Estava ela deitada em sua cama, aninhada em cobertas, lençóis, travesseiros e almofadas. Vestia um pijama rosa com bolinhas brancas que tinha escrito na blusa ‘eu gostaria de morar em seu coração’. Nos pés, meias com desenhos de ursinhos. Parecia uma adolescente e camuflava, assim, a sensualidade da mulher madura que era. Encantava-me apreciá-la em seu mundo mágico, rodeada de livros. Lia Clarice e ria e ria. Lia Florbela e chorava e chorava. A história das mulheres também lhe fazia companhia. Estava plena. Seu sorriso era doce. De vez em quando, suspirava. Imaginava eu que era de felicidade. Ficava tentando ler-lhe os pensamentos. Ouvia, não sei se de verdade ou apenas na minha imaginação, que ela agradecia à Deusa a coragem de ser mulher e de se manter fiel à sua tradição, reverenciando, mais uma vez, na vida atual, o sagrado do feminino. Lembrava de sua luta como mulher nos campos, onde trabalhara para o sustento dos seus. Lembrava quando usara sua sabedoria e os ensinamentos da Mãe Terra para a cura dos males e fora queimada na fogueira como bruxa. Sim, fora uma bruxa e a força dessa bruxa a acompanhara até agora. Lembrava quando facilitara a fuga de outras mulheres com seus filhos e filhas durante o caos dos campos de concentração nazista. No presente, estava orgulhosa por não ter fugido à luta e ter enfrentado o seu desafio mais ousado: entregar-se ao seu coração. O medo do desconhecido fora grande. Perceber que a vida não estava sob seu controle fora atordoante demais. Mas, conectara-se com sua alma e entendera que não precisava se acovardar. Confiara na vida e se jogara para saborear todos os riscos de uma existência cheia de amor.
Realmente, ela estava feliz. Fiquei com inveja dela.
Venho aprendendo novas formas de ler o mundo. Agora, através da literatura, a arte tomou posse de minha alma. O Caleidoscópio é um brinquedo que muda a configuração de uma mandala a cada novo movimento. Acho que sou um Caleidoscópio.
1.9.07
21.8.07
Prisão
Meu Amado:
Estou incomunicável, trancada na torre do castelo e sendo vigiada em todos os meus passos. Papai não admite nosso relacionamento. Acha-me jovem demais e não aceita sua condição financeira e também sua idade. Diz que você vai morrer logo e que não poderá me proteger por muito tempo.
Bá me acompanha para todos os lugares e tem ordens expressas de não deixar você se aproximar. Mas, resolvi escrever-lhe para que compreenda e sinta a minha dor. Não sei se estas linhas, que revelam um pouco do meu sofrimento, conseguirão chegar às suas mãos. Vou tentar.
Sinto falta de você, do toque de suas mãos, da doçura de sua voz, do seu sorriso fácil e franco. Como lamento não termos mais nossas intermináveis conversas de fim de tarde, quando nossos olhares diziam o que as palavras não conseguiam expressar. Bastava-me olhar-lhe para que meu coração revelasse o segredo do meu amor por você.
A família planeja-me um casamento de conveniência. É isso que se espera de uma moça de bem. Não posso aceitar que a vida me traga tão amargo destino. Como poderei casar-me com alguém com quem não terei afinidades, com quem não poderei conversar ou ainda derreter-me em seus braços de carinho e desejo? Como poderei convencer-me de que viver é apenas ser uma boa dona de casa, uma esposa obediente e uma mãe exemplar, quando sinto em minhas veias o pulsar da vida que me chama para a liberdade e para as descobertas?
Triste sina a minha. Mulher subjugada numa sociedade hipócrita. Os livros têm sido meu alento. A poesia de Pessoa dorme sempre junto ao meu travesseiro. Ainda não lhe contei, mas descobri há pouco a intensidade de Florbela Espanca, também poeta portuguesa. Sei que irá adorá-la, pois fala do amor exatamente como o vivenciamos.
Sofro e sinto em meu corpo a dor de sua ausência. Os dias não têm mais o mesmo brilho. O sol já não aquece com toda sua intensidade e a lua, coitada, não ilumina mais o céu apenas para que possamos trocar beijos cheios de desejo. O vento sopra triste, cantando a canção da saudade. Ah! Quanto ainda teremos que suportar para podermos viver plenamente o nosso amor?
Para você, minha saudade, minha ternura e um beijo carinhoso pousado no canto de seus lábios.
Eternamente sua.
Estou incomunicável, trancada na torre do castelo e sendo vigiada em todos os meus passos. Papai não admite nosso relacionamento. Acha-me jovem demais e não aceita sua condição financeira e também sua idade. Diz que você vai morrer logo e que não poderá me proteger por muito tempo.
Bá me acompanha para todos os lugares e tem ordens expressas de não deixar você se aproximar. Mas, resolvi escrever-lhe para que compreenda e sinta a minha dor. Não sei se estas linhas, que revelam um pouco do meu sofrimento, conseguirão chegar às suas mãos. Vou tentar.
Sinto falta de você, do toque de suas mãos, da doçura de sua voz, do seu sorriso fácil e franco. Como lamento não termos mais nossas intermináveis conversas de fim de tarde, quando nossos olhares diziam o que as palavras não conseguiam expressar. Bastava-me olhar-lhe para que meu coração revelasse o segredo do meu amor por você.
A família planeja-me um casamento de conveniência. É isso que se espera de uma moça de bem. Não posso aceitar que a vida me traga tão amargo destino. Como poderei casar-me com alguém com quem não terei afinidades, com quem não poderei conversar ou ainda derreter-me em seus braços de carinho e desejo? Como poderei convencer-me de que viver é apenas ser uma boa dona de casa, uma esposa obediente e uma mãe exemplar, quando sinto em minhas veias o pulsar da vida que me chama para a liberdade e para as descobertas?
Triste sina a minha. Mulher subjugada numa sociedade hipócrita. Os livros têm sido meu alento. A poesia de Pessoa dorme sempre junto ao meu travesseiro. Ainda não lhe contei, mas descobri há pouco a intensidade de Florbela Espanca, também poeta portuguesa. Sei que irá adorá-la, pois fala do amor exatamente como o vivenciamos.
Sofro e sinto em meu corpo a dor de sua ausência. Os dias não têm mais o mesmo brilho. O sol já não aquece com toda sua intensidade e a lua, coitada, não ilumina mais o céu apenas para que possamos trocar beijos cheios de desejo. O vento sopra triste, cantando a canção da saudade. Ah! Quanto ainda teremos que suportar para podermos viver plenamente o nosso amor?
Para você, minha saudade, minha ternura e um beijo carinhoso pousado no canto de seus lábios.
Eternamente sua.
19.8.07
A festa
Estou feliz. Vou me casar novamente. Desta vez, sei que será por muito, muito tempo. Encontrei um homem maravilhoso e nos reconhecemos desde a primeira vez que nos vimos.
Resolvemos compartilhar nossa felicidade dando uma festa e convidamos os amigos, os familiares e as pessoas que já fizeram parte de nossas vidas. Este já é o nosso quarto casamento. Cada um tem três ex, além de outros personagens que não ficaram por um tempo maior ao nosso lado. Procuramos em nossas lembranças pessoas com quem ficamos, pessoas que namoramos, pessoas pelas quais nos sentimos atraídos. Resgatamos fotos, objetos, músicas.
Algumas amigas minhas acharam que eu tinha enlouquecido e me perguntavam se não teria ciúmes de todas elas, que quando meu amado visse suas ex se sentiria mexido e que isso poderia abalar minha relação com ele, talvez até desistisse do casamento e voltasse para uma delas. Não considerei esses pontos já que eu e ele achávamos que se havíamos chegado ao presente da forma que chegamos, devíamos muito disso ao que aprendemos com as pessoas com as quais nos relacionamos. Poderíamos agradecer-lhes a bênção de estarmos prontos para vivermos um amor tão lindo.
A festa foi super animada. Todos os ex com filhos, os meus, os seus e os nossos, com as atuais esposas, namoradas ou ficantes, ou ainda, maridos, namorados ou ficantes, amigos de várias fases de nossas vidas – descobrimos até que muitos deles eram amigos entre si –, nossas famílias, todas as pessoas que de alguma forma foram importante para nós, estavam lá, brindando à nossa felicidade. Os álbuns passavam de mão em mão e ríamos com as roupas da época e com os fatos que vivemos e que ali estavam registrados. ‘Eita, aqui foi quando brigamos por causa....’. ‘Essa aqui foi quando estávamos na festa de ...’. Tanta coisa compartilhada, tanta história a ser contada.
Momento mágico para nós dois. Coisa boba essa de dizer que uma relação não deu certo porque acabou. O poetinha já nos ensinou que todo amor dever ser eterno enquanto dura.
Ainda estamos curtindo os momentos hilários da festa. No nosso casamento, só nós dois.
Resolvemos compartilhar nossa felicidade dando uma festa e convidamos os amigos, os familiares e as pessoas que já fizeram parte de nossas vidas. Este já é o nosso quarto casamento. Cada um tem três ex, além de outros personagens que não ficaram por um tempo maior ao nosso lado. Procuramos em nossas lembranças pessoas com quem ficamos, pessoas que namoramos, pessoas pelas quais nos sentimos atraídos. Resgatamos fotos, objetos, músicas.
Algumas amigas minhas acharam que eu tinha enlouquecido e me perguntavam se não teria ciúmes de todas elas, que quando meu amado visse suas ex se sentiria mexido e que isso poderia abalar minha relação com ele, talvez até desistisse do casamento e voltasse para uma delas. Não considerei esses pontos já que eu e ele achávamos que se havíamos chegado ao presente da forma que chegamos, devíamos muito disso ao que aprendemos com as pessoas com as quais nos relacionamos. Poderíamos agradecer-lhes a bênção de estarmos prontos para vivermos um amor tão lindo.
A festa foi super animada. Todos os ex com filhos, os meus, os seus e os nossos, com as atuais esposas, namoradas ou ficantes, ou ainda, maridos, namorados ou ficantes, amigos de várias fases de nossas vidas – descobrimos até que muitos deles eram amigos entre si –, nossas famílias, todas as pessoas que de alguma forma foram importante para nós, estavam lá, brindando à nossa felicidade. Os álbuns passavam de mão em mão e ríamos com as roupas da época e com os fatos que vivemos e que ali estavam registrados. ‘Eita, aqui foi quando brigamos por causa....’. ‘Essa aqui foi quando estávamos na festa de ...’. Tanta coisa compartilhada, tanta história a ser contada.
Momento mágico para nós dois. Coisa boba essa de dizer que uma relação não deu certo porque acabou. O poetinha já nos ensinou que todo amor dever ser eterno enquanto dura.
Ainda estamos curtindo os momentos hilários da festa. No nosso casamento, só nós dois.
6.8.07
Se lave-se
A gente aprende muito numa com conversa de mulheres. Noutro dia, uma amiga estava me contando sobre uma experiência que uma amiga dela teve com o marido. Era Dia dos Namorados. Ela havia ido antes para a casa de praia deles e preparado um jantar todo romântico, com velas, flores, incenso, vinho, tudo em tons vermelho, comprado uma camisola nova, colocado uma música para dançar agarradinho, tudo no clima para uma noite de amor. Quando chegaram lá o marido não fez comentário algum sobre o cenário, pegou o vinho, abriu, encheu as taças, começou a tomar, sem brindar, e ligou a televisão. A amiga da minha amiga respirou fundo, tentou relevar, pensando que os homens são assim mesmo, e continuou tomando vinho ao lado do seu amado. Depois de algumas taças, ele virou para ela, apontou para o andar de cima e disse “Se lave-se, porque hoje vai ser por todo lado”.
Pronto, aí acabou todo o clima, todo o desejo de fazer amor. Agora, o que iria rolar, se rolasse, seria uma trepada sem graça, sem carinho. Talvez, a amiga da minha amiga nem gozasse, sem visitasse o jardim das delícias. Já o seu marido, iria fazer a farra e, o que é pior, achando-se o homem mais gostoso e poderoso do mundo. Coitado, não entende nem um pouco a alma feminina.
Mas o que me impressiona nessa história toda, muitas mulheres vivem essa mesma experiência com pequenas modificações, é o que nos leva a continuar numa relação como essa. Medo da solidão? Medo de ser rotulada? Medo de se sentir fracassada? Os homens são todos iguais?
Talvez, quando cada mulher começar a se amar, a se respeitar, tenha coragem para querer mais da vida e dos seus amores.
Pronto, aí acabou todo o clima, todo o desejo de fazer amor. Agora, o que iria rolar, se rolasse, seria uma trepada sem graça, sem carinho. Talvez, a amiga da minha amiga nem gozasse, sem visitasse o jardim das delícias. Já o seu marido, iria fazer a farra e, o que é pior, achando-se o homem mais gostoso e poderoso do mundo. Coitado, não entende nem um pouco a alma feminina.
Mas o que me impressiona nessa história toda, muitas mulheres vivem essa mesma experiência com pequenas modificações, é o que nos leva a continuar numa relação como essa. Medo da solidão? Medo de ser rotulada? Medo de se sentir fracassada? Os homens são todos iguais?
Talvez, quando cada mulher começar a se amar, a se respeitar, tenha coragem para querer mais da vida e dos seus amores.
24.7.07
Gostoso e proibido
21.7.07
Granito
Às vezes, a vida da gente é assim. As coisas do mundo nos chamam e ficamos estatelados como pedras, imóveis, com medo do movimento, do desconhecido.
‘É melhor um pássaro na mão que dois voando’, ‘seguro morreu de velho’, e são tantos os ditos da sabedoria popular que refletem a necessidade humana de segurança. O imprevisível nos assusta. Por que será que o mar nos fascina? Suas ondas indo e vindo, o insondável de sua profundidade, isso de alguma forma hipnotiza a alma. Talvez o segredo esteja aí: precisamos de ritmo em nossas vidas, a contração e a expansão do Universo, o pulsar do coração, a inspiração e a expiração dos pulmões, o dia e a noite, o sol e a lua. Uma vida cheia de certezas é tão sem graça. A aventura nos captura.
Já dizia o poeta, ‘como será o meu destino?’.
19.7.07
E agora?
Foi tomando conta de mim assim, bem devagarinho. Um sorriso, um olhar, uma afago. Palavras saíam de sua boca poesiando. A fala de sua alma espelhava o silêncio da minha. Afinidades, sonhos a realizar juntos. É como se o conhecesse desde sempre.
Ainda não sabia das divergências, pois o tempo era curto. Há apenas uma semana de curso, num lugar mágico que me arremessava para dentro do aqui e do agora, esquecia-me do que era, dos papéis que desempenhava no que convencionara chamar de realidade.
As aulas, as vivências, os lanches, os intervalos... tudo me dava oportunidade de conhecê-lo e encantar-me cada vez mais.
Comecei a perceber que intuía sua presença assim que chegava ao salão, mesmo que eu estivesse de costas. Não precisava vê-lo para senti-lo. Ansiava pelos momentos em que ficaríamos a sós à noite e conversaríamos sobre a vida, sobre o Sagrado, tendo as estrelas e a lua como companhia e o vento frio forçando-nos ao envolvimento nas cobertas.
E o tempo voava.
Na última noite, chamou-me para um passeio no alto de uma montanha que nos proporcionaria uma linda vista do lugar.
Arrumei-me com capricho, o coração já disparado pela saudade que sua ausência iria me causar. Fomos caminhando em silêncio. Conversamos, ouvimos música, boa música, tomamos vinho. Levantou-se, estendeu-me a mão “Vem, vem aqui que eu quero dançar com você.”. Ficamos dançando. Já não me senti a na Terra. Lágrimas caíram dos meus olhos e molharam sua camisa. Sentia seu cheiro, a textura de sua pele, o pulsar de seu coração.
Nenhuma palavra dita. O silêncio nos tornava uno.
Suas mãos começaram a deslizar por minhas costas, fazendo-me derreter. Afagou meus cabelos. Puxou meu rosto para perto do seu e começou a beijar meus olhos, minha face, prolongando o desejo de sentir sua boca na minha. Deliciosa tortura. Finalmente, o longo beijo. Beijo que toma, que entrega, beijo que deixa as pernas bambas.
Acordei. Não acreditei que tudo aquilo fora um sonho. As alianças em minha mão comprovavam que não estava mais habitando o mundo do meu inconsciente.
Ainda não sabia das divergências, pois o tempo era curto. Há apenas uma semana de curso, num lugar mágico que me arremessava para dentro do aqui e do agora, esquecia-me do que era, dos papéis que desempenhava no que convencionara chamar de realidade.
As aulas, as vivências, os lanches, os intervalos... tudo me dava oportunidade de conhecê-lo e encantar-me cada vez mais.
Comecei a perceber que intuía sua presença assim que chegava ao salão, mesmo que eu estivesse de costas. Não precisava vê-lo para senti-lo. Ansiava pelos momentos em que ficaríamos a sós à noite e conversaríamos sobre a vida, sobre o Sagrado, tendo as estrelas e a lua como companhia e o vento frio forçando-nos ao envolvimento nas cobertas.
E o tempo voava.
Na última noite, chamou-me para um passeio no alto de uma montanha que nos proporcionaria uma linda vista do lugar.
Arrumei-me com capricho, o coração já disparado pela saudade que sua ausência iria me causar. Fomos caminhando em silêncio. Conversamos, ouvimos música, boa música, tomamos vinho. Levantou-se, estendeu-me a mão “Vem, vem aqui que eu quero dançar com você.”. Ficamos dançando. Já não me senti a na Terra. Lágrimas caíram dos meus olhos e molharam sua camisa. Sentia seu cheiro, a textura de sua pele, o pulsar de seu coração.
Nenhuma palavra dita. O silêncio nos tornava uno.
Suas mãos começaram a deslizar por minhas costas, fazendo-me derreter. Afagou meus cabelos. Puxou meu rosto para perto do seu e começou a beijar meus olhos, minha face, prolongando o desejo de sentir sua boca na minha. Deliciosa tortura. Finalmente, o longo beijo. Beijo que toma, que entrega, beijo que deixa as pernas bambas.
Acordei. Não acreditei que tudo aquilo fora um sonho. As alianças em minha mão comprovavam que não estava mais habitando o mundo do meu inconsciente.
13.7.07
Impossível?
Meus amigos e minhas amigas têm me cobrado uma maior freqüência na produção de textos. Até concordo com eles e com elas que poderia estar escrevendo mais. Às vezes, fica difícil expor sentimentos que ainda não estão claros para quem os vivencia e o silêncio traduz o muito que poderia ser mostrado, mas que permanece escondido. Aos poucos, todos os segredos vão sendo revelados, inclusive para a própria autora.
Por enquanto, vou contando histórias das amigas, das amigas, das amigas de minhas amigas. Uma delas está vivendo uma situação que nunca imaginou que pudesse acontecer nessa fase de sua vida, com quarenta e tantos anos.
Depois de mais de 20 anos de casada, com quatro filhos já grandes, e toda uma vida dedicada à família, foi comunicada pelo marido que o mesmo estava saindo de casa, pois havia se apaixonado por uma mulher maravilhosa com 20 anos de idade. Foi um baque. Sentiu-se traída pelo marido e pela vida. O que faria agora? Não tinha formação profissional, estava velha e feia – pelo menos era assim que se via naquele momento – e não sabia como fazer para continuar vivendo. Chorou muito e, depois de um tempo, percebeu que precisa tomar um novo rumo.
Amigos a ajudaram e conseguiram um emprego numa instituição pública. No seu primeiro dia, toda nervosa, chegou e foi logo conversar com o chefe que lhe perguntou “A senhora já trabalhou antes?” e ela, pega de surpresa, respondeu “Eu me desquitei agora”. O chefe ficou olhando como quem diz “essa aí ainda vai ter muito que aprender”. Para sua sorte, ele tinha um coração de ouro. Com paciência foi ensinando tudo a ela. Era um mundo novo que descobria. O que antes lhe causava ansiedade começou a lhe dar prazer. Recebeu seu salário, comprou roupas novas, começou a se conhecer de verdade e a gostar de si mesma. A cada dia ficava mais bonita. O trabalho envolvia viagens e foi descobrindo que o mundo era bem maior que sua casa.
Tudo corria bem. Mas a vida não deixa as coisas ficarem calmas por muito tempo e provocou nessa amiga da amiga da minha amiga uma grande confusão: apaixonou-se pelo chefe, um homem casado, sério, que nem imaginava o que se passava em seu coração. Bastava ele chegar que ela começava a se tremer toda. Dormia pensando nele, acordava pensando nele. Adorava quando ficava explicando para ela as tarefas do trabalho ou ensinando-lhe as coisas do mundo. Perguntava-se onde estava enquanto tudo aquilo tinha acontecido e, alienada, não tinha percebido. Começou a trabalhar até mais tarde, nos finais de semana, feriados, não media esforços para ficar um pouquinho mais de tempo ao lado dele. Sonhava com ele a tomando em seus braços, beijando-lhe o pescoço, fazendo amor em lugares lindos. Acordava toda derretida. O pessoal da repartição começou a notar que alguma coisa estava estranha, as fofocas passaram de boca em boca e chegaram aos ouvidos dele. Notou que ele se afastou, ficou mais na dele. E ela sofreu, sofreu, por fazer papel de ridícula, por amar e não ser correspondida, pois sabia que ele jamais olharia duas vezes para uma mulher tão boba como ela.
Não suportando mais aquela dor, pediu demissão, sem nem se explicar ao bondoso chefe os seus reais motivos, e viajou para bem longe de todos e, principalmente, para longe dele. Descobriu que longe é um lugar que não existe para quem ama, pois estar perto não é estar junto, é estar dentro. Pensou, pensou, agradeceu à Deusa a oportunidade de amar tão intensamente e voltou disposta a recomeçar num novo trabalho e a tocar sua vida para frente.
Mal chegou a casa, soube logo da novidade. O impossível, pelo menos para o que imaginava, aconteceu. Seu chefe havia se separado e os boatos diziam que havia se apaixonado por alguém do trabalho. A campainha tocou. Deu de cara com ele. Seu coração disparou e entendeu que a paixão dele era ela. Desmaiou.
Bom, o resto eu não vou contar, por dois motivos: o primeiro, é para deixar que vocês imaginem o que aconteceu; o segundo, é que como essa história é verdadeira e aconteceu com a amiga da amiga da minha amiga, preciso preservar a privacidade do casal. Vai que vocês o conhecem!
Por enquanto, vou contando histórias das amigas, das amigas, das amigas de minhas amigas. Uma delas está vivendo uma situação que nunca imaginou que pudesse acontecer nessa fase de sua vida, com quarenta e tantos anos.
Depois de mais de 20 anos de casada, com quatro filhos já grandes, e toda uma vida dedicada à família, foi comunicada pelo marido que o mesmo estava saindo de casa, pois havia se apaixonado por uma mulher maravilhosa com 20 anos de idade. Foi um baque. Sentiu-se traída pelo marido e pela vida. O que faria agora? Não tinha formação profissional, estava velha e feia – pelo menos era assim que se via naquele momento – e não sabia como fazer para continuar vivendo. Chorou muito e, depois de um tempo, percebeu que precisa tomar um novo rumo.
Amigos a ajudaram e conseguiram um emprego numa instituição pública. No seu primeiro dia, toda nervosa, chegou e foi logo conversar com o chefe que lhe perguntou “A senhora já trabalhou antes?” e ela, pega de surpresa, respondeu “Eu me desquitei agora”. O chefe ficou olhando como quem diz “essa aí ainda vai ter muito que aprender”. Para sua sorte, ele tinha um coração de ouro. Com paciência foi ensinando tudo a ela. Era um mundo novo que descobria. O que antes lhe causava ansiedade começou a lhe dar prazer. Recebeu seu salário, comprou roupas novas, começou a se conhecer de verdade e a gostar de si mesma. A cada dia ficava mais bonita. O trabalho envolvia viagens e foi descobrindo que o mundo era bem maior que sua casa.
Tudo corria bem. Mas a vida não deixa as coisas ficarem calmas por muito tempo e provocou nessa amiga da amiga da minha amiga uma grande confusão: apaixonou-se pelo chefe, um homem casado, sério, que nem imaginava o que se passava em seu coração. Bastava ele chegar que ela começava a se tremer toda. Dormia pensando nele, acordava pensando nele. Adorava quando ficava explicando para ela as tarefas do trabalho ou ensinando-lhe as coisas do mundo. Perguntava-se onde estava enquanto tudo aquilo tinha acontecido e, alienada, não tinha percebido. Começou a trabalhar até mais tarde, nos finais de semana, feriados, não media esforços para ficar um pouquinho mais de tempo ao lado dele. Sonhava com ele a tomando em seus braços, beijando-lhe o pescoço, fazendo amor em lugares lindos. Acordava toda derretida. O pessoal da repartição começou a notar que alguma coisa estava estranha, as fofocas passaram de boca em boca e chegaram aos ouvidos dele. Notou que ele se afastou, ficou mais na dele. E ela sofreu, sofreu, por fazer papel de ridícula, por amar e não ser correspondida, pois sabia que ele jamais olharia duas vezes para uma mulher tão boba como ela.
Não suportando mais aquela dor, pediu demissão, sem nem se explicar ao bondoso chefe os seus reais motivos, e viajou para bem longe de todos e, principalmente, para longe dele. Descobriu que longe é um lugar que não existe para quem ama, pois estar perto não é estar junto, é estar dentro. Pensou, pensou, agradeceu à Deusa a oportunidade de amar tão intensamente e voltou disposta a recomeçar num novo trabalho e a tocar sua vida para frente.
Mal chegou a casa, soube logo da novidade. O impossível, pelo menos para o que imaginava, aconteceu. Seu chefe havia se separado e os boatos diziam que havia se apaixonado por alguém do trabalho. A campainha tocou. Deu de cara com ele. Seu coração disparou e entendeu que a paixão dele era ela. Desmaiou.
Bom, o resto eu não vou contar, por dois motivos: o primeiro, é para deixar que vocês imaginem o que aconteceu; o segundo, é que como essa história é verdadeira e aconteceu com a amiga da amiga da minha amiga, preciso preservar a privacidade do casal. Vai que vocês o conhecem!
2.7.07
Eram os deuses astronautas?

Estive participando neste final de semana de um Simpósio cujo tema era a vida extraterrestre e suas ligações com a vida no planeta Terra. A princípio, pode parecer coisa de gente maluca, de quem não tem o que fazer, mas o negócio não é bem assim. Os palestrantes vieram de vários locais do Brasil e têm trabalhos de pesquisa na área. Além do grupo que vive em Recife e que contribuiu com visões diferentes sobre o tema. Apesar das áreas serem diversas, impressionou-me o fato de apontarem para os mesmos aspectos (inclusive trazendo o ano de 2012 como um marco na história de nossa evolução).
Outra coisa que permeou todo o encontro foi a mensagem de que o Amor é a única saída que temos neste momento. Todos, todos, falaram sobre a importância de trabalharmos nossa evolução espiritual. Interessante observar que cientistas, pesquisadores sérios, não trazem mais a objetividade como paradigma único da ciência. A física quântica possibilitou uma expansão da compreensão dos fenômenos. Tudo no Universo é energia e esta energia está interligada num grande campo, ou seja, tudo o que acontecer a qualquer uma das partes vai ressoar para todas as outras. “O que você fizer a uma borboleta afetará as estrelas”. Gente, isso é o verdadeiro milagre!!. A Divindade, o Mistério está em cada uma das coisas que compõem o Universo. Então, como ser humano, parte desta rede, desta teia, tenho a responsabilidade de vibrar energeticamente num nível que favoreça a harmonia deste sistema. Somos todos deuses, como dizem os budistas, no sentido de que temos a centelha divina em nós – Cristo também nos ensinou isto.
Lembrei-me da viagem que fiz ao Parque Nacional de Sete Cidades, no Piauí, e de que vi lá, uma inscrição rupestre de um desenho que era idêntico a um avião (imagem acima). Meu raciocínio lógico me disse que isso seria impossível porque naquela época o avião ainda não havia sido inventado. Mas, lembrei-me de outra coisa, de uma famosa pergunta: eram os deuses astronautas? Desde sempre, quando o homem não compreende um fato, um fenômeno, dá-lhe a conotação de sobrenatural. Os indígenas brasileiros se referiam aos relâmpagos e trovões como deuses – dentro da visão da física quântica, de certa forma isso é verdade, já que toda manifestação da natureza carrega em si a mesma estrutura primordial que compõe o restante do Universo -, e outros povos, de outras culturas, também expressavam o incompreensível para aquele tempo e aquele espaço físico na forma de divindades.
Seguindo essa linha de raciocínio, se naves de extraterrestres tivessem chegado há tempos lá no Parque do Piauí é possível que os habitantes do lugar tenham interpretado os visitantes como deuses, ou, sendo mais sábios do que os humanos de agora, tenham interagido naturalmente com eles e registrado em suas pinturas a presença deles, como registraram outras coisas do seu cotidiano.
Ainda dentro dessa forma de pensamento, os extraterrestres fazem parte do Universo, assim como nós, as plantas, as pedras, os rios, os oceanos, os animais, nosso sistema solar. Nada poderia estar fora deste conjunto. Então, em pleno século XXI, quando temos informações precisas advindas de uma tecnologia nunca tão desenvolvida, por que desenvolvemos o mito, expresso em filmes e livros, dos extraterrestres como algo que vem nos destruir e nos dominar?
Freud disse que nos trouxe a peste ao nos mostrar que não temos domínio sobre nós mesmos, pois o inconsciente pessoal é que nos controla. Falou-nos ele, das dores que sentimos ao percebermos que o Universo não girava em torno da Terra e que o ser humano era apenas mais uma forma de vida no nosso planeta, não sendo superior a todas as outras formas. Não reinamos no Universo, não reinamos na Terra, não reinamos em nós mesmos. Grande lição de humildade e de co-dependência que nos arremessa na necessidade de cooperação, de conexão.
Conexão. Esta é a palavra chave. Agora não dá mais para fingir que não sabemos. Explodem livros, filmes e todas as outras formas de comunicação que traduzem máximas tão antigas, expressas nas mais diversas épocas, pelos mais diferentes sistemas de sabedoria:
· Tudo o que fizeres a teu próximo é a ti mesmo que fazes.
· Ama a teu próximo como a ti mesmo.
· Tua fé te salvou.
· A toda ação segue-se uma reação de mesma força e em sentido contrário.
· Somos deuses vivendo a experiência de seres humanos.
Quando é que vamos aprender?
Outra coisa que permeou todo o encontro foi a mensagem de que o Amor é a única saída que temos neste momento. Todos, todos, falaram sobre a importância de trabalharmos nossa evolução espiritual. Interessante observar que cientistas, pesquisadores sérios, não trazem mais a objetividade como paradigma único da ciência. A física quântica possibilitou uma expansão da compreensão dos fenômenos. Tudo no Universo é energia e esta energia está interligada num grande campo, ou seja, tudo o que acontecer a qualquer uma das partes vai ressoar para todas as outras. “O que você fizer a uma borboleta afetará as estrelas”. Gente, isso é o verdadeiro milagre!!. A Divindade, o Mistério está em cada uma das coisas que compõem o Universo. Então, como ser humano, parte desta rede, desta teia, tenho a responsabilidade de vibrar energeticamente num nível que favoreça a harmonia deste sistema. Somos todos deuses, como dizem os budistas, no sentido de que temos a centelha divina em nós – Cristo também nos ensinou isto.
Lembrei-me da viagem que fiz ao Parque Nacional de Sete Cidades, no Piauí, e de que vi lá, uma inscrição rupestre de um desenho que era idêntico a um avião (imagem acima). Meu raciocínio lógico me disse que isso seria impossível porque naquela época o avião ainda não havia sido inventado. Mas, lembrei-me de outra coisa, de uma famosa pergunta: eram os deuses astronautas? Desde sempre, quando o homem não compreende um fato, um fenômeno, dá-lhe a conotação de sobrenatural. Os indígenas brasileiros se referiam aos relâmpagos e trovões como deuses – dentro da visão da física quântica, de certa forma isso é verdade, já que toda manifestação da natureza carrega em si a mesma estrutura primordial que compõe o restante do Universo -, e outros povos, de outras culturas, também expressavam o incompreensível para aquele tempo e aquele espaço físico na forma de divindades.
Seguindo essa linha de raciocínio, se naves de extraterrestres tivessem chegado há tempos lá no Parque do Piauí é possível que os habitantes do lugar tenham interpretado os visitantes como deuses, ou, sendo mais sábios do que os humanos de agora, tenham interagido naturalmente com eles e registrado em suas pinturas a presença deles, como registraram outras coisas do seu cotidiano.
Ainda dentro dessa forma de pensamento, os extraterrestres fazem parte do Universo, assim como nós, as plantas, as pedras, os rios, os oceanos, os animais, nosso sistema solar. Nada poderia estar fora deste conjunto. Então, em pleno século XXI, quando temos informações precisas advindas de uma tecnologia nunca tão desenvolvida, por que desenvolvemos o mito, expresso em filmes e livros, dos extraterrestres como algo que vem nos destruir e nos dominar?
Freud disse que nos trouxe a peste ao nos mostrar que não temos domínio sobre nós mesmos, pois o inconsciente pessoal é que nos controla. Falou-nos ele, das dores que sentimos ao percebermos que o Universo não girava em torno da Terra e que o ser humano era apenas mais uma forma de vida no nosso planeta, não sendo superior a todas as outras formas. Não reinamos no Universo, não reinamos na Terra, não reinamos em nós mesmos. Grande lição de humildade e de co-dependência que nos arremessa na necessidade de cooperação, de conexão.
Conexão. Esta é a palavra chave. Agora não dá mais para fingir que não sabemos. Explodem livros, filmes e todas as outras formas de comunicação que traduzem máximas tão antigas, expressas nas mais diversas épocas, pelos mais diferentes sistemas de sabedoria:
· Tudo o que fizeres a teu próximo é a ti mesmo que fazes.
· Ama a teu próximo como a ti mesmo.
· Tua fé te salvou.
· A toda ação segue-se uma reação de mesma força e em sentido contrário.
· Somos deuses vivendo a experiência de seres humanos.
Quando é que vamos aprender?
28.6.07
Comichão
Mexer com as palavras é um jogo complicado. Nele você pode revelar tudo, disfarçar, camuflar, mentir, esconder. Será que se consegue esconder-se de todo? Acredito que algo sempre escorre por entre as linhas, algo da verdade do autor, dos seus segredos, das suas dores e dos seus amores.
Lendo Clarice fico extasiado. Foi uma maestrina nesse jogo. Livre, solta, sofrida e, acima de tudo, verdadeira. Talvez, por isso, escrever seja tão difícil. A verdade do autor se apresenta para ele mesmo nua e crua. E aí dói. O encontro consigo, com a vida íntima, aquela dos sonhos, aquela sabida como a não vivida, a desejada secretamente, o faz ficar em carne viva.
A sua alma se expressa através de personagens e do narrador, no caso das ficções. Desnuda-se na força da poesia. Viaja para o mundo das reflexões nas crônicas e nos artigos.
Noutro dia li Clarice dizendo que estava sem muita paciência para ler ficção, pois estava mais voltada para o que os fatos da vida provocavam dentro das pessoas. Simpatizei com ela. Jung também disse que sua vida não fora rica em fatos, mas em jornadas para seu mundo interior.
Tenho sentido, nesse início de carreira como escritor, que a solidão é condição primeira para que palavras brotem no teclado e na tela do computador – pouco romântico isso; mais bonito seria brotar da caneta para o papel, ou ainda, da pena para o pergaminho; apenas saudosismo.
Djanira, minha escritora gurua, diz que escrevemos a partir do mergulho que fazemos dentro de nossa alma, de nossas lembranças. Numa forma mais chula, o escritor só bota para fora o que já tem dentro. A inspiração vem de textos lidos, de situações vividas, de fatos observados, de causos ouvidos. Pode ser qualquer coisa que toque a alma do escritor e que provoque o comichão do escrever. Então, nesse momento, começam as dores do parto do texto. Primeiro, deixa-se fluir; depois acontecem inúmeras releituras, troca-se uma palavra por outra – não fica bem comer a mãe -, eliminam-se artigos desnecessários, observa-se a clareza das idéias. Enfim, pronto. Vem o gozo, a calma, a falta... e começa tudo de novo.
Fala-se no sofrimento necessário para se produzir um texto de qualidade. Porém, todos os autores sabem que muito além da dor está o indescritível prazer que a escrita proporciona. Inventamos realidades. Como autores, somos deuses.
Lendo Clarice fico extasiado. Foi uma maestrina nesse jogo. Livre, solta, sofrida e, acima de tudo, verdadeira. Talvez, por isso, escrever seja tão difícil. A verdade do autor se apresenta para ele mesmo nua e crua. E aí dói. O encontro consigo, com a vida íntima, aquela dos sonhos, aquela sabida como a não vivida, a desejada secretamente, o faz ficar em carne viva.
A sua alma se expressa através de personagens e do narrador, no caso das ficções. Desnuda-se na força da poesia. Viaja para o mundo das reflexões nas crônicas e nos artigos.
Noutro dia li Clarice dizendo que estava sem muita paciência para ler ficção, pois estava mais voltada para o que os fatos da vida provocavam dentro das pessoas. Simpatizei com ela. Jung também disse que sua vida não fora rica em fatos, mas em jornadas para seu mundo interior.
Tenho sentido, nesse início de carreira como escritor, que a solidão é condição primeira para que palavras brotem no teclado e na tela do computador – pouco romântico isso; mais bonito seria brotar da caneta para o papel, ou ainda, da pena para o pergaminho; apenas saudosismo.
Djanira, minha escritora gurua, diz que escrevemos a partir do mergulho que fazemos dentro de nossa alma, de nossas lembranças. Numa forma mais chula, o escritor só bota para fora o que já tem dentro. A inspiração vem de textos lidos, de situações vividas, de fatos observados, de causos ouvidos. Pode ser qualquer coisa que toque a alma do escritor e que provoque o comichão do escrever. Então, nesse momento, começam as dores do parto do texto. Primeiro, deixa-se fluir; depois acontecem inúmeras releituras, troca-se uma palavra por outra – não fica bem comer a mãe -, eliminam-se artigos desnecessários, observa-se a clareza das idéias. Enfim, pronto. Vem o gozo, a calma, a falta... e começa tudo de novo.
Fala-se no sofrimento necessário para se produzir um texto de qualidade. Porém, todos os autores sabem que muito além da dor está o indescritível prazer que a escrita proporciona. Inventamos realidades. Como autores, somos deuses.
27.6.07
mais um texto que não é meu, mas que me revela
Mas tu já sabes
a cor do meu silêncio,
as palavras que não escrevo,
aquelas que não digo,
e que, clandestinas,
vão pousar suavemente
nos teus lábios...
a cor do meu silêncio,
as palavras que não escrevo,
aquelas que não digo,
e que, clandestinas,
vão pousar suavemente
nos teus lábios...
Foi sonho ou pesadelo?
Hoje não poderia escrever algo que viesse do meu coração, da minha alma. O Universo insiste em brincar comigo. Eu, cega, não enxergo o que me mostra.
O Amor, quando se revela...
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
Fernando Pessoa
O Amor, quando se revela...
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
Fernando Pessoa
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