Sempre acreditei na realização de sonhos. Mas ainda não tinha vivido a experiência de ver acontecer um sonho sonhado dormindo. Foi o que aconteceu aqui em casa, no jardim, com o lançamento do livro infantil Jardim Encantado.
Há algum tempo uma amiga-bruxa me ligou e falou:
- Mulher, sonhei com fadas e duendes e eles me pediam para dizer a você que seu livro tem que ser lançado num jardim porque os elementais querem participar da festa. E no sonho eu vi você numa mesa de madeira, cercada de flores, grama e árvores, autografando os livros para os amigos, muitos amigos.
Fiquei encantada com a mensagem, até porque minha amiga não sabia que o livro que eu iria lançar contava a história de uma menina num jardim, com fadas e duendes. Mas havia os compromissos já assumidos e teríamos lançamentos na Fliportinho, na Letra e Voz e na Bienal.
Esqueci que não podemos lutar contra as determinações do Sagrado. Claro que aconteceram mil problemas e os livros não ficaram prontos para os eventos agendados. As fadas conseguiram o que queriam e tivemos um lançamento recheado de magia, cheio de fadas, duendes, gnomos, bruxas, amigos, parentes. A lua brilhou no céu e nos abençoou com sua luz. Ouvi as estrelas sorrindo. Comemos brigadeiro, pipoca, e doces. A energia foi especial e senti que o Universo estava feliz.
Só a agradecer a todos os seres que estavam aqui, compartilhando nosso Jardim Encantado.
Venho aprendendo novas formas de ler o mundo. Agora, através da literatura, a arte tomou posse de minha alma. O Caleidoscópio é um brinquedo que muda a configuração de uma mandala a cada novo movimento. Acho que sou um Caleidoscópio.
11.10.11
10.10.11
Ao ler a matéria de uma revista sobre a nova linha editorial de uma empresa governamental, fiquei com meu coração apertado. Pensei, então, sobre o que ele estava querendo me dizer, pois, toda vez que fica assim, sei que aí tem coisa. O que me incomodou no texto foi a informação que a editora, na sua produção infantil, iria privilegiar histórias que trouxessem uma reflexão sobre temas que nossa sociedade precisa transformar, como a exclusão social, a educação especial, algo que mexesse com nossa subjetividade e nos desse coragem para agir no mundo. A matéria também falava sobre a importância da valorização da cultura local e que este aspecto seria analisado no momento de escolhas das obras a serem postas no catálogo da editora.
Entendo este cuidado, precisamos valorizar nossas raízes, precisamos transformar a realidade perversa que encontramos nas esquinas da vida e para isso devemos usar de todos os artifícios eticamente aceitos, mas quando penso no universo infantil, não consigo não pensar nos arquétipos, na imaginação, na fantasia que habitam as crianças de todo o mundo, não importando o tempo e o lugar de suas brincadeiras, de seus sonhos e de seus medos.
Ana Maria Machado, no seu livro Silenciosa Algazarra, faz uma análise sobre os pontos de contato entre as histórias recolhidas pelos irmãos Grimm e as recolhidas por folcloristas brasileiros. Em um determinado momento, Ana, para os íntimos, relata o registro de uma contadora de histórias, filha de escravos, que contava histórias aprendidas em sua Mãe África, misturadas com outras iguaiszinhas às encontradas no mundo europeu, e acrescidas das ouvidas nos mitos indígenas. Muito lindo este encontro de culturas!
Por tudo isso, incomodou-me o recorte no mundo da literatura infantil. Estarão banidas da fantasia das crianças de minha terra as fadas, os duendes, os gnomos, as princesas, as bruxas, as madrastas más, os dragões? Não haverá mais pote de ouro no final do arcoíris, a não ser que esteja colocado embaixo do umbuzeiro?As árvores que tocarão nas nuvens do céu terão que ser coqueiros?
Meu coração não fica feliz quando se coloca a literatura a serviço da educação, no que se refere à moral da história. Crianças, escovem os dentes antes de dormir. Crianças, tratem os idosos com respeito. Crianças, crianças, crianças... façam isso, façam aquilo. Temos muitas histórias para usar como instrumento de divulgação das ideias valorizadas por nossa cultura, mas podemos chamar este tipo de texto de literatura infantil? Volto no tempo e paro na época em que a criança era eu e me vejo deitada na rede, no sofá, na cama, lendo historinhas de fadas e de bruxas que tocavam minha alma. Escuto a voz de minha mãe contando histórias de castelos, cavalos brancos, príncipes e princesas. Isso tudo me transportava para o mundo da fantasia.
Gostava da época em que nossa língua tinha estórias e histórias. Talvez hoje essas duas estejam muito misturadas. Lembrei-me do poema de Dom Hélder, Minha Pedagogia, que sempre compartilho nas palestras que faço. Ei-lo:
Não ensine a seu filho que as estrelas não são do tamanho que parecem ter:
maiores que a Terra!
São lâmpadas que os anjos acendem todos os dias
assim que o sol começa a escurecer...
Não diga a seu filho que as asas dos anjos só existem em sua imaginação.
Já vi meu anjo em sonho e posso jurar que
ele tem asas claras que até parecem feitas de luz.
Não encha a cabeça de seu filho ensinando-lhe hipóteses precárias
que amanhã de nada servirão.
Povoe de beleza o olhar inocente de seu filho.
Dê-lhe uma provisão de bondade que chegue para a marcha da vida.
Infunda-lhe na alma o amor de Deus
- e tudo o mais, por acréscimo, ele terá.
Aprendi com ele a não abandonar num canto a criança que existe em mim. Sigo a vida acreditando em fadas, duendes, bruxas, e transformando minha história numa estória cheia de magia onde há ‘era uma vez... e foram felizes para sempre’.
Entendo este cuidado, precisamos valorizar nossas raízes, precisamos transformar a realidade perversa que encontramos nas esquinas da vida e para isso devemos usar de todos os artifícios eticamente aceitos, mas quando penso no universo infantil, não consigo não pensar nos arquétipos, na imaginação, na fantasia que habitam as crianças de todo o mundo, não importando o tempo e o lugar de suas brincadeiras, de seus sonhos e de seus medos.
Ana Maria Machado, no seu livro Silenciosa Algazarra, faz uma análise sobre os pontos de contato entre as histórias recolhidas pelos irmãos Grimm e as recolhidas por folcloristas brasileiros. Em um determinado momento, Ana, para os íntimos, relata o registro de uma contadora de histórias, filha de escravos, que contava histórias aprendidas em sua Mãe África, misturadas com outras iguaiszinhas às encontradas no mundo europeu, e acrescidas das ouvidas nos mitos indígenas. Muito lindo este encontro de culturas!
Por tudo isso, incomodou-me o recorte no mundo da literatura infantil. Estarão banidas da fantasia das crianças de minha terra as fadas, os duendes, os gnomos, as princesas, as bruxas, as madrastas más, os dragões? Não haverá mais pote de ouro no final do arcoíris, a não ser que esteja colocado embaixo do umbuzeiro?As árvores que tocarão nas nuvens do céu terão que ser coqueiros?
Meu coração não fica feliz quando se coloca a literatura a serviço da educação, no que se refere à moral da história. Crianças, escovem os dentes antes de dormir. Crianças, tratem os idosos com respeito. Crianças, crianças, crianças... façam isso, façam aquilo. Temos muitas histórias para usar como instrumento de divulgação das ideias valorizadas por nossa cultura, mas podemos chamar este tipo de texto de literatura infantil? Volto no tempo e paro na época em que a criança era eu e me vejo deitada na rede, no sofá, na cama, lendo historinhas de fadas e de bruxas que tocavam minha alma. Escuto a voz de minha mãe contando histórias de castelos, cavalos brancos, príncipes e princesas. Isso tudo me transportava para o mundo da fantasia.
Gostava da época em que nossa língua tinha estórias e histórias. Talvez hoje essas duas estejam muito misturadas. Lembrei-me do poema de Dom Hélder, Minha Pedagogia, que sempre compartilho nas palestras que faço. Ei-lo:
Não ensine a seu filho que as estrelas não são do tamanho que parecem ter:
maiores que a Terra!
São lâmpadas que os anjos acendem todos os dias
assim que o sol começa a escurecer...
Não diga a seu filho que as asas dos anjos só existem em sua imaginação.
Já vi meu anjo em sonho e posso jurar que
ele tem asas claras que até parecem feitas de luz.
Não encha a cabeça de seu filho ensinando-lhe hipóteses precárias
que amanhã de nada servirão.
Povoe de beleza o olhar inocente de seu filho.
Dê-lhe uma provisão de bondade que chegue para a marcha da vida.
Infunda-lhe na alma o amor de Deus
- e tudo o mais, por acréscimo, ele terá.
Aprendi com ele a não abandonar num canto a criança que existe em mim. Sigo a vida acreditando em fadas, duendes, bruxas, e transformando minha história numa estória cheia de magia onde há ‘era uma vez... e foram felizes para sempre’.
3.10.11
Fotos: Roberto Arrais
Ando lendo e pensando sobre a Paz. Será a Paz a ausência da guerra? Poderá a Paz conviver com a fome? E com a destruição de Gaia? Haverá Paz enquanto homens explorarem outros homens?
E aí me lembrei do currículo da educação formal praticado na maioria das escolas do mundo. Que história contamos? Por que apresentamos como herois aqueles que venceram, na nossa perspectiva, guerras contra outros povos e mataram pessoas, destruíram territórios, exterminaram culturas? Serão esses os líderes que queremos como exemplos para as gerações do presente e do futuro? Devemos visitar o passado para aprender com ele e não repetir os mesmos erros.
Tenho um amigo alemão que me contou que lá, no país dele, a história da segunda guerra é contada e recontada durante todo o período escolar para que aquele horror mais nunca se repita. Visitando no Chile um Memorial à época dos anos difíceis, li e ouvi várias vezes, ‘Nunca mais.’.
No Brasil, como anda nosso aprendizado de história? Quase que exterminamos a cultura indígena, destruímos seus territórios, seus costumes, impusemos uma língua e uma religião. Achamos que sabíamos tudo e tentamos domesticá-los. Ledo engano. Descobrimos tardiamente que os mestres eram eles. Vamos às universidades para aprender sobre desenvolvimento sustentável. Já os índios vivenciam a sustentabilidade. É muito diferente.
Agora, depois de reconhecermos que erramos em quase tudo, no que se refere a crescimento econômico e destruição de recursos naturais, estamos vivendo no país um momento de grande retrocesso com a proposta indecente do novo Código Florestal e com a construção da usina de Belo Monte. O cacique chorou e devemos chorar junto com ele.
Será que é impossível para a espécie humana viver em harmonia? Está na hora de aprendermos com as outras formas de existência o real significado da palavra Paz.
27.9.11
Gratidão. Algo gostoso de se sentir e que deixa o coração quentinho. Sempre associo esta sensação a alguma manifestação do Sagrado e reverencio agradecendo as bênçãos que recebo Dele.
Há uns dias li um mail com a informação de que um grande mestre que tive se encontrava com problemas de saúde. Fiquei arrasada. Chorei. Comecei a ver o filminho dos nossos encontros, onde de forma amorosa promoveu tantas curas. Aprendi muito com ele. Muito conhecimento, muitas tradições, muita sabedoria. Apresentou para mim um mundo novo, até então desconhecido, e me colocou no caminho da curadora de almas que hoje sou.
Não sabia que sentia por ele um amor tão grande. Ainda não tinha percebido que sua presença fora um divisor de águas na minha vida, sendo uma antes e outra depois de nossos cursos de imersão. Vidas passadas a limpo. Energias há tempos presas e agora liberadas para a felicidade. Medos e culpas diluídos como que num passe de mágica. Foi com ele que aprendi bruxaria – a forma que encontro para nomear o inexplicável.
E agora, na doença, continua me ensinando muito. Percebo que é real a lei do retorno, pois deu tanto amor para tantos, no mundo todo, que recebe uma corrente de oração e de ação para que fique bem. Ele merece nosso amor, nosso carinho, nosso respeito e, principalmente, nossa gratidão.
Para você, mestre amado, um beijo carinhoso no seu coração lindo.
Há uns dias li um mail com a informação de que um grande mestre que tive se encontrava com problemas de saúde. Fiquei arrasada. Chorei. Comecei a ver o filminho dos nossos encontros, onde de forma amorosa promoveu tantas curas. Aprendi muito com ele. Muito conhecimento, muitas tradições, muita sabedoria. Apresentou para mim um mundo novo, até então desconhecido, e me colocou no caminho da curadora de almas que hoje sou.
Não sabia que sentia por ele um amor tão grande. Ainda não tinha percebido que sua presença fora um divisor de águas na minha vida, sendo uma antes e outra depois de nossos cursos de imersão. Vidas passadas a limpo. Energias há tempos presas e agora liberadas para a felicidade. Medos e culpas diluídos como que num passe de mágica. Foi com ele que aprendi bruxaria – a forma que encontro para nomear o inexplicável.
E agora, na doença, continua me ensinando muito. Percebo que é real a lei do retorno, pois deu tanto amor para tantos, no mundo todo, que recebe uma corrente de oração e de ação para que fique bem. Ele merece nosso amor, nosso carinho, nosso respeito e, principalmente, nossa gratidão.
Para você, mestre amado, um beijo carinhoso no seu coração lindo.
26.9.11
7:30h. Para muitos o dia ainda nem começou e já fiz tanta coisa. Acordei às 5h, fiz bruxaria, depois meditei, tomei banho. Li mails, blogs, FB, jornais online e passei no astro.com. Ajeitei o café da manhã, arrumei a mesa, limpei xixi e cocô de Hércules. Coloquei água nas plantas, tirei cópia do atestado médico de meu filho, separei seu remédio. Peguei roupa nos cestos dos banheiros, enxaguei roupa, estendi roupa, lavei roupa, tirei roupa do varal. Acordei os meninos. Lembrei a hora para meu marido. Juntos à mesa, comemos, conversamos e rimos.
Saíram para seus afazeres e recomecei a rotina. Tirei a mesa, guardei os gelados, lavei a louça. Mais xixi de Hércules, mais roupa na máquina. Tudo em ordem. Agora, sim, posso começar a trabalhar: ler, escrever, ler, escrever, ler, escrever.
É estranho assumir que meu trabalho atual está relacionado a coisas que para muitas outras pessoas é visto como apenas um prazer. Sinto muito tesão no que faço e me abri para escutar, ver e sentir o mundo. Isto tem realizado uma enorme transformação na forma como vivo e como compreendo tudo que experiencio. Tenho seguido um ritmo diferente daquele do relógio. O sol, o galo, as refeições, o jumento, a lua e as estrelas são meus novos referenciais de tique-taque.
Escrevo, agora, no computador de meu quarto, junto à varanda, vendo o verde da mata, com Recife e sua muralha de pedras lá atrás. Canto de pássaros, música do pavão, cheiro de terra molhada pela chuva. Ontem estava na praia, sentindo aquele cheiro maravilhoso de mar, de sargaço, ouvindo o farfalhar das palhas dos coqueiros – esta é para Pedro Escobar! -, sentindo a água salgada envolvendo meu corpo. Caminhada, leitura na rede, água no jardim, conversa com vinho. Alternando campo e praia, yin e yang, abasteço-me para ser inteira.
Não sei precisar quando, talvez à época em que trabalhava com computadores, idealizava um cotidiano simples assim. Apesar de já imaginar, até em detalhes, não consegui capturar todas as delícias de ser uma dona de casa, logo eu, a grande intelectual. Hoje realizo este sonho. Sei que não ficarei assim para sempre, mas adoro poder ser muitas numa só. Já, já, novas coisas me chamarão, novas aprendizagens ser-me-ão necessárias e me jogarei nas possibilidades, como venho fazendo durante quase meio século de existência aqui em Gaia.
As crises aparecem, tiram momentaneamente até meu sossego, mas não mexem na estrutura que venho desenvolvendo. A Alma, o Self ganha espaço em mim e isso provoca um estado de felicidade inabalável. Gosto de chamar de Sagrado esta Energia que me envolve. Sagrado, Universo, Deus, Deusa, não importa. Quando me sinto fraquinha, realizo algumas magias. Medito, tomo banho quente, escrevo, rezo, cerco-me de pessoas que amo, ouço boa música, coloco água nas plantas, vejo filmes que me enriquecem, leio poesia, procuro descobrir que mensagens estão nas entrelinhas da situação difícil e vou buscar orientação em livros que aparecem em minhas mãos por sincronicidade. Café quente, suco de laranja, mel de abelha são os remédios que harmonizam meu corpo. O contato com a natureza me reabastece do Sagrado. Trazer para o momento as coisas que me dão prazer é a forma que utilizo para chamar meus Espíritos Protetores e me conectar com a alegria. Compartilhar-me com aqueles que amo – principalmente meu marido e meus filhos – torna o meu viver pleno. E assim, com o corpo ancorado e a alma solta, vou inventando projetos que saem do coração, inspirados por uma vozinha que ouço e nem sei de onde vem.
Saíram para seus afazeres e recomecei a rotina. Tirei a mesa, guardei os gelados, lavei a louça. Mais xixi de Hércules, mais roupa na máquina. Tudo em ordem. Agora, sim, posso começar a trabalhar: ler, escrever, ler, escrever, ler, escrever.
É estranho assumir que meu trabalho atual está relacionado a coisas que para muitas outras pessoas é visto como apenas um prazer. Sinto muito tesão no que faço e me abri para escutar, ver e sentir o mundo. Isto tem realizado uma enorme transformação na forma como vivo e como compreendo tudo que experiencio. Tenho seguido um ritmo diferente daquele do relógio. O sol, o galo, as refeições, o jumento, a lua e as estrelas são meus novos referenciais de tique-taque.
Escrevo, agora, no computador de meu quarto, junto à varanda, vendo o verde da mata, com Recife e sua muralha de pedras lá atrás. Canto de pássaros, música do pavão, cheiro de terra molhada pela chuva. Ontem estava na praia, sentindo aquele cheiro maravilhoso de mar, de sargaço, ouvindo o farfalhar das palhas dos coqueiros – esta é para Pedro Escobar! -, sentindo a água salgada envolvendo meu corpo. Caminhada, leitura na rede, água no jardim, conversa com vinho. Alternando campo e praia, yin e yang, abasteço-me para ser inteira.
Não sei precisar quando, talvez à época em que trabalhava com computadores, idealizava um cotidiano simples assim. Apesar de já imaginar, até em detalhes, não consegui capturar todas as delícias de ser uma dona de casa, logo eu, a grande intelectual. Hoje realizo este sonho. Sei que não ficarei assim para sempre, mas adoro poder ser muitas numa só. Já, já, novas coisas me chamarão, novas aprendizagens ser-me-ão necessárias e me jogarei nas possibilidades, como venho fazendo durante quase meio século de existência aqui em Gaia.
As crises aparecem, tiram momentaneamente até meu sossego, mas não mexem na estrutura que venho desenvolvendo. A Alma, o Self ganha espaço em mim e isso provoca um estado de felicidade inabalável. Gosto de chamar de Sagrado esta Energia que me envolve. Sagrado, Universo, Deus, Deusa, não importa. Quando me sinto fraquinha, realizo algumas magias. Medito, tomo banho quente, escrevo, rezo, cerco-me de pessoas que amo, ouço boa música, coloco água nas plantas, vejo filmes que me enriquecem, leio poesia, procuro descobrir que mensagens estão nas entrelinhas da situação difícil e vou buscar orientação em livros que aparecem em minhas mãos por sincronicidade. Café quente, suco de laranja, mel de abelha são os remédios que harmonizam meu corpo. O contato com a natureza me reabastece do Sagrado. Trazer para o momento as coisas que me dão prazer é a forma que utilizo para chamar meus Espíritos Protetores e me conectar com a alegria. Compartilhar-me com aqueles que amo – principalmente meu marido e meus filhos – torna o meu viver pleno. E assim, com o corpo ancorado e a alma solta, vou inventando projetos que saem do coração, inspirados por uma vozinha que ouço e nem sei de onde vem.
23.9.11
Quando li pela primeira vez a carta do cacique de Seattle, identifiquei-me na hora. Estava dito ali algo que ecoava em minha alma. O Universo todo está conectado, tudo está interligado. Gostei de me descobrir pensando que, de alguma forma, a mesma substância que me envolvia também passeava junto das estrelas.
Desde que comecei a habitar casas, não mais apartamentos, pude vivenciar esta conexão de uma forma mais concreta. Percebo quando chove, quando faz sol, quando venta muito, quando dá terral. Diferencio os cantos dos pássaros, sei quando águias estão por perto, quando a coruja já está na árvore em frente da nossa casa. Observo que os cajueiros já gestam, tudo florido, os frutos que surgirão.
Acordo cedo e vejo Recife acordar. Medito, desço para começar meu dia e vou organizar o café da manhã. Ontem tive uma linda surpresa. Encontrei, em nossa sala, um lindo passarinho. Voou por todo canto, pousou em tudo que era lugar. Olhou-se no espelho, fez cocô na jarra antiga – que foi de minha mãe e é um objeto sagrado aqui em casa. Ouvi o miado do gato que anda querendo vir morar por aqui. Percebi que o timbu havia visitado nossa cozinha. Hércules, nosso cachorro, seguia meus passos. Quando fui para a pia, a rã que habita aquele espaço saltou assustada. As lagartixas também começaram a passear e as aranhas foram saindo de fininho.
Os meninos foram para a vida de estudante e fui colocar água no jardim. Borboletas, ziguezigues, formigas, sagüis, pavão, tô-fracos, siriema e, novamente, os pássaros, estavam comigo usufruindo do verde, das cores, dos cheiros, do calor do sol, da brisa suave, enfim, de todas as delícias que a natureza proporciona e que eu, no meu mundinho antigo, não conseguia perceber.
Sejam bem-vindos!
Desde que comecei a habitar casas, não mais apartamentos, pude vivenciar esta conexão de uma forma mais concreta. Percebo quando chove, quando faz sol, quando venta muito, quando dá terral. Diferencio os cantos dos pássaros, sei quando águias estão por perto, quando a coruja já está na árvore em frente da nossa casa. Observo que os cajueiros já gestam, tudo florido, os frutos que surgirão.
Acordo cedo e vejo Recife acordar. Medito, desço para começar meu dia e vou organizar o café da manhã. Ontem tive uma linda surpresa. Encontrei, em nossa sala, um lindo passarinho. Voou por todo canto, pousou em tudo que era lugar. Olhou-se no espelho, fez cocô na jarra antiga – que foi de minha mãe e é um objeto sagrado aqui em casa. Ouvi o miado do gato que anda querendo vir morar por aqui. Percebi que o timbu havia visitado nossa cozinha. Hércules, nosso cachorro, seguia meus passos. Quando fui para a pia, a rã que habita aquele espaço saltou assustada. As lagartixas também começaram a passear e as aranhas foram saindo de fininho.
Os meninos foram para a vida de estudante e fui colocar água no jardim. Borboletas, ziguezigues, formigas, sagüis, pavão, tô-fracos, siriema e, novamente, os pássaros, estavam comigo usufruindo do verde, das cores, dos cheiros, do calor do sol, da brisa suave, enfim, de todas as delícias que a natureza proporciona e que eu, no meu mundinho antigo, não conseguia perceber.
Sejam bem-vindos!
Fotos: Roberto Arrais
13.9.11
O dia ainda não amanheceu de todo. A cidade ainda está com suas luzes acesas, há muriçocas pelo quarto e os passarinhos começam a despertar. Enfeitiçam-me com seu canto. Acordei e fui cumprir meu primeiro ritual matinal. Abrir a varanda, respirar o ar puro, sentir o cheiro de terra molhada, ouvir o silêncio. Depois abrir a porta do quarto, abrir a janela do corredor e fazer vento. De repente, olhei para o céu e me deparei com ela, enorme, linda, poderosa, exuberante, uma verdadeira rainha, amarela e iluminando o céu. Noite de lua cheia. Achei graça porque hoje visitou meus sonhos e brincou de rodar bem depressa, gerando um brilho diferente.
- Bom dia, Majestade!
Desci as escadas e fui tirar a proteção noturna para evitar – ou melhor, tentar evitar – que o timbu coma a refeição de Hércules. Agora, aqui em casa, temos como hóspedes freqüentes um timbu (um tipo de rato, roedor) e um gato. O morador oficial é um cachorro. Todos convivendo em harmonia. Há rãs, aranhas, lagartixas, ziguezigues, borboletas, pássaros, pavões, siriemas, sagüis, tô-fracos, algumas abelhas, formigas, cupins (estes estão comendo tudo), pombos, morcegos, águias. Como diz minha filha, uma verdadeira Arca de Noé. Cheguei à varanda para apagar o abajur de luz verde e ouvi muito claramente o canto de um pássaro. Procurei com mais cuidado e o descobri morando dentro da casinha de nosso sino dos ventos que fica pendurado junto das plantas. Lindo ver sua cabecinha para fora.
Subi e resolvi escrever. Não dava mais para voltar a dormir sem transformar em palavras, minha forma de oração, todos estes meus encontros com o Sagrado. Aliás, Ele tem falado um bocado comigo. Tenho sonhado muito, conversado com os Elementais – fadas e duendes por toda parte-, sentido a presença quase física de alguns e algumas que já se foram, reverenciado os Quatro Elementos, percebido a energia das pedras e das plantas. Ontem, enquanto colocava água no jardim, chegaram duas pavoas e ficaram ao meu lado dando os seus gritos mágicos. Quando me sentei para ler na varanda, surgiu a algazarra dos tô-fraco. Meu marido lia na rede, o sol estava indo dormir e fiquei encantada com a Divindade daquele momento. Fazer Amor, então, é, para mim, uma das formas mais Iluminadas Dele se manifestar. A emoção é tanta que muitas vezes precisa ser expressa em lágrimas. Acompanhar meu marido nos instantes em que está registrando o Sagrado é um outro jeito de rezar. Também sinto assim quando ouço o som de uma folha caindo, varro o jardim, passo roupa, faço café e leite batido, ponho a mesa com uma louça bonita. Lindas estão as toalhas que inventei e que deixam mais belos os encontros da família em volta da mesa. Lembro que Neruda falava que a criatividade em si era tão forte que precisava se expressar de diversas formas. Guardando as devidas proporções, comigo também é assim. Crio, crio, crio, em tudo que faço. E durante tanto tempo trancafiei a artista que habita em mim. Galo cantou. Bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi.
Há alguns anos, num encontro com um xamã siberiano, ouvi que estaria mudando de dimensão. Até que mudei, mas nada perto do que experiencio agora. Tenho mais consciência dos campos energéticos, estou mais sábia e sei transitar melhor através das várias freqüências de vibração energética, percebo os portais, converso com o tarô, vivo completamente imersa nessa dimensão que não sei nomear, faço bruxaria por aí, ajudando pessoas e lugares a terem mais alegria. O ritmo de vida é outro, os valores bem diferentes dos da maioria das pessoas com quem convivi. Talvez alguns dessem a todo este processo o nome de loucura. Prefiro achar uma palavra que traduza fielmente o que se passa em minha alma: felicidade.
- Bom dia, Majestade!
Desci as escadas e fui tirar a proteção noturna para evitar – ou melhor, tentar evitar – que o timbu coma a refeição de Hércules. Agora, aqui em casa, temos como hóspedes freqüentes um timbu (um tipo de rato, roedor) e um gato. O morador oficial é um cachorro. Todos convivendo em harmonia. Há rãs, aranhas, lagartixas, ziguezigues, borboletas, pássaros, pavões, siriemas, sagüis, tô-fracos, algumas abelhas, formigas, cupins (estes estão comendo tudo), pombos, morcegos, águias. Como diz minha filha, uma verdadeira Arca de Noé. Cheguei à varanda para apagar o abajur de luz verde e ouvi muito claramente o canto de um pássaro. Procurei com mais cuidado e o descobri morando dentro da casinha de nosso sino dos ventos que fica pendurado junto das plantas. Lindo ver sua cabecinha para fora.
Subi e resolvi escrever. Não dava mais para voltar a dormir sem transformar em palavras, minha forma de oração, todos estes meus encontros com o Sagrado. Aliás, Ele tem falado um bocado comigo. Tenho sonhado muito, conversado com os Elementais – fadas e duendes por toda parte-, sentido a presença quase física de alguns e algumas que já se foram, reverenciado os Quatro Elementos, percebido a energia das pedras e das plantas. Ontem, enquanto colocava água no jardim, chegaram duas pavoas e ficaram ao meu lado dando os seus gritos mágicos. Quando me sentei para ler na varanda, surgiu a algazarra dos tô-fraco. Meu marido lia na rede, o sol estava indo dormir e fiquei encantada com a Divindade daquele momento. Fazer Amor, então, é, para mim, uma das formas mais Iluminadas Dele se manifestar. A emoção é tanta que muitas vezes precisa ser expressa em lágrimas. Acompanhar meu marido nos instantes em que está registrando o Sagrado é um outro jeito de rezar. Também sinto assim quando ouço o som de uma folha caindo, varro o jardim, passo roupa, faço café e leite batido, ponho a mesa com uma louça bonita. Lindas estão as toalhas que inventei e que deixam mais belos os encontros da família em volta da mesa. Lembro que Neruda falava que a criatividade em si era tão forte que precisava se expressar de diversas formas. Guardando as devidas proporções, comigo também é assim. Crio, crio, crio, em tudo que faço. E durante tanto tempo trancafiei a artista que habita em mim. Galo cantou. Bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi.
Há alguns anos, num encontro com um xamã siberiano, ouvi que estaria mudando de dimensão. Até que mudei, mas nada perto do que experiencio agora. Tenho mais consciência dos campos energéticos, estou mais sábia e sei transitar melhor através das várias freqüências de vibração energética, percebo os portais, converso com o tarô, vivo completamente imersa nessa dimensão que não sei nomear, faço bruxaria por aí, ajudando pessoas e lugares a terem mais alegria. O ritmo de vida é outro, os valores bem diferentes dos da maioria das pessoas com quem convivi. Talvez alguns dessem a todo este processo o nome de loucura. Prefiro achar uma palavra que traduza fielmente o que se passa em minha alma: felicidade.
Fotos: Roberto Arrais
23.8.11
Silêncio
Pavão cantou,
não ouviu.
Beija-flor voou,
não viu.
Rosa desabrochou,
não cheirou.
Borboleta pousou,
não sentiu.
Café ferveu,
não tomou.
Tô-fraco, tô-fraco, tô-fraco,
repetiu.
Sol nasceu,
não acordou.
Desistiu.
não ouviu.
Beija-flor voou,
não viu.
Rosa desabrochou,
não cheirou.
Borboleta pousou,
não sentiu.
Café ferveu,
não tomou.
Tô-fraco, tô-fraco, tô-fraco,
repetiu.
Sol nasceu,
não acordou.
Desistiu.
16.8.11
ho’oponopono
Foto: Roberto Arrais
Além daquela que gosta de viver de acordo com o ritmo da natureza, conversar com o sol, a lua e as estrelas, compartilhar o ambiente com plantas, animais e viventes do reino mineral, reverenciar os Quatro Elementos e os Elementais, também existe em mim uma outra que gosta de dar aulas, fazer palestras, contar histórias para crianças, conversar com mulheres, ajudar organizações a criarem um futuro melhor para o mundo. Minha alma fica em êxtase quando produzo, crio, invento novas formas de ser feliz. Às vezes sinto que a idéia surge do Nada (ou seria do Todo), outras vezes percebo que foi sendo tecida calmamente no tear dos meus saberes.
O que sempre me acompanha, em qualquer situação, é uma completa fé no Sagrado, uma certeza de que há algo maior que gerencia, se é que se pode chamar assim, o que acontece no Universo e que todas as coisas que surgem em nossas vidas são instrumentos para nosso desenvolvimento, no eterno processo de individuação. Por isso, quando sinto o Chamado, entrego-me sem medo, numa confiança absoluta. Este posicionamento já me levou para várias aventuras, que muitos chamariam de loucura, e me permitiu experienciar coisas maravilhosas.
Quando surgiu a física quântica dizendo que tudo é energia, senti que aí seria a minha praia teórica. Não vejo os campos energéticos, mas os sinto quase como algo físico mesmo. Isto me permite um relacionamento com tudo que há e a compreensão de que tudo que acontece em minha vida é fruto da frequência energética em que vibro. Não há culpa, mas responsabilidade. Se ainda não aprendi o que tenho que aprender, a vida me traz novamente a experiência, de uma forma diferente, dando-me uma nova oportunidade para evoluir. Sempre pensei e senti assim.
Porém, Reica, minha gurua, indicou-me um livro – Limite Zero – que fala sobre nossa responsabilidade com tudo que acontece no universo. Traz os conceitos do ho’oponopono, um processo de cura havaiano. Simples e muito profundo, como são as grandes verdades e seus mistérios. “Eu te amo”. “Sinto muito”. “Por favor, me perdoa”. “Obrigada”. O autor, Joe Vitale, relata seus encontros com o método e com o terapeuta Ihaleakala Hew Len. Conta sobre sua dificuldade de sair do controle das situações e viver sem fazer planos, deixando que o Sagrado defina quais caminhos serão trilhados. Há no livro provocações para quebra de paradigmas. Quando um pensamento é oriundo da memória e quando é fruto da Inspiração (entendo-se aqui que seria uma comunicação do Divino)? Ou ainda, “você se sentirá melhor quando deixar que o Divino tome conta de você”. Adorei tudo isso, pois já vivi situações em que fui apenas canal do Sagrado e, também, permito-me ser cuidada por esta Força Maior.
Um dos meus mantras favoritos: Deus proverá.
Que venha a Vida, essa grande aventura!
15.8.11
Cotidiano
Fotos: Roberto Arrais
5:30h... Hora de levantar. Desligo o arcondicionado, abro a porta da varanda, contemplo meu Recife acordando ao longe, sinto o cheiro de terra orvalhada, ouço o canto dos pássaros e o chamado do galo. Vejo a mata e depois, muito depois, uma muralha de prédios. Também chegam aos meus ouvidos o ruído de carros que já correm de um lado para outro num mundo que não é mais o meu. Levanto meus olhos para o céu e repito meu mantra: obrigada, Divindade, por mais um dia para ser feliz. Volto-me para o quarto, aliso a barriga de Hércules, solto beijos para o meu amado, ainda adormecido e completamente entregue ao mundo dos sonhos. Aliso sua barba branca, lembrando dos momentos em que é ela que me leva para o paraíso.
Desço as escadas, coloco água na chaleira, ponho a mesa com capricho, hoje na varanda, bato o leite dos meus filhos – com Nescau, Sustagen e Ninho -, coou o café, faço suco de laranja, asso pão com manteiga, pego as frutas e os quitutes da geladeira. Tudo pronto, hora de acordar minha família. Juntos à mesa compartilhamos a paz que reina em nosso lar. Às vezes o timbu comeu a ração ou beliscou uma banana, às vezes sagüins vêm para a varanda. Os pássaros continuam seu canto e as árvores balançam suas folhas numa música que conseguimos escutar.
Os meninos vão para a escola, levados por meu marido, vou lavar a louça, ajeitar as coisas do nosso cachorro, colocar roupa na máquina, estender roupa no varal. Momento de oração. Acendo incenso, velas, colho flores. OM TARE TUTARE TURE SOHA. Leio a Bíblia, o Evangelho Segundo o Espiritismo, o Zohar. Também faço meus rituais de limpeza, minhas orações de proteção e prosperidade, minha conexão com os Quatro Elementos e os Elementais que habitam meus jardins.
Dou uma olhada na internet, vejo o que o céu tem a me dizer, desço para meu canto sagrado para escrever. Mais uma vez, incenso, vela, fonte, flores. Escrevo, aprendo com as Cartas do Caminho Sagrado, medito sentada na grama, alinhada com as energias do céu e da terra, recebendo diretamente a energia do sol. Sinto minhas mãos aquecidas, bem no centro, e espalho para o mundo a energia que canalizo. Água para as plantas. De repente, uma pavoa passeia pelo jardim e fixa seu olhar no meu. Reverencio-a e sigo meu caminho. Agora é vez do tô-fraco emitir seu canto, sentado num galho do pau-brasil. Pássaros, borboletas, ziguezigues, rãs e lagartixas compartilham comigo este mundo encantado. Percebo claramente que vivemos num reino mágico, protegidos pelo portal da mata. Gosto de ouvir o silêncio que me permite escutar o som de uma folha caindo. Hora de ler um pouco, ainda na minha sala, cercada por meus livros e objetos que contam um pouco da minha história.
Organizar o almoço. Desta vez fazemos a refeição na mesa da sala. Suco, vinho, sorvete com licor e muita conversa. Tirar a mesa, lavar os pratos, passar a roupa. Quando estou passando ferro nas camisas dos meus amados, sinto uma emoção enorme, pois sei que estou cuidando de objetos que irão protegê-los, aquecê-los. Também fico feliz quando reconheço entre as peças, algumas que já pertenceram ao meu pai. Meu marido trabalha no andar de cima, colhendo as imagens que já registrou com seu olhar amoroso.
Preparar o chá das cinco numa linda mesa no jardim. Bolo, biscoitos, louça com flores, bandejas pintadas por mim. Completamente integrados à natureza, lanchamos, conversamos, fazemos planos, caminhamos abraçados ao lado dos outros habitantes do jardim, alguns até invisíveis. Arrumar tudo. Ler mais um pouco.
Chegou a hora do jantar. Todos juntos colocamos a mesa, assamos pão, fritamos ovos. Mais uma vez, um momento mágico, compartilhando os acontecimentos do dia. Lavar a louça, organizar a cozinha. Tomar banho quentinho, escrever, ler, agradecer, dormir abraçadinha ao lado do homem que amo, aprender com os sonhos.
Está sendo assim meu cotidiano. Exatamente como sonhava há anos, mas ainda não tinha conseguido deixar claro para mim mesma esse desejo. Lembro que uma amiga, da época da faculdade de informática, falava que eu era diferente, que queria mesmo era ser dona de casa e não uma profissional de sucesso. Outra amiga me disse que eu queria isso, cuidar da casa, dos filhos e do marido, porque já tinha provado para mim mesma e para o mundo que era capaz de realizar grandes coisas no mundo do trabalho. Talvez esta análise esteja correta, mas não sinto saudade alguma do tempo em que era executiva, pegando avião de manhã, participando de reuniões e voando de volta à noite. Adorei ter diminuído a quantidade de energia nas atividades intelectuais e ter curtido o crescimento de meus filhos, acompanhando as aulas de natação, as brincadeiras à tarde, os passeios na praça para dar pão aos peixinhos. Saudades eu sinto da hora que os colocava para dormir, sempre contando histórias que embalavam o sono dos meus anjinhos. Cresceram e sou imensamente grata ao Sagrado pela oportunidade que tive de compartilhar com eles estes momentos lindos. Também me lembro com carinho das conversas com minha mãe, das horas exatas das refeições com meu pai. Já se foram e tive deles o melhor.
Feliz, muito feliz, com a jornada que realizei, com as escolhas que fiz, com os caminhos que trilhei. Não sinto a mínima vontade de retornar ao mundo lá de fora, de viver desconectada do ritmo da natureza e de seus ciclos. Não me imagino mais como uma executiva, sem poder conversar com o sol, a lua e as estrelas. Talvez, para muitos, minha trajetória se traduza em fracasso, visto que o retorno no ter é insignificante. Aprendi, com Pessoa, que primeiro preciso ser inteira, para então ser grande. E, aí, sim, é só se deixar fluir no fluxo da abundância, da prosperidade, da saúde, da paz e do amor, pois estarei sendo a parte que me cabe, em harmonia com o Universo.
3.8.11
Fazendo justiça à sua alma linda.
Roberto Arrais, o fotógrafo, ao pegar na máquina, toca-a com o carinho que toca a mulher amada, buscando suavemente o ponto exato do êxtase. Nunca a deixa abandonada num canto qualquer, pois sabe que é através dela que faz poesia. Abre um largo sorriso no instante em que seus olhos capturam uma imagem que vai se transformar no eterno. Olhos mágicos os seus! Pode ser um pôr-do-sol, uma flor, um animal, uma árvore, um sorriso, uma lágrima. Foto alguma de Roberto Arrais é desprovida de significado. Não retrata a realidade, no sentido descritivo do termo, pois coloca sempre doçura e esperança em tudo que faz e esses sentimentos permeiam o seu cotidiano. Se há a paisagem árida do sertão, há também a flor do mandacaru prenunciando a chuva que logo vai chegar, traduzindo, dessa forma, sua teimosa fé na vida. Com máquinas e lentes, à procura do melhor ângulo, empenha-se para registrar a beleza das coisas que ama. Seus olhos brilham como os de uma criança quando vê o resultado dos clics de seu trabalho. Ao vê-lo fotografar o Sagrado, fica difícil identificar onde começa e onde termina a Divindade, pois Esta fica diluída no fotógrafo e no foco de seu olhar. Roberto Arrais, o fotógrafo, é assim: puro amor.
Foto: Roberto Arrais
Foto: Roberto Arrais
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