2.5.08

Laços

Estava feliz. Iria para a terra de minha mãe fazer uma palestra para jovens. Ela nascera em uma cidadezinha do agreste pernambucano, uma região cheia de pedras, montanhas e muita água. Adorava ir para lá na minha infância comer manga e jabuticaba, andar de roda gigante na festa do padroeiro da cidade, brincar carnaval à noite no mesmo espaço que durante o dia servira para compra e venda de carne, participar da roda de cantoria com primos e tios assobiando em gargalos de garrafas e marcando o ritmo das músicas com um garfo, assar milho na fogueira e dança um legítimo forró pé-de-serra no alpendre da casa iluminada, ainda, por candeeiros.
A saudade me tomava, pois não visitava o lugar desde a morte de minha mãe. Sabia que o trabalho era o motivo aparente e que o que me deixava com o coração derretido era a possibilidade de reverenciar o meu amor por ela e devolver à sua queirda terra um pouco do muito que havia dado à sua família. Meu avô saiu de lá há muitos anos com a esposa e quinze filhos e veio para a capital para que pudessem estudar e manteve todos com a venda das frutas e verduras da terrinha santa. Agora somos mais de cem com o sangue das jabuticabas nas veias.
Preparei a palestra com cuidado. Queria que tivessem o melhor de mim. Escolhi uma roupa bonita. Levei mala porque iria dormir numa pousada já que ficaria muito tarde para voltarmos pelas estradas perigosas. Iria com um amigo querido, profissional que muito respeitava.
Saímos cedinho. Fiquei mais calada que de costume durante a viagem e completamente muda quando nos aproximamos da cidade. Lágrimas brotavam de forma incontrolada e só ouvia nos ouvidos da saudade as músicas cantadas quando estava com meus pais e meus irmãos e íamos chegando às terras de minha mãe. Meu coração disparou, ou parou, não sei dizer ao certo. Fui reconhecendo os lugares. Quase nada havia mudado nas ruas e casas. Mas eu tinha crescido e minha mãe já estava morta. Pedi para meu amigo me levar logo para a casa do sítio em que ficávamos. Tudo estava destruído e a casa em ruínas. No antigo banheiro crescia a árvore da preguiça. O açude, testemunha de muitos banhos, continuava lindo como se os anos não tivessem passado. Chorei, chorei, meu amigo me abraçou em silêncio, respeitando meu momento de dor, alegria e saudade. Fiquei quietinha por um tempo. Depois fomos ver as plantações de um agricultor e ele nos deu coentro, batata, melancia, mostrou-nos seus porcos, sua vaca, sua casa. Tudo com muito orgulho. Meu amigo me deu um ramalhete de coentro. Sorri com o carinho.
Fomos para a palestra, emocionei-me, chorei de novo ao contar que minha mãe rezava para que o avião que voava lá no alto do céu caísse para que pudesse vê-lo de perto. Transmiti fé, coragem e esperança para os jovens relatando a história da família. Aplausos no final.
Dirigimo-nos para a pousada e, para minha surpresa, meu amigo não quis ficar para dormir, preferindo arriscar-se na estrada. Não entendi, mas não questionei, pois estava completamente fragilizada depois do dia cheio de fortes emoções.
Assim que o celular voltou a funcionar, liguei para meu marido e avisei que estava voltando para casa. A viagem foi longa. Senti que meu amigo tinha me dado um presente inesquecível com aquele abraço. Ele havia compartilhado comigo um dos lugares mais secretos e sagrados do meu coração: o cantinho em que guardo a minha mãe. A partir daquele dia estaríamos ligados para sempre.
- Estou ansioso com essa viagem! Não entendo direito o que está acontecendo, mas sinto que ela mexe comigo. Isso é loucura, só somos amigos. Se ela desconfiar, nossa amizade vai por água abaixo. Fico querendo conversar com ela o tempo todo. Tenho necessidade de vê-la, de ouvir sua voz e sua risada. É melhor não dormir aqui hoje. Estou morto de cansado, mas a estrada vai ser mais segura do que essa pousada.
- Por que fui deixá-la ir nessa viagem maluca? Vejo como seus olhos brilham quando fala nele. Ainda não percebeu, mas está completamente encantada por ele. Devia ter feito valer minha posição de marido. Mas se ela descobre que morro de ciúmes, vou perdê-la. Ela defende tanto sua liberdade e é tão ingênua que não vai entender minha posição. Se eu falar sobre ele posso até espertar algo que nem sabe que sente. O celular fora de área e eu sem comunicação. Trim... Trim... Alô! Ufa! Graças a Deus ela não vai dormir lá. Está voltando para casa.
Três pessoas que conversavam e não estavam se comunicando verdadeiramente. A magia do não-dito é algo muito forte e cria realidades. Pena que só poucos acreditem nisso. Voltei para casa, é verdade, sem saber sobre os ciúmes de meu marido, completamente inocente sobre o que sentia por meu amigo, sobre o que meu amigo sentia por mim. Mas um laço muito forte havia nos unido para sempre. Cônjuge algum deve deixar um vazio desse ser preenchido por pessoas estranhas ao relacionamento do casal. O retorno à minha mãe seria um momento muito especial para mim e a pessoa que estivesse comigo construiria um elo indestrutível. Não demos a atenção devida ao fato. Aprendemos com isso. Voltei para casa, mas não voltei jamais para o meu marido.

28.4.08

Outra versão dessa metáfora do jumento é a febre dos concursos públicos. Investimos dinheiro e tempo em cursos preparatórios para concursos públicos na tentativa de garantirmos um bom emprego para o resto da vida. O que seria um bom emprego? O que seria uma vida boa? Todos os dias o mesmo trajeto, o mesmo cartão de ponto, o mesmo birô, a mesma rotina, o mesmo ritual de olhar o relógio esperando que toque o sino da liberdade? Não importa que a semana seja terrível, temos os fins de semana, temos as férias para fazermos o que realmente nos dá prazer. Essa repetição nos traz a sensação de segurança: não podemos ser jogados fora, pois há estabilidade no emprego; não precisamos dar nosso sangue, pois não estamos no mercado selvagem da competição das empresas privadas. O desconhecido nos assusta. Atrás do imprevisível está a certeza da morte. E tentamos fugir dela, como tentamos. A ilusão de que controlamos a vida, o cotidiano, faz-nos sentir com poderes para ludibriar a morte, o fim de tudo. Assim, voltados para o que está fora, fugimos de nós, fugimos da vida. E perdemos tanto por ficarmos enforcados com a corda do jumento. Como nos ensina Lenine, ‘ninguém faz idéia do que vem lá, do que vem lá’.
Em recentes viagens pelo sertão nordestino, vi muitos jumentos abandonados pelas estradas. Às vezes em grupo, outras vezes sozinhos, comendo capim ou, simplesmente, andando. Estavam soltos, sem corda alguma nos pescoços, sem donos, livres. O fato de não terem donos traduzia o abandono. Não havia alguém que cuidasse deles, que lhes desse comida e água, que lhes proporcionasse abrigo da chuva e do frio noturno. Poderiam seguir sem rumo pelo caminho que desejassem.
Fiquei pensando que algumas mulheres se sentem abandonadas quando não têm um dono – um marido -, para tomar conta delas. A aliança no dedo funciona como a corda no pescoço do jumento. ‘Tenho dono, sim, e ele cuida de mim, dando-me comida, proteção e abrigo’. Não sabem exatamente o que fazer quando estão por conta própria nesse mundão de Deus. Não se sentem com coragem de sair por aí descobrindo o que a vida tem para oferecer. Preferem a certeza do terreno conhecido, passeando apenas por caminhos limitados pelo uso da corda esticada do pescoço do jumento, que no caso das mulheres está transmutada em aliança no dedo, ainda que o preço seja a domesticação e a anulação de seus desejos mais secretos.
Ressalto que não são todas as mulheres que agem assim. Ressalto que não são todos os casamentos que são assim. Mas essa situação é bem mais comum do que se imagina. É impressionante como a liberdade assusta. ‘O que fazer quando sou livre?’

23.4.08

Fundo do mar

Há alguns anos, estimulada por meu marido, fiz um curso de mergulho com cilindro.
Não foi um curso fácil. O instrutor explicava e eu não entendia coisa alguma. Era como se ele falasse outra língua. Antes de irmos para o mar, treinávamos na piscina. Surtei no primeiro dia que pus o cilindro e mergulhei. Achei que iria sufocar, mesmo sabendo que a piscina era rasa e que não me afogaria. Foi horrível. Acho que engatilhei memórias de vidas passadas e do meu parto, já que fui puxada por fórceps. Houve ainda o teste de resistência à pressão, numa torre de 10m de profundidade. Até que este foi mais fácil.
Enfim, chegou o dia do batismo e comecei a me aventurar pelo fundo do mar. O percurso de barco até o ponto do mergulho é uma verdadeira tortura. Enjoei tanto que fiquei verde. Mas o desejo de conhecer o mundo mágico de Netuno me deu forças para resistir. O grupo estava todo muito excitado com a experiência. Finalmente, chegou a nossa hora, minha e do meu marido, de cairmos na água – um mergulhador nunca deve ficar sozinho, pois pode haver algum problema e o companheiro tem a obrigação de ajudar, ainda que tenha que compartilhar o seu próprio ar, na linguagem da turma, cachimbar – e lá fomos nós. Descemos devagar, segurando na corda, ouvindo apenas o barulho das bolhas de nossa respiração. Fizemos o ritual de batismo e ficamos livres para explorar o mar, numa profundidade de 25m. Tivemos 20min. de arrebatamento. O silêncio profundo, a lentidão dos movimentos, o colorido dos peixes e dos corais. Realmente, é um mundo dentro de outro mundo. Tudo é diferente. Um amigo meu, que havia feito mergulho antes, tinha dito ‘eu vi Deus’. Acho que descreveu a sensação de toda pessoa que entra nesse universo. É uma outra dimensão.
Fiz outros mergulhos. Vi um grupo de arraias. Vi naufrágios. Vi o colorido dos peixes e dos corais. Fiz curso de fotografia no fundo do mar. Vi cores mudando à medida que descíamos mais e mais – a realidade não existe, claro.
Num dos meus últimos mergulhos, tive um acidente. Já estávamos saindo do verão, onde as águas são mornas, límpidas e sem correntezas fortes, e o mar não estava lá tão amigo. Eu, que não tenho muita intimidade com a água, não conseguia navegar com desenvoltura, sentindo-me arrastada pela correnteza. Meu companheiro de mergulho não entendeu o que estava acontecendo e achou que eu estava com frescura quando pedia que segurasse a minha mão. Ficou irritado porque queria explorar o naufrágio, já que tinha um módulo mais avançado que o meu, e me soltou por uns instantes para entrar no navio. Fiquei ‘parada’ e percebi que as bolhas de ar estavam muito grandes, um sinal claro de que eu estava próxima da superfície. Logo em seguida vi a luz do sol e descobri que havia subido 25m em pouquíssimos segundos. Entrei em pânico e só ouvi a voz do instrutor na sala de aula ‘temos que subir bem devagar porque senão o nosso sangue vai fazer as bolhinhas da coca-cola e ... bum, explodiremos’. Quando coloquei a cabeça fora da água, tentei tirar o respirador e colocar o snorkel, com o objetivo de economizar ar. Porém, a máscara caiu e comecei a engolir água, pois me esqueci de inflar o colete e o cinto cheio de pesos me puxava para o fundo. Tive a certeza que morreria ali, afogada, e toda minha vida passou como um filme em apenas alguns segundos. Descobri que os relatos da TV eram verdadeiros! Eu havia sido arrastada pela correnteza para cima e para longe do meu barco. Percebi que havia outras embarcações por perto e comecei a gritar por socorro. Os tripulantes me pediam para eu nadasse para junto de suas embarcações, eu me esforçava, mas não conseguia sair do lugar. Pularam na água, para minha sorte eram bombeiros, e me levaram para o barco de um deles. Deram-me água, aqueceram-me e avisaram ao meu barco que haviam me resgatado. Fomos em direção ao meu barco e encontramos o meu instrutor na água, com bóias, pedindo-me para que saltasse e fosse conduzida para o barco onde estava o meu grupo. Eu não conseguia pular, pois na hora da morte só pensei que fora irresponsável, pois tinha três filhos pequenos para criar, e não queria me arriscar de novo. Mas não tinha outro jeito, criei coragem e pulei. Ele me segurou, levou-me para o barco e fui recebida com alegria. Meu companheiro, minha dupla, estava todo sem jeito, pois sabia que não poderia ter me deixado sozinha, isso contrariava as regras dos mergulhadores. Explicou que quando saiu do naufrágio me procurou e não me viu; saiu circulando todo o navio e nada de mim; seu tempo no fundo do mar estava acabando e foi para a corda para subir, pois achou que eu já havia subido sozinha (eu jamais faria isso, jamais subiria e o deixaria sozinho no fundo do mar); quando chegou ao barco e perguntou por mim, ninguém tinha me visto; começou a se preparar para descer novamente e o instrutor falou que quem desceria seria ele; no momento dessa confusão receberam a informação que eu estava em outro barco sã e salva; alívio geral.
Meu ex-marido, que também mergulhava com o mesmo grupo, perguntou-me uma vez, na frente do meu marido, quais as causas do grave acidente. Respondi que o meu marido havia tentado me matar. Sorrimos um sorriso amarelo, cheio de mágoas e constragimentos.
Meu marido nunca tocou no assunto, nunca me pediu desculpas, nunca reconheceu que não teve cuidado comigo. Sinto pior quando tenho certeza de que ele não agiria assim se sua dupla de mergulho fosse uma pessoa estranha. Essa situação foi uma das que mais experienciei o sentimento de abandono e solidão. Talvez, ali, o copo da nossa separação tenha quase transbordado. Hoje somos ex: ex-marido e ex-mulher.

8.4.08

Mundo Encantado

Hoje eu tive um sonho lindo. Estava em um jardim, cheio de flores e de plantas, e tomava uma porção de um líquido que não sabia identificar. De repente, minha percepção ficava alterada e enxergava coisas que outras pessoas não conseguiam ver. Uma enorme alegria invadia meu ser, pois estava vendo fadas, duendes, gnomos, todos os seres encantados da natureza. Lembro que dizia ‘eu sabia, eu sabia que fadas existiam!’. Meus olhos encontravam os de uma fadinha linda, de um verde fluorescente. Ela voava, com doçura, de flor em flor. Era branca, com os cabelos loiros. A princípio pensei que fosse a fada Sininho, mas percebi que era diferente. Única. O êxtase invadiu o meu ser e chorei completamente entregue à magia do momento.
Estava tomando café com minha filha e uma amiga-irmã e elas falaram algo que me lembrou do sonho. Dei um grito de alegria e comecei a chorar de verdade quando entrei em contato com a emoção daquela realidade extraordinária.
Acredito no belo e no bom e acho que precisamos de olhos que consigam enxergar essa energia através de cada coisa que vai acontecendo em nossas vidas. Às vezes nos sentimos na mais profunda escuridão, sem percebermos que precisamos dela para compreender a beleza de um novo amanhecer. É exatamente a Noite que nos possibilita o contato com o mundo dos sonhos, onde habitam nossos medos. Sempre disse aos meus filhos que ‘o medo existe pra gente ganhar dele’. É preciso a coragem da entrega e uma confiança inabalável no Sagrado. Não é fácil esse processo. Remete-nos para o momento do nascimento e estávamos tão quietinhos e protegidos no útero e tivemos que enfrentar aqueles movimentos loucos, aquela passagem estreita e realizarmos a travessia rumo ao desconhecido; se tivéssemos permanecido no ventre teríamos morrido; precisamos passar pelo escuro para encontramos a luz. Esse ciclo vai se repetindo durante a vida e, na minha experiência, sempre que aconteceu foi assustador. A hora da decisão – ficar ou ir – é tenebrosa. Precisamos de muita atenção para que o medo não nos paralise, pois a vida é movimento. E como, como queremos a segurança de uma situação que já conhecemos e temos a ilusão de já dominar. O Paraíso na Terra é para poucos. Só para os corajosos.
E, você, neste momento de sua vida, permite-se ir ou quer ficar? Você decide.

5.4.08

Ritmo

Se o Sol é uma centelha do Sagrado na Terra, o Sagrado nunca se ausenta, nunca nos abandona, pois quando se recolhe aqui e nos deixa na escuridão apreciando as Estrelas e visitando a Lua, surge ali, iluminando os locais secretos, aquecendo e dissolvendo os medos. E assim, mais um ciclo, mais um pulsar. Sempre um recomeço. Sempre um ritmo.
Som. Silêncio. Som. Silêncio. Melodia.

24.3.08

Difícil


Deixem-me em paz. Quero ficar livre na minha solidão. Não aceito mais condições para relacionamentos, ainda que de amizade. Não aceito mais limitações na expressão de quem sou. Por que vocês não agüentam a minha liberdade? Por que está tão difícil encarar que sou feliz? Trilho um caminho diferente daquele que as marcas das pegadas de vocês deixaram como guia. Não quero esse padrão. Acolho a opção de cada um. Quero mais da vida do que uma vidinha medíocre. Posso até me arrepender do que fiz, mas não quero olhar para trás ao final da minha jornada e ficar lembrando os ‘se eu tivesse tido a coragem’. Preciso beber da paixão da vida. Sou movida por ela. Entendo a acomodação de vocês, vejo as amarras que os prendem para que não ousem. São felizes? Que bom! Deixem-me seguir minha Vocação. Não tenho certezas. Não posso servi-lhes de modelo. Só não posso trair-me. Que enfrentemos nossos monstros com coragem e alegria!

7.3.08

Céu da boca

Estava deitada na cama, rodeada de livros, com meu cachorro adormecido no chão e enrolada nas cobertas. Era de tarde e tudo inspirava paz. Comecei a comer banana machucada, com mel e farinha láctea. De repente, um pedacinho da farinha grudou no céu da boca e cai numa gargalhada. É que fui transportada, imediatamente, para os tempos de minha infância em que recebia na escola saquinhos de farinha láctea e ficava brincando de falar de boca cheia e tirava com o dedo a farinha grudada no céu da boca. Bons tempos. Lembrei-me que me escondi atrás do armário da sala, junto com uma amiga, quando vieram dar a vacina de varíola. Fomos as últimas a receber a injeção.
Essa minha amiga vivia andando de bicicleta pela rua e eu morria de inveja da liberdade dela, já que minha mãe não me deixava fazer muita coisa. A minha amiga morria de inveja dos cuidados de minha mãe comigo, pois a dela havia morrido quando ela só tinha um ano. Era bem branquinha e tomava pratos e pratos de sopa de feijão porque minha mãe dizia que isso a deixaria mais morena.
Crescemos juntas. Vivemos a adolescência entre confidências e suspiros. Foi ela quem me incentivou a quebrar tabus e a ter minha primeira noite de amor com meu namorado. Estive ao seu lado quando seu pai morreu. Também estivemos juntas em casamentos, partos, abortos, separações e mortes. Curtimos muitos feriados juntas, tomando cafés intermináveis em mesas cheias de cuscuz, queijo e tapioca.
Seguimos caminhos parecidos que, de repente, transformaram-se em inconciliáveis. Já não conversamos, nem gargalhamos, nem choramos juntas. Quando nos encontramos, trocamos beijinhos, falo com outras amigas e ela lê revistas de moda.
Continua branquinha e a farinha láctea ainda teima em grudar no céu de minha boca.

26.2.08

Positivo

Lia, lia, lia e não conseguia assimilar a informação. O coração disparou, deu um aperto na barriga, os olhos se encheram de lágrimas. Sentei-me com o papel na mão sem saber o que pensar e o que sentir. Uma amiga tentou me dar uma força e sugeriu ‘vamos lá falar com ele’.
Cheguei ao trabalho, o dele e o meu, e o chamei para conversarmos no carro. Já era noite. Sentamos em seu Gol branco e disse de um supetão só ‘Tô grávida’. Ficou mudo, tenso. Respirou fundo e respondeu ‘A gente não pode ter esse filho. Você tem que tirar’. Mais um soco no estômago. Fiquei atordoada. Eu, fazer um aborto? Impossível. Saí arrasada. Voltei para o carro de minha amiga e fomos para casa em silêncio.
Deparei-me com minha filhinha de dois anos que correu para me abraçar. Como poderia abortar um ser que era tão meu filho quanto a coisinha linda que tinha em meu colo? Impossível.
Entendi o que o pai de meu filho estava vivendo. Havia casado muito jovem por conta da gravidez da namorada. O casamento durou menos de um ano e doía muito nele viver longe do filho. Agora, a história se repetia e eu havia acabado de me separar e tinha ficado grávida logo no início do nosso relacionamento. Para complicar mais as coisas, nossas famílias eram muito amigas, meus pais tinham sido padrinhos do casamento dele, ele estava com a antiga esposa no meu casamento. Ninguém merecia.
Fui contar para meu ex-marido, que havia pedido a separação porque não gostava mais de mim. Quase surtou. Estava sentada no chão, com nossa filha brincando na sala, e ele em pé, impondo sua altura e sua força. ‘Um filho, como? Você não pode levar essa loucura adiante. Isso não é um filho, isso é um monte de células juntas. Posso até tirar a guarda de nossa filha alegando que foi adultério’. Eu, sozinha, chorava como uma criança.
Fui contar aos meus pais na tentativa de um apoio. Mais uma vez, ‘você não pode ter esse filho, vai envergonhar a família, essa criança não vai entrar em nossa casa’. Uma amiga espírita me perguntou se estava grávida, pois via um cordão de luz me ligando a um espírito que me amava muito. Mais lágrimas.
O pai da criança sumiu porque descobriu que gostava muito de mim como amigo, claro. O ex-marido pressionou para o aborto porque não queria que dissessem ‘lá vai ele, com a cabeça enfeitada’, mesmo sabendo que não tinha sido corno, mas não ia pegar bem uma gravidez assim numa separação tão recente.
Entrei num desespero total. Cheguei a ir uma vez para a clínica de aborto com o pai da criança. Desisti. Ele também desistiu, mas sumiu do mapa. Tentei localizá-lo diversas vezes, na esperança de me segurar em sua paternidade e evitar o crime que iria cometer. O ex-marido insistiu mais, o prazo quase se esgotou, pois logo, logo, faria três meses. Fui. Entrei gelada. Saí para ir ao banheiro e pensei em fugir. Voltei. Sentei naquela maca horrorosa. Levantei-me. Meu coração berrava ‘eu não quero matar meu filho’, silenciei e lágrimas rolaram por meu rosto. Acho que entrei num transe louco. Meu ex-marido ia desmaiando e saiu da sala. Colocaram um tubo e começaram a aspirar o feto, o meu bebê, que foi todo destroçado em partes. Uma barbaridade escondida sob o disfarce de ser seguro e não deixar restos de placenta que poderiam causar uma infecção. Tudo foi muito rápido e surreal. Levantei-me zonza, meu ex-marido me trouxe para casa, deixou-me na sala e foi embora para sempre. Nunca mais colocou os pés na minha casa nem na minha vida. Já havia conseguido o que queria: jamais seria considerado corno, pelo menos de uma gaia minha. O amigo apareceu à noite e se mostrou indignado com o que eu havia feito, tirando completamente a bunda da seringa. Também foi embora. O engraçado é que saiu com outra amiga e se encontrou com meu ex-marido que também estava com uma amiga. Ironia do destino.
Fiquei arrasada, sozinha, de roupão. Deitei-me e no escuro do meu quarto ouvi, dentro da minha cabeça, ‘não se preocupe, eu vou voltar, não chore’. Já tive mais dois filhos lindos, perdi dois outros em abortos espontâneos, mas a lacuna deixada por este que eu assassinei nunca foi preenchida. Choro até hoje.
Daqui da Terra, com o rosto banhado por lágrimas de dor e com o coração apertado pelo arrependimento, canto para você, filho amado, aonde quer que você esteja, ‘dorme filhinho, dorme meu amor’. Um dia a gente vai se encontrar.

22.2.08

O que ando fazendo da vida?


















FOTOS: Roberto Arrais
Noutro dia encontrei uma amiga organizando sua agenda lotada de compromissos e me lembrei da época em que minha vida era assim: organizada e ocupada desde cedinho até altas horas da noite. Não consigo mais me ver fazendo essas coisas. Hoje sigo o ritmo da vida. Reverencio a lua e suas fases.
Aprendi que o grande desafio da vida é a conquista de nossa própria liberdade. Foi tão difícil para mim: saí de cargos de chefia, saí de empregos públicos federais, saí de carteiras assinadas, saí de consultórios cheios, saí de tudo que de alguma forma me aprisionava, ou pior, me estacionava. É complicado entregar-se ao nada. As pessoas têm medo do vazio, do desconhecido, do caminho incerto, e, como sou uma pessoa, também tive medo. Mas uma inabalável fé na Vida foi algo que sempre me ajudou. Acredito que a Vida nos chama com os braços abertos e que precisamos confiar Nela e nos jogarmos de corpo e alma, tal qual um filho se joga nos braços de um pai.
Sou muito mais feliz e muito mais contente comigo mesma. Sei que se encontrasse minha criança pelo caminho ela ficaria grata pelo que fiz com nossa vida. Respeitei minha alma, segui meu coração. Para os que me perguntam o que ando fazendo da vida, vou dando a resposta. Meus dias não são iguais, vivencio experiências novas, emociono-me com pessoas, animais, plantas, pedras, sóis e luas. Chupo manga, jabuticaba e pitomba em plena quinta-feira, enquanto trabalho conscientizando sobre a importância da preservação da Natureza (como os índios, A reverencio como a grande Deusa). Cuido da horta em minha varanda. Caminho pela praça. Olho nos olhos do meu cachorro. Tomo banho e passo cremes. Como pipoca e brigadeiro com meus filhos, pão e tapioca com meu pai. Leio, escrevo, fotografo, ouço música em radiola. Aprendi a ver a vida do meu sertão. Amo como sempre imaginei que pudesse ser o amor. Sonho com um mundo melhor e faço a minha parte para ver esse sonho se tornar realidade.
Claro que não estou livre de angústias. Quando nos dispomos a encarar a nossa alma, sentimos luzes e sombras. Ainda tenho muitas perguntas. Ainda quero realizar muitos projetos. Quais serão os caminhos? Não tenho a mínima idéia. Tenho a certeza de que não irei mais trilhá-lo sozinha. Agora eu tenho um par.
Desejo que também encontrem o caminho secreto da vida de cada um de vocês.

13.2.08

Lingerie

Não há nada melhor do que um grupo de mulheres escolhendo calcinhas e sutiãs eróticos. Quem já viveu esta situação sabe do que estou falando e quem não teve a oportunidade não sabe o que perdeu!
Estávamos, eu, minha filha e duas grandes amigas minhas, numa loja chique, tomando champanhe, provando roupas e conversando. De repente, outra cliente falou que a amiga dela estava numa cabine com várias sacolas de lingerie. Fomos para lá na hora e ficamos espremidas, umas seis mulheres numa cabine apertada, com um montão de sutiãs e calcinhas lindas. Os comentários eram os mais hilários.
Esse daqui é linnnndo! Bem chique. Ah! Não quero ser chique, quero é ser puta mesmo. Me dá o vermelho com preto. Seu marido é do Náutico? Então pega esse que ele vai adorar pegar um timbu. Esse tá bem romântico. Já esse aqui combina com aquele meu vestido preto e branco. Tem M desse aqui? A gente pode comprar igual porque os maridos são diferentes.
Diversas idades, formações profissionais completamente diferentes, momentos únicos nos relacionamentos, algumas casadas há vinte anos ou mais, outras recém-casadas (tudo bem que é o terceiro casamento), outras namorando, mas todas querendo apenas amar e se sentirem amadas por seus homens. A imaginação corria solta e todas as mulheres fantasiavam como seriam os encontros amorosos em que essas calcinhas e sutiãs iriam ficar jogadas num cantinho da cama, ou do chão, depois de terem ajudado a enfeitiçar seus amados.
Mesa de bar, ao redor do fogão, caminhadas em praças, terapias em consultório, oficinas de mulheres, oportunidades de aprendermos que o que quer uma mulher, Freud, lá no núcleo mais central, é o feminino, o ser fêmea. O resto são formas de expressão desse feminino e vai variar de acordo com a cultura na qual cada mulher está inserida.
Quando é que vamos assumir esse desejo?

21.1.08