2.7.07

Eram os deuses astronautas?


Estive participando neste final de semana de um Simpósio cujo tema era a vida extraterrestre e suas ligações com a vida no planeta Terra. A princípio, pode parecer coisa de gente maluca, de quem não tem o que fazer, mas o negócio não é bem assim. Os palestrantes vieram de vários locais do Brasil e têm trabalhos de pesquisa na área. Além do grupo que vive em Recife e que contribuiu com visões diferentes sobre o tema. Apesar das áreas serem diversas, impressionou-me o fato de apontarem para os mesmos aspectos (inclusive trazendo o ano de 2012 como um marco na história de nossa evolução).
Outra coisa que permeou todo o encontro foi a mensagem de que o Amor é a única saída que temos neste momento. Todos, todos, falaram sobre a importância de trabalharmos nossa evolução espiritual. Interessante observar que cientistas, pesquisadores sérios, não trazem mais a objetividade como paradigma único da ciência. A física quântica possibilitou uma expansão da compreensão dos fenômenos. Tudo no Universo é energia e esta energia está interligada num grande campo, ou seja, tudo o que acontecer a qualquer uma das partes vai ressoar para todas as outras. “O que você fizer a uma borboleta afetará as estrelas”. Gente, isso é o verdadeiro milagre!!. A Divindade, o Mistério está em cada uma das coisas que compõem o Universo. Então, como ser humano, parte desta rede, desta teia, tenho a responsabilidade de vibrar energeticamente num nível que favoreça a harmonia deste sistema. Somos todos deuses, como dizem os budistas, no sentido de que temos a centelha divina em nós – Cristo também nos ensinou isto.
Lembrei-me da viagem que fiz ao Parque Nacional de Sete Cidades, no Piauí, e de que vi lá, uma inscrição rupestre de um desenho que era idêntico a um avião (imagem acima). Meu raciocínio lógico me disse que isso seria impossível porque naquela época o avião ainda não havia sido inventado. Mas, lembrei-me de outra coisa, de uma famosa pergunta: eram os deuses astronautas? Desde sempre, quando o homem não compreende um fato, um fenômeno, dá-lhe a conotação de sobrenatural. Os indígenas brasileiros se referiam aos relâmpagos e trovões como deuses – dentro da visão da física quântica, de certa forma isso é verdade, já que toda manifestação da natureza carrega em si a mesma estrutura primordial que compõe o restante do Universo -, e outros povos, de outras culturas, também expressavam o incompreensível para aquele tempo e aquele espaço físico na forma de divindades.
Seguindo essa linha de raciocínio, se naves de extraterrestres tivessem chegado há tempos lá no Parque do Piauí é possível que os habitantes do lugar tenham interpretado os visitantes como deuses, ou, sendo mais sábios do que os humanos de agora, tenham interagido naturalmente com eles e registrado em suas pinturas a presença deles, como registraram outras coisas do seu cotidiano.
Ainda dentro dessa forma de pensamento, os extraterrestres fazem parte do Universo, assim como nós, as plantas, as pedras, os rios, os oceanos, os animais, nosso sistema solar. Nada poderia estar fora deste conjunto. Então, em pleno século XXI, quando temos informações precisas advindas de uma tecnologia nunca tão desenvolvida, por que desenvolvemos o mito, expresso em filmes e livros, dos extraterrestres como algo que vem nos destruir e nos dominar?
Freud disse que nos trouxe a peste ao nos mostrar que não temos domínio sobre nós mesmos, pois o inconsciente pessoal é que nos controla. Falou-nos ele, das dores que sentimos ao percebermos que o Universo não girava em torno da Terra e que o ser humano era apenas mais uma forma de vida no nosso planeta, não sendo superior a todas as outras formas. Não reinamos no Universo, não reinamos na Terra, não reinamos em nós mesmos. Grande lição de humildade e de co-dependência que nos arremessa na necessidade de cooperação, de conexão.
Conexão. Esta é a palavra chave. Agora não dá mais para fingir que não sabemos. Explodem livros, filmes e todas as outras formas de comunicação que traduzem máximas tão antigas, expressas nas mais diversas épocas, pelos mais diferentes sistemas de sabedoria:
· Tudo o que fizeres a teu próximo é a ti mesmo que fazes.
· Ama a teu próximo como a ti mesmo.
· Tua fé te salvou.
· A toda ação segue-se uma reação de mesma força e em sentido contrário.
· Somos deuses vivendo a experiência de seres humanos.
Quando é que vamos aprender?

28.6.07

Comichão

Mexer com as palavras é um jogo complicado. Nele você pode revelar tudo, disfarçar, camuflar, mentir, esconder. Será que se consegue esconder-se de todo? Acredito que algo sempre escorre por entre as linhas, algo da verdade do autor, dos seus segredos, das suas dores e dos seus amores.
Lendo Clarice fico extasiado. Foi uma maestrina nesse jogo. Livre, solta, sofrida e, acima de tudo, verdadeira. Talvez, por isso, escrever seja tão difícil. A verdade do autor se apresenta para ele mesmo nua e crua. E aí dói. O encontro consigo, com a vida íntima, aquela dos sonhos, aquela sabida como a não vivida, a desejada secretamente, o faz ficar em carne viva.
A sua alma se expressa através de personagens e do narrador, no caso das ficções. Desnuda-se na força da poesia. Viaja para o mundo das reflexões nas crônicas e nos artigos.
Noutro dia li Clarice dizendo que estava sem muita paciência para ler ficção, pois estava mais voltada para o que os fatos da vida provocavam dentro das pessoas. Simpatizei com ela. Jung também disse que sua vida não fora rica em fatos, mas em jornadas para seu mundo interior.
Tenho sentido, nesse início de carreira como escritor, que a solidão é condição primeira para que palavras brotem no teclado e na tela do computador – pouco romântico isso; mais bonito seria brotar da caneta para o papel, ou ainda, da pena para o pergaminho; apenas saudosismo.
Djanira, minha escritora gurua, diz que escrevemos a partir do mergulho que fazemos dentro de nossa alma, de nossas lembranças. Numa forma mais chula, o escritor só bota para fora o que já tem dentro. A inspiração vem de textos lidos, de situações vividas, de fatos observados, de causos ouvidos. Pode ser qualquer coisa que toque a alma do escritor e que provoque o comichão do escrever. Então, nesse momento, começam as dores do parto do texto. Primeiro, deixa-se fluir; depois acontecem inúmeras releituras, troca-se uma palavra por outra – não fica bem comer a mãe -, eliminam-se artigos desnecessários, observa-se a clareza das idéias. Enfim, pronto. Vem o gozo, a calma, a falta... e começa tudo de novo.
Fala-se no sofrimento necessário para se produzir um texto de qualidade. Porém, todos os autores sabem que muito além da dor está o indescritível prazer que a escrita proporciona. Inventamos realidades. Como autores, somos deuses.

27.6.07

mais um texto que não é meu, mas que me revela

Mas tu já sabes
a cor do meu silêncio,
as palavras que não escrevo,
aquelas que não digo,
e que, clandestinas,
vão pousar suavemente
nos teus lábios...

Foi sonho ou pesadelo?

Hoje não poderia escrever algo que viesse do meu coração, da minha alma. O Universo insiste em brincar comigo. Eu, cega, não enxergo o que me mostra.


O Amor, quando se revela...
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

Fernando Pessoa

18.6.07

Domada

Sentia tanta pena dela. Ali, na primeira fila da sala de aula, pequena, míope. Com grandes óculos que a ajudavam a enxergar o mundo. Sempre ouvia com atenção o que os professores diziam. Anotava tudo. Aprendia demais. No recreio ficava sozinha. As colegas só a procuravam para tirar dúvidas dos assuntos das provas. Não ia ao cinema, não passeava, não fazia trela. Era toda certinha. Era toda boazinha. Eca! Não conhecia o prazer de uma aventura, não sentia o frio na barriga por uma mentira. Nunca ficou com o maior pedaço do bolo. Suas roupas novas eram estreadas pela irmã. Rezava, rezava, rezava. Será que pedia perdão? Como poderia fazer algo errado se não fazia coisa alguma? Sua vida era vazia. Não havia conflito porque não havia ação. Era o próprio contra-exemplo do pecado.
Mal se olhava no espelho e, por isso, não tinha consciência de sua beleza. Havia nela uma sensualidade sempre esmagada pela culpa. E, o pior, ou melhor, é que seu corpo era um verdadeiro violão. Mas não explorava estes atributos. Escondia-os.
Ouvia sempre as histórias vividas pelos outros. Ninguém nunca perguntava sobre as suas. Também, como poderia ter histórias para contar se não vivia a vida, se apenas a deixava passar?!
Reprimida, dócil, domada.
Gostaria de saber que rumo tomou sua vida. Faz mais de trinta anos que não tenho notícias dela. Será que virou freira? Deve estar gorda, com os óculos mais grossos. Ainda deve rezar muito o terço. Beijou alguém na boca? Sentiu tesão pelo menos uma vez? Pode também ter se tornado uma grande cientista. Lia muito, era muito estudiosa. Pode até ter ido para a Nasa. Doutora? Quem sabe? Com certeza trabalhou muito pelos pobres, pelas minorias. Tinha mania de justiça. Maconha? Nunca. Gozar? Jamais.
Saudades dela. Ajudou-me muito a cair na vida de corpo inteiro. Não queria ser como ela. Não queria contemplar a vida apenas. Queria ser a autora de minha história. Se a encontrasse hoje não a chocaria com a intensidade de minha vida vivida. Procuraria ser suave. Quase carregá-la-ia nos braços, pintando a vida em tons de aquarela.

17.6.07

Finitude

De repente, senti aquela coceira no braço. Olhei e tomei o maior susto, pois nunca tinha visto uma criaturinha daquela. Era um fio de linha verde, de um verde vivo e alegre. Só isso que era. E se mexia! Juntava-se todinha e arremessava para frente, em linha reta, a parte da frente – onde seria atrás? – de seu corpo – corpo?. E assim, encolhendo-se e expandindo-se, movimentava-se.
Fiquei estupefata. Como um ser tão pequeno, tão fino, poderia agir no mundo? Como fazia isso? Obedecia a ordens de onde? Se existia um cérebro, onde se localizava? Não sei seu nome, de onde veio. Ínfima, insignificante e tão toda. Seu mistério me capturou. Lembrou-me da aranha de meu banheiro. Pequena, frágil, com suas patas que parecem que vão se partir a qualquer instante, e poderosa quando constrói sua belíssima teia. Uma verdadeira obra de arte. O todo no nada.
Talvez, ser grande é simples assim. É só cumprir seu destino.

15.6.07

Confraria dos Sem-Teto

Uma praça é um microcosmo. Impressionante como nela coabitam diversos ecossistemas.
Gosto sempre de caminhar por uma perto de minha casa. Sinto o cheiro das árvores, observo o sol, ouço o canto variado dos pássaros. Os diferentes tons de verde me encantam. Quem será que criou algo tão maravilhoso? Tudo ali, na mais perfeita harmonia.
Alguns cachorros são da praça. Ali dormem, descansam, brincam, têm filhotes. Uma delícia ouvir seus latidos de bom-dia.
Tem um componente deste lugar que faz toda a diferença: o ser humano. São crianças em seus carrinhos ou correndo pelos lagos para dar comida aos peixes. São idosos e idosas, caminhando de mãos entrelaçadas e apreciando as vitórias-régias. São homens e mulheres que fazem seu exercício matinal antes de mais um dia de corre-corre. Para chegar mesmo aonde? Há ainda os jovens estudantes que passam em algazarra para as aulas. Tenho a impressão de que não estão muito preocupados com o que vão aprender na escola. A alegria vem dos amigos e da própria idade que possibilita um leque de possibilidades de futuros. Existem os motoristas dos carros que passam apressados e nem conseguem perceber a beleza que os envolve. Outros saem em busca de trabalho e são fisgados pelas árvores, pássaros e bancos e se deitam preguiçosamente com o jornal Empregos cobrindo-lhes o rosto adormecido.
Um grupo muito diferente dos que comumente passam pelos bancos da praça estava em reunião hoje. Homens e mulheres, vestidos com roupas velhas, tomavam seu café da manhã, bem modesto, é verdade, lavavam suas roupas e as estendiam na grama para secar ao sol. E conversavam e conversavam e conversavam. Até parecia que estavam decidindo o futuro da humanidade. O cachorrinho de um deles aguardava pacientemente, preso por um simples barbante, que seu dono voltasse para ele novamente sua atenção. Não havia dinheiro na vida daquelas pessoas. Todas tinham um ar de dignidade. Percebi que estavam felizes, tranqüilos, serenos. A cada volta que dava, mais esticava a orelha, na tentativa de captar a conversa. Não consegui pegar muita coisa. Não consegui desvendar o segredo de tanta harmonia.
A vida é mesmo um mistério.

7.6.07

Reverenciando Afrodite

Existe algo de mágico na forma que a mulher tem de se fazer bela. Não importa a cultura, mas existe um ritual, um momento em que a mulher entra em contato com sua sagrada energia feminina e a Deusa Afrodite se expressa nas mais diversas formas. Talvez, a questão da sedução das fêmeas para acasalarem com machos mais fortes esteja na origem primitiva desse ritual. As índias se pintam, as negras africanas colocam suas argolas, as orientais pintam os olhos, as ocidentais seguem a moda e vão às compras.
É bonito ver amigas fazendo compras. Pode ser uma camisola nova, aquele sapato da cor da tirinha do vestido, uma bolsa poderosa, o vestido que realçou o colo e escondeu a barriguinha. E na hora da escolha do colar que combine com a bolsa, com o detalhe da saia e que não seja muito caro, a opinião de uma amiga é fundamental. Há também as que preferem comprar tecidos e costurarem as roupas nos modelos mais fascinantes. O momento do creme no corpo, daquele produto que faz as rugas ficarem no lugar delas, do batom que é tudo que há, também promovem o encontro com a Deusa da beleza. Se o dinheiro não existe, um bom banho, uma arrumada no cabelo, bastam para fazer a mulher se sentir feminina.
Noutro dia, uma quase cinqüentona tinha se produzido e ido a um shopping para comprar cadernos para os filhos. Ao passar por uma mesa, dessas que ficam em cafés no meio do corredor, um homem olhou para ela de cima abaixo, fixou o olhar no seu decote, não conseguiu se conter e exclamou admirado “Valha-me Deus!”. Ela apenas sorriu.
Não importa a época nem o lugar: reverência à beleza feminina.

30.5.07

Terrinha santa

Depois de 15 anos voltei à terra natal de minha mãe. Foi estranho percorrer os lugares que conheci e com ela aprendi a amar. A casa onde nasceu, a ladeira onde brincava de barra-bandeira, a igreja e a praça, marcos do centro da cidade. Lá estava ela, imponente, tranqüila, linda como sempre, proporcionando os banhos regados a água, cachaça, caju e cantoria.
Bem devagar, como se estivesse pisando em solo sagrado, subi a ladeira que levava à casa das festas de São João, dos carnavais e das procissões de São Sebastião. Doeu vê-la em ruínas, decompondo-se como o corpo de minha mãe. Existe, não existindo mais. Onde outrora fora o banheiro que testemunhou minha transformação de menina para mulher está a árvore favorita da preguiça. Vai ver que por isso estou mais lenta, fazendo tudo mais devagar. A parede que separou meu corpo do corpo do meu primeiro namorado dando-nos uma noite de tortura e tesão ruiu, tal qual desmoronou nossa relação. Já não há mais parede para impedir o desejo, mas os corações já estão feridos.
A terra continua fértil, teimando em continuar viva. O coentro continua verde, o milharal cheio de bonecas cor de rosa, o agricultor ainda está apaixonado pela natureza. Vacas, porcos, galinha vivem a vida de sempre. As enormes pedras da região são as únicas coisas que aparentam perenidade. Todo o resto aponta para a impermanência e para os ciclos do tempo.
Assim, ...indo, ...endo, ...ando, para que o que já foi continue a ser, agora, sempre. Uma tentativa de segurar a saudade.

Foto: Roberto Arrais

23.5.07

Comadres

Freud tinha razão quando disse que não saberia precisar o que quer a mulher. Não existe A mulher; existem mulheres que desejam coisas diferentes.
Não consigo enxergar uma massa de mulheres, todas iguais. Às vezes tenho a impressão de que estou à frente de uma tuia delas. Operárias de fábricas com a mesma farda, mães em reunião de escola, executivas fantasiadas de terninho, donas de casa trocando receitas e tantas outras situações que são apenas simulacros da essência feminina. No caso das operárias de fardas cinzas, com o olhar mais detalhado haverá a revelação de um batom, um brinco, um rabo de cavalo, algo que faça cada uma delas existir na sua singularidade.
Poderá uma mulher ser capturada em sua totalidade? Ou haverá sempre o mistério? Entre amigas, ao redor do fogo da cozinha ou de uma mesa de bar, um pouco dos seus segredos podem ser revelados. São momentos mágicos em que as mulheres compartilham sua divindade.
Lembro-me agora de um encontro de amigas numa fazenda. Estavam lá com suas famílias para um final de semana. Maridos no terraço tomavam cervejinha; filhos corriam pelo quintal. E elas na cozinha, jogavam conversa fora. Uma falava como a outra era dormente de tão demente que era; outra contava que seu filhinho de nove anos estava de namoradinha, uma verdadeira serial killer; a baixinha dizia que nunca iria querer ser uma Pepsi, pois as pessoas sempre diziam ‘me passa a Coca aí’ e ela queria era ser chamada pelo seu nome de verdade; a bem bonita e enérgica era a Pinho Sol, tinha mania de limpeza. O filho de uma delas estava febril; a mãe na maior calma; a amiga disse logo que se fosse o seu, ela UHH-UHH- UHH, imitando o barulho se uma sirene. E assim, entre risos e lágrimas, compartilhavam sua intimidade. Claro que também falavam dos maridos, dos seus e dos das amigas ausentes. Um deles, coitado, era tão destrambelhado que colocou o computador quente no freezer. Pode? E aquele outro fulano que estava botando a maior gaia na mulher com uma amiga de infância. Ingênuo, deixou às vistas uma foto dele de cabelo molhado, com um fundo típico de motel. A mulher saiu pelos motéis da cidade, acompanhada pela comadre, achou o tal da foto e registrou-se no mesmo lugar, levando a imagem para ele. Pense no susto. Ele até hoje não sabe se a gaia também foi retribuída. Quando se fala em motel, as histórias brotam. A amiga de uma delas organizou a festa de 15 anos de casada no motel; foi antes, com outra comadre, levou velas, incensos, cremes, pétalas de rosas, champanhe; combinou com o marido que ligaria à noite para avisá-lo sobre o local da comemoração; quando a amiga foi deixá-la no motel à noite, houve o maior engarrafamento porque um dos apartamentos estava em chamas; o romantismo cedeu lugar ao desespero e ainda ficaram ouvindo gracinhas na enorme fila de carros sobre as opções homossexuais das duas. Só sendo mulher para passar por isso. E acompanhada por uma outra mulher,claro.

20.5.07

Amigas

Sabe quando você vive um dia mágico? Pois foi assim comigo ontem. Tenho uma amiga muito especial que me ligou e me chamou para um passeio pela Jaqueira. Topei na hora. Coloquei a roupinha básica de ginástica e dez reais enrolados na calcinha.
Ela chegou, desci toda faceira e ao entrar no carro ela me fez o convite “Topas ir para Aldeia? Preciso comprar uns bambus.”. Claro que concordei e fomos ladeira acima curtindo a paisagem, o clima e, principalmente, o papo. Aprendo tanto com ela. Escolhemos o bambu e bastou ela pôr as mãos na direção do carro e já surgiu outro convite “E se a gente fosse almoçar em Gravatá?”. Mais uma vez, pegamos a estrada. Convidamos outra amiga para a aventura. Ela estava fazendo as unhas e colocou bacias e esmaltes de lado para se juntar a nós. Parecíamos três jovens adolescentes com enorme sede de vida. O verde, as montanhas, o friozinho e as conversas ininterruptas marcaram a subida da serra. Tudo sem pressa. À medida que subíamos deixávamos para trás todos os outros papéis que desempenhamos, o de mãe, o de esposa, o de filha, o de profissional, o de dona de casa, o de avó; carregávamos apenas nós mesmas. Visitamos condomínios, passeamos e fomos almoçar numa charmosa cantina italiana. Boa comida, bom vinho, boa subremesa, boa conversa. Não aquelas conversas superficiais de mesa de bar ou de restaurante. Muita, muita intimidade. Estávamos ali compartilhando nossas almas. Um privilégio. Depois a volta, com olhos brilhando, coração leve e completamente reabastecidas. Um presente. Das Deusas, é claro.

15.5.07

Levanta

- Levanta, filho! Já tá na hora da escola.
Mais um dia, mais uma tortura na escola. Fica difícil sair da cama desse jeito. Não é que eu não goste de escola. Até que gosto. Tem umas aulas bem legais, educação física, teatro; tem o recreio. Nem lancho para não perder tempo de brincar. Agora as aulas de matemática e os textos de português são um saco. Meus olhos querem ficar fechadinhos, minha cama tá tão gostosa.
- Ainda não levantou?!!! Quer chegar atrasado? Você está bem grandinho para eu precisar ficar pegando no seu pé com a hora da escola. Pode assumir suas responsabilidades. Na minha época eu não tinha quem ficasse me pajeando. Era o cinturão logo.
Lá vem o mesmo blá-blá-blá. Será que ela não vê que eu prefiro ficar aqui, dormir mais, ver tv, jogar no computador, falar com a galera. Não é possível que a vida seja só isso. E ainda vou ter que decorar as capitanias hereditárias, todos os nomes dos ossos do corpo humano e o sistema digestivo da minhoca. É mole? Desse jeito meu cérebro vai ficar esgotado logo. Não tem jeito, ela não vai me deixar em paz.
Leite com Nescau, pão com queijo, suco de vampiro. Criança tem que ficar forte. Banheiro, escovar dente, banho, pentear cabelo. Vida de robô. Para a direita, para a esquerda, pegue a bolsa, siga em frente, marche para aula.
- E aí, pirralho. Hoje no recreio tem ralação.
Ainda essa, ter que enfrentar esses tabacudos grandalhões que querem torturar os menores só pra ver se ficam mais poderosos.
- Acorda, pessoal. Até parece que vocês não gostam de vir assistir aula. Na minha época eu adorava ir para a escola. Aprendia tudo, entendia o mundo. Não tinha nenhum outro lugar com mais informações. Os professores eram verdadeiros mestres. Hoje os alunos não respeitam mais a gente.
Será que tinha internet? E tv a cabo? Discovery? Eles locavam filmes? E livrarias, cds, mp3? Ouvi falar que já existiam gibis. Fica difícil acreditar que meus pais e meus professores foram crianças, melaram-se de lama, tomaram banho de chuva, comeram brigadeiro de colher. Do jeito que falam parece que adoravam fazer tarefa de casa e que só viviam para estudar. Ai, hoje tenho aula de inglês, judô e futsal. Amanhã, alemão, psicóloga. Quando é que vou ter um tempinho para mim?
- Não está prestando atenção ao que falo. Mais uma vez no mundo da lua. Assim nunca será alguém quando crescer. Para a diretoria. Não sei mais o que fazer com você. É uma falta de respeito comigo. Fico aqui me esforçando, dando o meu sangue para você aprender e você não quer nada com a vida. Temos que chamar seus pais para que saibam que estão jogando dinheiro fora. Se continuar assim, não vai nem passar de ano.
Bem que eu podia me clonar. Um eu ia para a diretoria. Outro eu ficava decorando essas baboseiras e só tirando dez. Um ia para as aulas do turno da manhã, as chatas, e uma cópia para as da tarde. O que euzinho mesmo ia escolher para fazer? Esse negócio de clonagem não é tão simples assim, véio. Não ia querer um outro eu dando beijo na boca de ....
- Vou convocar seus pais para uma reunião. Acho que teremos que fazer alguns exames em você. Isso não é normal. Provavelmente tem défict de atenção. Também não pára quieto. Claro que vamos ver que você é hiperativo. Não precisa nem fazer teste, pois tá na cara. Não consegue ficar quieto. Muitos exames, muita medicação. Quero só ver se não vamos dar um jeito nessa situação. Vá, vá, que é hora do recreio e tenho que falar com seus professores.
Ufa! Ainda bem que acabou o sermão. Será que vai dar tempo de pegar a bola? Depois um refresco na aula de educação física. Professor legal, o cara. Sabe respeitar o ritmo da gente. Não fica me dando bronca porque corro muito. Até me elogia porque tô sempre ligado em todas as jogadas. Gooooooooooooooooooool. Valeu. Alguém pode ter, como é mesmo o nome, déficit de atenção, só para algumas coisas?
- O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Tão vendo aqui?
- Professor, para que é que eu preciso aprender isso? Onde vou usar na minha vida?
- Ah! Você não está vendo agora a utilidade, mas quando você estiver na faculdade você vai ver como foi importante ter aprendido isso bem direitinho. E na sua vida profissional, então?
- Mas, professor, quero trabalhar com mergulho no fundo do mar. Vou precisar disso para quê?
Que bom que perguntaram sobre para que aprender tanta baboseira! E foi o aluno mais cdf da turma. Se fosse eu, tava ferrado. Também fico querendo saber para que todo esse volume de informação sem sentido nenhum. Tá acontecendo uma invasão de um país por outro e a gente nem fala aqui. Minha mãe vive comentando sobre a importância de uma alimentação natural, sem transgênicos – que droga é isso? -, sem agrotóxicos e nem aprendemos como comprar comida. E deixar um pedaço da gente nas tais de células-tronco? Será que vou poder ficar bem jovem quando estiver velho e chato? Vai dar para curar a chatice?
- Prestem bem atenção porque esse assunto vai cair na prova. Anotem tudo nos cadernos. O nosso clima é ..., nossa população tem ... habitantes. Depois não digam que não avisei e errem um numerozinho sequer que boto zero. A gente já dá tudo mastigado e vocês não querem nada com a vida.
Será que o mundo vai acabar mesmo? Moro bem junto da praia e basta uma ondinha para deixar todo mundo afogado e morto. Tenho medo da morte; não faço idéia do que vem lá. Também não gosto de pensar sobre como nasci e onde estava antes de vir para a Terra. E os extraterrestres existem mesmo? Para que gastar tanto dinheiro com pesquisas sobre alienígenas com tanta gente morrendo de fome? Não era melhor comprar comida para os pobres?
- No feudalismo tinha o senhor feudal que era o dono das terras, do feudo...
Os usineiros eram senhores feudais? E os latifundiários? Por que ainda existem sem-terra no país da gente se ele é um dos maiores do mundo e tem tanta terra abandonada? Depois minha mãe quer que eu divida meu saco de pipoca com meu irmão pequeno. Tá ruim, hein? Os adultos não dividem nada e ficam querendo forçar a gente a dividir o pouquinho que a gente tem.
- Nosso sistema reprodutor é bem complexo. No homem ... Na mulher ... O espermatozóide se encontra com o óvulo...
Como é que se transa? Como é que vou tirar a calcinha dela? E se meu pau não ficar duro? Se na hora eu falhar? Por que não conversam sobre isso com a gente? Já fiquei com tanto medo que minha mão caísse por causa de mulher pelada em revista.
- Agora vamos fazer uma análise morfo-sintática nesta frase: “Eu francamente já não quero nem saber, de quem não vai porque tem medo de sofrer”. Quantos períodos temos aqui?
Pô! E aquela música que fala sobre o medo? Do caralho! Quem será que disse isso, medo de sofrer?! Também tenho, porra. Medo de não conquistar ..., medo que meus pais se separem depois de tantas brigas, medo de pagar mico, medo de falar pra turma toda e ficar fazendo papel de ‘não sei’. É medo que só.
- Não se esqueçam de fazer a tarefa de casa, da página ... até a página ..., letras de (a) a (j), na questão 9. Anotaram tudo na agenda? Cuidado com as bancas! Vocês já saem derrubando tudo. Estes meninos não têm educação. Sobra pra gente dar até educação doméstica. Também, com mãe trabalhando o dia todo e pai só pensando em ganhar dinheiro!!! Não sei onde esse mundo vai parar.
Fim por hoje. Graças a Deus. Tem hora que penso que vou endoidar. A cada tempinho, trim-trim, troca de caderno, troca de livro, troca de assunto, troca de professor, só falta trocar de cabeça. O juízo já se perdeu. Por que minhas pernas, meus braços, meu corpo todo não pode seguir meus pensamentos e, se é para falar de parte do corpo também, meu coração? Quando é que vou ser livre? Quando é que vou ser dono de mim?