12.1.07

Sonho realizado

Às vezes achamos que os nossos sonhos não podem virar realidade. Mas na verdade o que não temos é coragem para realizá-los.
Há algum tempo escrevi um texto sobre como seria um dia mágico para mim. Todo mundo que leu, adorou e ficou sonhando com um dia igual também. Parecia impossível, acordar numa praia, ir meditar logo cedo, vendo o sol brilhando nas águas mornas do mar, tomar suco e caminhar, com bichinhos lindos na areia; depois, um banho de mar cercada por peixes. Café quente, rede, bons livros, boas companhias. Mais banho de mar, com a lua nascendo e o sol se pondo; noite cheia de estrelas, uma boa música no ar e um bom vinho.
Pois este tem sido o meu cotidiano agora. Sonhei, acreditei, arrisquei, ousei, realizei.
Seu desejo é uma ordem, diz-nos o Universo.
Estou feliz.

26.12.06

Caduquices?

Venho notando que ando meio esquisita de uns tempos pra cá. Comecei a fazer faxina na casa, na casa de praia, no consultório, nos livros, nas pastas – até nas de mails. Reorganizei os altares que tenho e que agora são três, já que tenho três espaços sagrados (casa, praia e consultório). Revi agendas antigas, cadernos de anotações. Até que fiquei satisfeita, pois não encontrei muita coisa que deixei de fazer e, sim, muita coisa que gostei de ter realizado.
Notei também que os aparelhos eletrônicos com os quais me relaciono começaram a demonstrar vida própria, pois não desligavam quando eu repetidamente apertava o OFF e só ligavam quando queriam, por mais que eu apertasse o ON.
E, como a Emília de Lobato, danei-me a pensar umas coisas malucas a partir do que venho lendo, vendo, ouvindo e experienciando.
Descobri, por exemplo, que a medicina ocidental trata do meu corpo físico, justamente aquele que vai ser comido pelas baratas quando eu morrer e que não vai mais me ser necessário com saúde do lado de lá! Acredito que a doença é uma linguagem da alma e que quando alguma coisa não vai bem na harmonização de tudo que somos nós, essa desarmonia se manifesta no corpo biológico. Para que o fluxo de energia siga seu rumo natural, faz-se necessária uma intervenção na causa deste 'entupimento do fluxo' que pode estar em qualquer um dos nossos corpos energéticos. Então, resolvi que se adoecer gravemente irei tratar de cuidar dos corpos que levarei quando da minha passagem para uma outra dimensão. Aliás, acho que já comecei a cuidar, pois tenho vivenciado muita coisa boa e saudável, como yoga, meditação, caminhadas, banhos de mar, dengo, carinho, sopas e chás, além de boa música e boa leitura.
Outra coisa que me peguei pensando foi sobre o processo de individuação de Jung, a harmonização dos chakras e o caminho das Deusas de Roger Woolger. Quando chegamos à Terra, precisamos da energia do corpo físico e a sobrevivência é o nosso objetivo. Ártemis é a nossa aliada. Passamos para a adolescência e Afrodite nos rege, pois a sexualidade vai ser a energia predominante, já que precisamos garantir a espécie. Sentimos a necessidade de conquistar o mundo, pois a nossa casa e o nosso corpo já não nos cabem. Hera nos ajuda a conquistar o poder, reinando absoluta na casa e fora dela. Aprendemos que precisamos colocar amor no que fazemos, pois só com os planos da razão ficamos no vazio e nesse difícil processo temos as bênçãos de Deméter. Ficamos tão sabidas que sentimos vontade de sair pelo mundo compartilhando tudo que aprendemos e Atena nos ajuda a enfrentar o mundo, mostrando-nos inteira. A maturidade vai dando lugar à velhice e aprendemos que não adianta conquistarmos o mundo senão conquistarmos o nosso interior e começamos um profundo mergulho na nossa alma. Ninguém melhor que Perséfone para nos guiar nesta viagem ao mundo das trevas. Para as que conseguem a iluminação, a Grande Deusa, Gaia, manifesta-se plenamente e temos a possibilidade de conexão direta com o Sagrado e podemos partir para outras moradas.
Por último, ouvi uma palestra em que falava que o número 666 seria o padrão energético da Terra e que o 999 seria o do 'Céu'. Pensei no 69 que conhecemos como uma posição do jogo sexual e me dei conta que é exatamente o símbolo do TAO, que é o Todo, o yin-yang, o encontro do feminino com o masculino. Fiquei encantada! Lembrei-me que quando nascemos o céu nos dá o mapa, as dicas, as orientações do que iremos viver aqui e que devem existir muitos outros sistemas simbólicos que nos acompanham e nos guiam na nossa jornada. Pena que não temos olhos para vê-los.
Claro que não canalizei tudo isso. Tenho aprendido com pessoas especiais, com autores maravilhosos, com poetas, com artistas, com mestres disfarçados de gente comum e, principalmente, com a vida.
Acho que sabem que estou fazendo um curso para liberar a criatividade na minha produção escrita. Então, fica a pergunta: ficção ou realidade?

Revendo

Fim de ano, comemorações de Natal, época de rever amigos. Fui a uma festa na casa de um primo que é casado com uma amiga minha. Festa só para casais, quatro, ao todo. A casa estava linda e o menu impecável. Recebem muito bem. Homens na varanda, bebendo. Mulheres na sala, conversando. Essa turma tem mais de vinte anos de relacionamento, então dá para entender os clubes do Bolinha e da Luluzinha. Algumas piadas machistas. Risos. Dvds com show dos Titãs, Marisa Monte e Zeca Pagodinho. Vinho, champanhe, cerveja, uísque. Claro que dá para dançar um pouco depois disso tudo. Uma viagem ao passado é inevitável. As mulheres relembram amores antigos e se perguntam como estarão. Fala-se em xamãs, na kudaline (‘cú de quem?’, pergunta um menos entendido no assunto). Brinca-se com a história do xamã ensinar a subir a cobra por trás, pela coluna. Está todo mundo feliz, afinal a amizade que os une é antiga e sobrevive aos atropelos da vida.
Sou deste mundo?

20.12.06

Sem saída

Becos, ruelas, esgoto a céu aberto, cheiro de merda no ar. Lá vou eu entrando, junto com mais duas profissionais, num mundo que não conheço. Não sinto medo. Talvez tenha dissociado ou, talvez, tenha apenas me entregado a alguma força superior. O desejo de transformar aquela realidade me faz seguir adiante. Estou dentro do ......, um dos locais mais violentos de Recife. Um anjo da comunidade nos guia. Mostra-nos a beira da maré. O chão é coberto por cascalho de conchas de mariscos. É lindíssimo e penso como ficaria lindo na minha casa de praia. Ridículo! Palafitas, botes, homens e mulheres misturados com a lama. Cadê Josué? Caranguejo, unha-de-véio, sururu. Aquelas pessoas tiram da lama a vida e também na lama encontram a morte.
Um grupo de jovens diretamente ligados à violência chegam à casa onde estamos. Começamos a conversar e enquanto esperamos pelo resto da turma começam a fazer maracatu com o próprio corpo, batendo com as palmas das mãos nos joelhos e na ‘caixa dos peitos’. Fico em transe. Que cena surrealista! Jovens que roubam, matam, traficam, fazendo música com alegria, doçura e entrega! Lembro-me do Sagrado que afirma que sempre há luz nas trevas. Seus filhos, amigos e parentes circulam entre nós. Muitas pessoas se encontram sentadas nos becos, apenas conversando porque não têm o que fazer. E o poder público com isso? Dando aumento de quase 100% para os deputados. Porra! Puta que pariu! País de corno esse.
Os outros vão chegando, depois de ‘dar uma’, pois ficam ansiosos para conversar com a gente. Lanchamos juntos. Falamos sobre os próximos passos do trabalho. Comentam que é legal cada vez que a gente se encontra porque ‘pega mais intimidade’. Vamos ficando amigos.
Perguntamos o que poderíamos fazer - a gente e eles - para mudar aquilo ali. Respondem que têm o futebol e que precisam de coletes. No dia do jogo ninguém se droga, ninguém ‘trabalha’, todo mundo só curte a pelada. Topamos ajudá-los nisso.
O nosso anjo mostra seus poemas e diz que sonha com um carrinho de mão cheio de livros para circular pela comunidade. Topamos ajudar nisso também. Sugerimos filmes. Sugerem apenas conversar mais vezes com a gente.
Abraçamo-nos na despedida.
Saio de lá com o coração sangrando, a alma partida e os olhos cheinhos de lágrimas. Isso também sou eu, caralho!!! O que posso fazer? Continuar sentada na sala de meu apartamento, com a boca escancarada e cheia de dentes, esperando a morte chegar, como disse o sábio Raul Seixas? Fingir que não tenho nada a ver com essa guerra nojenta que ocorre todos os dias na minha cidade? Condenar quando assaltam e matam os filhos da burguesia?
E eles têm saída?

8.12.06

Estranha no Ninho

Era uma pessoa estranha naquele lugar. Sozinha à mesa, trazia nas mãos um livro. Lia, observava coisas e pessoas ao redor, voltava a ler alheia ao movimento e ao barulho.
Placas luminosas anunciavam nomes de lojas e lanchonetes. Crianças corriam de um lado para outro e soltavam gritos de satisfação. Mulheres, cheias de sacolas, iam às compras para preencher o vazio que sentiam. Homens tomavam chope e espantavam suas tristezas, usando a máscara do caçador – agora as presas eram as mulheres.
Nada disso tirava sua atenção da leitura. Devia sentir frio, pois usava um casaquinho por cima da roupa.
De repente, fechou o livro, puxou sua bolsa para perto de si, tirou os óculos, arriou a cabeça sobre os braços na mesa, fechou os olhos e adormeceu.
Fiquei ali, ainda sem acreditar no que estava vendo, observando a cena inédita: uma mulher dormindo numa praça de alimentação de um shopping center na época do Natal! Recuperei-me do susto e senti inveja da serenidade daquele rosto. Resolvi velar seu sono. Talvez fosse um anjo e anjos precisavam de paz.

4.12.06

Afrodite nos inspira

Preparou-se com afinco para ler o livro de sua amiga sobre mulheres comuns. O texto, porém, seria sobre a Deusa Afrodite. Então, banho gostoso, creme de mel, hidratante, perfume francês, batom vermelho, camisola de seda. Incensos e velas. Uma boa música também seria fundamental. Afinal, Afrodite merecia.
Deitou-se na cama macia e se deliciou com a sabedoria de sua Deusa. De verdade, ela entendia a Alma feminina. Lembrou-se das inúmeras confidências de suas amigas que falavam sobre amor, sobre fazer amor, sobre carinho e respeito.
Se os homens pudessem ouvir as palavras trocadas ao redor de uma mesa ou de uma fogueira, compreenderiam que as mulheres são tão diferentes deles em seus anseios mais secretos. E, aí, quem sabe, as diferenças não seriam vistas como ‘algo inferior’, mas seriam aceitas como a riqueza da diversidade.

3.12.06

Medo

Quero me convencer que tudo acabou. Meus sonhos me traem e minhas lágrimas teimam em sair por você, apenas por você.
Minha saudade é para você.
Meu melhor sorriso é para você.
Minha alegria é para você.
Se sinto que minha vida pulsa por você, por que não me mexo? O que me impede de sair pelo mundo gritando o meu amor? O que me impede de olhar para você cara a cara? Por que não luto pela chance de viver esta história de amor?
Percebo quando me chama. Meu coração começa a derreter bem devagar. Um calor gostoso vai tomando conta do meu corpo. Um risinho surge no canto da boca. Meus olhos brilham mais que a mais forte das estrelas.
Do que tenho medo?
Da vida.

Gaiolas de Ouro


Fazia tempo que não andava a pé pelas ruas. O dia estava lindo com o céu sem nuvens. O brilho do sol deixava douradas todas as plantas do parque. Pássaros embalavam com sua melodia as brincadeiras das crianças. O perfume das flores era tão forte que a deixava um pouco zonza.
Sentou-se num banco e começou a olhar o movimento. Adultos faziam exercícios físicos em busca da saúde perfeita, do corpo perfeito. Existiria corpo perfeito? Como se poderia ter um único modelo para o belo?
De repente, olhando para as varandas dos prédios luxuosos, viu uma cheia de gaiolas de passarinho. Ficou com um coração partido. Aquilo era uma tortura. Prender passarinhos e tirar-lhes a liberdade de voar, tendo como paisagem um parque cheio de árvores e de outras aves com o direito de ir e vir quando desejassem! Isso era uma tortura. Seu coração chorou e lágrimas caíram de seus olhos.
Lembrou, então, que muitas pessoas também vivem assim, presas em gaiolas de ouro – casamentos, empregos, profissões, modelos de beleza -, tendo como tentações a imensidão do mundo, as inúmeras possibilidades de serem livres e felizes. Só que existe uma diferença entre pessoas e passarinhos presos em gaiolas: aquelas podem abri-las.
Agora quem chorou foi sua Alma.

30.11.06

Tiremos a pele de asno

Ao completar oito anos, minha mãe me deu um livro de Contos de Perrault, traduzido por Monteiro Lobato. Tenho este livro até hoje e a história que li quando criança está transcrita nesta reflexão amorosa que trago agora. É amorosa mesmo, porque não posso falar de contos de fadas sem ser pela linguagem do amor, do amor de mãe-filha, do amor do adormecer ouvindo histórias através da voz amada, do amor que me confortava e me dava coragem para enfrentar os meus medos e sonhos ao acreditar que se tinha dado certo para as personagens daria certo para mim também. É o amor e a segurança de um ninho de amor e a crença de que a vida é bela e no final tudo termina bem.
Foi assim a minha relação inicial com os livros, com as histórias encantadas e esse amor me acompanhou a vida toda, fazendo com que eu adorasse ler, com uma paixão intensa, emocionando-me ao entrar numa livraria, deliciando-me ao folhear as páginas de um livro, libertando-me através das palavras mágicas de uma história ou de um poema.
Com esse mesmo amor, contei histórias para os meus filhos. Histórias de livros, histórias de boca, histórias ouvidas e repetidas no aconchego de minha cama, onde a plenitude se instalava ao vê-los de pijamas, mamadeiras e fraldas, e a minha voz repetia o mesmo ritual de amor que vivi quando a criança ainda era eu. Assim, eu estava dizendo a cada um deles um ‘eu amo você, a vida é bela, tudo vai dar certo e você vai ser feliz para sempre’. Ainda hoje, de vez em quando, repetimos esse mesmo ritual e, magicamente, ficamos completamente preenchidos de amor.
Quando criança, ganhei uma máquina de datilografia rosa-choque. Foi a glória. Ali iniciei a minha carreira de escritora, aprendendo a fazer casas de livros para outras pessoas morarem nelas e nelas sonharem, como conta Lygia Fagundes. Hoje, o notebook ocupou o lugar da minha máquina – que está num lugar de honra no quarto de minha filha – e as histórias não estão apenas nas folhas de papel, mas estão espalhadas pelo mundo através das páginas da internet. Os textos ainda são científicos, em sua maioria, mas, aos poucos, os dedos vão tomando vida própria e toda minha alma vai entrando em transe e a história começa... Era uma vez...
Escolhi Pele de Asno como o conto de fadas da minha vida. Além de representar um vínculo amoroso com minha mãe, uma viagem ao tempo seguro da infância, descobri, já adulta, que tive que colocar uma pele de asno para encobrir a minha beleza, o meu potencial criativo, a minha inteligência, a minha liderança, enfim, o meu modo singular de ser no mundo e de brilhar. Não é nada fácil para uma mulher, numa sociedade patriarcal, assumi a sua força. Enfrentei muita exclusão, solidão e isolamento porque era muito inteligente, porque só tirava dez, porque inventava formas incríveis de apresentar meus trabalhos, porque era sempre eleita representante de classe, porque era bem-feita, porque minha família era uma delícia (apesar das dores), porque meu namorado me amava, porque minha poodle era linda, porque me comunicava com o coração. A inveja foi um sentimento muito forte e destrutivo no meu caminhar e fiz o que pude para esconder do mundo e das pessoas que eu amava, que faziam parte do meu círculo pessoal de amizades, o meu brilho, com medo delas fazerem a mesma coisa que as colegas da escola e, depois, do trabalho, usando-me quando precisavam dos meus conhecimentos, do meu cérebro, e me ridicularizando e isolando, machucando o meu coração e a minha alma.
Foi tão forte esse sentimento de exclusão e de uso, de não ser vista e amada como uma pessoa inteira, que troquei de colégio só para não ser mais reconhecida apenas pela minha inteligência. Quantas vezes não fiquei calada para não dar a resposta certa e ser mais uma vez excluída do grupo, desejando com toda a minha essência ser apenas ‘medíocre’!! Quantas vezes não rebatia alguns elogios que surgiram mais tarde nas minhas relações profissionais, sempre apontando algum defeito, para que não fosse mais uma vez rejeitada!!
Depois de muito chão de vida – hoje, aos quarenta e poucos anos – e de muita terapia, pude tirar minha pele de asno, sem medos e sem precisar fugir, e comecei a assumir o meu potencial e as minhas dificuldades com muita tranqüilidade. Como me comunico muito bem, tenho arrasado em palestras, aulas, programas de televisão, artigos e até já consegui colocar na internet um site (www.caleidoscopio.psc.br), onde compartilho o meu caminhar.
Trabalhando com mulheres em oficinas que têm o objetivo de resgate do feminino, observo que muitas delas também usam suas peles de asnos para esconderem o seu potencial, pois se sentem ameaçadas pelos seus maridos, seus filhos e até pelas suas amigas. Que esse texto possa ajudar cada uma delas a tirar a pele de asno e assumir o seu destino de brilho e felicidade!!

Minha cidade

Como seria viver numa cidade que não fosse banhada pelas águas? Como seria viver longe do mar de águas mornas? Como seria viver longe dos rios e dos manguezais? Nada de caranguejo, guaiamum, agulha frita, sururu, camarão, moqueca de peixe. Nada de água de coco, de lama de coco. Nada de lama de gente. Pontes, morros, planícies. Frevo, maracatu. Bondes e casarões antigos. Cores - de casas, de frutas, de flores, de árvores. Pipoqueiro, quebra-queixo, algodão-doce, cuscuz na porta. Macaxeiiiiiiiiiiira, quem não come cheira. Corais, peixes, arraias, mergulhos no fundo do mar. O luar refletido nas águas.
Uma beleza que sempre me encanta. Pontes que unem ilhas e, principalmente, pessoas.

26.11.06

Meu encontro com o Recife Antigo

Esse negócio de ser escritora é bem mais complicado do que eu pensava. Na última quinta-feira, tivemos a aula da Oficina de Textos, coordenada por Antônio Guinho, no Recife Antigo. A ordem era andar pelas ruas, escrever o que quisesse e depois voltar para compartilhar tudo com a turma, numa mesa do bar que serve o melhor e mais tradicional maltado da cidade.
Lá fui eu, de prancheta na mão, sob sol escaldante, observar o Recife Antigo e torná-lo meu, através do meu encontro com ele.
Andei pelas ruas, parei em praças, entrei em museus. Registrei tudo com frases curtas, observações, anotações sobre sensações – como cheiro de xixi ou cheiro da água da fonte -, e divagações para outros tempos naquele mesmo espaço geográfico.
Viajei... Vi-me naqueles casarões, com vestidos longos e sombrinhas, passeando pelas ruas e indo tomar o bonde – ainda há trilhos!! – para encontrar-me com meu amado.
As pedras das ruas ainda cantam canções dos carnavais de outrora. O fiteiro ainda conhece as damas da vida que prestam seus serviços nos sobrados antigos para homens que não querem ser vistos na sua procura por um pouco de fantasia. Hoje, a cidade tenta esconder este segredo escondendo as janelas com tijolos. A modernidade tenta se impor àquele recanto de histórias com empresas de tecnologia. Mas a cidade resiste. Homens conversam na calçada e já planejam o próximo carnaval, como se fizessem um esforço para manter a época de alegria, beleza e liberdade dos bons tempos e lutassem contra a decadência que teima em se instalar.
Árvores antigas e enormes palmeiras têm muito que contar. Lembrei-me de meus tempos de crianças quando brincava saltando pelas raízes expostas das árvores. Os lampiões nas ruas me remetem à pergunta: será que já foram de gás?
O batuque do maracatu favorece um transe. De repente, uma mulher bate no meu braço e pergunta:
- Essa menina, você sabe me informar onde é que tira xerox aqui?
A voz me soa longe e me força a voltar para o aqui e o agora. Acho tão estranho. Onde estou?
- Não tenho a mínima idéia, respondo.
- Muito obrigada, diz ela e sai procurando por outra pessoa que possa lhe dar a informação.
Percebo que no Recife Antigo de ‘agora’, há pessoas que trabalham, que vivem o seu corre-corre e que já não se encantam com o cenário esplendoroso dos casarões e ruas antigos e com a suave brisa do mar que sopra para aliviar o calor. No entanto, há pessoas que viajam milhares de quilômetros para conhecer aquele pedaço de história e que ficam encantados com tamanha beleza, tentando fotografar cada detalhe para garantir a lembrança caso a memória não lhes seja fiel. Como antigamente, quando portugueses, holandeses, africanos e brasileiros conviviam juntos, a cidade ainda acolhe a diversidade. O sol brilha intensamente para todos.
Dentre todas essas pessoas, uma me chama a atenção. Como eu, ele também tem um bloco de papel e uma caneta nas mãos. Olha, olha e registra o seu olhar no papel, não com palavras ou desenhos, mas com rabiscos. Fico um tempo só olhando para aquele homem de chapéu, já idoso, com orelhas e bigodes grandes e um rosto cheio de rugas, marcas de sua história. Segura o lápis com leveza e arqueia a sobrancelha toda vez que vai colocar traços no papel. Encanto-me com sua doçura. Lembra um beija-flor. Não tenho coragem de invadir sua ingenuidade.
Vejo que já está na hora do maltado e da conversa com a turma no bar. Estou feliz. Sentamo-nos à calçada, na mesa do bar, sob a sombra das árvores, e começamos a leitura dos textos. Um menino negro, que toma conta dos carros, coloca as mãos na cintura e fica em pé ao nosso lado para ouvir nossas histórias. Cada uma das escritoras criou uma história, menos eu.
Fico me perguntando: serei eu realmente uma escritora?
Isso eu ainda não sei, mas sei que consigo encantar-me com a vida, pois foi vida, apenas vida, o que encontrei por lá.

23.11.06

Mudar? posso.

Há um mês dei uma guinada geral em minha vida. A princípio, pensei que fosse uma mudança apenas na minha vida profissional. Ledo engano. Mudei por dentro e, então, mudou tudo.
Tomei a decisão de deixar de ser psicóloga para me dedicar à vida de escritora. Percebi que tinha um longo caminho a percorrer como escritora e queria ter tempo para ler, escrever, navegar na internet, viver a vida em outro ritmo.
Com muita dor, fui avisando meus clientes, fui vivendo o luto com eles e encerrei as atividades de consultório. A psicologia me deu muito. Compartilhando dores e sonhos de outras pessoas, aprendi que bem/mal são duas faces da mesma moeda. Entendi que tudo tem um porquê e que o ser humano é maravilhoso em sua diversidade. Não existe uma única forma, um único modelo para a gente ser feliz.
Por que tomei esta decisão neste momento de minha vida? Num mergulho lá no fundo de minha alma descobri que durante minha vida fiquei sempre nos bastidores, sendo a boazinha, pensando nos outros antes de pensar em mim, priorizando a responsabilidade. Para desempenhar o papel de cuidadora, na sociedade pós-moderna, nada melhor do que ser psicóloga. Minha poltrona era meu grande útero e minha sala me escondia da vida.
Agora, depois de muita terapia, posso assumir meus desejos e, principalmente, meu discurso. Por isso, percebo hoje, permiti-me fazer a Oficina de Textos. Mas psicóloga não pode sair por aí contando seus segredos, pois funciona apenas como um espelho de seus clientes. Como eles se sentiriam ao lerem minhas dores, meus sonhos? Então, compreendi que precisava ter total liberdade para escrever sobre mim, para assumir a minha autoria. Veio a ruptura. Vida nova.
Tenho tido tempo para tudo que imaginei. Leio, escrevo, pesquiso, vou a livrarias. Caminho, tomo banho de mar, medito, ouço música, acendo incenso, bebo chá. Converso com amigas. Fico mais com minha família. Amo e amo e amo.
Quando deixei de ser analista de sistemas para ser psicóloga, pensei que nada poderia ser mais difícil que a psicologia. Encontrei algo mais difícil ainda: ser escritora. Estou apenas engatinhando e não tenho certeza se um dia serei boa escritora, como fui boa analista e boa psicóloga. Mas gosto da possibilidade de numa mesma vida poder viver várias vidas. E sem precisar morrer e reencarnar. Mágico, não?