31.1.11





























Andei dando uma olhada nas fotos que separei como representação do meu caminhar e observei que em muitas delas há imagens de quadros e obras de arte que fazem parte de minha história. Minha irmã brinca dizendo que preciso de uma casa muito grande, cheia de paredes, pois eu e meu marido adoramos quadros, fotografias, esculturas, artesanato, além de guardarmos rolhas, tampas de refrigerante e cerveja, sementes, folhas. Diz ela que melhor ainda seria, se tivéssemos um museu, pois também gostamos de guardar coisas antigas como máquina de escrever, ferro, radiola, chaleira e, claro, máquinas fotográficas.
Todos esses objetos, recheados de significado, estão espalhados por nosso lar. A natureza é a dimensão maior que nos encanta e há plantas com flores e frutos em jarros e nos jardins e os animais são sempre bem-vindos, sejam pássaros, pavões, guinés, gaviões, cães, marias-farinhas (será este o plural?) e até insetos, com exceção das muriçocas. Hoje podemos aproveitar o ambiente do campo, em nossa casa no Sítio dos Pintos, e o da praia, em nosso paraíso de Maria Farinha.
Outra coisa que marca nossa característica numa casa, transformando-a em nosso lar, é a presença de discos – cds e lps -, livros, filmes – em fita e em dvd -, revistas, recortes de jornais. Estão espalhados por todo canto, junto de um sofá ou de uma rede. Marcas do meu marido são os objetos que lembram o sertão nordestino; marcas minhas são as fadas, os duendes, as bruxas, os contos de fadas e todas as máscaras que representam o feminino.
Meus filhos também espalham seus sinais pela casa. Temos computadores, celulares, controles remotos, cinzeiros e isqueiros, copos de cerveja, pizza, havaianas, livros e cds. A presença deles na casa também se reflete pelas conversas com amigos, sempre num papo cabeça, no jardim, no jogo de gamão, ou ouvindo os lps na radiola – é, gostam das coisas antigas.
Para mim é importante sentir que nossas casas refletem quem somos, o que gostamos de fazer, o que valorizamos. Adoro receber amigos com uma mesa bonita, arrumada com velas, flores, talheres, copos e louça que representem o clima do encontro. Descobri que Neruda também fazia assim. Senti-me o máximo. Coisa de artista.

28.1.11

Mais um final de semana tranquilo, com coisas que fazem minha rotina feliz. Acordei cedo, meditei, preparei o café da manhã com o adorado suco de laranja, cuidei das plantas e fui, junto com meu marido, levar minha filha ao trabalho. De lá fomos fazer uma feirinha básica e seguimos para a Livraria Cultura. A ideia era um banho de revistas, jornais, livros, cds, dvds que nos fizessem pensar e sonhar.
- Amor, olha o que achei.
- Separei isso aqui para você.
- Uau! Que filme maravilhoso!
E assim passamos o resto da manhã.
Voltamos para casa, ligamos a radiola, preparamos o almoço, vimos um filme sobre a vida de Victor Jara, tomando um delicioso vinho tinto. A chuva beijava nosso jardim.
Conversamos sobre as lágrimas derramadas quando vimos Victor usando sua voz para cantar um mundo mais justo. Marido foi fotografar, fui ler. Quando vi todo aquele rico material espalhado pela mesa pensei em como era feliz, vivendo coisas que me dão prazer. Li, cochilei, vi as fotos e as sementes frutos da caminhada de meu marido, fomos pegar a filhota, jantar, cinema, namorar e dormir. Nada de conflitos sobre quem vai fazer o quê. A vida fluindo em harmonia.
Depois fiquei pensando sobre como conduzo meu dia a dia e como já experienciei essa rotina tempos atrás. Percebi, claramente, que os fins dos casamentos foram consequências das transformações que ocorreram dentro de mim. Mais ou menos assim: o marido da vez, como diria um amigo sobre suas mulheres, estava casado com uma pessoa; eu mudava; o casamento chegava ao fim porque o acordo inicial do casal fora quebrado, já que não era mais a mesma; a nova que me tornava achava um novo par; novo casamento, mais uma transformação, mais uma ruptura pela quebra do contrato inicial, surgia uma outra no lugar daquela, mais uma nova possibilidade. Esse ciclo se fez vivo não apenas na esfera amorosa, mas na profissional, nas casas que sonhei e construi, nas amizades, nos interesses dos livros que guardo nas estantes, nas roupas que já usei. Fui sendo várias, muitas, numa só. O que acontecia ao redor apenas refletia o que meu coração cantava.
Conversando com amigas que vivenciam crises em seus casamentos, descobri que a angústia expressa em seus olhos denuncia a briga de titãs que ocorre em suas almas, pois não estão tendo uma rotina que expresse o que anda acontecendo lá dentro. Quando ainda estamos nessa fase ficamos confusas e responsabilizamos o casamento, os filhos, a vida doméstica, o trabalho ou a falta de dinheiro. Mas a crise é interna. E dói achar o caminho da saída para uma vida coerente com nossa nova face.
Percorri este caminho e muitas vezes fiquei em carne viva. Se hoje tenho uma rotina cheia de coisas simples que me fazem feliz é porque escutei os desejos de meu coração. Trabalho, convivência com os filhos, amizades, amor, tudo da forma como acontece no meu presente é fruto do que plantei lá atrás, ora quando sabia o que estava fazendo, ora quando não conseguia ler os sinais que me chegavam, mas em ambas as situações, numa completa entrega e uma absoluta fé na vida.
Sempre é muito difícil o processo de renascimento. Se tivermos a coragem da travessia, o sol brilhará mais uma vez e as marcas dos caminhos trilhados apresentar-se-ão em nossas faces que brilharão cheias de luz no encontro com o espelho.

26.1.11

Quase sempre passamos pela vida sem pensar na morte. Achamos que temos todo tempo do mundo para realizar aquele sonho guardado, para dar aquele beijo, para dizer ‘te amo’ ou ‘sinto sua falta’. Então, algumas vezes, levamos uma rasteira e perdemos para sempre a chance de fazer acontecer no aqui e no agora o que nosso coração desejava, talvez, em segredo.
Há algum tempo, quando me separei do meu segundo marido e me casei novamente, comentei com uma amiga, a quem amo desde que tínhamos uns seis anos, que ficaria mais difícil minha com convivência com os casais de nossa turma, pois meu novo marido não gostava de passar os finais de semana tomando uísque até encher a cara e depois ir dormir e roncar. Ele curtia passeios, viagens, caminhadas, contato com a natureza, fotografia e, claro, uma cervejinha gelada, mas de leve. Este comentário gerou a maior confusão entre meus amigos, pois entederam que eu estava achando que a nova situação era superior a que vivia com eles e com meu ex e resolveram que iriam se afastar – ah! também entenderam que estava fazendo uma loucura e que iria quebrar a cara e, quando isso acontecesse, aproximar-se-iam novamente para juntar os cacos. Lembro que sofri muito com a distância deles e me senti muito só e desamparada. Ficamos longe e fomos vivendo separados as coisas simples do cotidiano. Anos depois, pela internet, retomei o contato com essa minha amiga e com seu marido, meu amigo-irmão que estava morando fora do país. Foi nesse momento de mails que fiquei sabendo o que pensaram e sentiram à época da separação. Esclarecemos as coisas e combinamos de nos encontrarmos quando voltasse ao país. Confesso que fiquei louca para abraçá-lo novamente, para apresentá-lo ao meu marido, para irmos juntos ver o time do coração deles jogar e já contava os dias que faltavam para ter de volta o ninho amoroso de uma amizade construída há mais de quarenta anos.
Numa manhã o telefone tocou e veio a notícia:
- Seu amado amigo-irmão está morto.
Ainda sinto o soco no estômago. Como? Não é possível? Quando? Onde?
As informações chegavam aos meus ouvidos mas não ao meu coração. Não podia aceitar que a vida estivesse nos pregando esta peça.
Na mesma hora corri para ver sua esposa, minha amiga galega, sem muita coragem para ler em seus olhos mais um episódio de dor imensa, pois já estivéramos juntas em momentos muito difíceis nos caminhos que percorremos.
Talvez esta tenha sido a primeira vez em que senti muita raiva de Deus. Como havia feito isso conosco? Como me deixara sem o abraço e a risada de meu amigo-irmão? Não aceitei essa tragédia até hoje. No dia de seu enterro fui com minha filha ao cemitério, mas não consegui chegar lá, perdi-me no trajeto. Acho que meu coração não conseguiu viver esta perda.
Faz pouco tempo que tive um sonho com ele. Estava bem e isso me deixou tranquila. A saudade é grande e me pego com lágrimas nos olhos quando imagino que vou convidá-lo para conhecer meu paraíso, quando penso que vou contar para ele que virei escritora e vou ouvir sua risada gostosa, e percebo que isso não será possível pois não mais está entre nós.
Como nos ensina aquela música:
- “É preciso amar como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar, na verdade não há.”
Para você, amigo-irmão, minha eterna declaração de amor.

25.1.11


Com a volta dos filhos ao lar, depois de um período de férias pelas praias de Pernambuco, a vida vai voltando ao normal. Já estamos na casa nova, apesar de ainda termos muito que arrumar, já alugamos nosso antigo apartamento, estamos alugando o do meu irmão, e também começo a me acostumar com a saudade de nossa casa de Maria Farinha, paraíso particular.
Foi uma delícia o jantar, massa e camarão, regado a vinho e coca, com toda a família reunida em volta da mesa. As conversas, as piadas, as novidades, as reflexões que as crias fazem e que me deixam de boca aberta e cheia de orgulho, são coisas simples que acontecem e que me fazem plenamente feliz. Não conseguiria viver longe dessa rotina, sem grandes eventos, mas que traduz a minha noção de felicidade. Adoro bater o leite deles no liquidificador, esquentar o sanduíche, ver filme com todos sentados pela sala, ouvir música na radiola, jogar conversa fora na rede e nas almofadas e, depois de um longo dia de momentos significativos, abrir as portas dos quartos e vê-los dormindo como anjos em suas camas. Quando os contemplo assim, meu coração se enche de alegria e agradeço ao Universo por ter me dado a oportunidade de ser mãe de almas tão especiais.
Agora é hora de ir para cama, deitar-me pé com pé ao lado do homem que amo, namorar, ler um bom livro, apreciar Hércules no seu colchão velando nosso sono. Mais gratidão.
Às vezes me pego pensando que quando escrevo sobre as coisas pequenas, para mim imensas, que fazem o meu dia a dia feliz, passo a impressão de que vivo alienada num mundinho cor de rosa, sem problemas, sem contas para pagar, sem sonhos a realizar, como se fosse uma vidinha perfeita, não simples, mas simplória. Bem longe da verdade seria esta falsa impressão. Há conflitos, tensões, desafios, sonhos adiados, frustrações, tudo que todo mundo vive sol após sol. A diferença, talvez, seja que sempre me pergunto, ‘o que tenho que aprender com isso?’, e vou tentando me conectar com os segredos que o Sagrado me revela em tudo que me acontece. Claro que com esta atitude sinto uma imensa paz no coração e brota dentro da minha alma uma estranha coragem para a entrega total aos caminhos que vão surgindo.
Porque já mudei um bocado de rota, tanto no que se refere à profissão quanto ao amor, algumas pessoas me avaliam como perdida, aquela que não sabe o que quer. Quando estou numa situação, estou inteira, transparente, completamente intensa e apaixonada. Se o tesão acaba, busco essa energia em outra possibilidade para me manter sempre num estado de encantamento pela vida.
Estive organizando livros antigos e percebi claramente este movimento. Quantas paixões já tive! Psicopedagogia, o brincar, contos de fadas, mulheres, xamanismo, cognição, informática na educação, dbase e tudo do mundo dos bits e bytes. Já fiz tanta coisa diferente, já desempenhei tantos papéis, já tive tantas máscaras... O que tem me deixado feliz com esta jornada é que ao me olhar no espelho, sem máscara alguma, aprecio o que vejo, amo o que me tornei. Caminhei, feri-me, consegui renascer várias vezes, e hoje estou mais perto do que vim para ser aqui na Terra. Ainda faltam muitos passos e vibro na estrada que escolhi para ser a minha, aquela que conhece os segredos do meu coração.

22.1.11


Foto: Roberto Arrais


Os textos/poemas que estão nos últimos pots do blog surgiram enquanto estava dormindo (meditando? em transe?) em Santiago, perto das Cordilheiras. Acordei e senti uma força me puxando, quase que me dando a ordem:
- Levante-se e escreva.
Peguei meu caderninho de anotações e fiquei rabiscando palavras na tentativa de traduzir o que o coração dizia. Estava frio, a noite cheia de estrelas, a música do Rio Mapucho embalando uma das mais fortes experiências que tive com a Criação. Ao mesmo tempo que escrevia, pensava na magia do ato de ser canal do Universo e deixar que esta força invisível se expresse através do seu corpo. Não estou falando de mediunidade, de canalização espírita e, sim, de arte. Como acontece o processo criativo de um artista? Como chega a inspiração? E este impulso que vem e que toma tudo, exigindo entrega total, até que se sinta satisfeito e a energia vaze se transformando em criação artística?
Gostei do que senti e, mais uma vez, percebi-me no caminho que minha alma escolheu para esta vida.
Agora sou escritora.

21.1.11



Fotos: Roberto Arrais



Coordilheira




Quieta.

Lua chamou.

Estrela cantou.

Folha caiu.

Seguiu-a.

Vento ficou frio.

Abriu os olhos.

Sentiu a imensidão.

Viu a majestade.

Estava nua.

Com as pontas dos dedos,

conheceu seus segredos.

Piscou.

Ainda lá?

Receio de ir.

Voltar a ser o que sempre fora?

Pequena.

Contemplara o silêncio.

Transformara-a.

Caminho sem volta.

Em que direção?

Liberdade.

20.1.11


Foto: Roberto Arrais



O mar



E
vai
e
volta.
E
vai
e
volta.
E
vai
e
volta.


Dissolve-se
em partículas
no ar.
E canta.
Música compassada,
repetida.
Sinfonia que traga.
Vai-e-vem que enfeitiça.
Nada
é para sempre.
Lugar
é imensidão.
Tempo
é eternidade.
Ser feliz
é agora.


E
vai
e
volta.
E
vai
e
volta.
E
vai
e
volta.

19.1.11

Quando era pequena sonhava em ser aeromoça quando crescesse. A vida me levou por outros caminhos e viajei muito pouco. Casei, tive filhos, cuidei dos meus pais. Também investi financeiramente na aquisição de casas de praia e de campo, com cortinas nas janelas, o que me deixou num útero por muito tempo.
Com o término de um ciclo da minha vida, estou novamente sentindo a liberdade que tinha aos dezoito anos quando apenas me pertencia. Esta tem sido uma sensação muito boa e estou reaprendendo a voar.
Comecei devagar, resgatando milhas – confesso que tive certa dificuldade para acertar como se faz todo o processo -, reservando pousada pela internet e marcando uma viagem para dois dias depois das minhas tentativas de abrir a gaiola. Consegui. Arrumei mala e segui, com meu marido, para Santiago do Chile, local sonhado por ele em sua adolescência como um lugar para se viver e se lutar pela justiça social.
Estava no avião todo chique, com tv e tudo mais, e fiquei pensando em quantas vezes deixamos de realizar sonhos porque não temos a coragem de arriscar. Como a inércia nos coloca numa zona de conforto! Estávamos sem dinheiro, sem a mínima possibilidade financeira de uma viagem para logo ali quanto mais para uma viagem internacional, e quase que nos conformávamos com a impossibilidade. Mas sou uma mulher que corre atrás do que deseja e que sempre se joga na realização de sonhos e, mais uma vez, confiei e me entreguei. De repente apareceram dólares guardados desde de uma viagem ao Japão, as milhas se transformaram em passagens de avião e tudo estava pronto como num passe de mágica, igual à história de Cinderela que vai ao baile numa abóbora transformada em carruagem por sua fada madrinha. O Universo sempre conspira para a realização de desejos e eu acredito em fadas, duendes e Papai Noel.

Destino

Na origem, o ovo.
Abastecida, alimentada, protegida.
O Todo

No caminho, o ninho.
Acompanhada e quieta.
A Falta.

O destino, o voo.
O Nada.
Solitária e livre.
Abrir as asas e ir às alturas.


Foto: Roberto Arrais


18.1.11


Foto: Roberto Arrais



Fora do ar por quinze dias, aproveitando uma merecidas férias. Viajamos para Santiago (Chile), voltamos para Recife e seguimos para o sertão nordestino, visitando Petrolina (PE), Salgadinho (BA) e o Parque Nacional Serra da Capivara (PI). Momentos fantásticos que renovaram nossas energias e ampliaram nossa forma de viver o mundo.
Sobre estas experiências vou escrevendo aos poucos, com calma, misturando relatos da viagem, com dicas de lugares e valores, algo bem prático, com a poesia da alma despertada em alguns encontros mágicos.
O texto que vai sair agora é em homenagem as minhas Bodas de Prata do meu primeiro casamento. Ontem, 17/01, fez vinte e cinco anos que me casei pela primeira vez. E comemorei feliz esta data, pois pude olhar para trás e sentir que cada momento que vivi valeu a pena. Mudei de estrada muitas vezes, houve guinadas enormes, muita dor, claro, e muita, muita, muita alegria. Já, já, farei 50 anos e gosto da sensação que surge quando penso que realizei uma vida em harmonia com o que sentiu meu coração.
Voltando à história do casamento, esta fase foi muita especial para mim. Casei, aos vinte e pouquíssimos anos, com o homem que amava, por quem sentia um calor de quarenta graus, com a vida profissional estabilizada, apartamento próprio completamente decorado, comida e bebida na geladeira, e muitos sonhos para um futuro a dois. Na véspera fomos ao apartamento arrumar a cama com um casal amigo, uma forma de bênção. Antes da meia noite o noivo me deixou em casa, pois dá azar o noivo ver a noiva no dia do casamento. Acordei cedo, imensamente feliz, mandei entregar um buquê de rosas vermelhas na casa do meu noivo, primeiro grande erro, fui para o cabeleleiro, fui fazer uma feirinha para a nossa noite de núpcias, pois iríamos dormir no nosso apartamento – outro grande erro -, voltei para terminar o cabelo e fazer a maquiagem. Cheguei em casa e estava aquele clima de festa, com presentes chegando, todo mundo se arrumando. Meus pais felizes e muito emocionados. Coloquei o vestido, posamos para as fotos, o carro chegou, fomos para a igreja. Na hora da entrada, segurando a mão de meu pai , trêmulo de emoção, caminhei para o altar em êxtase. Lá estava o meu amado, o homem com quem seria feliz por toda a minha vida. O padre havia mandado tocar Ave Maria e só depois ouvimos ‘você é isso, de uma beleza imensa, toda recompensa de um amor sem fim’. Na chegada do noivo a música foi ‘hoje, eu quero a rosa mais linda que houver, só para enfeitar a noite de meu bem’. Lembro que tivemos ainda ‘os sonhos mais lindos sonhei... és fascinação, amor’ e ‘se você vier, pro que der e vier comigo’. Muita gente querida na igreja e gente que entraria na minha vida de uma forma nunca antes imaginada, como o meu segundo marido que estava sentado nos bancos com sua esposa – como a vida é perfeita!. Na hora das alianças fizemos os votos com sinceridade. Falei tão alto que todo mundo riu. O beijo foi formal, pela timidez, pelo ritual. Saímos ao som da marcha nupcial, agora marido e mulher, uma união que marcava para sempre o laço de duas famílias amigas há muita tempo. Festa, todo mundo se abraçando, ‘já que não pôde ser com ele, que você seja muito feliz’ – disse-me meu ex-sogro e me entregou a flor que me ofertava todas as vezes que ía à sua casa, quando namorava seu filho. Fugimos para nosso apartamento, os primos descobriram, bateram na porta com a desculpa da pizza. Todo mundo feliz, meu pai com saudade da filha que agora pertenceria a outro homem, segundo ele falava entre um copo de uísque e outro, sentado no chão da sala da nossa casa, aliás, da casa de meus pais, porque a partir daquele dia, aquele não seria mais o meu lar.
Vivemos felizes, comparmos terrenos na praia e no campo, comparmos carro, viajamos. Tivemos nosso maior tesouro, uma filha linda. Fui mudando, meu marido foi mudando e, de repente, ouvi um ‘eu não gosto mais de você’, meu mundo caiu e veio a separação. Isso há mais de vinte anos. Seguimos caminhos diferentes, casamos novamente, eu me separei de novo, casei e estamos felizes.
Quando comentei ontem com uma amiga que estava comemorando minhas Bodas de Prata, ela me falou que só eu mesma para comemorar uma coisa que tinha acabado há tanto tempo. É verdade que acabou, mas o fato de ter acabado não significa que não existiu. Foi um fato, aconteceu e gosto de honrar esta encontro e as pessoas que fizeram parte dele. Hoje o amo de uma forma diferente, com um carinho enorme e uma imensa gratidão por tudo de bom que vivemos. Além disso, deixou-me um presente lindo, forte, doce, alegria da minha vida, nossa amada filha. Na imaginação, enviei-lhe o mesmo buquê de rosas vermelhas, só que agora com vinte e cinco flores, em homenagem à história de amor que vivemos. Quando falei isso, nossa filha riu e disse que ele morreria de susto e teria a certeza que a separação fora a coisa mais certa em sua vida, pois me consideraria louca. Também penso assim, mas gosto de imaginar a cara dele com o choque da minha liberdade. Isso me faz sorrir com um jeitinho de trela.
Por estas voltas que a vida dá, ontem à noite fomos a uma café, eu, meu amado marido e minha filha, com a irmã do meu primeiro marido e seu marido. Há vinte e cinco alguns de nós estávamos na igreja e agora juntos num contexto completamente diferente, ainda recheado de carinho, amor e respeito.
- Tim! Tim!

5.1.11











Fotos: Roberto Arrais

Estou ficando mal acostumada no meu processo de escrita, pois tenho contado sempre com a inspiração das belíssimas fotografias do meu marido. É que fico com pena de não compartilhar o que vejo ao vivo e a cores neste paraíso e que ele registra de forma tão sensível com sua câmera amiga.
Acho que também quero mostrar as coisas que valorizo e que me tornam o que estou sendo neste momento. Sim, estou sendo, pois não consigo dizer sou, pois soa como algo definitivo, pronto, acabado, o que me é muito semelhante ao processo da morte. Vida é movimento, transformação, algo sempre por fazer. Gosto de conhecer detalhes secretos que coloco nas entrelinhas de meus textos, ou jogo de palavras, palavras com grafias iguais e sons diferentes - acho lindo isso -, observações que só alguns sabem do que se trata, às vezes, só eu mesma sei o segredo que revelo codificado nas frases de algo que parece corriqueiro.
Não sou perfeccionista e aprecio o inacabado, aquilo que torna minha vida e minhas coisas recheadas de singularidades. Por exemplo, dei de presente de aniversário para o meu marido um São Francisco de barro, do artista Zezinho de Tracunhaém, que dá as boas vindas aos amigos que chegam à nossa casa. Esta peça tem um detalhe que a torna única: os pés do santo estão com sapato e ele sempre é representado descalço ou com sandálias, ficando seus dedos à amostra. Por que o nosso está assim, diferente? Porque o artista teve um prazo mínimo para fazer sua obra e deve ter esquecido este detalhe. O São Francisco do meu marido tem uma história para contar e isso o conecta com o que está vivo, pulsante. Assim são os inúmeros objetos que alegram nossa casa; cada um deles têm um significado e não estão relacionados à moda ou ao que é chique. É verdade que a mistura de estilos faz com que tudo junto lembre um mercado, uma loja de antiguidades, um brechó, mas, para mim, isso é o máximo.
Além dos objetos, os animais, as plantas, os sons, os cheiros, as texturas, revelam-me a magia do Sagrado. Tenho escrito repetidamente que descobri que Deus é muito amostrado. São fantásticas suas criações. Até que crio coisas bonitas, mas não consigo nem amarrar seus chinelos. A possibilidade de conexão com a natureza tem sido o meu caminho para a religiosidade, pois vivo em constante estado de encantamento.
Enquanto escrevo o texto, um lindo bem-te-vi entrou em nosso quarto, sinto o sol aquecendo minhas costas e ouço o cantar dos guinés, sempre em bando, que passeiam pelo jardim. Por isso, também tenho repetido esta cantiga, fico o máximo que posso em casa, fugindo da loucura que é o estilo de vida da cidade grande. Tive ontem que ir a banco, shopping e, confesso, fiquei tensa. Não gosto da selva de pedra de Boa Viagem, não gosto daquela confusão de carros, odeio o barulho dos shoppings e, quando observo as pessoas trancadas ali dentro, só me lembro de um filminho da Turma da Mônica, onde o Chico Bento vai ao shopping e diz verdades profundas sobre sua experiência no retorno à vida no campo.
Há alguns anos realizei, com toda minha família, uma atividade na cidade em que nasceu minha mãe, zona agreste de Pernambuco, e, para minha surpresa, nenhuma da pessoas com as quais conversamos - crianças, homens, mulheres, adolescentes, idosos e idosas -, desejavam vir morar na cidade grande, pois achavam que era loucura o que viam quando a visitavam. Todas preferiam a forma de viver das cidades do interior. Não é a toa que o movimento de migração está se invertendo no mundo todo: das grandes cidades para a paz de uma rotina numa cidadezinha.
Mais uma vez, imitando Lenine, eu quero estar cercada só do que me interessa.

4.1.11










Olhando as fotos que tirei de biquine na praia com minha filha, constatei o óbvio: o tempo é implacável com nosso corpo, trazendo marcas da velhice em todos os pontos. A barriga já está flácida, há pele sobrando no pescoço e em volta dos olhos. Puxando à família de meu pai, ainda não tenho os cabelos brancos. Não é fácil se ver assim. Mas, por outro lado, é maravilhoso perceber o ciclo da vida ocorrendo tão pertinho da minha intimidade. Agora a bela deusa já não sou mais eu e passo o cetro do meu reinado, com muito orgulho, para minha filha, assim como, há tempos atrás, minha mãe passou para mim. É muito bom quando as gerações não rivalizam e a energia da Deusa Tríplice se expressa em toda sua plenitude. Gosto de ver que minha descendência é mais sábia que eu, além de mais bela, mais inteira, mais intensa, e, principalmente, mais livre.
Lembro, com certa tristeza, a conversa que tive com a mãe de uma amiga querida quando aquela me dizia que não aceitava a filha se transformando em uma bela mulher enquanto envelhecia.
Minha mãe se arrumava e ficava linda, reverenciando a Afrodite que nela existia. Com a energia desta deusa, também me embelezava, ensinando a mim e a minha filha, os truques da maquiagem e da combinação das roupas. Acho que foi a mulher que conheci que mais tinha em si todas as deusas integradas. Adorava a natureza, era a sensualidade em pessoa, excelente e poderosa dona de casa, uma verdadeira anja, sempre ajudando todo mundo, laureada no curso de Direito aos 60 anos, e de uma religiosidade pura que expressava na sua fé por São Sebastião, padroeiro de sua terra. Não rivalizamos e acolheu minha beleza e meu poder, ensinando-me o caminho que hoje trilho com minha filha.
Reverencio com alegria a energia feminina e o ciclo da vida.