Há algum tempo trabalhamos com grupos de mulheres e também aprendemos com nosso próprio caminhar sobre a construção do feminino. Nascemos fêmeas, mas nos tornamos mulheres a partir das interações com nossos grupos culturais. E podemos garantir que as fêmeas do ocidente neste início do século XXI estão feridas.
No princípio dos tempos, as mulheres estavam em contato com sua natureza, viviam de acordo com seus ciclos e eram respeitadas na comunidade, pois sangravam, geravam novas vidas e nutriam os filhos. A natureza fornecia as metáforas para significação do papel das mulheres: geravam e nutriam, tal qual a Mãe Terra; sangravam de tempos em tempos, da mesma forma que a Lua. Também guardavam a memória de seu povo e transmitiam sabedoria através das histórias contadas ao redor das fogueiras.
Com a caça, a criação de animais em cativeiro, as guerras, os machos puderem contribuir mais para a sobrevivência dos grupos e colocaram as fêmeas no lugar de ‘receptoras’ da vida que era gerada por eles. As mulheres, desvalorizadas, voltaram-se para a escuridão, assim como toda a sociedade.
De deusas a escravas. Esta foi a trajetória que as mulheres realizaram e na qual viveram durante muito tempo. Nos anos 1960, depois que o mundo precisou de sua mão-de-obra devido às guerras, as mulheres fizeram-se ouvir novamente: queimaram sutiãs, tomaram pílulas, disseram sim ao sexo livre, foram para o mercado de trabalho, conquistaram os direitos que só os homens tinham.
Para transitar no mundo masculino, as mulheres saíram de casa, vestiram terninhos, investiram com toda força na formação profissional e conquistaram o sucesso. Para isso, desconectaram-se de sua natureza primitiva, pois não poderiam disputar em pé de igualdade os espaços de trabalho com os homens se fossem respeitar o ciclo menstrual – as variações hormonais são enormes - e a necessidade de cuidar e alimentar as crias – como toda fêmea, têm os sentidos aguçados na fase que precisam cuidar dos bebês. Para não se sentirem inferiores aos homens, assumiram a forma masculina de ver o mundo, traíram sua essência e renunciaram à energia feminina. Pagaram um preço alto, muito alto.
Os homens ficaram assustados com as transformações. Exigiram que além do sucesso na vida pública, assumissem as tarefas da vida familiar e, assim, as mulheres tiveram que dar conta do trabalho, da casa, dos filhos, do marido. Claro que não conseguiram segurar a onda e surgiu a sensação de fracasso. Mulheres que investiram na vida profissional, sentiram-se fracassadas no lar. Mulheres que ficaram em casa, sentiram-se envergonhadas por não terem um diploma, um emprego, um salário. Todas se sentiram inadequadas.
Surgiram anúncios de absorventes que dissimulavam a menstruação, de celulares que permitiam uma conexão integral com os filhos em casa, de escolas que possuíam câmeras para que mães acompanhassem o dia a dia dos filhos. Surgiram o microondas, o fast food, o instantâneo.
Passamos a viver no mundo do artificial. Fugimos do natural. Vivemos mais felizes? Pesquisas indicam que crianças que ficam mais tempo longe das mães se tornam adultos mais violentos. Os consultórios de Psicologia estão abarrotados de crianças que se identificam com motoristas e babás, pois os pais estão ausentes, numa luta incessante para conquistas de novos bens materiais. Governos ampliam o período da licença maternidade para garantir uma vida mais saudável para seus membros, tanto psíquica quanto emocionalmente, na tentativa de diminuição dos custos com a saúde pública.
Percebemos que tomamos o caminho errado. Destruímos o planeta e a natureza nos ensinou que não somos superiores a outras formas de vida que compartilham conosco a Terra. Estamos, sim, todos interligados: árvores, rios, animais, rochas e seres humanos. O mito dos deuses humanos ruiu. É preciso que nos reconectemos com a natureza, que escutemos seus sinais. Não podemos experienciar um novo tsunami, onde só animais –os elefantes, por exemplo – percebem a eminência da catástrofe; precisamos reaprender a ler o mundo.
Acreditamos que um novo tempo já está sendo construído e o feminino renascerá em cada mulher, em cada homem, levando-nos de volta para casa, para a natureza. Como no princípio dos tempos, teremos como guias neste novo caminhar, as fêmeas reverenciando, sem vergonha e sem culpa, o Sagrado Feminino. As mulheres não mais imitarão os homens. Ensinarão com alegria que todo o Universo pulsa sempre no ritmo da vida. O feminino renascerá aqui.
“Viver é pulsar. É ser canal para que a Energia Cósmica faça – através de nós – o seu trabalho no mundo”. Sandra Celano
Venho aprendendo novas formas de ler o mundo. Agora, através da literatura, a arte tomou posse de minha alma. O Caleidoscópio é um brinquedo que muda a configuração de uma mandala a cada novo movimento. Acho que sou um Caleidoscópio.
27.3.07
21.3.07
Filme
Olhava pela janela do quarto e já sentia saudades daquela paisagem tão familiar. Não esqueceria as árvores, o céu azul, o canto do bem-te-vi, o barulho do mar, o cheiro de maresia. Onde encontraria de novo o colorido do jardim? Onde o vento sopraria com tanta suavidade? Onde o sol aqueceria seu corpo?Suas forças já se esvaíam. Chegara a hora de ir embora. Não queria mais ficar. As dores estavam insuportáveis e sabia que o fim, qualquer que fosse ele, aliviaria o sofrimento. Entregou-se. Fechou os olhos, respirou e partiu.
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Descobriu-se numa grande sala. De repente, à sua frente, uma enorme tela de cinema. Sem conseguir compreender o que estava acontecendo, viu sua vida começar a ser projetada, com direito a sons, imagens, cheiros, sabores e sensações. Tudo se repetindo, só que muito rápido. Percebeu como deixou de aproveitar momentos preciosos, como se descabelou por tão pouco. Viu-se pequena, encantando-se com o mundo que descobria. Ouviu seus sonhos da juventude. Experimentou o cheiro de café vindo da cozinha e sentiu o gosto da sopa de feijão preparada para seus filhos. Reviu todas as pessoas que foram importantes em sua vida. Família, amigos, amores. Também viu quanto os magoou com palavras duras. Passeou pela casa da infância, tomou banho de cachoeira, mergulhou no fundo do mar. Aos poucos foi compreendendo como endurecera, como deixara que as dificuldades tirassem o brilho que tinha nos olhos. Como fora boba. Olhando-se assim, de fora, sentiu uma enorme compaixão pela mulher que fora. Prometeu para ela que numa próxima oportunidade não repetiria os mesmos erros e, principalmente, não teria medo da vida.
6.3.07
Mulher comum
Interessante o que senti vendo as mulheres na reunião da empresa que vende produtos de beleza. Mulheres comuns, sem tanta intelectualidade, sem tanta elocubração. Mas senti, ali, a essência da energia feminina: força, garra, esperança, alegria. Quantos sonhos enchiam aquela sala! Ao mesmo tempo havia tantas feridas no feminino! A líder do grupo estava longe de ser uma deusa.
Deve ser difícil coordenar mulheres, vender para mulheres e não estar em paz com a mulher que se reflete em sua face. Estou feliz por me tornar uma mulher comum. Que fantasias faço a esse respeito? Quero ser amada, desejada, protegida como uma mulher qualquer (não seria melhor, comum?).
Deve ser difícil coordenar mulheres, vender para mulheres e não estar em paz com a mulher que se reflete em sua face. Estou feliz por me tornar uma mulher comum. Que fantasias faço a esse respeito? Quero ser amada, desejada, protegida como uma mulher qualquer (não seria melhor, comum?).
27.2.07
Minha mangueira
Moro em um apartamento que tem como vista da varanda a copa de uma mangueira. Sempre me encantei com o presente que esta árvore maravilhosa me dá. Sinto-me privilegiada por viver um pouco numa árvore. Participo da sua floração; vejo os pássaros namorando e fazendo seus ninhos; ouço o zumbido dos insetos; aprecio o voltar para casa das aves nos finais de tarde. E, chupo suas doces mangas. Realizo o sonho de criança de ter uma casa na árvore.Essa minha amiga também é testemunha de minha vida. Esperou comigo o meu primeiro bebê. Deu-me sombra para que pudesse dar leite para meus filhos. Fez-me companhia nas madrugadas enquanto ficava acordada embalando-os na cadeira de balanço. Também me colocou em transe quando deitada na rede devaneava para mundos só meus.
O canto do vento em suas folhas já foi canção de amor e também já levou beijos de saudades. Como conhece minhas lágrimas, meus segredos, meus sonhos e esperanças, esta minha amiga.
Quando me sinto em labirintos sem saída, contemplo suas raízes, firmes, fortes, e, tal qual as inúmeras trepadeiras que compartilham sua seiva vital, sugo um pouco da solidez, da firmeza e da paz que ela emana e minha esperança por dias melhores retorna.
22.2.07
Coração na ponta do lápis
Noutro dia ouvi uma moça jovem, recepcionista de uma clínica mixuruca que realiza exames de sanidade mental para quem quer ter uma carteira de motorista, dizer que adorava escrever, pois escrever era para ela como colocar o coração na ponta do lápis. Fiquei encantada com a expressão - colocar o coração na ponta do lápis - e com a ingenuidade e força de sua autora. Deu-me uma inveja danada. Será que eu teria coragem de colocar meu coração numa ponta de lápis? Poderia o meu coração tornar público seus segredos? Um simples lápis poderia retirar todas as máscaras que uso para ir levando a vida e revelar-me para mim mesma? Lembrei-me de Vinicius de Moraes. O lápis dele tinha o seu coração na ponta. O coração do poeta não tinha medo. Exercia plenamente sua função e amava, e amava e amava, sempre, infinitamente, enquanto durasse o amor. Já o meu, cheio de medos, anda meio envergonhado, preso, sem liberdade de expressão. Nem chorar ele tem conseguido. Pode um coração amar e não sofrer? Será que vale a pena não sofrer e não amar? viver a vida morninha, sem o calor de um grande amor e quando a morte chegar, olhar para trás e perceber que a vida de verdade não foi vivida e sim, perdida?
12.2.07
Apocalipse?
Meu filho veio fazer uma entrevista para a escola e me perguntou qual tinha sido a notícia que mais havia saído na mídia durante a semana. Lembrei-me do caso do menino que foi arrastado por bandidos. Minha filha lembrou-se dos 100 anos do Frevo. Meu outro filho lembrou-se do relatório sobre o caos que a humanidade instalou no meio ambiente.À noite um programa de televisão trouxe o caso do menino, mais uma vez, exibindo entrevista com seus pais.
Fiquei pensando que estamos prestes a assistir a morte de milhões de pessoas por fome, sede, inundações, terremotos, furacões e tsunamis e quase não refletimos sobre isso. O que nos afasta deste fato? Medo, negação, alienação, descompromisso? Por que a morte de uma única pessoa nos comove mais do que a morte de milhões? Não pude deixar de perceber a importância da mídia na manipulação de nossas percepções de mundo. Mas acredito que há o fato de nos perdermos na massa e nos identificarmos com a singularidade. Também fica mais fácil culpar o bandido pela morte da criança do que nos responsabilizarmos pela destruição do planeta e pela morte de seres vivos.
O Apocalipse chegou não porque estamos sendo castigados pelos deuses mas porque não respeitamos a natureza. Triste, não?
9.2.07
Chegara a hora
Parecia que estava voltando de um transe. Sempre acontecia assim quando lia algum texto que sua alma ouvia. Depois da leitura, sentia um sono irresistível e seu corpo adormecia para sua alma sair e aprender em outros mundos. A leitura era apenas a forma de iniciar a aprendizagem.Lembrou-se de uma época em que vivia com sacerdotisas no alto de uma colina, perto do mar e da floresta. As mulheres eram verdadeiras deusas e sabiam muitos segredos como a cura com ervas ou ainda como prever o futuro olhando a água numa bacia. Era uma delas.
Agora, todo esse conhecimento estava sendo relembrado e, assustada com as implicações que essa descoberta teria em sua vida, desejou esquecer o que via e acordou.
Mas o sonho tinha sido nítido demais e seu coração batia descompassado.
Sabia que teria que reassumir suas funções de sacerdotisa, guiando, curando, orientando e protegendo as mulheres do seu tempo para que a energia da Deusa pudesse fluir livre novamente.
Pensou em sua família. O que diriam seu marido, seus filhos quando lhes dissesse que teria que partir, que não pertencia apenas àquela família, mas que servia à Deusa e Ela a havia chamado para realizar o trabalho que se comprometera antes de vir para Gaia desta vez?
Fazendo uma retrospectiva, percebeu que sua caminhada sempre havia sido conduzida por uma energia maior. Estava livre das obrigações e fardos mundanos, pronta para cuidar de si e de sua tarefa. Havia encerrado suas atividades profissionais anteriores para começar um novo ciclo. Seus pais, que dependiam dela devido às doenças que apresentavam, já tinham morrido. Seus filhos estavam crescidos e já não cobravam uma assistência contínua. E seu marido, como reagiria?
Viajou no tempo e viu-se criança na escola liderando um grupo de meninas. Sua primeira profissão foi numa área reservada aos homens. Mas, a Deusa necessitava que tivesse sucesso no universo masculino para que fosse respeitada por eles e que não tivesse medo da força dos homens, já que havia sido agredida outras vezes em outras vidas. Depois veio a exuberância da sexualidade e a maternidade a fez olhar o mundo de outra forma. Voltou-se para o universo feminino e mudou seu enfoque profissional. Aos poucos, a Deusa foi se aproximando e quando Se revelou completamente sabia que não poderia mais negar suas origens.
Como faria isso em pleno século XXI? Como realizar rituais que não assustassem as mulheres que ainda estavam adormecidas? Fez suas perguntas e pediu-Lhe orientação.
A resposta veio nítida: seus dons de sacerdotisa seriam manifestados através da arte, a arte seria a ponte que ligaria seu mundo ao Sagrado.
Seria escritora, claro. Era por isso que desde pequena adorava ler, escrever e passava horas em bibliotecas. A Deusa a havia conduzido até ali. Havia chegado a hora.
OBS: Imagem do Tarô da Deusa Tríplice.
8.2.07
Parabéns pra você!
Estávamos na Sibéria, numa noite fria, com temperatura de quase quarenta graus abaixo de zero. Éramos portugueses, italianos, chilenos, russos e brasileiros. Nosso encontro tinha como objetivo a aprendizagem dos conhecimentos dos xamãs siberianos. Não entendíamos as línguas dos outros e nos comunicávamos pela linguagem corporal e pela energia. Descobrimos que era o aniversário de um dos participantes e começamos a bater palmas no ritmo de “Parabéns pra você”; depois começamos a cantar a mesma música entoando lá-lá-lá; em seguida, cada um em sua língua nativa, continuamos cantando essa melodia que se tornou universal. Havia muitos sorrisos, abraços e alegria.Emocionei-me quando percebi a conexão que existia entre todas as pessoas que estavam ali. Vínhamos de lugares tão diferentes, com culturas diversas, mas respeitávamos uns aos outros. Sonhei, então, com um mundo em paz.
Os russos dizem que o mantra oficial dos brasileiros é ALEGRIA. Dizem que não entramos em contato com a morte, pois não temos o inverno rigoroso que eles têm e que nossa natureza é abundante em cores, cheiros e diversidade. Ficam impressionados com a liberdade que temos para vivenciarmos nossas crenças e se encantam com nosso ecletismo religioso. Freqüentamos a missa, passamos por um terreiro de macumba, vamos a um centro espírita e praticamos a meditação budista, sem problema algum.
Lembrei-me de nossa história, da constituição do povo brasileiro na miscigenação das raças. Lembrei-me da imensidão de nosso território com características geográficas tão contrastantes. Lembrei-me de nossos sotaques, de nossa culinária, de nossa música. Lembrei-me do mar, do cheiro de terra molhada, das cores e dos cantos dos pássaros. Lembrei-me das cachoeiras, das árvores, das onças. Lembrei-me do fundo do mar cheio de corais e de peixes coloridos, numa outra dimensão. Lembrei-me da saudade do Cruzeiro do Sul, sentida por Vinicius de Moraes quando estava no exílio. E, aí, lembrei-me do povo brasileiro, cheio de coragem, de fé e de esperança e, principalmente, cheio de alegria. Então, como Vinicius, chorei de saudade.
Ao descer do avião, todo o grupo de brasileiros cantava “moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza... e que beleza!”.
ALEGRIA!
7.2.07
Mulher macho?
Tenho lido muito sobre mulheres. Estou começando meu trabalho de pesquisa sobre as mulheres pernambucanas. Quero saber o que sentem e o que pensam sobre o fato de terem nascido fêmeas e terem aprendido o que é ser uma mulher, em diferentes locais e em tempos de vida também diferentes.Fiquei pensando sobre o que teria me motivado a buscar essas respostas e me lembrei de uma história contada pela minha mãe (Freud explica, claro).
Tive uma tataravó, moradora do interior pernambucano, que descobriu que seu marido estava tendo um caso amoroso com uma moça da região. Mandou seus capangas pegarem a tal amante, fez uma mistura com ervas, sal e pimenta e colocou tudo isso na periquita da mulher. Depois cortou os cabelos dela para que todos soubessem que era uma mulher sem-vergonha.
Foi denunciada na delegacia e quando chegou a intimação mandou meu tataravô ir até lá resolver a questão.
Durante muito tempo essa história foi contada com orgulho, pois demonstrava a força e a coragem das mulheres de nossa família. Será?
22.1.07
Jogo de palavras
Trabalhar com as palavras é fascinante. Lembro-me do filme Caramuru quando a índia fica brincando com o português sobre a nossa gostosa manga e a manga da camisa dele.
Também me lembro da época que, vinda da informática, iniciei o meu contato com a área educacional. Para mim, rede era de computadores, ou, no máximo, rede de balançar. Concordava quando diziam que a rede não prestava, mas só descobri depois de algum tempo que se referiam à rede pública de ensino e que eu estava falando da rede de computadores. O tempo passou, mas as redes continuam sem funcionar direito.
Tive outra experiência dessas quando minha professora de pintura em madeira me pediu para levar guardanapos e levei um pacote desses comuns. Que mico! Era para levar guardanapo pintado, desenhado, pois seria colocado na tampa de uma caixa. A mesma palavra, o mesmo objeto, só que com significados diferentes para mundos diferentes.
E se pensarmos nas cadeias de associação de palavras quando ouvimos, por exemplo, a palavra amor, ou saudade, ou desejo, ou tesão. Cada um de nós vai pensar e sentir de uma forma diferente, única, singular. Por isso, um texto sempre dependerá da posse de seu leitor.
Também me lembro da época que, vinda da informática, iniciei o meu contato com a área educacional. Para mim, rede era de computadores, ou, no máximo, rede de balançar. Concordava quando diziam que a rede não prestava, mas só descobri depois de algum tempo que se referiam à rede pública de ensino e que eu estava falando da rede de computadores. O tempo passou, mas as redes continuam sem funcionar direito.
Tive outra experiência dessas quando minha professora de pintura em madeira me pediu para levar guardanapos e levei um pacote desses comuns. Que mico! Era para levar guardanapo pintado, desenhado, pois seria colocado na tampa de uma caixa. A mesma palavra, o mesmo objeto, só que com significados diferentes para mundos diferentes.
E se pensarmos nas cadeias de associação de palavras quando ouvimos, por exemplo, a palavra amor, ou saudade, ou desejo, ou tesão. Cada um de nós vai pensar e sentir de uma forma diferente, única, singular. Por isso, um texto sempre dependerá da posse de seu leitor.
12.1.07
Sonho realizado
Às vezes achamos que os nossos sonhos não podem virar realidade. Mas na verdade o que não temos é coragem para realizá-los.Há algum tempo escrevi um texto sobre como seria um dia mágico para mim. Todo mundo que leu, adorou e ficou sonhando com um dia igual também. Parecia impossível, acordar numa praia, ir meditar logo cedo, vendo o sol brilhando nas águas mornas do mar, tomar suco e caminhar, com bichinhos lindos na areia; depois, um banho de mar cercada por peixes. Café quente, rede, bons livros, boas companhias. Mais banho de mar, com a lua nascendo e o sol se pondo; noite cheia de estrelas, uma boa música no ar e um bom vinho.
Pois este tem sido o meu cotidiano agora. Sonhei, acreditei, arrisquei, ousei, realizei.
Seu desejo é uma ordem, diz-nos o Universo.
Estou feliz.
26.12.06
Caduquices?
Venho notando que ando meio esquisita de uns tempos pra cá. Comecei a fazer faxina na casa, na casa de praia, no consultório, nos livros, nas pastas – até nas de mails. Reorganizei os altares que tenho e que agora são três, já que tenho três espaços sagrados (casa, praia e consultório). Revi agendas antigas, cadernos de anotações. Até que fiquei satisfeita, pois não encontrei muita coisa que deixei de fazer e, sim, muita coisa que gostei de ter realizado.Notei também que os aparelhos eletrônicos com os quais me relaciono começaram a demonstrar vida própria, pois não desligavam quando eu repetidamente apertava o OFF e só ligavam quando queriam, por mais que eu apertasse o ON.
E, como a Emília de Lobato, danei-me a pensar umas coisas malucas a partir do que venho lendo, vendo, ouvindo e experienciando.
Descobri, por exemplo, que a medicina ocidental trata do meu corpo físico, justamente aquele que vai ser comido pelas baratas quando eu morrer e que não vai mais me ser necessário com saúde do lado de lá! Acredito que a doença é uma linguagem da alma e que quando alguma coisa não vai bem na harmonização de tudo que somos nós, essa desarmonia se manifesta no corpo biológico. Para que o fluxo de energia siga seu rumo natural, faz-se necessária uma intervenção na causa deste 'entupimento do fluxo' que pode estar em qualquer um dos nossos corpos energéticos. Então, resolvi que se adoecer gravemente irei tratar de cuidar dos corpos que levarei quando da minha passagem para uma outra dimensão. Aliás, acho que já comecei a cuidar, pois tenho vivenciado muita coisa boa e saudável, como yoga, meditação, caminhadas, banhos de mar, dengo, carinho, sopas e chás, além de boa música e boa leitura.
Outra coisa que me peguei pensando foi sobre o processo de individuação de Jung, a harmonização dos chakras e o caminho das Deusas de Roger Woolger. Quando chegamos à Terra, precisamos da energia do corpo físico e a sobrevivência é o nosso objetivo. Ártemis é a nossa aliada. Passamos para a adolescência e Afrodite nos rege, pois a sexualidade vai ser a energia predominante, já que precisamos garantir a espécie. Sentimos a necessidade de conquistar o mundo, pois a nossa casa e o nosso corpo já não nos cabem. Hera nos ajuda a conquistar o poder, reinando absoluta na casa e fora dela. Aprendemos que precisamos colocar amor no que fazemos, pois só com os planos da razão ficamos no vazio e nesse difícil processo temos as bênçãos de Deméter. Ficamos tão sabidas que sentimos vontade de sair pelo mundo compartilhando tudo que aprendemos e Atena nos ajuda a enfrentar o mundo, mostrando-nos inteira. A maturidade vai dando lugar à velhice e aprendemos que não adianta conquistarmos o mundo senão conquistarmos o nosso interior e começamos um profundo mergulho na nossa alma. Ninguém melhor que Perséfone para nos guiar nesta viagem ao mundo das trevas. Para as que conseguem a iluminação, a Grande Deusa, Gaia, manifesta-se plenamente e temos a possibilidade de conexão direta com o Sagrado e podemos partir para outras moradas.
Por último, ouvi uma palestra em que falava que o número 666 seria o padrão energético da Terra e que o 999 seria o do 'Céu'. Pensei no 69 que conhecemos como uma posição do jogo sexual e me dei conta que é exatamente o símbolo do TAO, que é o Todo, o yin-yang, o encontro do feminino com o masculino. Fiquei encantada! Lembrei-me que quando nascemos o céu nos dá o mapa, as dicas, as orientações do que iremos viver aqui e que devem existir muitos outros sistemas simbólicos que nos acompanham e nos guiam na nossa jornada. Pena que não temos olhos para vê-los.
Claro que não canalizei tudo isso. Tenho aprendido com pessoas especiais, com autores maravilhosos, com poetas, com artistas, com mestres disfarçados de gente comum e, principalmente, com a vida.
Acho que sabem que estou fazendo um curso para liberar a criatividade na minha produção escrita. Então, fica a pergunta: ficção ou realidade?
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