11.10.09











Fotos: Roberto Arrais
Estou participando de eventos que mexem, mais ainda, com as minhocas de minha cabeça.
O primeiro deles é a Bienal de Livros de Pernambuco. É lindo ver o encontro de um monte de livros com um monte de gente, tudo fervilhando de alegria. Há uma excitação no ar e até parece que os livros ficam, com sua magia, dizendo para todos, me leve, me leve, não me deixe aqui abandonado, sozinho, nesta estante fria; e as pessoas escutam, também com ouvidos mágicos, e, com carinho, vão fazendo suas escolhas e levando para casa o alimento de suas almas.
Contei a história do meu primeiro livro infantil – TROCANDO DE LUGAR – para crianças e, confesso, que fiquei emocionada quando vi aqueles olhinhos brilhando, cheios de expectativa, esperando pelo final da aventura dos personagens. Quando fizeram seus próprios comentários sobre como é bom, às vezes, na vida, a gente poder trocar de lugar para enxergar as coisas por outro ângulo, fui ao delírio. Teve um menino que disse que era bom trocar de lugar quando estava vivendo um problema difícil de enfrentar. Ao ouvir sua voz relatando exatamente o que senti quando inventei a história, sorri com meu coração, pois aquele leitor era a outra parte necessária para que tudo aquilo tivesse sentido e a história ganhasse vida, não sendo apenas um conjunto de signos em sequência, sem significado algum.
O outro, que quase me enlouquece, é o Festival de Circo. Pude ver sereia voando, bruxa na vassoura sobrevoando as pontes e o rio de minha cidade, gente de bicicleta andando por ruas imaginárias e, até, surfista pegando onda em pleno ar. Tudo completamente mágico e irreal.
Aí, fiquei pensando cá com meus botões, o que sempre é um perigo, pois invento cada coisa mais maluca ainda, como restrigimos nossas vidas a um pequeno, minúsculo, leque de possibilidades. Perguntamos para os filhos ‘o que você vai ser quando crescer?’, mas já imaginamos quais são as altenativas possíveis, (a), (b), (c), (d), (e), sem imaginarmos que (todas as alternativas estão corretas) ou (nenhuma das afirmativas é verdadeira) são também caminhos para um viver feliz. Nunca imaginei que poderia me encantar tanto com aquelas cenas. Sou uma bruxa, acredito, de verdade, que voam, mas me ver voando ali, pois claro que me identifiquei com ela, foi como um sinal de alerta para me despertar do transe em minha matrix. Até que me acho criativa, mas tive que inventar toda uma história para fazer um peixe voar e um passarinho sobreviver no fundo do mar. Então, de repente, sem artifícios, vi uma sereia linda, dançando num céu azul e, com seu canto, enfeitiçando todos que estavam em terra firme(?). Os olhos não conseguiam desgrudar do céu, as bocas se entreabriam para expressar o encantamento. Apesar dos ônibus continuarem no vai-e-vem alienante, seus passageiros não estavam mais alienados. Algo acontecia naquele instante, uma transformação invisível, provavelmente inconsciente, mas que tocava a alma de todos ali. A chuva de papel ficado, não era mais de papel: transformara-se em estrelas brilhantes no céu, como observou o poeta Jomar Muniz de Brito que a tudo assistia e transformava em poesia.










30.9.09


Foto: Roberto Arrais
- Se você tivesse que ir viver na lua, o que ou quem você levaria?
- Você, amor e saudade.

Esta foi a resposta de meu primeiro namorado, quando ainda paquerava comigo, num caderninho de recordações que registrava perguntas e respostas de amigos. Lembro que fiquei emocionada com o que havia escrito e que relia o texto várias e várias vezes.
Numa noite comum, estava toda a turma de adolescentes no playground do prédio, ele chamou meu nome e quando me virei para olhar para ele, girou um chaveiro que, no movimento, mostrava ‘eu te amo’. Achei aquilo lindo. E, assim, com gestos simples e românticos, aos poucos, foi me conquistando. No dia que começamos a namorar, numa festa de aniversário de uma amiga, deu-me uma rosa e estendeu sua mão para mim, dentro do elevador, colocando bem os olhos nos olhos. Não resisti mais e lhe dei minha mão e meu coração. Fomos dançar e, bem devagar, veio o beijo, nosso primeiro beijo, meu primeiro beijo. O coração disparou, as pernas tremeram, todo o corpo amoleceu. Eu tinha quinze anos e começava a viver as alegrias e as dores do amor.
Ficamos juntos por quase seis anos e, durante todo esse tempo, tivemos muitos e muitos momentos recheados de carinho. Recebi guardanapo com a primeira letra do meu nome marcada com cigarro; ganhei jóia em caixa de fósforo; fiquei comprometida com uma aliança escondida em uma rosa que me foi entregue à beira-mar. Poemas de Pessoa, ramalhetes de rosas, bilhetinhos apaixonados, perfumes, discos, eu te amo em diversos idiomas, foram alguns dos mimos que recebi do meu primeiro namorado. Há ainda todas aquelas lembranças que me fazem derreter, mas que não podem ser contadas.
Tenho saudades desta fase cor de rosa de minha vida. Nunca mais o encontrei e espero que esteja feliz. Para ele, reservo um lugar muito especial em meu coração e uma enorme gratidão, pois, sendo o primeiro, deixou-me a marca da fé inabalável no amor, fé esta que me guiou pela vida afora, trazendo-me sempre novos amores que também deixaram minha alma recheada de carinho. Se hoje posso ser feliz no amor, devo muito a ele, que me mostrou que os homens prestam, sim. Fui apenas confirmando o que me ensinou.
Para terminar, uma música, de Dalva de Oliveira, que sempre cantou para mim.

Estrela do Mar

Um pequenino grão de areia que era um pobre sonhador, olhou o céu e viu uma estrela e imaginou coisas de amor... Passaram anos, muitos anos Ela no céu, ele no mar, dizemque nunca opobrezinho pôde com ela se encontrar. Se houve ou não houve alguma coisa entre eles dois, ninguém soube até hojeexplicar O que há de verdade é que depois, muito depois,apareceu a estrela do mar...

29.9.09


- Se você tivesse que ir viver na lua, o que ou quem você levaria?
- Você, amor e saudade.

28.9.09



Fotos: Roberto Arrais


Às vezes, quando parece que vai dar errado, a gente percebe que o que deu, é que era o certo.
Neste final de semana, nada do que planejei aconteceu. Fiquei irritada, chateada, mais uma coisa fugindo do meu controle. De repente, fui vivenciando coisas tão mágicas, simples e doces, que me descobri sorrindo feliz.
Coloquei água no jardim, conversei com as formigas, grilos e rãs. Mergulhei num mar azul e morninho, junto com meu amado. Colhi tomates, pimentões, manjericão, hortelã, da horta de nossa cas, e fiz um peixe delicioso – é verdade que ficou um bocado salgado -, mais uma vez, ao lado do meu amado. Tomamos um café da manhã tendo uma vista de tirar o fôlego à nossa frente. Compramos plantas, fomos a uma feira de livros, namoramos muito, de um jeito maravilhoso que só um treinamento de guerrilha pode proporcionar.
Fiquei escondida no carro durante um enterro, pois minha roupa estava completamente inadequada. Almoçamos, fomos a um chá de fraldas de uma mamãe que amo muito, passeamos pela Cultura e terminamos num campo de futebol, gritando goooooooooooooooooool.
Coisas simples qua ganham um brilho maior só porque estão recheadas de amor.
Lembro-me, então, de Adélia Prado, no poema em que relata a limpeza, a altas horas da madrugada, de um peixe pescado por seu marido. Sai ela contando o quanto é especial ficar ao lado dele, tirando as escamas e ouvindo o seu relato da pescaria.
Cumplicidade. Companheirismo. Paz.Foi assim com ela, está sendo assim comigo.

25.9.09


Noutro dia, no estacionamento do supermercado, encontrei um amigo de quem gosto muito e que não via há muito tempo, quase uns vinte anos. Perguntou-me como estava, respondi que vivia um momento mágico, com uma pessoa maravilhosa. Perguntei-lhe como andava sua vida, respondeu-me que estava muito feliz, havia se separado, mas encontrara um novo amor e também se rendera ao mundo dos afetos, afastando-se, como eu, dos bits e bytes. Rimos muito e continuamos nossa conversa aprofundando as informações.
A ex dele criou tanta confusão com a filha de ambos que agora a menina, que já tem 17 anos, não quer mais conviver com sua namorada, Ele ficou triste e preocupado, pois sua namorada tem dois filhos e eles, ele, ela estão formando um novo núcleo familiar e sua filha tem ficado de fora dessa convivência harmoniosa.
Contei que a ex do meu marido também agia assim e que isso tinha gerado um afastamento total da filha dele. Antes eu ainda a incluía em nossos passeios, mas agora, para ser sincera, muitas vezes em nem me lembrava mais de que ele tinha uma filha, pois nosso núcleo familiar estava se solidificando com nós dois, eu e ele, meus filhos e o filho do meu ex. Quando eu refletia sobre essa situação, achava uma loucura, mas, infelizmente, era essa a realidade.
Compartilhamos histórias em que sua ex tentava criar confusão para atrapalhar a vida amorosa dele e como isso apenas o aproximava mais de sua namorada e dava graças aos céus por aquela ser, no presente, sua ex. Relatei que isso também acontecia com a ex do meu marido e que nada do que ela fazia abalava meu relacionamento com ele, unindo-nos cada vez mais.
Mas, qual não foi nossa surpesa, quando descobrimos que a filha do meu ex e a filha dele estudam na mesma escola, na mesma sala, e, o que é mais incrível, são primas, pois a ex dele é irmã da ex do meu marido. Eita mundo pequeno esse!

Trabalho com a Psicologia Transpessoal e compartilho as idéias de Grof sobre as Matrizes Perinatais Básicas (MPB). Ah! A primeira vez que ouvi este termo foi numa aula, em que cheguei atrasada, e pensei que se tratava de alguma coisa relacionada à música popular brasileira; só depois a ficha caiu. Bem, mas voltando às MPB de Grof, confirmo, no consultório que sua teoria se aplica na vida das pessoas. Grof diz que a MPB I corresponde à epoca em que estamos no útero, antes dos períodos das contrações; a MPB II se refere à fase em que vivenciamos as contrações e somos impelidos a buscar uma saída; a MPB III, é a passagem pelo canal vaginal; a MPB IV é a chegada ao mundo. Então, de acordo com esta teoria, os partos deveriam possibilitar a experiência das quatro fases para o bebê. Infelizmente, em nossa cultura, as mulheres estão agendando seus partos antes de sentir dor e isso altera o processo de desenvolvimento psíquico de seus filhos. Os atendimentos clínicos apenas referendam estas hipóteses.
Nasci num parto cesariana, pois minha mãe teve dilatação, mas não teve atendimento médico, já que o mesmo havia participado de uma festa e bebido um pouco além da conta e precisou de um tempo para se recuperar. Resultado: eu já havia descido pelo canal vaginal, mas não tinha conseguido sair, primeiro parto de minha mãe, e fiquei meio que entalada. Ele fez a cirurgia e, como eu já estava muito embaixo, tive que ser puxada de fórceps para o corte do útero. Minha cabeça era enorme e tinha uma baixa que caracterizava este instrumento em meu corpo.
Então, ontem, na terapia, comentei que estava num momento de minha vida em que me sentia com as mãos atadas, sem poder fazer nada para resolver os problemas que enfrento, pois as soluções não dependem de mim. Já fiz muita besteira na vida e sempre as assumi. Hoje, porém, vivo uma situação inusitada, pois tudo que preciso para resolver minha vida está empacado por conta de posições de outras pessoas. Fiz o comentário:
- Até parece que estou revivendo o momento do meu parto, em que fiz a minha parte, fui para o canal, mas não pude sair porque não havia abertura, e tive que ser tirada à força, de fórceps.
Minha terapeuta, que é excelente, me pediu para trabalhar melhor isso. Lá na sessão eu já estava com um certo mal estar, sentindo-me enjoada, a cabeça pesada. Durante o resto do dia estes sintomas foram se acentuando e cheguei à noite com uma imensa dor na cabeça, pressão por todos os lados, uma enorme vontade de vomitar, o corpo todo dolorido, principalmente um pé e um lado da perna. Deitei-me na cama, no escuro, e me senti no útero novamente. Com certeza, entrei num estado alterado de consciência e revivi o processo do meu nascimento nessa vida. Foi uma coisa muito estranha, porque ao mesmo tempo que me sentia no parto, me via em pé, na sala de cirurgia, esperando pelo bebê cansado. Recebi o bebê, eu mesma, com carinho e respeito pela coragem que tivera para enfrentar aquela situação difícil. Adormeci, exausta, e hoje acordei me sentindo maravilhosamente bem.
O que aconteceu ali eu não sei explicar direito, de acordo com o que aprendi na faculdade, mas confirmo o que Grof pensa, confirmo o que tradições espirituais ensinam. Ao reviver meu trauma do nascimento, alguma transformação energética ocorreu. Tomara que as coisas que estavam empacadas nesta fase de minha vida, agora possam fluir com tranquilidade.

21.9.09


A vida anda me pregando uma peças grandes. Sabe quando a gente está numa fase em que só aparecem dificuldades? Tudo que você vai fazer tem um obstáculo no caminho? Pois é, tenho me segurado na minha imensa fé em que tudo tem um propósito e me inspirado no poema que diz que ‘com as pedras do caminho construirei um castelo’.
Devido a tantas broncas, às vezes, minha energia baixa e uso dos meus truques, se é que se pode chamar assim, para me reabastecer. Um deles, é a oração. Então, ontem, montei meu altar à mesa – incenso, pedras, velas, água com sal grosso e essência, terço, manjericão, pote com sal grosso, canela, cravo e alho – e comecei a ler mensagens do Sagrado contidas na Bíblia, no Evangelho Espírita e no livro Jesus no Lar. Pedi que espíritos de luz guiassem minha leitura e colocassem energia no copo d’água que beberia depois. Os textos me falaram sobre o dom da Coragem e sobre as injustiças sociais. Fiquei um tempão refletindo sobre eles. Acredito que os desafios que se apresentam em nossas vidas, surgem para fortalecer nossas almas, para nos ensinar o que ainda não conseguimos aprender. Precisamos entender, e sentir, que tudo está interligado e que as conexões seguem leis que a física quântica hoje explica. Se é assim, a abundância que existe no Universo também se expressa em minha vida. Só preciso entrar na mesma frequência. No seu livro O Jogo Cósmico, Grof faz pontes entre as mais novas descobertas da ciência e os ensinamentos das mais antigas tradições religiosas. Jung já nos falava de sincronicidade e isto se manifesta todos os dias em nossas vidas. Precisamos, apenas, de olhos para ver.
No momento em que estava lendo os textos em busca de mensagens para as crises que enfrento agora, caiu do livro uma carta de minha bisavó, psicografada por minha tia. O que tem escrito nela eu quase que já sei de cor, mas o que me fisgou e me encheu de saudades foi ver a caligrafia de minha amada tia, já falecida, ali, tão presente em minhas mãos. Guardo, também, um pedaço de papel onte tem escrita, com a letra de minha mãe, a oração da Pedra Dara. Onde estarão as duas? Tive esta mesma sensação quando vi seus ossos no caixão. Não havia mais cérebro, apensas ossos. Onde estariam o amor que sentiram, os sonhos que tiveram?
Gosto de pensar sobre essas coisas. Talvez, por isso, chorava quando ía para minhas aulas de mestrado em informática, há muito tempo atrás, e o professor ficava falando ‘se A, então B’ e eu pensava que o dia que estava vivendo não voltaria e que desperdiçava minha energia, meu dia e minha vida.
Estou mais ligada ns coisas simples e belas da vida, como a luz dos sol brilhando no mar ou nas follhas de uma árvore, o colorido das flores na primavera, o canto dos pássaros, a música das palhas do coqueiro, a energia da deusa lua mexendo com meu corpo e com minhas emoções, o calor do corpo do meu amado, o sorriso dos meus filhos, enchendo de alegria os cantos de nossa casa. Cheguei a pensar que este era o olhar da artista que desabrochava em mim. Hoje, sinto que este é o sentimento de quem vivencia o Sagrado.

20.9.09

Foto: Roberto Arrais



Ontem tive trabalho para dormir. E, olha, que se tem uma coisa que não me perturba é a falta de sono. Durmo bem, mesmo que esteja vivendo as maiores crises pessoais. Mas, dessa vez, a qualidade do som que ouvia, conseguiu comprometer minha paz. Estava acontecendo uma festa no prédio e a música, se é que se pode chamar aquele barulho de música, tocava no quarto como se todos os instrumentos da banda estivessem à beira de minha cama. O equipamento eletrônico deveria estar no seu volume máximo. Então, as minhocas de minha cabeça começaram a andar e...Bom, se era uma festa, pressupunha-se uma reunião de amigos, de pessoas que se gostam e que querem se encontrar para conversar, contar as novidades, dançar, ouvir música e, claro, beber e comer, que ninguém é de ferro. Mas, com o som àquela altura, com certeza, o diálogo ficaria inviável. Veio-me, então, a constatação: muitas e muitas vezes precisamos do barulho porque não temos nada para dizer ou, pior ainda, não queremos escutar o que vem do coração. O vazio, o silêncio, incomoda quando estamos numa situação assim e fugimos desse encontro como o diabo foge da cruz. Não são poucas as pessoas que contam que ligam a tv assim que chegam em casa. Medo da solidão, medo de si mesmas?Gosto de ouvir o silêncio. É, silêncio também se ouve. O canto dos pássaros, a música do vento, os sons de um cotidiano que amo – o batedor de carne gera uma melodia que me leva para minha infância feliz. Às vezes, na sala, reconheço o som do arrastar de pés do meu pai, caminhando pelo corredor de nossa casa. Emociono-me na hora. Lá vem ele, meu velhinho amado, arrastar a cadeira – outro som inconfundível em nosso lar, que provoca o maior corre-corre para atendê-lo à mesa – e repetir a rotina que lhe dá a segurança para continuar vivo.Para mim, o som da água saindo pelo chuveiro quente é o anúncio de momentos de paraíso. Adoro sentir o calor daqueles pedacinhos mágicos que lavam meu corpo, meu juízo e minha alma.Na nossa casa temos muitos discos, de boa música, claro, e sentimos prazer em ouvi-los. Acendemos um incenso, tomamos um vinho, e... conversamos, sentados no sofá. Mas, às vezes, estas músicas maravilhosas também serão barulho, pois inibirão a magia do silêncio. E, por isso, prefiro, quase sempre quando o sol está acordando e sua luz dourada invade nossa sala, passando por entre as folhas da mangueira, deixar tudo bem quietinho e ouvir apenas o silêncio.

18.9.09



Fotos: Roberto Arrais
Como Psi tenho a oportunidade de conhecer de perto as Almas de muitas pessoas e me encanto com a diversidade das possibilidades de sermos diferentes e felizes. Cada uma e cada um desses meus clientes, com histórias de vida tão variadas, têm em comum um traço: todas e todos só querem a felicidade, que se apresenta sob várias faces, de acordo com os temas que vivenciam.
Porém, há algo em comum, escondido lá no coração deles, que é a busca por um sentido em suas vidas. Homens de sucesso, mulheres realizadas e uma vida aparentemente perfeita, e lá no fundo, o vazio. Todos, em algum momento do trabalho terapêutico, começam a se perguntar: quem sou eu de verdade? de onde vim? para onde vou? o que vim fazer aqui na Terra nesse curto espaço de tempo entre meu nascer e meu morrer? qual o significado de minha vida?
Estas são grandes questões que se traduzem em indagações sobre o cotidiano. Preciso, realmente, dessa carro importado e caro? Ele vale o sacrifício de inúmeras horas de trabalho, jogando-me para longe de minha família? Preciso obter essa enorme quantidade de informações e acumular tantos títulos acadêmicos, se já descobri que não posso experienciar o Sagrado com a ferramenta da razão? Preciso, para ser amada, permanecer sempre jovem, sacrificando minha rotina na busca por um ideal de beleza que não me deixa livre nas minhas atividades diárias? E por aí vão as inúmereas reflexões.
Uma cena que tem me deixado triste nas caminhadas pela minha praça é a que vejo crianças lindas, aprendendo a olhar o mundo, a andar, a correr atrás dos pombos, a dar comida aos peixinhos, sempre e unicamente acompanhadas por suas babás. Onde estão seus pais? Onde estão suas mães? Será que não percebem que estão perdendo momentos preciosos ao lado de seus filhos e que estes momentos não voltarão jamais?
- Ah! Mas eu trabalho para dar o melhor para meus filhos. Quero que tenham uma educação esmerada, que tenham brinquedos e roupas sofisticados – justificarão.
Lembro-me, então, das crianças que atendo no consultório, filhos de muitos desses, talvez, que chegam cheias de problemas, medos, agressividade, insegurança, dificuldade de aprendizagem, terror noturno, hiperatividade – a peste da infância do século XXI -, transtornos alimentares, todas se queixando da ausência dos pais no seu dia-a-dia. Pergunto-me: vale o preço?

14.9.09


Fotos: Roberto Arrais

Pega seu celular, olha o número e disca no orelhão da Praça. Mulher, bonita, jovem. Acabou de estacionar o carro. Seu rosto expressa angústia. Ninguém atende. Tenta de novo, de novo, de novo. É uma ensolarada manhã de domingo. Seu amante não atende o telefone. Apesar do disfarce, ele sabe quem o chama do outro lado da linha.
Agora ele não pode. Toma café com a esposa e os filhos. No sábado à noite saíram para jantar com outros casais. Estão se arrumando para ir à missa e, depois, o almoço tradicional na casa dos sogros. À tarde, pipoca e refrigerante no cinema com a família reunida e, para terminar, pizza ou crepe. Assim, seguindo essa rotina programada, consegue equilibrar a vida, corrida e fora de casa, que leva durante a semana, com a tranquilidade do seu ninho familiar. Esposa e filhos são sagrados e intocáveis. Por que ela insiste em ligar? Já não a avisou que sábados, domingos, feriados, Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa, São João, são datas em que não comemorarão juntos? Deixou tudo bem claro desde o início. Ela topou. E agora está cheia de cobranças. Passam toda a semana almoçando juntos, dão sempre escapadas para encontros amorosos e até a levou na sua última viagem a negócios. Quer mais o quê? Uma aliança no dedo?
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Ouvi risos e gritos de alegria. Procurei identificar de onde vinham e sorri ao descobrir que eram produzidos por dois meninos que nadavam no lago da Praça. Ali era a piscina deles. Observei-os por um tempo e pude contemplar a beleza da ingenuidade da infância. Estavam vivendo plenamente o momento presente. Estavam no aqui e no agora.
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- Toda palavra inócua é pecado. Toda palavra inócua é pecado. – repetia a senhora snetada num banco de uma parada de ônibus, cheia de gente.
Vestia saia escura, à altura dos joelhos, blusa rosa, com mangas e grandes botões. Os cabelos, já brancos, estão presos num coque, na parte de trás da cabeça. O tom de sua voz era profético. Sua face, já cheia de rugas, expressava que estava em outro mundo, um mundo cheio de demônios e de pecados.
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Ouço latido de cães, canto de pássaros, barulho de carros, pisadas de homens e mulheres correndo. Estou sentada num banco da Praça, à sombra de uma árvore. Já li jornais, meditei, ouvi música. Tomei meu suco de laranja, aguei as plantas da varanda. É domingo de manhã e o sol brilha, inundando de luz e cores o jardim à minha frente. Lendo os jornais hoje, logo cedo, soube que inventaram um tipo de asfalto que capta energia solar e dos carros que passam sobre ele, gerando energia limpa. Achei a ideia simples, lógica e fantástica. Pensei, então, que novas possibilidades me fascinam. Podemos ser e viver tantas coisas. Sinto-me triste quando percebo que temos malas e cabeças quadradas, como me ensinou um poderoso xamã.
Estive ontem, com meu marido, na exposição em homenagem aos 80 anos de vida de uma mulher maravilhosa: Tereza Costa Rêgo. Fiquei sem fôlego quando vi seus quadros. Cores fortes, imagens primitivas. Temas femininos, sexualidade, questões sociais. Múltiplas, numa só. Uma Deusa. Reverenciei-a em silêncio, deixando que algumas lágrimas passeassem por meu rosto. De repente, ei-la lá, à minha frente. Intensa, linda. Emocionei-me com a sagacidade de suas palavras inteligentes. Percorri o resto da exposição mais comprometida com a compreensão daquela mulher inteira; só por tê-la visto e ouvido sua voz, senti-me cúmplice dela, parceira nessa magia que é ser fêmea e tornar-se mulher. Senti, no meu coração, a dor expressa em seu olhos, no quadro em que está ao lado do amado morto. Encantei-me com seu bordel, completamente decorado com peças suas. Enlouqueci com a liberdade de sua mala vazia. Uni-me a ela no desejo de um ninho de bicho para viver uma liberdade de gente.
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Por tudo isso que contei aqui, imaginei um globo terrestre saltitante em minhas mãos e, de repente, cada parte desse globo revelava a mim seus segredos. Quero sentir que estou viva, conectando-me com meus sentidos. Quero sentir que estou vida, compreendendo o mundo com meus pensamentos. Quero sentir que estou viva, pricipalmente, deixando que as emoções tomem conta de mim.
Descobri que o que me interessa, de verdade, é o belo que existe na complexidade, dialeticamente simples, dos sentimentos. E aí, me deu uma peninha danada daquela que fui: a intelectual, segura no seu raciocínio lógico e abstrato. Fico feliz por hoje ser, apenas, artista.
Ela, normal.
Eu, borboleta.

9.9.09

9.9.9









Fotos: Roberto Arrais
Hoje, 9/9/9, é um dia mágico. Dizem que o 9 manifestaria nossa conexão com o Sagrado, lá de cima. Já o 6, representaria nossa conexão com o Sagrado, cá de baixo. Por isso, o 69, representaria o todo, o Tao, o yin-yang, enfim, o encontro do Céu com a Terra. Não seria apenas uma coincidência o 69 ser conhecido, no senso comum, como uma posição sexual em que os parceiros se complementam, se encaixam. O 9 também simbolizaria o fim de um ciclo e o começo de um outro, colocando a vida sempre em movimento.
Acreditando que hoje, especialmente, a Energia Sagrada está derramando Suas bênçãos sobre nós, compartilho imagens que me deixam sem palavras diante de tamanha beleza. Ao contemplá-las, percebo-me parte do Todo e fico feliz por também estar conectada com a teia da vida, sentindo, em minha alma, que tudo está interligado.
Então, penso na minha criança interior, naquele pedacinho de mim que trouxe quando resolvi vir para cá, que sabe absolutamente toda a verdade sobre a jornada de minha alma. Muitas e muitas vezes, deixei-a sozinha, abandonada, trancada em um dos meus muitos esconderijos, e não a escutei, não segui o caminho que me apontava como meu. Tive que aprender, pela dor, a retornar para minha essência, resgatar minha sábia criança, e viver o meu destino, destino este que desde pequena eu sabia e esqueci. Quando ela reina absoluta em minha vida, dou gargalhadas, trabalho com prazer, faço tudo com leveza, sou puro amor e encantamento, como se a Energia fluísse através de mim.
Estou vivendo algo assim neste momento de minha vida, porque começo a viver o meu sonho de ser escritora. Fico triste quando percebo que demorei muito a me lembrar do que vim fazer aqui, pois as pistas eram tão claras, que era claro que a vida de escritora me pertencia e eu pertencia a ela. Por que recusei tanto tempo os chamados de minha criança que sempre me mostrou meu jeito único de ser feliz?
Agora, quando olho meus primeiros livros nas livrarias da cidade, lembro que vi, de uma forma que não sei explicar, esta cena antes, há alguns anos, acontecendo na minha frente. Previ o futuro ou criei meu futuro? Também vi meu amigo, à época, fotografando as belezas naturais da praia que eu contemplava, sem saber o que o futuro me reservaria, e, hoje, ele fotografa tudo isso com sensibilidade. De novo, onde estão passado-presente-futuro?

27.8.09




Fotos: Roberto Arrais


Realizei um sonho que acalento há muito tempo: estou escrevendo no quarto de estudos de nossa casa de praia. Agora temos internet e impressora e sempre vou poder trazer o notebook. Uau! Nem acredito. Da cadeira onde estou sentada, vejo o mar e escuto a música dos coqueiros. Também ouço o canto dos pássaros. Há uns pretos e outros bem conhecidos, os bem-te-vis. O céu está azul, sem nuvens. A rede balança suavemente, seguindo as ordens do vento. No quarto, muitos livros me envolvem. Se eles pudessem falar e eu pudesse escutar tudo que têm para me ensinar, tenho certeza que contaria histórias fantásticas. Talvez, aos poucos, consiga ficar amiga deles e me revelem seus segredos. Estou feliz, muito feliz, sentindo que começo a me reconectar com o que vim fazer aqui na Terra. É estranha a sensação; há um reconhecimento, como se tudo fosse familiar.
Estava pensando que também realizei outro sonho, o de publicar a história de boca que contava para meus filhos. E faz tempo que sonhei isso. Acredito que quando queremos uma coisa, de verdade, e o nosso desejo segue o caminho do Amor, o Universo todo conspira para que isso se manifeste em nossas vidas. Mas é preciso que tenhamos coragem para nos lançarmos no sonho.
Por falar em sonhos, o mundo onírico é realmente mágico, uma outra dimensão.
Vim para a praia, junto com meu marido e minha filha, porque queríamos ver as duas luas, a Lua e Marte. Adormecemos, no mundo real não houve esse encontro, mas eu vi duas luas, lindíssimas, num céu cheio de estrelas e ainda as vi, enormes, amarelas, saindo do mar, uma ao lado da outra. Isso aconteceu num sonho que tive esta noite. Nele, além do presente das luas, encontrei-me com minha babá. Eu sabia que ela estava morta e sei, de uma forma que não consigo explicar, que nos abraçamos de verdade. Eu fiquei tão feliz. Pedi-lhe que protegesse meus filhos; respondeu que estava sempre cuidando deles e me falou que também cuida das filhas de minha irmã. Sei, em minha alma, que nos encontramos mesmo e que também vi as luas. Não importa se essas coisas aconteceram nessa dimensão, que conhecemos, ou em outra, que ainda não compreendemos, mas vivi estas experiências e me lembrarei delas para sempre.
O que é real? O que é imaginação?