20.4.09

Foi assim. Eu estava numa livraria no setor de livros infanto-juvenis. Selecionara alguns títulos: os de Clarice Lispector, Tatá pede socorro – história que contei inúmeras vezes na cama para meus filhos amados -, alguns de Machado de Assis. Coloquei-os sobre uma mesa com tamanho adaptado para crianças e percebi, então, a presença de um menino.
Vestia bermuda, camiseta e chinelos. Deveria ter uns 10 anos. Era moreno, gordinho, rosto redondo, olhos grandes. Pegava alguns livros e os soltava depois de folheá-los com rapidez. Pensei que não deveria saber ler. Escolheu um com números e começou a contar em voz alta. Estava imerso em seu mundo. Aproximei-me da mesa e pedi licença para pegar meus livros. Sorriu. Em seguida, perguntou-me:
- A senhora podia me pagar um lanche? Tô com muita fome.
Pronto, fora fisgada. Meu coração apertou. Uma criança faminta de comida também tinha fome de livros. Claro, neles há o mundo da fantasia, do faz-de-conta e é lá que encontra consolo e esperança de um final feliz para sua dura vida. Mas uma coisa é saber disso tudo na teoria e outra é ver essa verdade escancarada na sua frente. Sentei-me ao seu lado e começamos a conversar.
- O que é que você quer comer?
-Um Mc Donalds Feliz. Você sabe o que é?
- Sei. Mas o sanduíche é tão ruim. O legal é o brinquedo que vem. Você já comeu alguma vez?
- Não, mas minha irmã já e disse que é muito gostoso.
- Você mora onde?
- Em ...
- Estuda?
- Tô na segunda série.
- Mas você ainda não sabe ler, né?
- Sei não.
- Quer que eu leia para você? Quer que eu conte uma história?
Seus olhos brilharam. Soltou um sorriso largo. Seu rosto se iluminou.
- Quero.
- Vamos escolher? – sugeri, sorrindo também.
Levantamo-nos e percorremos prateleiras escolhendo alguns livros. Ele pegou alguns de carros, de animais, de atividades. Escolhi contos de fadas.
Começamos por um livro que tinha a atividade de procurar desenhos de objetos em uma cena. Ele vibrava a cada achado e sorria quando eu dizia:
- Poxa! Como você é fera! Toca aqui.
E batíamos nossas mãos para festejarmos as conquistas. Conversamos mais um pouco.
- Como é seu nome?
- Manuel.
- O meu é Tital. Você mora com seus pais?
- Moro e com mais quatro irmãos. Meu pai e minha mãe estão sem trabalho.
- Seu pai sabe fazer o quê?
- Tudo. É ruim ficar sem comida em casa.
- E como é que vocês fazem quando a situação aperta?
- A gente sai, eu, meu pai e minha mãe, para pedir comida nas casas.
- Você fica muito chateado nessa hora?
- Fico, mas quando a barriga fica roncando, não tem jeito. Tem que sair e arrumar comida.
Pegou o livro de Pinóquio e me deu para ler. Adorou quando Pinóquio foi virando um burro, quando seu nariz cresceu com mentiras e quando a baleia expulsou todos por sua enorme boca aberta.
Eu tinha um compromisso com hora marcada e precisava interromper nosso encontro.
- Você prefere um lanche ou uma cesta básica?
- Uma cesta básica. Minha mãe vai ficar tão feliz. – e se levantou entusiasmado.
Saímos abraçados da livraria. Havia, também, fome de carinho. Não quis tirar dele a realização de seu desejo de criança e lhe comprei um sorvete.
- A senhora não vai tomar um?
- Não.
- Ah! Então não quero.
Insisti e terminou aceitando o mimo, não sem antes se certificar que esta opção não excluiria a cesta básica.
Fomos ao supermercado, compramos a cesta básica e uma revista de carros. Arrumei dinheiro para sua passagem de ônibus.
Falou meio sem jeito:
- Desculpa por tá dando esse aperreio.
- Não foi nada. Hoje eu estou ajudando você. Amanhã você poderá me ajudar. Já pensou se você estuda, vira médico e um dia eu chego doente num hospital que você trabalha e você cuida de mim?
Mais uma vez seus lindos olhos brilharam.
- É mesmo. Ou então, eu vou ser policial e prendo ladrões. Aí eu vou estar ajudando a senhora também.
Na hora da despedida me abraçou bem forte e perguntou:
- Quando é que a gente vai se encontrar de novo?
- Não sei. Eu nunca venho aqui. Acho que foi o destino.
Sorrimos um para o outro. Dei meia volta e saí andando, quase correndo, sem coragem de olhar para trás, com receio que meu amigo percebesse as lágrimas que escorriam em meu rosto.
Experiência mágica essa. Mais uma, das inúmeras em minha vida.

17.4.09

O sol está acordando.
Aos poucos, o azul do céu vai tomando o lugar do cinza. Começo a ouvir o canto dos pássaros. Eles voam de lá para cá numa festa de saudação ao novo dia.
Ainda estou na cama, sem coragem de me mexer. Sinto sua perna sobre a minha, nossos corpos entrelaçados. O movimento de sua respiração conecta-me com o pulsar da vida.
Sim, é ele, meu homem, meu amor, minha vida, que está ao meu lado.
Sua mão repousa sobre meus quadris. Naturalmente, como se soubesse que sempre fui sua. Fica difícil sair daqui, do aconchego de seus braços quentes e macios. O encaixe é tão perfeito.
Aprecio seu sono tranqüilo, o sono de um guerreiro amoroso. Fica lindo, entregue, sereno, com seu rosto expressando a paz das crianças adormecidas. Logo vai acordar, levantar e sair para realizar suas inúmeras tarefas, cheias de responsabilidade. Tarefas essas que o levam para longe de mim, para longe do nosso ninho. Mas sei que as grandes aves precisam voar e voar alto. Só me resta a saudade e a certeza de sua volta.Voltará, ao final do dia, cansado e feliz por estar vivendo sua Lenda. Jantaremos juntos, farei massagem em seus pés e conversaremos sobre o simples. Depois, na volta para cama, amor e mais encaixe. Repousarei minha cabeça em seu peito, ouvirei seu coração batendo, sorrirei plena e adormecerei ao seu lado, abraçadinha, com a certeza de que encontrei o meu lugar no mundo. Juntos, visitaremos o mundo dos sonhos.

6.4.09

Hoje, minha filha me deu de presente um lindo texto sobre a Terra do Nunca. Fiquei encantada com a forma como o redigiu e maravilhada com seu conteúdo. O início do relato falava sobre seu medo de crescer, pois queria continuar acreditando em fadas, sereias e duendes. Então, aos poucos, foi compartilhando sua descoberta e nos mostrando que a Terra do Nunca é qualquer tempo e lugar em que nos sintamos felizes. Contou como visita a Terra Mágica quando come brigadeiro com pipoca ao meu lado e dos irmãos, quando toma banho de mar, quando sobe na árvore e em tantas outras situações simples que a preenchem de alegria.
Quando terminou de ler o texto, coloquei que alguns adultos também acreditam em fadas e duendes, como eu, e que Sininho já havia ensinado que o segredo para a passagem para a Terra do Nunca é ter um pensamento feliz. E estamos felizes todas as vezes em que estamos em conexão com nossa Alma. É simples, verdadeiro, revolucionário.
Fiquei orgulhosa. Ela realmente é uma pessoa maravilhosa, uma mulher sábia, uma verdadeira Sacerdotisa.
Tenho aprendido que todas as vezes que nos afastamos do nosso Caminho, sentimos o corpo pesado, as doenças aparecem, as coisas na vida não andam, pois perdemos o contato com o fluxo de abundância do Universo. Quando seguimos nosso Dom, o Sagrado se manifesta e somos providos de tudo que necessitamos. “Deus proverá”, é este o meu mantra.
O Amor sempre é a alternativa correta na justiça da Vida, como bem me lembrou uma amiga querida. Estou um pouco triste, sem a vitalidade que me é característica, pois ando me conectando com a amargura de situações em que me sinto injustiçada. Essa amiga me fez entrar em contato com meus valores, com minha forma amorosa de ver o mundo, com minha gratidão pelas pessoas que fizeram e fazem parte de minha história. Descobri que preciso me desapegar de meu passado, de meus livros, de minhas cadeiras. Enquanto estiver presa a essas coisas, terei um fragmento de minha Alma presa a elas também e não estarei inteira, utilizando todas as possibilidades de minha energia vital para a realização de um presente feliz.
- Quais são os seus verdadeiros tesouros?, perguntou-me minha amiga.
- Meus filhos.
- Tem mais?
- O amor da minha vida.
- Mais?
- Minha família.
- O maior de todos?
- Minha conexão com o Sagrado que me dá uma inabalável fé na vida.
Percebi que minha amiga havia feito um ritual de bruxaria comigo, resgatando meus fragmentos de Alma perdidos nas dores que vivi.
Devagar, bem devagar, estou voltando para casa, para minha casa, para mim.

26.3.09

Ainda não posso ser bruxa de verdade, com plenos poderes. Preciso aprender a controlar minha força. Descobri que não sou apenas conduzida pela força do amor.
A vida sempre nos testa, desafiando-nos a quebrar o ego, bobo ego. O meu teste começou com uma experiência bem negativa com alguém que já fez parte de minha vida e que hoje, graças aos Céus, faz parte do meu passado. Não vivo mais o Inferno, apesar dessa fase ter deixado marcas em meu corpo que serão difíceis de cicatrizar.
Essa pessoa tentou me chantagear e isso me tirou do sério, o que era, aliás, o seu propósito. Estávamos dividindo bombons de chocolate e ela me disse que só me daria a quantidade a que eu teria direito, numa divisão meio a meio, se eu concordasse em ceder para ela os dois maiores Ovos de Páscoa. Fiquei indignada com a proposta indecorosa, principalmente porque grande parte dos bombons havia sido comprada com o dinheiro da minha mesada, doado por meu pai. Mas essa pessoa estava acostumada a tirar vantagem de tudo, e nas coisas comigo, então, nem se fala. Esperneei, gritei e desejei, com toda intensidade da minha Alma, que tudo, absolutamente tudo, que ela estava fazendo comigo voltasse em dobro para ela. E isso é um perigo quando a fonte do desejo é uma bruxa porque o seu pensamento é capaz de mover montanhas.
Fiquei triste com minha fraqueza, pois as bruxas só devem usar seu poder para o bem – apesar desse desejo não ter sido diretamente para o mal, e, sim, direcionado para a justiça Divina. Depois, soltei uma gargalhada, pois se ela estava agindo assim comigo na situação dos bombons, agiria com ela, da mesma forma, no momento em que fôssemos repartir outras coisas que tínhamos em comum, o que me favoreceria muito mais. O que o Universo estava querendo me ensinar era a ter paciência, um desafio enorme para mim. Respirei fundo, agradeci pela oportunidade de aprendizagem e sorri, um sorriso quieto, sutil, de quem acaba de descobrir que com o que ganharia das outras partilhas daria para comprar bombons, muito mais bombons. Pena que não compreendi tudo na hora e tive que liberar tanta energia densa para o Universo, para a pessoa instrumento de minha aprendizagem e para o meu próprio corpo.
Agora e sempre, tudo será meio a meio. Justiça seja feita. Estou feliz, muito feliz.

25.3.09

Dei uma lida nos textos que escrevo e percebi que são sempre cheios de energia e de garra. Imagino que se alguém estiver com o astral baixo, precisando daquela força, vai terminar a leitura mais animado, com mais vontade de fazer algo pelo mundo e com a certeza de que pode escrever sua própria história.
Mas, hoje, o texto vai sair diferente. Estou mais quietinha e querendo colo, carinho e dengo. Às vezes é difícil canalizar as forças do Sagrado e o que preciso mesmo é que anjos derramem suas bênçãos sobre meu corpo cansado.
Aprendi com a Psicologia que o corpo fala e que a doença é uma linguagem da Alma. Quando fico dodói, sei que meu corpo está tentando me mostrar onde devo harmonizar minhas energias. Estou sofrendo agora as conseqüências da surdez temporária que vivi durante o tempo que precedeu o final do meu casamento anterior, quando não quis escutar o que todo o meu ser clamava: o meu feminino estava ferido. Levei tempo demais para agir e a ferida da Alma fez seu registro no organismo. Confirmo na prática a teoria que sempre defendi.
Quis falar sobre esse tema porque desejo que minha filha seja mais rápida e não precise deixar isso acontecer em seus momentos de crise, porque escuto minhas clientes falando sobre suas dores e adoecendo porque deixam a energia estagnada do que já passou continuar a agir em seu momento presente, porque acompanho a dor de amigas queridas que tentam iludir seus corpos com fluoxetina, jogando para baixo do tapete o que as incomoda e que precisa de tomada de posição no agora.
A desarmonia, chamada doença, sempre me coloca próxima da morte. Não tenho medo dela. Sinto até um carinho muito grande por ela porque seria uma dissolução no Eterno, assim como o rio quando chega ao oceano. Mas ainda não quero ir. Tenho tanto o que fazer, tenho tantos momento mágicos para viver aqui nesse planetinha complicado e belo junto às pessoas que amo!
Queria mesmo era o colo de minha mãe. Deitaria nele e pediria que coçasse minha cabeça, fazendo cafuné. Ouviria seus sábios conselhos de coragem e ousadia. Mulher forte aquela! Queria o colo do meu pai, dizendo-me que não me preocupasse e que tudo iria ficar bem. Este colo hoje é impossibilitado pela fragilidade de seu estado de saúde e quem dá o colo agora sou eu. Queria poder conviver mais coladinho com o homem que amo e que partiu, como Dom Quixote, convocado para enfrentar seus moinhos.
Então, diante da realidade, sem muitas opções de colo para mim, conecto-me com Francisco de Assis e vivo o ‘é mais alegre dar que receber’ e vou dando colo para filhos, amigas, clientes, meu jardim e meu cachorro. Só preciso um pouco dessas paradas. Abasteço-me no contato com a natureza e na espiritualidade.
Descobri que oro quando escrevo. É aqui, na escrita, que sempre tenho colinho, porque nela sempre estou plena e inteira. Por isso, mais uma vez... Era uma vez... que história vou contar?

24.3.09

Minha filha, estudante de jornalismo, veio me perguntar ontem o que tinha acontecido com meu post no blog. Respondi que havia escrito logo cedo e que não tinha dado tempo de terminá-lo nem de relê-lo.
- Mãe, quando a gente não termina o texto a gente não posta, né?
Entendi a crítica. Comentou que não tinha pé nem cabeça o que havia escrito. Havia descrição, saltava de um assunto para outro sem coerência e nada de reflexões e ponderações sobre tudo aquilo. Concordei com ela e achei a maior graça sua indignação. Comecei a me apaixonar por aquelas frase desconectadas só pela reação que tinha provocado nela.
Expliquei que a narrativa, contando detalhes do cotidiano, era com o propósito de dizer que acho que somos felizes na simplicidade do dia-a-dia. É no tomar água, suco ou vinho, no dormir abraçadinho, no tomar um banho bem quente, no jantar juntos e conversar sobre tudo. Tentei traduzir essas coisas todas que sinto quando descrevi as viagens e alegria da amizade.
O outro lado da mesma moeda, ou seja, da vida, é que apesar de todas essas maravilhas que nos fazem felizes, há muito que transformar para o mundo ficar melhor.
Foquei no passeio pelo parque de meu bairro e na questão do lixo. O parque é lindo e está tão abandonado. Fui, com meu marido, dar uma olhada para ver o que precisa ser feito já. Ele está exercendo uma função pública e se já era ligado na qualidade de vida dos trabalhadores da cidade, agora só pensa nisso o tempo todo, pois pode, de fato, fazer alguma coisa. Conversamos com freqüentadores que reclamaram do abandono, sugeriram campeonatos de futebol e falaram que ‘o homem’ precisava olhar por aquele local de lazer. Ao contar este episódio para meus filhos, comentaram que mal sabiam eles que falavam com um legítimo representante do ‘homem’, ou melhor dizendo, do poder público municipal. Anotamos nomes de ruas onde o lixo estava espalhado e muitas observações e idéias para melhorias do lugar. Saímos de lá e fomos para a Praça de Casa Forte, um local maravilhoso, para ler os jornais do domingo, sentados à sombra das árvores. Neste momento já estávamos, de novo, no outro lado da moeda, no lado da vida onde tudo é doce porque há amor. Não dá para descrever a harmonia dos pássaros cantando e tomando banho nos muitos lagos que existem, a beleza das vitórias-régias, o som do vento nas folhas das árvores, a canção vinda dos gritos de alegria das crianças brincando e correndo atrás de seus pais ou de outras crianças e, principalmente, o meu contentamento ao me perceber lendo jornal numa praça ao lado do meu amado. Tudo muito simples e pleno.
De volta para casa, viramos novamente o lado da moeda e continuamos nosso estudo sobre o lixo urbano, pois estamos muito ligados nessa problemática. Confesso que fiquei chocada e comecei a imaginar que o mundo vai acabar não por conta dos cataclismos previstos pelos místicos, mas porque vamos todos morrer soterrados por montanhas e mais montanhas de lixo. Imaginei a cena e quase tive uma crise de riso, riso histérico, é verdade, porque o trágico quase sempre se torna cômico. Então, começamos a pensar no que poderia ser feito para minimizar os efeitos catastróficos do lixo que produzimos. Fui dormir com minha cabeça fervilhando de idéias e perguntas.
Bom, então foi isso que aconteceu e que deu origem ao post maluco de ontem, segundo minha filha. Para terminar os esclarecimentos, quero dizer que é exatamente o movimento de mudar o lado da moeda que dá ritmo a minha vida, preciso dos dois lados, preciso do belo para reabastecer minhas energias e preciso dos desafios da vida para colocar essas mesmas energias para fazer a parte que me cabe nesse latifúndio.
Costumo dizer que São Pedro, o santo que tem a chave de entrada do Céu, perdoa tudo: gaia, violência, roubo. Só não vai perdoar a gente ter desperdiçado a oportunidade de, em vida na Terra, expressar o Dom que o Sagrado botou na gente para que fosse desenvolvido por aqui e na hora da volta estivesse bem melhor do que quando chegou. Por acreditar nessa historinha, tento viver o meu Dom, assim, virando e revirando os lados da moeda, da mesma moeda, filha, da moeda que é a minha vida.

23.3.09

Os dois lados da mesma moeda











Na última quarta-feira saí do meu consultório muito cansada. Só consegui tomar um café e cair na cama, exausta.
No outro dia, fui com minha irmã, duas amigas e nosso fiel escudeiro, o motorista, procurar casa em Gravatá para alugar na Semana Santa. Adorei uma e fechei na hora. Depois fomos conhecer o palácio de uma das amigas que estavam no carro. Ficamos encantadas com os detalhes carinhosos que se espalhavam por todos os lugares daquele cantinho de descanso. Comemos sanduíches e seguimos viagem para Lagoa dos Gatos, terra de minha mãe.
Minhas amigas nunca haviam estado lá, na terrinha santa, e se deslumbraram com a beleza da cidade, cheia de montanhas, pedras e água. Tiramos fruta do pé e chupamos pitomba. Depois fomos visitar nosso apartamento, mantido na cidade como o ponto de apoio quando viajamos para o interior. Adoraram tudo e ressaltaram a harmonia da decoração. Concordo com elas, pois lá colocamos o que tínhamos de melhor, já que seria nosso ninho de amor e de aconchego familiar.
Voltamos para Gravatá e fomos comer charque e cartola. Uma delícia para coroar o final do nosso passeio.
Na sexta-feira à noite fomos para a casa da outra amiga comer um autêntico bacalhau português, preparado por seu marido, com direito a bolinhos de bacalhau fritos por sua sogra, uma portuguesa legítimo. Tudo de dar água na boca. Também tomamos vinho, muito vinho.
Sábado de manhã, mais uma vez na estrada, agora só as três amigas, indo em direção à nova casa de praia. Sol, mar, cerveja, camarão e sorvete para celebrar mais um momento de alegria e amizade. Uma das minhas amigas ainda não conhecia essa casa na praia e adorou a decoração que mistura o artesanal com o sofisticado. Tudo azul!
Isso é um lado da moeda. O outro lado...
No sábado à noite assisti com meu marido a vídeos que documentam o problema do lixo no Brasil. Fui dormir inquieta. No domingo pela manhã, fomos andar pelo bairro para verificar a situação de um parque próximo do local onde moramos. Comemos azeitona roxa, tirada na hora por meninos da comunidade. Compramos jornal, fomos para a praça e nos sentamos à sombra das árvores para lê-lo com tranqüilidade. Almoçamos e mais filmes sobre o lixo.
À noite, no domingo, já tinha informações suficientes para não conseguir dormir com o tanto que tem para ser feito com o objetivo de ajudar outras pessoas a terem condições dignas para viverem em paz.
Gosto de viver desse jeito, na alternância entre o balanço da rede e o choque da vida, Funciona como a respiração. No Universo tudo tem um ritmo. O meu é esse. Já estou de mangas arregaçadas para começar o trabalho, ainda que meio zonza.

14.3.09


Uma amiga me contou que seu filho perguntou:
- Mãe, quando eu crescer eu vou virar menina?
Esta pergunta era fruto da intensa convivência de seu filho com mulheres adultas. Ela é mãe solteira e mora com a mãe, viúva, e a irmã, solteira. São muitas mulheres no universo do menino que não consegue achar uma figura adulta masculina para se identificar.
Fiquei preocupada com as questões freudianas e completamente encantada com a inteligência da criança. A ingenuidade e a pureza fornecem a liberdade necessária para a criatividade.
Numa viagem pelo sertão nordestino também pude encontrar algumas pérolas de sabedoria.
Conheci uma senhora de 84 anos, moradora de uma cidadezinha com duas ruas, uma praça com televisão, uma igreja. A cidade tem água encanada, mas ela não tinha deixado os canos entrarem em sua casa porque tinha muito medo de ratos. A água só ia até uma torneira em sua sala e carregava baldes e mais baldes de água para a cozinha e o banheiro. Diante de minha surpresa, respondeu:
- Ah, minha filha, é que eu tenho muita ciência.
Noutra ocasião, comentando sobre a segunda esposa de um conhecido dela, afirmou orgulhosa:
- Foi uma ótima troca.
Traduziu, numa frase simples, tudo o que pensava sobre casamentos. Não está dando certo aqui, experimenta ali. Mais sabedoria popular, tendo a linguagem a seu serviço.
Uma senhora, já idosa, num encontro com diversos municípios pernambucanos para a discussão sobre melhores condições de vida da população expressou sua posição e concluiu:
- Eu sou fraca nas letras e forte no trabalho.
Muito lindo.

12.3.09

Foi assim. Recebi, por mail, um convite para uma reunião com a turma do colégio. Poxa! Fazia mais de 30 anos que não nos víamos e fiquei muito animada com a idéia. Iria matar a saudade de todo mundo, saber como a vida tinha acontecido para cada uma das minhas amigas e colegas de escola. Lembraríamos os trabalhos em equipe, as professoras, as freiras, as conversas nos recreio. Tantas lembranças gostosas...
Será que fulaninha tinha conseguido casar com sicraninho, naquela época, o grande amor da sua vida? E aquela amiga que sonhava ser embaixatriz? Como estaria a usineira que sempre se esmerava em aprender como dispor com classe e elegância a prataria à mesa nos jantares solenes? E a filha do deputado? Será que casara com algum político e se mantivera no ciclo de poder da sua cidadezinha do interior?
Todas essas perguntas passaram pela minha cabeça enquanto estava à frente do computador. Corri para resgatar álbuns com fotos da escola: festas, jograis, São João, feiras de Ciência. As pernas finas, os cabelos presos em coques, as transformações corporais de menina para mulher, as festas de quinze anos, a primeira transa.
- Aconteceu uma catástrofe: não sou mais virgem. Naquele tempo isso era motivo de preocupação, pois a moça poderia ficar falada. Parece que foi ontem e tanta coisa mudou de lá para cá. Mas é só fechar os olhos que ainda sinto a mesma emoção que senti quando minha melhor amiga me informou que estava grávida aos dezenove anos.
Sarros nos playgrounds dos prédios, namorados escondidos embaixo da cama, fugas para a praia, cigarros no banheiro da escola, pílulas enfiadas entre cadernos. Era até proibido ler alguns livros de Jorge Amado porque despertavam o interesse pela coisa proibida muito cedo. Tudo tem seu tempo, diziam os mais velhos.
Agora, com o convite, de que lado eu estaria? Seria ainda a adolescente cheia de esperança ou me tornara a adulta repleta de receios e cuidados? Será que me sentiria pertencendo àquela turma?
O encontro aconteceria na sexta-feira, à tarde, claro, pois os maridos não concordariam em ficar em casa enquanto suas mulheres estavam na rua. Isso não ficaria bem para mulheres casadas e de boa fama. Estava ansiosa, pois me conheceram como uma quase freira, bem ligada aos valores da igreja católica, e eu me apresentava no momento como bruxa. Como reagiriam? Como contaria minha história de casamentos, separações, abortos, filhos, tesão, busca, alegrias e dores? Tinha mudado de profissão e estava tentando ser escritora. Você trabalha aonde? Em canto algum. Ah! E aquele olharzinho de coitada, está desempregada. Não sabia se teria vontade de explicar que não era bem assim, que tinha largado vários empregos para tentar essa nova atividade, que não gostava de me sentir presa e que a vida de escritora me dava a liberdade que tanto havia buscado. Será que compreenderiam?
Chegou o grande dia e me peguei escolhendo com cuidado a roupa que iria usar na festa, pois não queria aparecer com cara de velha. Foram só trinta anos. Só?! Escolhi uma calça jeans, uma camiseta básica e um salto alto. Levei algumas fotos dos filhos e do maridão. O coração acelerou e me dirigi para a mesa da turma reunida. Abraços, sorrisos, alegria, um zona total, com todo mundo falando ao mesmo tempo. De vez em quando, estourava uma gargalhada, com alguma história daquela época.
De repente, todo barulho foi ficando longe e percebi que eu havia me desligado do ambiente e estava apenas como observadora. Minhas amigas estavam todas usando máscaras. Terninhos de executivas, para as que tinham vindo direto do trabalho, já que juízas e promotoras usam essa fantasia; as que tinham permanecido dondocas estavam com roupas de marca e totalmente na moda; também havia as que se rebelaram contra o sistema e usavam roupas mais alternativas e escutavam comentários tipo ‘você sempre foi diferente, uma revolucionária’.
Todas contavam as mesmas histórias de sucesso e felicidade. Estavam super bem casadas, os maridos eram maravilhosos, os filhos eram lindos e trabalhavam no que adoravam. Os corpos lindos e jovens eram fruto de uma alimentação saudável e de exercícios físicos. Um verdadeiro conto de fadas!
O vinho foi fazendo efeito e as máscaras começaram a cair. O casamento não era lá essas coisas, quase não gozavam, quando transavam era muito mais uma trepada do que um ato de amor, não havia carinho, os filhos eram uma carga pesada, trabalhavam muito, na maioria das vezes sem ser no que queriam, gostariam mesmo era de ter liberdade. Os corpos perfeitos tinham cicatrizes de plásticas, botox, silicone, lipo. Contaram que maridos tinham amantes, que tinham amantes. Essa parte era sem culpa, ‘pelo menos nesses momentos tenho prazer e me sinto viva’. Nada de confissões aos padres e às freiras e ‘Deus que nos perdoe’.
Pose para as fotos. Pose para a vida. Apenas por esta tarde, pudemos voltar àquele tempo mágico em que sonhávamos com uma vida perfeita. Seríamos felizes, sim. Seríamos amadas e realizaríamos muita coisa. Deixaríamos a nossa marca no mundo. O que aconteceu nesse lapso de tempo?
Tive, então, a idéia, de fazer a pergunta:
- Se cada uma de nós pudesse voltar atrás, exatamente para o momento em que terminamos a escola, o que cada uma faria de diferente?
Silêncio total. Lágrimas disfarçadas. O garçom chegou com a conta. Despedidas. E aquelas frases banais, ‘a gente se vê’, ‘foi muito bom te encontrar’, ‘você está ótima’. As máscaras voltaram para o lugar. É mais fácil usá-las do que buscar a verdadeira face refletida no espelho.
Voltei para o carro naquele estado de euforia típico de uma adolescente. Comecei a dirigir e a música do carro começou a me dizer ‘o futuro é uma astronave que tentamos pilotar’. Perfeito. A minha pergunta se voltou para mim.
- Se você pudesse voltar atrás, exatamente para o momento em que terminou a escola, o que faria de diferente?

9.3.09

Conversei hoje com uma amiga que é psicóloga e trabalha como funcionária púbica. Ela estava triste porque o dinheiro é pouco; perguntei-lhe se não gostaria de trabalhar uma parte do dia em consultório, pois teria uma renda extra. Segredou-me que adoraria mesmo era trabalhar com arte, um sonho de menina que nunca realizou.
Lembrei-me, então, de outras amigas e amigos com outros sonhos de infância que nunca foram realizados. Uma, trabalha com computadores, mas gostaria de ser arquiteta; tem outra que é professora e leva o maior jeito com moda. Conheci uma pessoa na minha adolescência que queria ser geólogo porque amava o contato com a natureza. Hoje é engenheiro, ou melhor, dono de uma empresa que constrói edifícios e vive trancado em seu escritório, talvez, apreciando o pôr do sol pela janela fechada por conta do ar-condicionado. Convivi também com um excelente técnico em informática que dominava completamente a lógica dos computadores e que sonhava ser fazendeiro; adorava o cheiro da bosta do gado e ficava horas contemplando cavalos. Soube que continua trabalhando com tecnologia e que seus ombros estão curvados, imagino eu que não resistiram ao peso de seu cotidiano. Um outro amigo trabalha com eletrônicos e dá aula até tarde da noite, mas adora mergulhar e fazer trilhas de bicicleta; precisa sentir seu corpo em movimento e passa seus dias num ritmo lento, tão lento quanto seu andar quase sem vida.
Pensei no meu percurso. Quando pequena sonhava ser aeromoça para poder viajar muito e conhecer lugares diferentes. Depois quis ser freira e trabalhar na África em missões religiosas. Viajei muito pouco e de freira não tenho coisa alguma, já que casei três vezes. Adorei livros desde muito cedo e desejei viver no meio deles, mas fui trabalhar com tecnologia e, depois, como psicóloga. Tenho filhos e pessoas que ainda dependem dos meus cuidados e justifico assim o desvio que fiz no meu caminho.
Em que bifurcação da estrada de minha vida tomei o rumo errado? Por trás de que árvore abandonei meus sonhos de menina? Por onde deixei meu coração? Quando vendi minha alma ao diabo? Será que ainda dará tempo?
Era uma vez...

26.2.09











Gosto de Carnaval e brinco desde a época de minha infância. Foram as bombas d’água, as bombas de cano, os confetes e as serpentinas, as fantasias, os corsos em carros abertos, os bailes infantis. Na adolescência, vivi os bailes nos clubes, o Boca Preta e o Boca Branca, no mercado público de Lagoa dos Gatos, e o carnaval de rua de Olinda. Já adulta, comecei a aproveitar os blocos do Recife Antigo. No ano passado, visitei o fantástico encontro de Maracatus em Nazaré da Mata.
Pela primeira vez, participei dos bastidores do Carnaval de Recife. Meu marido estava na equipe da organização municipal e trabalhou muito, antes e durante o Carnaval. Nunca imaginei que a festa envolvesse tanta gente dando apoio; é um verdadeiro exército. Definem-se os blocos, os trios e as atrações de cada pólo e de cada bairro onde a festa vai ocorrer. Há uma concentração no Recife Antigo, mas existem grandes palcos por toda a cidade. Só de polinhos são 43, com valorização dos grupos culturais da própria comunidade e, também, com convidados ilustres. Em cada palco existe toda a infra-estrutura necessária: banheiros, camarim, iluminação, som, decoração, policiamento, limpeza e fiscalização. Tudo é pensado para que o folião possa brincar com tranqüilidade e alegria.
Visitei alguns pólos grandes, como o de Santo Amaro, com o espetáculo do Cordel do Fogo Encantado, e o de Nova Descoberta, com show de Mano Shaw (não sei se é assim que se escreve, pois é um grupo francês e na sua apresentação havia muitos turistas estrangeiros, apesar da forte chuva que caía). Também estive em polinhos: o da Rua da Lama, com apresentação de pagode; o da Mustardinha, lindíssimo, com decoração toda com material reclicável, e um artista da comunidade comandando o frevo para famílias inteiras brincarem; o do Bongi, com uma emocionante apresentação de maracatus, onde idosos e crianças se misturavam num rito de religiosidade e beleza.
Nunca fiquei tão atenta à chuva, ao lixo pelas calçadas, ao entupimento de galerias, ao acesso aos principais locais da festa. Quando você trabalha para que tudo dê certo num evento grandioso como esse, você assume a postura de co-responsável. O Carnaval não era apenas uma responsabilidade do Prefeito: agora, também era minha, assim como de todas as pessoas que vi envolvidas no processo; todo mundo, numa só ciranda, no mesmo ritmo, em harmonia, fazendo a festa acontecer.
Meus filhos se esbaldaram nos cinco dias de folia. Voltavam quando o sol já tinha raiado. Chuva? “E vou deixar de brincar por causa da chuva? Nunca.”. Eram o termômetro do clima da festa.
Um Carnaval MultiCultural, com a energia do povo recifense, sempre alegre e hospitaleiro, expressa no fantástico trio elétrico que entrou na Guararapes no Galo da Madrugada, tendo no comando nada mais, nada menos que Lenine, Silvério Pessoa, Spock, Antônio Carlos Nóbrega, entre tantos outros. Só delírio!
Contagem regressiva para o próximo.

24.2.09

Tive uma experiência muito chocante na última semana. A esposa de nosso motorista, uma mulher de quarenta e poucos anos, mãe de três filhos pequenos, com problemas neurológicos que a colocaram numa cadeira de rodas, teve um AVC, acidente vascular cerebral. Primeiro, ficou com a voz embolada, depois não conseguia mais engolir a comida e, por fim, apresentou dificuldades para respirar. Ligaram para ele e saiu correndo para socorrê-la. Levou-a uma policlínica, onde recebeu os primeiros socorros: foi colocada no oxigênio e no soro. Por lá ficou até conseguir que uma ambulância a transportasse para um hospital. Isso demorou um pouco porque as ambulâncias estavam apenas com cadeiras (e as macas?). Conseguiu uma vaga num hospital em Cavaleiro, Jaboatão dos Guararapes. Então, começou o calvário. Ela foi colocada numa cama e continuou no soro. Ao seu marido foi informado que ela teria que ter acompanhante feminina ou não poderia permanecer na unidade, inclusive com a sugestão, pelo grupo de auxiliares de enfermagem, de que assinasse um termo de responsabilidade e a levasse dali. Ligou-me desesperado, pois sua esposa não tem irmãs, a mãe dela já é acamada, também vítima de AVC, e uma vizinha sua estava tomando conta das crianças que haviam ficado chorando em casa. O que fazer? Pedi para conversar com a chefe de enfermagem e a orientação mudou. “Não era bem assim”, “ele não havia entendido direito”, “é que havia muitas pacientes e a equipe de enfermagem não poderia dar uma assistência completa a cada uma”, “claro que ela deveria ficar lá, pois não teria condição alguma de remoção”. Ele foi para casa e, no outro dia, levou ao hospital lençol e fraldas descartáveis, além do material pessoal de higiene de sua esposa. O hospital não tem lençol para os leitos, pois, segundo informações da equipe técnica os mesmos são roubados pelos próprios pacientes. Também não há fraldas descartáveis e cada uma tem que levar as que irá usar. Ficou lá a manhã toda esperando pela médica que iria fazer o exame nas pacientes, a evolução, como chamam os doutores da medicina, mas ela não apareceu. A explicação? Estava dando plantão em outro hospital. Veio outro médico, chegou até cedo, mas não poderia olhar a esposa dele porque era responsável pelos pacientes da outra ala. Inclusive, foi embora bastante irritado porque havia pedido um Raio-X há vários dias e o mesmo não tinha sido providenciado, o que impediria a alta de um paciente.
Diante da situação caótica, fui com ele ao hospital. Chegamos na hora do almoço. Logo na entrada, um grande número de mulheres, crianças e idosos se aglomeravam numa fila à espera de atendimento ambulatorial. Dirigimo-nos à internação e o vigia nos deixou entrar porque estávamos com fraldas para a paciente. Encontramos um grupo de auxiliares de enfermagem conversando por trás de um balcão. Perguntei pela esposa de meu amigo e responderam que estava no leito e que já havia tomado banho. Comecei a perguntar pela médica e confirmaram as informações que ele havia me passado. Enquanto respondiam laconicamente às minhas perguntas, chegou uma senhora gritando de dor, sendo apoiada por sua filha. Nenhuma das enfermeiras saiu do lugar e apontaram uma sala para a filha depositar a mãe. Questionei o porquê de outro médico não a ter visto, não houve resposta; quis saber o nome do diretor do hospital; “é melhor a gente chamar a enfermeira chefe”.
A enfermeira foi muito gentil, repetiu a história da médica, disse que ela viria no dia seguinte e que se a paciente tivesse qualquer coisa grave, seria atendida pelo médico de plantão. Quis saber o que deveria fazer, já que neste hospital não havia neurologistas e o quadro dela era neurológico. Orientou-nos a aguardar até o dia seguinte, pois na visita da médica ela solicitaria a transferência para uma unidade hospitalar que tivesse essa especialidade e isso seria mais fácil porque haveria o pool de vagas dos hospitais da região e já iria com a senha para internamento imediato. Também liberou a permanência do meu amigo ao lado da esposa, no turno da noite.
Ele passou a noite toda lá, sentado em uma cadeira, até a chegada da médica, perto das nove horas da manhã. Explicou o caso, solicitou a avaliação neurológica e ouviu um “eu não posso fazer isso não, o senhor não deveria ter aceitado que o médico da policlínica a encaminhasse para cá”. Acanhado, respondeu que era motorista, que entedia tudo de carro, mas que não poderia mandar no médico e, sim, confiar no que ele havia dito quando falou que esse hospital era muito bom e que iria cuidar da esposa dele muito bem. Vai pra lá, vai pra cá, a tal médica conseguiu a transferência para um grande hospital público de Recife, com indicação para avaliação neurológica. Depois de esperar pela ambulância, de novo sem as macas, foi direto para o hospital, onde fez os exames necessários, tomografia computadoriza, e se constatou um AVC com conseqüências nada animadoras para a paciente e sua família: seu quadro é irreversível. Está no soro, sem conseguir falar, andar ou se mexer, com alimentação através de uma sonda. O médico chegou a falar em alta, pois não havia muito a ser feito. Ela ficou na maca, no corredor do hospital, e seu marido foi mandado para casa.
Voltou no outro dia e quase era impedido de entrar pelo policial que fazia a segurança e que pediu um dinheirinho para que o deixasse passar. O maqueiro também pedia um agrado para priorizar o transporte de alguns pacientes no lugar de outros.
Ah! Lá descobriu porque as ambulâncias estavam sem as macas. Só neste hospital, oito delas serviam de leitos para os pacientes, pois não havia camas suficientes para todos.
Ela ainda está neste hospital, seu marido tem ido visitá-la, o médico tem recebido meu amigo com respeito e carinho, disse-lhe para não levar mais lençol e fraldas porque o próprio hospital forneceria tudo que precisasse.
Fiquei indignada diante disso tudo. Claro que há falhas no sistema público de saúde. Não há camas, as macas estão servindo de leitos, mas isso inviabiliza o transporte de pacientes nas ambulâncias. Um erro aqui, afeta ali. Todo o sistema está interligado. Mas, soube através de um médico amigo, que o sistema único de saúde paga certo número de diárias quando há o internamento e aí os hospitais conveniados ficam com o paciente durante este período, mantendo-os com os custos mínimos, só no soro, no caso de minha amiga. Um verdadeiro depósito de pacientes, representados apenas pelas cifras financeiras. Onde está a humanidade? Como se justificar que uma médica que prestou o seguinte juramento, proponha-se a estar em dois lugares ao mesmo tempo?
"Eu, solenemente, juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade. Darei como reconhecimento a meus mestres, meu respeito e minha gratidão. Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade. A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação. Respeitarei os segredos a mim confiados. Manterei, a todo custo, no máximo possível, a honra e a tradição da profissão médica. Meus colegas serão meus irmãos. Não permitirei que concepções religiosas, nacionais, raciais, partidárias ou sociais intervenham entre meu dever e meus pacientes. Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. Mesmo sob ameaça, não usarei meu conhecimento médico em princípios contrários às leis da natureza. Faço estas promessas, solene e livremente, pela minha própria honra."
Claro que sei que a vida do médico não é fácil, que muitas vezes trabalham em condições precárias, mas quando se assume um emprego, qualquer que seja ele, enfrenta-se o que se tem ou se pede para sair dele. O que não dá é para fazer de conta que se cuida, quando a doença não pode apenas fingir que existe. Ela provoca dor e morte. Onde estão, na consciência dessa médica, as palavras proferidas em seu juramento, “Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade. A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação.”
O que constatei é que fica fácil para a população condenar o Estado, pois sente na pele a ineficiência do serviço de saúde, está faltando médico na hora em se precisa de socorro, está faltando lençol, a equipe de enfermagem não é suficiente, mas a população não sabe que o médico foi pago e que não está lá por causa de esquemas pessoais que fazem corar aqueles que abraçam a profissão por vocação, que o Estado paga ao hospital exigindo condições de instalação, que pelo contrato estão sendo cumpridas, que também paga para a enfermagem trabalhar e apoiar os pacientes.
O que leva um grupo de auxiliares de enfermagem, pagas pelo Estado, a não reagirem diante de uma mãe que berra de dor e de uma filha que faz um esforço enorme para conduzi-la para os primeiros socorros? O que faz um policial, pago pelo Estado para servir à população, a extorquir dinheiro de pessoas pobres, num momento de grande desespero? O que provoca no maqueiro, também pago pelo Estado, a roubar – a outra palavra para isso? – das famílias para que seus entes queridos sejam socorridos na sua dor?
Sei que não é fácil lidar com a dor, com a morte, e que, talvez, como mecanismo de defesa, os trabalhadores de saúde precisem se embrutecer para suportar o que vêem todos os dias. Se assim for, precisamos criar instrumentos de apoio que os ajudem a enfrentar esse dilema e devolva para cada um deles a dignidade humana, neles próprios e em todas as pessoas que encontrarem pelo caminho.
Precisamos resgatar o conceito de servidor público, pois este é pago pelo Estado com o dinheiro do povo, para servir com qualidade ao povo. O que não podemos é nos calar diante de situações como estas. Temos que denunciar e provocar uma nova forma de organização popular e de gestão pública, para que juntos, como co-responsáveis, façamos valer o direito de saúde para todos. Não podemos ficar apenas culpando o governo, os profissionais de saúde. Como cidadãos, podemos fazer a diferença na hora de agir, não aceitando o pagamento de propinas, não aceitando tratamento desrespeitoso, procurando os canais competentes para garantir nossos direitos.
Vamos fazer a nossa parte!