, pinheiros de Natal e muito cinza-prateado nos galhos secos das árvores. Todos os dias passávamos por esse ritual, As práticas variavam com bolas de neve, bonecos de neve, esqui, subidas às altas montanhas, descer montanhas de ‘bunda’ e tantas outras. Tudo é celebrado com muita alegria.
A princípio, tentei registrar tudo dia-a-dia. Não consegui, pois não me sentia mais tão ancorada na Terra e o meu racional não predominava tanto. Então, descreverei a partir de agora, situações vividas pelo nosso grupo, de acordo com minhas recordações e sentimentos pessoais. Da mesma forma, não conseguia levar a máquina fotográfica para as vivências, pois a energia do que estava vivendo não combinava com o registro frio de uma fotografia. Por isso, as fotos que se seguirão não estão na ordem cronológica do que vivemos em Altay, mas acompanharão descrições de minhas recordações.
Ainda no aeroporto de Moscou o grupo de brasileiros se encontrou com o grupo de chilenas. Entre elas estava uma senhora que estava tendo o seu primeiro contato com o xamanismo ali, pois havia resolvido vir para a Sibéria porque seu irmão estava com câncer, diagnosticado com pouco tempo de vida, e havia sido curado num ritual xamânico, conduzido por Mukhomor, deixando todos os médicos completamente estupefatos. Só encontramos o grupo de europeus em Altay.
Quando estava no avião, depois de sair de Moscou, sentei-me com um companheiro brasileiro, advogado cearense, que, quando me viu de luvas e cachecol branco de bolinhas pretas, começou a rir descontroladamente e me chamou de ‘101 dálmatas’.
Eu também comecei a rir porque estava igualzinha a um cachorrinho dálmata. Estávamos todos muito entrosados e alegres, ansiosos pelo que nos esperava em Altay. Os russos não falam nada de inglês e a comunicação com eles fica muito difícil. Tivemos dificuldade com nossos pedidos de alimentação no avião.
Fizemos muitas caminhadas na neve. Como sou muita pequena, a neve chegava à altura das minhas coxas, quase me sugando. Uma neve macia, que me envolvia com carinho.
Fizemos uma visita às montanhas sagradas de Altay. O ponto era muito alto e tivemos que pegar um teleférico. Não tenho como descrever a beleza do lugar. Fizemos meditação, visão de futuro, ritual de aiame (encontro com sua ‘alma gêmea’). Aproveitei para pegar pinhas secas que estavam no chão e que hoje estão na minha sala.
Quando estávamos lá nas montanhas, quase que em transe, chegou um grupo de turistas com barulhos, alvoroços, máquinas fotográficas e uma guia a contar a história do lugar. Percebi, chocada, que estávamos no mesmo espaço físico, mas víamos realidades completamente diferentes. Fiquei triste quando percebi que aquele grupo de turistas espelhava o meu comportamento no mundo ‘real’.
Num determinado momento de nossa caminhada nas montanhas, um grupo de russos começou a nos seguir. Não sei se eram policiais, mas estavam com gravadores e nos observavam o tempo todo. Nessa hora alguns xamãs sumiram com os russos que estavam no nosso grupo. Apesar de haver oficialmente liberdade religiosa na Rússia há muita corrupção na polícia e já ocorreu a prisão de alguns membros dos grupos que visitavam Altay com os xamãs para averiguação e esse grupo só foi liberado depois do pagamento de uma alta quantia em dinheiro. Podemos ouvir o canto dos pássaros, a música do vento; andamos de olhos fechados através das árvores dos bosques. Realmente, aqui, nas montanhas sagradas de Altay, sentimos o Espírito da Sibéria.
Fazíamos, à noite, muitas encenações de teatro. Também cantávamos e dançávamos. Tudo com muita alegria e festa. Ficava pensando nas festas aqui no nosso mundinho que sempre têm bebida e comida. Não havia bebida alcoólica, nem Coca-Cola, e a comida era muito leve, no momento do nosso jantar. Eu só comia meia fatia de pão com requeijão e meio copo de café; esse cardápio era repetido pela manhã e à noite. Quando percebi isso fiquei assustada pensando nos programas de televisão que via e que falavam sobre a alimentação via energia e que eu olhava com desdém. Agora eu estava vivenciando isso tudo e era verdade.
Numa noite fizemos um teatro com contos de fadas e tudo foi muito mágico e lindo. Percebi que os contos de fadas realmente nos falam numa linguagem universal, pois apesar das diferenças de língua, todos nós estávamos conectados com a energia de cada história.
Quando fomos esquiar senti algo muito estranho, pois percebi o cenário como algo que me era muito familiar. Nunca havia esquiado antes, mas os movimentos dos esquis e do corpo vieram naturalmente. Estranho, mas o que era comum nessa viagem?!!!
Quando chegou o dia 01 de abril, o xamã Perun nos perguntou se sabíamos que dia era aquele. Os brasileiros logo responderam que era o nosso Dia da Mentira. Mas era o dia do início da Primavera. Como por mágica, os pássaros chegaram, os rios começaram a degelar, o verde apareceu. Mukhomor comentou que nós brasileiros temos tanta vida na nossa natureza que não sabemos o que é a morte e, por isso, não compreendemos e valorizamos a vida.
Nesse dia, à noite, tivemos nossa noite de gala e fomos orientados a vestir roupas bonitas, com adereços, lenços, maquiagem e tudo o mais. Fizemos teatro para expressar o nosso primeiro contato com o xamanismo. Nosso grupo relatou o meu encontro com o xamanismo e foi muito divertido.
Depois de todos os grupos se apresentarem, os xamãs trouxeram muitas tortas cheias de cremes e começaram uma brincadeira de passar torta na cara, desmanchando assim toda nossa imagem de elegância. Eles queriam que refletíssemos a respeito do apego e da nossa ilusão quanto aos papéis que desempenhamos na nossa vida. Depois do mela-mela, fomo tomar sauna. Foi uma experiência de liberdade. Apenas nessa noite vesti o casaco de peles de minha mãe, enorme e pesado, que levei durante toda a viagem. Mais uma lição.
Sempre começávamos nosso encontros com a saudação Namastê!, que significa: o Deus que está em mim, saúda o Deus que está em você. Lindo!! Depois da saudação recitávamos o mantra da egrégora de Shambala:

NAMO SOTIDANANDA ANA PARAM ANANDA SWASTI

Aprendemos, também, essa belíssima oração:

Oh! Imensa Força Divina, neste exato instante, eu vos peço:
Que me abra o coração e ilumine a minha mente, para que eu possa compreender esta grande verdade que é a minha vida, e eu vos peço isso, não só por mim, mas para a vossa glória e pelo bem de toda a humanidade.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém.
Aummmmmm...





23.4.11

Encontrando o xamanismo siberiano - parte 3

5. Viajando para a Sibéria – Diário de uma aventura


Estamos no avião, indo de Recife para São Paulo, cumprindo a primeira parte de nossa viagem. A nossa energia é de muita alegria. Estamos ansiosas... O que nos espera em Altay? Quais serão nossas transformações?
Fiquei pensando no percurso da minha vida. Tudo começou há muito tempo. Lembro-me da minha solidão infantil, dos momentos em que ficava pensando em algo que não sabia definir; choro emocionada. Desde pequena sinto a espiritualidade muito presente na minha alma. Tenho a lembrança de uma amiga da minha mãe ter comentado que apesar de eu ainda ser criança, eu era uma pessoa muito iluminada. Profecia? Percepção?
Catolicismo... Espiritismo... Espiritualidade... [que sono]
[...]
Já estamos voando em direção à Suíça. Nem acredito direito que estou indo para a Europa! Sonhei com essa viagem por tanto tempo... Percebi que não devemos adiar a realização de um sonho, seja qual for o motivo. Aprendi que podemos realizar qualquer coisa se a nossa Alma também está nesse desejo. Porém, aprendi que às vezes o que imaginamos como espetacular é algo bem simples. Com certeza, a felicidade está nas pequenas coisas, na nossa busca espiritual.
É tão bonito como percebo a vida agora! Sinto-me fazendo parte de uma grande teia, onde tudo está interligado. Não me sinto mais levando a teia, mas tecendo apenas o meu fio e, assim, construindo a teia junto com outras pessoas.
No meu coração sinto a energia amorosa do Universo e isso me dá forças para me curvar e louvar o milagre da vida e, ao mesmo tempo, dá-me a noção da minha insignificância diante do milagre e do mistério que é viver.
Quando era criança adorava ler livros sobre Atlântida, os egípcios, os maias, os incas, os astecas; nunca consegui estudar ou ver filmes sobre as guerras, o nazismo, os escravos. Memórias de vidas passadas?!
Perceber-me diferente e sozinha nessa diferença, trouxe-me muita dor. Vida espiritual intensa [pausa para o jantar, fila para o banheiro, tudo apertado e ainda falta tanto... ir à Europa não é tão divertido] e intelectual com facilidade. É bom ser inteligente, mas quando se é muito, fica-se com um sentimento de não pertinência...
O pôr-do-sol foi lindo. Tons de laranja cobriam o céu e o negro da escuridão, aos poucos, vinha dominando tudo. O branco das nuvens é tão luminoso. Será que o Céu é assim?
Agora já é noite. A estrela solitária do final da tarde ganhou mais companhia; são vários pontos de luz que iluminam a escuridão do Universo. Emociono-me por estar mais perto delas e da lua, que reina como uma deusa linda, mostrando-nos que tudo é impermanente.
Diante de tudo isso, sinto uma enorme saudade de casa e percebo como amo meu marido, meus filhos, meu pai, meus parentes e amigos, meu cachorro. A partir dessa descoberta óbvia, vou redimensionar minha rotina. Quero mais tempo para sair com meu marido, mais energia para fazer amor. Quero ficar mais com meus filhos, vendo filme, comendo pipoca e brigadeiros, lendo livros, passeando. Quero estar sempre em casa na hora das refeições para que possa compartilhar da presença dos meus entes queridos, especialmente do meu pai. Quero mais chás da tarde com amigos. Quero cuidar da casa, de flores e da cozinha. Quero tempo para escrever meus livros, para meditar e fazer ioga. Como conciliar essa minha essência com o meu trabalho, como Psicoterapeuta e Professora, com o Mestrado/Doutorado, com Roger, com Xamã? Quero ganhar muito dinheiro, quero abundância. Quero nossa linda casa de Gravatá. Quero viajar com minha família. Quero ser feliz com eles!!
Agradeço ao Universo pela oportunidade de desenvolvimento e de serviço ao Deus do Amor. Namastê!
[...]
Hoje, 27 de março de 2003, já estamos na Suíça, saindo agora para Moscou. A própria viagem já é uma prática espiritual, pois é muito cansativa. Ainda temos muito chão.
Se o pôr-do-sol foi lindo, o nascer do dia foi magnífico!!!!!!!! O céu azul e laranja sobre os Alpes Suíços cobertos de neve. Foi um escândalo!!!!!! Obrigada!
Quando o avião pousou, emocionei-me: estou na Europa. É tão estranho. Poder ver os pinheiros reais de Natal, as casinhas de telhado em pé para não acumular neve... Percebi, claramente, que o tempo, o espaço, tudo é relativo. Aqui são 10h, em Recife são 6h e a minha família se prepara para as atividades de um novo dia. Eu, em trânsito, onde estou? a que mundo pertenço?

22.4.11

Encontrando o xamanismo siberiano - parte 2

4. Mukhomor em Recife


Foi muito bom rever Mukhomor. Ele chegou vindo de Maceió/AL/Brasil. A tradutora Irina o acompanhava novamente.
Organizamos várias consultas, palestras, seminários, trabalho com crianças, meditação dinâmica e tudo fluiu muito bem. Dessa vez fiquei com ele mais de uma hora. Explicou-me que no nosso encontro em Brasília minha alma havia reconhecido a dele, lembrado do trabalho que eu teria que desenvolver e que havia ficado com medo. Por isso, eu havia fechado o meu campo energético e ele não tinha conseguido ver mais nada.
A organização do trabalho de um xamã é muito diferente de outras que realizamos.
Ele segue sempre a energia do espírito das coisas, das pessoas, das situações (“Os Espíritos estão nos dizendo...”) e isso provoca alguns contratempos na organização. Por exemplo, a consulta de uma pessoa pode durar quinze minutos e a de outra durar duas horas, quando ambas pagaram o mesmo valor. Uma outra situação que causa problemas para a organização é o agendamento de consultas, que podem começar depois do horário marcado ou ter algumas suspensas porque o xamã achou que era mais importante ir desenvolver uma outra atividade, como uma entrevista nos meios de comunicação, pois um maior número de pessoas seria beneficiado.
Sempre havia práticas corporais no parque da cidade pela manhã, pois o xamanismo defende a idéia da importância do ancoramento corporal no trabalho com energias espirituais. Depois tomávamos banho e íamos para as consultas. À noite, promovíamos palestra, meditação dinâmica, rituais de cura. No final de semana tivemos Seminários.
Uma coisa que nos impressionou é que os xamãs não comem quase nada. Organizávamos uma cesta com frutas, biscoitos, sucos, refrigerantes, chá, água e deixávamos tudo pronto na sala onde o xamã estava realizando as consultas. Quando voltávamos à noite para a limpeza, só havia sido consumida a água. O dia todo trabalhando, sem interrupção, e não havia fome!!!!! Haja energia.
Mukhomor nos sugeriu que organizássemos um Seminário de Cura Espiritual em Julho/2004 (não conseguimos).
De Recife o xamã seguiu para São Paulo, onde continuou seu trabalho com as energias espirituais.

Encontrando o xamanismo siberiano - parte 1

1. Primeiro contato

Quarta-Feira: Ligo para Eunice, grande amiga de Goiás, convidando-a para o nosso curso de Terapia Regressiva Integral, com Roger Woolger. Ela atende ao telefone um pouco atordoada e diz que acabou de chegar da Sibéria, onde se encontrou com alguns xamãs e ficou impressionada com a força do trabalho deles. Disse que passaria meu número para o pessoal de Brasília que iria trazer um dos xamãs para o Brasil.
Quinta-Feira: Estou no clubinho de mergulho e meu celular toca. É alguém de Brasília me convidando para o encontro com um xamã siberiano. Começa a me falar da força da energia do xamanismo e me pergunta se estou preparada. Respondo que o nordeste brasileiro é muito quente e que o xamã ‘pode vir quente que eu estou fervendo’ e que irei para Brasília. Não sei explicar o porquê, mas sinto uma enorme alegria. Desligo o telefone e aviso para meu marido que irei ao encontro de um xamã siberiano.
Sexta-Feira: Ligo para uma amiga psicóloga e a convoco para a viagem. Ela não fica muito entusiasmada, mas me pede mais informações. Ninguém sabe nada direito. Não temos dinheiro para as passagens, para as consultas com o xamã e para a hospedagem. Outra amiga poderia nos receber lá. Insisto na aventura da viagem e minha amiga topa ser minha companheira nesse caminhar.
Domingo: Minha amiga me liga dizendo que já está com as passagens dela na mão (foi levar o marido no aeroporto e ele lhe deu as milhas), vendeu uma granja que há muito tempo estava à venda e está com o dinheiro para as despesas da viagem. Milagre? Força xamânica?
Segunda-feira: Recebo um e-mail que quase me faz desmaiar, trazendo-me notícias de alguém muito importante no meu passado de mais de 20 anos atrás. E o xamanismo com isso?
Compro minhas passagens, consigo o dinheiro das despesas e combino a hospedagem com minha amiga. Todos me perguntam o que é um xamã. Não sei responder, mas me entrego à intuição. Cuidado com os chás, dizem alguns. Não tenho medo. Sei que isso é apenas o início de uma grande jornada de descobertas, experiências e conhecimento.

2. Viajando para Brasília

Vamos para Brasília, eu e Lígia. Simone nos recebe e nos leva para passear. Temos consulta marcada com o xamã na hora do almoço.
Chegamos no horário combinado e esperamos, esperamos, esperamos, por quase três horas. Finalmente chega o meu horário. Entro e dou de cara com um xamã grande, com olhos azuis enormes e com um olhar profundo. Ele está vestido com roupas rústicas e toca um tambor. Pede-me para fechar os olhos. Talvez eu tenha entrado numa espécie de transe. Começa a falar, em russo, sendo traduzido para o português por uma intérprete brasileira. Não gravo nada do que fala. De repente, ele diz que irei mudar de dimensão. Fico chocada, pois havia tido essa mesma mensagem alguns meses antes e não a tinha levado muito a sério (pelo menos conscientemente). Ele me pergunta se tenho algum questionamento; respondo que não; ele começa a se inclinar e a dizer ‘Namastê!’. Fico sentada olhando para ele, sem entender o que está acontecendo. A tradutora me diz que devo sair. Surpreendo-me porque eu não havia passado nem 15 minutos com o xamã. Viajei de Recife para Brasília, paguei mais de cem reais pela consulta e não aproveitei nada. Que idiota!!!!!
Aviso para Lígia que ela deve fazer perguntas. Ela fica quase uma hora com o xamã. Vamos para a casa de Simone e devemos voltar à noite para irmos para o local do Seminário. Marcamos na MacDonalds. Ninguém aparece. De repente, chegam duas jovens que tentam nos orientar, mas também não são da cidade. Uma delas vai conosco no carro e nos diz que o apartamento que vamos é num daqueles prédios ‘ali’ (em Brasília os edifícios apresentam um projeto arquitetônico semelhante) e que na porta tem um espelhinho. Nessa hora, ‘surto’. Começo a ter uma crise de risos. Minha amiga Simone anota o endereço, a placa dos carros, pois tem medo de estarmos sendo levadas, eu e Lígia, algum tipo de ritual macabro.
Seguimos para um sítio a 40 km de Brasília. Sinto muito frio. Camas simples; durmo como pedra.
Práticas matinais, meditação, alimentação sadia, caminhada à noite pela mata (como sou baixinha o mato quase me cobre), ritual com tambores à tardinha. Tudo muito mágico, alegre e simples.
Compramos cd, camisa, livro. Lígia compra um amuleto (o seu primeiro).
Voltamos para casa mais energizadas. O que aconteceu?

3. Sirena e Soledad em Recife

Tentamos várias vezes trazer o xamã para Recife, mas nada dava certo. Nas férias de Janeiro/2004, eu estava numa praia longe da cidade, Lígia estava em São Paulo e Ana – outra amiga que topou organizar a vinda dos xamãs para Recife – estava nos Lençóis Maranhenses, uma xamã chilena (Soledad) nos liga, avisando que estaria na cidade com outra xamã russa (Sirena). Justificamos nossa ausência nos encontros e nos despedimos. Não sei explicar como tudo aconteceu, mas no dia da primeira palestra delas aqui estávamos eu, Lígia e Ana na primeira fila do auditório.
Depois dessa palestra tivemos vários encontros com as duas e combinamos a vinda do xamã Mukhomor a Recife. Investimos financeiramente em alguns cupons para futuras consultas e seminários com o xamã.
Tivemos o carnaval e na quarta-feira de cinzas, quando estava indo de carro com meu marido para um almoço na casa de meus sogros, recebi o telefonema de Soledad me informando que eu, Lígia e Ana estávamos sendo convidadas para irmos para a Sibéria, para um encontro internacional, onde haveria a presença de vários xamãs e do mestre Bogamudr Altay Khan. Respondi no mesmo instante que iria. Desliguei o telefone e meu marido me perguntou “Para onde você vai?”; respondi-lhe “Para a Sibéria.”. Ele arregalou os olhos e a partir daí tudo foi muito mágico e as coisas começaram a fluir.
Fiz um empréstimo no banco para poder financiar a viagem. No dia seguinte recebi um telefonema de um corretor de imóveis avisando-me que tinha uma proposta de compra à vista para um terreno que eu tinha colocado à venda há mais de 12 anos. Quase não acreditei!!!!! Vendi o terreno, quitei o empréstimo e pude viajar tranqüila. Milagre?!!




19.4.11

"Fogo que arde e não se vê".

Fico pensando em quantas coisas o coração da gente sente e não diz. Não diz porque não pode, porque as pessoas com as quais convivemos iriam ficar chateadas, porque o que desejamos dizer pode nos colocar numa situação delicada. E, assim, passamos a vida guardando segredos num coração que vai ficando fraquinho, fraquinho, porque não pode viver plenamente.

A grande maioria do que não pode ser revelado se refere a sentimentos amorosos. É um ‘eu te amo’ que fica guardado no peito, é um ‘que saudades eu sinto de você’ que fica trancafiado, é um ‘volta para mim e vamos começar tudo de novo’. Muita gente espera a morte chegar para se mostrar inteiro na transparência da alma numa outra dimensão. Lá, no horizonte, não se consegue esconder os segredos do coração. Acredito assim.
Então, fiquei matutando com meu coração e meus botões, se a minha passagem se fizesse hoje, o que seria revelado que meu coração guarda a sete chaves? Sei que ele falaria do enorme amor que guardo por meu primeiro namorado. Como gostaria de encontrá-lo, numa esquina da vida qualquer, e conversar sobre como foram nossas vidas. Será que não ficamos juntos por medo, por covardia, pois o que sentíamos um pelo outro era grande demais para o corpo dar conta? Será que nossas almas irão ficar juntas no novo endereço? Outro sentimento que cultivo com carinho em meu coração é o amor pelo meu primeiro marido, o homem por quem perdi a cabeça, cujo corpo fazia o meu arder em quarenta graus, com quem tive minha primeira filha, também com quem construi os mais belos castelos do meu conto de fadas. Sonhei que seria feliz para sempre ao seu lado. Esqueci que pra sempre, sempre acaba... O que revelaria o meu coração sobre os meus sentimentos em relação ao meu segundo marido? Haveria mágoa, dor, abandono, mas sei que muita gratidão por um dia-a-dia repleto de cenas de margarina de uma família feliz. Ao seu lado pude resgatar meu feminino e com ele tive dois filhos lindos. Sem as máscaras que uso do lado de cá, ele poderia ver o quanto lhe quero bem.
Há o que meu coração gostaria de falar para meu companheiro atual e que muitas vezes faz silêncio por respeito à sua alma grande, com muitas dificuldades de lidar com o ego. Vou deixar que este pedaço do coração tenha voz na outra dimensão.
Estava deitada na cama, vendo o dia começar e a chuva tomar conta de tudo, e pensei que eles fizeram parte de minha vida, viveram comigo a minha história e que nos textos que escrevo e que são pedaços de mim, escondo-os em pronomes – ele, dele, seu, meu, nosso – sem citar seus nomes. Li num livro, outro dia, que um marido de escritora não pode desejar privacidade e anonimato. E ex amores podem?
Quando a gente dá um beijo na boca, tem a boca de um, a boca da outra pessoa, e como é que se pode contar do beijo sem falar do outro? Não se beija sozinha. Então, como falar dos amores que tive, sem falar dos homens que amei?!
Ando saudosista, viajando pelo passado, com saudades das que fui e do que já vivi. É tão bom lembrar momentos felizes. Resolvi que vou contar a minha versão dessas histórias. Eles que contem as deles.
Hoje vi e ouvi Vinicius de Moraes. Mexe com nossa capacidade de amar. Poetinha sabido, este!
“A vida só se dá pra quem se deu”.

Viagem ao Chile - parte 7

Acordamos, tomamos nosso ‘tradicional’ café e descemos para trocar U$. O banco, ao lado do hotel, só troca a partir de U$100.00 e queríamos apenas U$60.00. Na loja da galeria da estação do metrô Los Leones fizemos o câmbio e voltamos para o hotel para nos encontrarmos com Pedro, o responsável pelo pagamento de nosso quarto no flat. Como a máquina estava quebrada, combinamos para as 20h. Fomos de metrô para a Estação Santa Lúcia. Visitamos o Arquivo, a Biblioteca Nacional e vimos o Teatro, que está em reforma. Seguimos para o Morro (Cierro) Santa Lúcia, um espaço com muito verde e castelos. Há muitas fontes espalhadas pela cidade e as pessoas as utilizam para banho. Este Parque é municipal e estava cheiod e guardas. A manutenção do mesmo deixa a desejar. A entrada é gratuita e é uma das poucas opções para as segundas-feiras (Lunes). Aqui existe um Centro Cultural Indígena que vende objetos de várias partes do país. Fizemos a visita sem pressa. Eu estava muito mole, já gripada, e o corpo todo doía. De lá seguimos a pé até a estação de Baquedano para tentarmos comprar nosso Don Quixote, de bronze e cobre. A caminhada foi rápida e tivemos o prazer de conhecer o Parque Florestal. Conseguimos achar a loja e compramos nosso herói sonhador que, em muito, pode ser o símbolo de Roberto Arrais. Metrô para casa. Almoçamos o mesmo menu do café da manhã, fomos para a piscina e Roberto tomou mais um banho, desta vez sob sol fortíssimo. Voltamos para o quarto, descansei, ele escreveu e seguimos para um passeio pela Providencia, em busca de um café. Acho que o melhor é o café Lyon, onde fizemos nossa primeira refeição, mas optamos por outro para conhecer coisas diferentes. Estávamos numa mesa e dois amigos em outra, mais próximos da rua. De repente, um galho imenso da árvore caiu sobre a cabeça de um deles. Foi gente, copos de cerveja, cinzeiro, mesa e cadeiras para todo lado. Tomamos o maior susto. A municipalidade foi avisada e logo, logo, chegou um carro para apurar o desastre. Depois do café e dos sanduíches ($5000), fomos dar uma volta pela Parque das Esculturas, bem na esquina de nosso hotel. Eram quase 20h e encontramos muitos casais deitados na grama, um em cima do outro, aos beijos e abraços, em plena luz do dia. Homens com homens, mulheres com mulheres. Viva o amor!
Uma coisa que chamou nossa atenção foi a agressividade na aborgagem ao turista: no aeroporto, na rodoviária, em Valparaiso. No Morro Santa Lúcia fomos abordados por um casal que nos ofereceu poesia. Diziam-se estudantes e que não tinham dinheiro para pagar o último período da faculdade. Demos $1000, acharam ‘mui pouco’, pediram mais, mostramos que só tínhamos o dinheiro da volta do metrô, pediram reais. Muito desagradável. Às 20h estávamos no hotel, conseguimos pagar com cartão de crédito e fiquei com pena de não termos usados os dólares – resto da viagem de Roberto ao Japão – para uma visita à Coordilheira. Tomamos o resto de nossa caixa de vinho, comemos o resto de nosso pacote de bolacha e ficamos lendo e conversando sobre nossos escritos. Antes disso, enquanto estava deitada, não sei se sonhando ou em transe, vi um poema inteiro se formar em minha mente. Levantei-me, em silêncio, para as palavras não irem embora, e o coloquei no papel. Durante a madrugada acordei com mais alguns na cabeça e me levantei para escrevê-los. Aproveitei para me despedir da Cordilheira, da cidade. Peguei meu casaco, abri a porta da varanda e pude ver as estrelas e escutar a canção do Mapuche, mais uma vez. Senti saudades. Agradeci a troca energética e sabedoria compartilhada. Fui dormir.



Destino

Na origem, o ovo.
Abastecida, alimentada, protegida.
O Todo
No caminho, o ninho.
Acompanhada e quieta.
A Falta.
O destino, o voo.
O Nada.
Solitária e livre.
Abrir as asas e ir às alturas.


Coordilheira

Quieta.
Lua chamou.
Estrela cantou.
Folha caiu.
Seguiu-a.
Vento ficou frio.
Abriu os olhos.
Sentiu a imensidão.
Viu a majestade.
Estava nua.
Com as pontas dos dedos,
conheceu seus segredos.
Piscou.
Ainda lá?
Receio de ir.
Voltar a ser o que sempre fora?
Pequena.
Contemplara o silêncio.
Transformara-a.
Caminho sem volta.
Em que direção?
Liberdade.


O mar

E
vai
e
volta.
E
vai
e
volta.
E
vai
e
volta.
Dissolve-se
em partículas
no ar.
E canta.
Música compassada,
repetida.
Sinfonia que traga.
Vai-e-vem que enfeitiça.
Nada
é para sempre.
Lugar
é imensidão.
Tempo
é eternidade.
Ser feliz
é agora.
E
vai
e
volta.
E
vai
e
volta.
E
vai
e
volta.



Neruda


Fecho os olhos.
Sonho.
Vejo o futuro.
Começo a criação.
Espalho brinquedos.
Pinto cores.
Invento sons.
Crio cheiros.
Planto vida.
Coloco o que me é caro.
Cada coisa em seu lugar.
Abro os olhos.
A obra está pronta.
Já estou no futuro.
Fecho os olhos.
Sonho.
Vejo novo futuro.
Começo a criação.


Dia de ir embora. Acordamos, café da manhã, mala, documentos. Banhos. Fechar mala. Até breve!

 








Fotos: Patrícia e Roberto Arrais


Viagem ao Chile - parte 6

Depois da visita tomamos um café e seguimos para o Festival do Abraço, no Parque O’Higgins, organizado pelo Partido Comunista e pelas forças de esquerda. Ficamos impressionados com a grandiosidade e a beleza do evento. Mais de 15000 pessoas pagaram $2000/cada para participar da festa. Havia apresentações folclóricas, shows, venda e exposição de livros, revistas, jornais, cds, dvds, todos ligados a temas políticos. Barracas com representações de partidos, de países (Cuba, Venezuela, Bolívia, França), de organizações, de movimentos. Comidas e bebidas, brincadeiras para crianças. Famílias inteiras sentadas ou deitadas pelo gramado do lindíssimo e imenso parque. Havia tendas com fóruns, onde se discutiam temas relavantes para a política no momento: Lei para a Terceira Idade (tivemos a oportunidade de ouvir Mireya Baltra, Ministra do Trabalho de Salvador Allende, que hoje está à frente desta luta), Meio Ambiente, Educação e tantos outros. O público também estava presente nestes espaços, ouvindo discutindo, participando. Lá encontramos o camarada Luis que nos recepcionou no Comitê Central do Partido Comunista. A participação brasileira no Festival foi nenhuma. Vimos um militante com uma camisa do PT, vimos uma bandeira do MST e, entre tantas outras, uma bandeira do Brasil. Que pena! Tomamos algumas cervejas, compramos cds e dvds. Não tivemos $ para bandeiras e camisetas. Saímos de lá por volta das 19h, deixando no Parque uma verdadeira multidão. Pegamos o metrô, voltamos para Providencia, fomos ao supermercado e compramos água – estávamos sem uma gota – e alguns extras – queijo e presunto. Na hora de pagar a conta, cadê os pesos? Havíamos confundido a nota de $2000 com a de $20000. Contamos todas as moedinhas e conseguimos arrumar o $. Gastamos U$50.00 sem sentir. Voltamos para o hotel, os pés pretos pela poeira do Parque, exaustos. Banho, jantar e lona. Às três da madrugada acordei com calor. Abri a varanda, vi estrelas e escutei o silêncio. Fui percebendo uma canção suave, ritimada, que me foi chegando devagar: era a música do Rio Mapocho que me enfeitiçava. Lindo o som de sua correnteza, possível de ouvir pela ausência de movimento de carros na avenida. Ao som de sua canção, fiquei com saudades do Chile. Este é um lugar para se visitar diversas vezes. Não consegui visitar o Museu dos Indígenas – em outras vidas fui xamã entre astecas, maias e incas – e lugares especiais de Santiago, além da casa de Neruda em Isla Negra, Ilha de Pascoa, Andes (com neve e desertos), Lagos Andinos. Como estamos com pouquíssimo $, não comemos em restaurantes, não provamos a típica comida chilena, não compramos seu riquíssimo artesanato, não fizemos farra no Bella Vista. Dentro do impossível, fizemos o possível. Estamos felizes.























Fotos: Patrícia e Roberto Arrais

Viagem ao Chile - parte 5

Aniversário de Ricardo... Saudade dele...

Acordamos cedo, organizamos o café e nos preparamos para sair. Pedimos ao recepcionista do hotel informações sobre locais de câmbio, pois precisávamos trocar U$ 50.00, já que não tínhamos $ nem para o metrô. Informou-nos que tudo estava fechado, era domingo, e chamou, por telefone, Sebastian, o responsável por nosso flat. Trouxe-nos os pesos e seguimos para o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, pagando uma única passagem de metrô (metrô Los Leones, metrô Baquedano (combinacion), metrô Quinta Normal), com entrada grátis no museu.
Ele foi um presente da última presidenta chilena ao seu povo, resgatando a verdade de sua história no golpe militar de 1973. A arquitetura do prédio é belíssima, com espaços para exposições, teatro, estacionamento, facilitando seu acesso o fato de ser na própria estação do metrô Quinta Normal. Na entrada há um gigantesco painel com o último poema escrito por Victor Jara, no estádio em que foi assassinado, salvo porque seus companheiros partiram o papel em pedaços – cada um ficou com um trecho – que depois foram entregues a sua viúva (o poeta foi torturado, teve suas mãos quebradas – para que não tocasse mais violão -, e assassinado pela ditadura militar). Deixamos bolsas e mochilas e seguimos a visita orientada por um excelente guia. Vimos fotos de pessoas ao redor do mundo que têm os seus direitos violados – estas fotos formam um painel com o mapa mundi. Há também a representação dos países que têm suas Comissões de Verdade, onde se busca resgatar a verdadeira memória daqueles que desapareceram, foram torturados ou assassinados por ditadores em todo o mundo. Robertos entiu falta da representação do Brasil. Em outra instalação há fotos dos monumentos que homenageiam os heróis da resistência à ditadura de Pinochet e que estão espalhados por todo o país. No Chile há uma política de reparação às vítimas, com financiamentos de casas, assistência médica – inclusive psicológica -, capacitação profissional. Tudo que se conta no Museu é baseado em documentos históricos, relatos de pessoas envolvidas, informações resgatadas, cruzadas e sintetizadas pela Comissão de Verdade do Chile.
A visita é extremamente emocionante, com vídeos trazendo imagens reais e depoimentos das vítimas ou de seus familiares. Há o discurso de Allende, o bombardeio de La Moneda, os tanques nas ruas, os direitos humanos sendo violados nas ruas e nas casas de tortura, com descrição detalhada das técnicas usadas pelos militares, que não consigo registrar aqui. O povo chileno lutou, percebeu a enorme manipulação dos meios de comunicação e se organizou na clandestinidade para o retorno da liberdade ao seu país. A participação das mulheres chilenas foi fantástica. Dançavam o folclore com lenços com os rostos dos desaparecidos, usavam a arte da tapeçaria para denunciar a absurda violência que imperava no país. Chorei muitas e muitas vezes durante a visita, assim como Roberto, mas um dos momentos mais emocionantes é o que retrata o sofrimento das crianças chilenas neste triste período. Há desenhos, cartas, fotografias e depoimentos. Por várias vezes tive medo de desmaiar, pois me sentia sem ar, sufocada, com um aperto no peito, tudo travado. É difícil ver a crueldade humana. Além disso, um processo muito semelhante ocorreu em meu país. Eu tão alienada à época. Será que também não estou sendo omissa agora, quando ainda há tanto por que lutar? Aliviou um pouco a minha angústia quando chegamos ao setor do fim da ditadura, onde vídeos mostravam a alegria do povo nas ruas e a posse do novo presidente. Daí seguimos para uma instalação belíssima que retratava as vítimas deste processo doloroso num jogo de luzes, de claro/escuro, que nos coloca como participantes desta luta. No lado externo do pátio do Museu há painéis com a Declaração dos Direitos Humanos e na área reservada às crianças há a Declaração dos Direitos das Crianças.
No final da visita registrei algumas observações no Livro de Memória: o que levaria um irmão a torturar e matar um outro, seu compatriota? quão grande é o poder de manipulação dos meios de comunicação? até quando vamos permitir que o governo norte-americano explore economicamente, manipule, torture e viole os direitos dos povos ao redor do mundo sob a máscara da defesa da democracia e dos direitos humanos? Isso dá uma raiva enorme! Provocam guerras em outrso países, destroem nações, mas em seu solo reina a paz e a abundância, às custas das guerras e da pobreza que disseminam. O meu consolo é que há uma justiça maior e que tudo é energia que segue a lei do bumerangue: o que vai, volta. Já começamos a sentir as consequências de tanta exploração quando vemos as crianças africanas só na pele e no osso e a obesidade doentia das crianças norte-americanas. Depressões, corações doentes, taxas corporais descontroladas. A economia do imperialismo ruiu. Claro lá que algo mudou. Elegeram um presidente negro, com ascendência mulçumana!
Depois da visita tomamos um café e seguimos para o Festival do Abraço, no Parque O’Higgins, organizado pelo Partido Comunista e pelas forças de esquerda.





Fotos: Patrícia e Roberto Arrais