13.9.11

O dia ainda não amanheceu de todo. A cidade ainda está com suas luzes acesas, há muriçocas pelo quarto e os passarinhos começam a despertar. Enfeitiçam-me com seu canto. Acordei e fui cumprir meu primeiro ritual matinal. Abrir a varanda, respirar o ar puro, sentir o cheiro de terra molhada, ouvir o silêncio. Depois abrir a porta do quarto, abrir a janela do corredor e fazer vento. De repente, olhei para o céu e me deparei com ela, enorme, linda, poderosa, exuberante, uma verdadeira rainha, amarela e iluminando o céu. Noite de lua cheia. Achei graça porque hoje visitou meus sonhos e brincou de rodar bem depressa, gerando um brilho diferente.


- Bom dia, Majestade!

Desci as escadas e fui tirar a proteção noturna para evitar – ou melhor, tentar evitar – que o timbu coma a refeição de Hércules. Agora, aqui em casa, temos como hóspedes freqüentes um timbu (um tipo de rato, roedor) e um gato. O morador oficial é um cachorro. Todos convivendo em harmonia. Há rãs, aranhas, lagartixas, ziguezigues, borboletas, pássaros, pavões, siriemas, sagüis, tô-fracos, algumas abelhas, formigas, cupins (estes estão comendo tudo), pombos, morcegos, águias. Como diz minha filha, uma verdadeira Arca de Noé. Cheguei à varanda para apagar o abajur de luz verde e ouvi muito claramente o canto de um pássaro. Procurei com mais cuidado e o descobri morando dentro da casinha de nosso sino dos ventos que fica pendurado junto das plantas. Lindo ver sua cabecinha para fora.

Subi e resolvi escrever. Não dava mais para voltar a dormir sem transformar em palavras, minha forma de oração, todos estes meus encontros com o Sagrado. Aliás, Ele tem falado um bocado comigo. Tenho sonhado muito, conversado com os Elementais – fadas e duendes por toda parte-, sentido a presença quase física de alguns e algumas que já se foram, reverenciado os Quatro Elementos, percebido a energia das pedras e das plantas. Ontem, enquanto colocava água no jardim, chegaram duas pavoas e ficaram ao meu lado dando os seus gritos mágicos. Quando me sentei para ler na varanda, surgiu a algazarra dos tô-fraco. Meu marido lia na rede, o sol estava indo dormir e fiquei encantada com a Divindade daquele momento. Fazer Amor, então, é, para mim, uma das formas mais Iluminadas Dele se manifestar. A emoção é tanta que muitas vezes precisa ser expressa em lágrimas. Acompanhar meu marido nos instantes em que está registrando o Sagrado é um outro jeito de rezar. Também sinto assim quando ouço o som de uma folha caindo, varro o jardim, passo roupa, faço café e leite batido, ponho a mesa com uma louça bonita. Lindas estão as toalhas que inventei e que deixam mais belos os encontros da família em volta da mesa. Lembro que Neruda falava que a criatividade em si era tão forte que precisava se expressar de diversas formas. Guardando as devidas proporções, comigo também é assim. Crio, crio, crio, em tudo que faço. E durante tanto tempo trancafiei a artista que habita em mim. Galo cantou. Bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi.

Há alguns anos, num encontro com um xamã siberiano, ouvi que estaria mudando de dimensão. Até que mudei, mas nada perto do que experiencio agora. Tenho mais consciência dos campos energéticos, estou mais sábia e sei transitar melhor através das várias freqüências de vibração energética, percebo os portais, converso com o tarô, vivo completamente imersa nessa dimensão que não sei nomear, faço bruxaria por aí, ajudando pessoas e lugares a terem mais alegria. O ritmo de vida é outro, os valores bem diferentes dos da maioria das pessoas com quem convivi. Talvez alguns dessem a todo este processo o nome de loucura. Prefiro achar uma palavra que traduza fielmente o que se passa em minha alma: felicidade.







Fotos: Roberto Arrais

23.8.11

Silêncio

Pavão cantou,
não ouviu.
Beija-flor voou,
não viu.
Rosa desabrochou,
não cheirou.
Borboleta pousou,
não sentiu.
Café ferveu,
não tomou.
Tô-fraco, tô-fraco, tô-fraco,
repetiu.
Sol nasceu,
não acordou.
Desistiu.

16.8.11

ho’oponopono


Foto: Roberto Arrais


Além daquela que gosta de viver de acordo com o ritmo da natureza, conversar com o sol, a lua e as estrelas, compartilhar o ambiente com plantas, animais e viventes do reino mineral, reverenciar os Quatro Elementos e os Elementais, também existe em mim uma outra que gosta de dar aulas, fazer palestras, contar histórias para crianças, conversar com mulheres, ajudar organizações a criarem um futuro melhor para o mundo. Minha alma fica em êxtase quando produzo, crio, invento novas formas de ser feliz. Às vezes sinto que a idéia surge do Nada (ou seria do Todo), outras vezes percebo que foi sendo tecida calmamente no tear dos meus saberes.
O que sempre me acompanha, em qualquer situação, é uma completa fé no Sagrado, uma certeza de que há algo maior que gerencia, se é que se pode chamar assim, o que acontece no Universo e que todas as coisas que surgem em nossas vidas são instrumentos para nosso desenvolvimento, no eterno processo de individuação. Por isso, quando sinto o Chamado, entrego-me sem medo, numa confiança absoluta. Este posicionamento já me levou para várias aventuras, que muitos chamariam de loucura, e me permitiu experienciar coisas maravilhosas.
Quando surgiu a física quântica dizendo que tudo é energia, senti que aí seria a minha praia teórica. Não vejo os campos energéticos, mas os sinto quase como algo físico mesmo. Isto me permite um relacionamento com tudo que há e a compreensão de que tudo que acontece em minha vida é fruto da frequência energética em que vibro. Não há culpa, mas responsabilidade. Se ainda não aprendi o que tenho que aprender, a vida me traz novamente a experiência, de uma forma diferente, dando-me uma nova oportunidade para evoluir. Sempre pensei e senti assim.
Porém, Reica, minha gurua, indicou-me um livro – Limite Zero – que fala sobre nossa responsabilidade com tudo que acontece no universo. Traz os conceitos do ho’oponopono, um processo de cura havaiano. Simples e muito profundo, como são as grandes verdades e seus mistérios. “Eu te amo”. “Sinto muito”. “Por favor, me perdoa”. “Obrigada”. O autor, Joe Vitale, relata seus encontros com o método e com o terapeuta Ihaleakala Hew Len. Conta sobre sua dificuldade de sair do controle das situações e viver sem fazer planos, deixando que o Sagrado defina quais caminhos serão trilhados. Há no livro provocações para quebra de paradigmas. Quando um pensamento é oriundo da memória e quando é fruto da Inspiração (entendo-se aqui que seria uma comunicação do Divino)? Ou ainda, “você se sentirá melhor quando deixar que o Divino tome conta de você”. Adorei tudo isso, pois já vivi situações em que fui apenas canal do Sagrado e, também, permito-me ser cuidada por esta Força Maior.
Um dos meus mantras favoritos: Deus proverá.
Que venha a Vida, essa grande aventura!

15.8.11

Cotidiano













Fotos: Roberto Arrais


5:30h... Hora de levantar. Desligo o arcondicionado, abro a porta da varanda, contemplo meu Recife acordando ao longe, sinto o cheiro de terra orvalhada, ouço o canto dos pássaros e o chamado do galo. Vejo a mata e depois, muito depois, uma muralha de prédios. Também chegam aos meus ouvidos o ruído de carros que já correm de um lado para outro num mundo que não é mais o meu. Levanto meus olhos para o céu e repito meu mantra: obrigada, Divindade, por mais um dia para ser feliz. Volto-me para o quarto, aliso a barriga de Hércules, solto beijos para o meu amado, ainda adormecido e completamente entregue ao mundo dos sonhos. Aliso sua barba branca, lembrando dos momentos em que é ela que me leva para o paraíso.

Desço as escadas, coloco água na chaleira, ponho a mesa com capricho, hoje na varanda, bato o leite dos meus filhos – com Nescau, Sustagen e Ninho -, coou o café, faço suco de laranja, asso pão com manteiga, pego as frutas e os quitutes da geladeira. Tudo pronto, hora de acordar minha família. Juntos à mesa compartilhamos a paz que reina em nosso lar. Às vezes o timbu comeu a ração ou beliscou uma banana, às vezes sagüins vêm para a varanda. Os pássaros continuam seu canto e as árvores balançam suas folhas numa música que conseguimos escutar.
Os meninos vão para a escola, levados por meu marido, vou lavar a louça, ajeitar as coisas do nosso cachorro, colocar roupa na máquina, estender roupa no varal. Momento de oração. Acendo incenso, velas, colho flores. OM TARE TUTARE TURE SOHA. Leio a Bíblia, o Evangelho Segundo o Espiritismo, o Zohar. Também faço meus rituais de limpeza, minhas orações de proteção e prosperidade, minha conexão com os Quatro Elementos e os Elementais que habitam meus jardins.
Dou uma olhada na internet, vejo o que o céu tem a me dizer, desço para meu canto sagrado para escrever. Mais uma vez, incenso, vela, fonte, flores. Escrevo, aprendo com as Cartas do Caminho Sagrado, medito sentada na grama, alinhada com as energias do céu e da terra, recebendo diretamente a energia do sol. Sinto minhas mãos aquecidas, bem no centro, e espalho para o mundo a energia que canalizo. Água para as plantas. De repente, uma pavoa passeia pelo jardim e fixa seu olhar no meu. Reverencio-a e sigo meu caminho. Agora é vez do tô-fraco emitir seu canto, sentado num galho do pau-brasil. Pássaros, borboletas, ziguezigues, rãs e lagartixas compartilham comigo este mundo encantado. Percebo claramente que vivemos num reino mágico, protegidos pelo portal da mata. Gosto de ouvir o silêncio que me permite escutar o som de uma folha caindo. Hora de ler um pouco, ainda na minha sala, cercada por meus livros e objetos que contam um pouco da minha história.
Organizar o almoço. Desta vez fazemos a refeição na mesa da sala. Suco, vinho, sorvete com licor e muita conversa. Tirar a mesa, lavar os pratos, passar a roupa. Quando estou passando ferro nas camisas dos meus amados, sinto uma emoção enorme, pois sei que estou cuidando de objetos que irão protegê-los, aquecê-los. Também fico feliz quando reconheço entre as peças, algumas que já pertenceram ao meu pai. Meu marido trabalha no andar de cima, colhendo as imagens que já registrou com seu olhar amoroso.
Preparar o chá das cinco numa linda mesa no jardim. Bolo, biscoitos, louça com flores, bandejas pintadas por mim. Completamente integrados à natureza, lanchamos, conversamos, fazemos planos, caminhamos abraçados ao lado dos outros habitantes do jardim, alguns até invisíveis. Arrumar tudo. Ler mais um pouco.
Chegou a hora do jantar. Todos juntos colocamos a mesa, assamos pão, fritamos ovos. Mais uma vez, um momento mágico, compartilhando os acontecimentos do dia. Lavar a louça, organizar a cozinha. Tomar banho quentinho, escrever, ler, agradecer, dormir abraçadinha ao lado do homem que amo, aprender com os sonhos.
Está sendo assim meu cotidiano. Exatamente como sonhava há anos, mas ainda não tinha conseguido deixar claro para mim mesma esse desejo. Lembro que uma amiga, da época da faculdade de informática, falava que eu era diferente, que queria mesmo era ser dona de casa e não uma profissional de sucesso. Outra amiga me disse que eu queria isso, cuidar da casa, dos filhos e do marido, porque já tinha provado para mim mesma e para o mundo que era capaz de realizar grandes coisas no mundo do trabalho. Talvez esta análise esteja correta, mas não sinto saudade alguma do tempo em que era executiva, pegando avião de manhã, participando de reuniões e voando de volta à noite. Adorei ter diminuído a quantidade de energia nas atividades intelectuais e ter curtido o crescimento de meus filhos, acompanhando as aulas de natação, as brincadeiras à tarde, os passeios na praça para dar pão aos peixinhos. Saudades eu sinto da hora que os colocava para dormir, sempre contando histórias que embalavam o sono dos meus anjinhos. Cresceram e sou imensamente grata ao Sagrado pela oportunidade que tive de compartilhar com eles estes momentos lindos. Também me lembro com carinho das conversas com minha mãe, das horas exatas das refeições com meu pai. Já se foram e tive deles o melhor.
Feliz, muito feliz, com a jornada que realizei, com as escolhas que fiz, com os caminhos que trilhei. Não sinto a mínima vontade de retornar ao mundo lá de fora, de viver desconectada do ritmo da natureza e de seus ciclos. Não me imagino mais como uma executiva, sem poder conversar com o sol, a lua e as estrelas. Talvez, para muitos, minha trajetória se traduza em fracasso, visto que o retorno no ter é insignificante. Aprendi, com Pessoa, que primeiro preciso ser inteira, para então ser grande. E, aí, sim, é só se deixar fluir no fluxo da abundância, da prosperidade, da saúde, da paz e do amor, pois estarei sendo a parte que me cabe, em harmonia com o Universo.

3.8.11

Fazendo justiça à sua alma linda.

Roberto Arrais, o fotógrafo, ao pegar na máquina, toca-a com o carinho que toca a mulher amada, buscando suavemente o ponto exato do êxtase. Nunca a deixa abandonada num canto qualquer, pois sabe que é através dela que faz poesia. Abre um largo sorriso no instante em que seus olhos capturam uma imagem que vai se transformar no eterno. Olhos mágicos os seus! Pode ser um pôr-do-sol, uma flor, um animal, uma árvore, um sorriso, uma lágrima. Foto alguma de Roberto Arrais é desprovida de significado. Não retrata a realidade, no sentido descritivo do termo, pois coloca sempre doçura e esperança em tudo que faz e esses sentimentos permeiam o seu cotidiano. Se há a paisagem árida do sertão, há também a flor do mandacaru prenunciando a chuva que logo vai chegar, traduzindo, dessa forma, sua teimosa fé na vida. Com máquinas e lentes, à procura do melhor ângulo, empenha-se para registrar a beleza das coisas que ama. Seus olhos brilham como os de uma criança quando vê o resultado dos clics de seu trabalho. Ao vê-lo fotografar o Sagrado, fica difícil identificar onde começa e onde termina a Divindade, pois Esta fica diluída no fotógrafo e no foco de seu olhar. Roberto Arrais, o fotógrafo, é assim: puro amor.



Foto: Roberto Arrais

25.7.11

Sabedoria sertaneja

Visitamos o sertão nordestino novamente. Dessa vez, vivenciamos mais o cotidiano das pessoas que lá habitam e pudemos conhecer seus costumes, suas tradições, seus hábitos.

Moradores de cidade grande, tivemos dificuldade de incorporar a realidade de se comer o que a comunidade produz no local, sem as idas aos supermercados para comprar o que se tem vontade de comer. Chegamos numa cidade bem pequena na época de uma grande festa e havia muita gente visitando a região. Estava difícil encontrar ovos e galinha de capoeira – sim, isso é que é uma alimentação saudável. Raríssimos a carne de bode, a goma fresca, o coentro e o cebolinho. Leite de vaca, nem pensar. Queijo feito em casa, mercadoria rara. Mesmo com as restrições oferecidas pela situação, nossas anfitriãs cozinharam refeições deliciosas. Houve a procissão, com o andor enfeitado com flores da região, a missa e o famoso e esperado leilão, onde se paga noventa reais por duas cervejas geladas, setenta por uma galinha assada e ainda se manda tudo para a mesa do vizinho, num gesto de amizade, com o único objetivo de angariar fundos para as obras da igreja. Povo simples, hospitaleiro, totalmente conectado com o ritmo da natureza e os ciclos da vida. Lá nunca se ouviu falar dos conceitos da física quântica, mas o que se vive rotineiramente é a prova ‘científica’ que a ciência tanta necessita. Tudo está conectado e quando se experiencia este conceito na totalidade, a vida flui em harmonia. Há a seca, há as chuvas, há o sol, há a lua, há as estrelas. Também existem os rios, as plantas, as pedras, os animais, as pessoas. Os sertanejos percebem tudo isso vivo e interconectado.
Um fenômeno fantástico, que descreverei em detalhes depois, é a farinhada, onde um grupo de pessoas se reúne para produzir goma e farinha de mandioca. Aqui aprendi que é possível um trabalho em grupo, onde todos o fazem com alegria, sem competição, sem distinção de gênero, idade ou cor. Lindíssimo.
No trajeto da volta, as reflexões começaram a surgir. Fiquei feliz quando percebi que já mudei muito o ritmo do meu cotidiano, aproximando-me mais um pouco da sabedoria dos sertanejos. Claro que senti muita falta do meu banho quente, mas aprendi que água é um bem precioso e tomei banho frio e de cuia. É muito bom ser flexível.
Na noite em que retornamos faltou luz em nossa casa. Fomos para a varanda do quarto e ficamos olhando as estrelas. De repente, percebemos luzes piscando por entre as árvores. Vaga-lumes!, exclamamos encantados. Fazia tempo que não víamos essa magia e percebemos que sempre estiveram em nosso jardim, mas as luzes que iluminam nossa cidade impedem que percebamos o seu brilho.
Acredito que é assim com fadas, duendes e outras energias invisíveis. Estão ali, ao nosso lado, mas ainda não aprendemos a honrar sua presença. Lembro agora a música de Lenine que diz:
- Eu quero estar cercada, só do que me interessa.
Preciso aprender a me abastecer dessa energia linda, preciso aprender a chamar meus espíritos auxiliares, preciso me entregar e ser canal do Sagrado. Devagar, estou chegando lá. Também acredito que nossas escolhas constroem a realidade que vivemos e fiquei em êxtase quando notei que o tom da voz que eu usava para chamar o nome do meu amado numa livraria, para lhe mostrar algo do nosso interesse, era uma linda melodia, pois isso traduzia o encaixe perfeito do nosso encontro. Só que este encontro não aconteceu como por milagre. Cuidamos dos nossos jardins e as borboletas e beija-flores apareceram. Simples assim.
Saudade do sertão, saudade das tapiocas, da carne de bode, do café coado na hora. O bom é saber que podemos voltar.






Fotos: Roberto Arrais

6.7.11

Tudo


Foto: Roberto Arrais


Chegou, linda, em minha vida.
Levou-me ao êxtase.
Entreguei-lhe meu corpo.
Tomou para si meus pensamentos.
Ela quis mais.
Dei-lhe meu coração.
Achou pouco.
Exigiu minha alma.

28.6.11

Máscara

Lágrimas teimam em cair de meus olhos.

Inundam a argila de seu rosto e, aos poucos,

Revelam sua verdadeira face.

Vem e, enquanto lhe abro alma e corpo,

Apunhala-me o coração.

Sangrando, arranco-o de mim.

Ferida, com cicatrizes que o tempo não apagará.

Pensava dormir com um deus.

Enxergo uma coisa que ainda não sei o nome.

Vivo ou morro?

24.6.11














São João. Nordeste em festa. É fogueira, bandeirinhas e balões por todo canto. Fogos pipocam e iluminam o céu estrelado. Traque de massa, vulcão, bomba de fazer zoada, estrelinha. Canjica, pamonha, milho assado na brasa da fogueira, milho cozido, bolos, doces, vinho. Forró, do legítimo, com a sanfona colocando todo mundo num êxtase de alegria. Forró se dança agarradinho, dando cheiro no cangote do amor. Chapéu de palha, roupa de xadrez, fitas e laços. Mulher bonita, homem arrumado. Para completar, uma quadrilha improvisada, juntando os matutos numa roda só. Olha o serrote, olha a chuva, choveu, preparar para o passeio na roça, balancê, anarriê. O noivo quer fugir do casamento, o padre não sabe o que faz, o delegado coloca ordem e a noiva não fica a ver navios com seu bucho de grávida e sua fama de mulher falada.

Eita, tradição linda que não pode acabar! Meus pais já se foram, os filhos cresceram e cada um tem seus compromissos, mas fiz questão de enfeitar a casa, montar a mesa, soltar vulcão, comprar canjica e todos os outros quitutes juninos. Minha irmã viajou para o Rio de Janeiro, meu irmão está em Petrolina. Senti saudades da época em que estávamos todos juntos comemorando o São João do interior. Cheiro de fumaça, perfume de fogos. Lagoa dos Gatos me parece tão distante. Apesar de não ter sido como eu desejava, mantive a tradição. Dancei forró com meu amor, aproveitei com nossas famílias, show do Mestre Gonzagão na tela da TV. O momento de ver o vulcão subir, iluminando meu pedaço de céu, trouxe-me lágrimas de saudade.
Gonzagão, Sala de Reboco, Petrúcio Amorim, Geraldinho Lins, Dominguinhos, Sivuca, e tantos outros, estiveram cantando em minha sala. De repente, um som muito familiar, guardado nas lembranças de minha infância chegou forte e fiquei atordoada, perdendo-me no tempo e no espaço. Convidei a comadre Sebastiana... A, E, I, O, U e Psilone. Meu pai adorava cantar esta música e nos convidava para o coro. Que idade tenho? Onde estou?Adormeci entre a criança e a mulher que habitam em mim.

12.6.11


Dia dos Namorados! Sei que existe todo o discurso de que é uma data fabricada para o aumento do consumo numa sociedade capitalista. E até concordo com este idéia. Porém, acredito na força dos rituais, naquilo que é simbólico, e acolho este momento como uma possibilidade de se reverenciar o amor.

Celebro sempre a minha possibilidade de amar. É tão bom. Os amores já mudaram, mas meu coração, apesar de muitas vezes ferido, não perdeu a ternura e continua acolhendo novos encontros.
Gosto de realizar os sonhos daqueles que amo e fui abastecida de dengo por aqueles que me amaram. Lembro que já recebi jóia em caixa de fósforo, aliança dentro de uma rosa na beira do mar, bichinho de pelúcia, perfume francês, camisola. Já procurei discos especiais, perfumes cheios de tesão, camisas. Já preparei caixas cheias de segredinhos e de sacanagens deliciosas. Tudo foi muito gostoso. Claro que existem alguns traumas, pois não adianta preparar uma linda mesa, com velas, flores e vinho, se o seu amor está com a cabeça – e outras partes do corpo -, em outra pessoa. Vivi esta dor. Mas meu coração não se fechou e ousou preparar novas mesas para novos amores.
Tive Príncipe Encantado, vivo com um Rei. Sem tensão, com tesão. Companheirismo, afinidade total. Aliás, é tanta que compramos o mesmo presente para darmos um ao outro! Uma rotina simples e plena. Acordar junto, preparar café, dançar na varanda vendo o sol nascer, sonhar os mesmos sonhos, aprender um com o outro, deitar na rede e ficar abraçadinho ouvindo o canto dos pássaros, tomar banho de mar, ver filme comendo pipoca, ler histórias juntos antes de dormir. Encaixe de corpos, encontro de almas. Beijo na boca com gosto de quero mais. Como traduzir o que se passa lá dentro? Escrevo, fotografa.
Juntos há algum tempo, ainda sinto o coração bater mais acelerado quando o encontro ou fico toda derretidinha quando me torno público e apenas contemplo o grande homem, o meu homem.
Honro e reverencio os amores que tive e que me permitiram ser quem sou e hoje construir esta linda história de amor. Sorte é que não foi. Graças às transformações que vivi, tornei-me mais bonita e recebi as bênçãos das Deusas. Repetindo um verso do poetinha que muito entendeu de amor, ‘porque a vida só se dá pra quem se deu’. Eu me entreguei por inteira.

11.6.11

Nas minhas veias corre o sangue de Lagoa dos Gatos, cidade do agreste pernambucano. Minha mãe contava histórias de sua infância, com brincadeiras nas ladeiras à noite, com direito a comer um bolo inteiro escondida atrás da porta, com o desejo ingênuo de pedir para um avião cair e ela poder ver de pertinho. Também fui construindo minhas próprias memórias da cidade nas festas de São Sebastião, com sua enorme roda gigante, nas sessões de TV na praça, nos carnavais no mercado público e nos encontros com os “Ala Ursa quer dinheiro, que não der é pirangueiro”. Boca Preta, Boca Branca, Dona Malila e os desfiles de Sete de Setembro. Festas de São João com direito a forró pé-de-serra no terreiro da casa do sítio. As melhores lembranças são das famosas reuniões da família Souza Lira/Lira Souza (com I, porque o Y saiu de moda) na bica, com os tios assobiando na boca da garrafa de cerveja e marcando o ritmo com o toque de um talher, tudo regado a muita bebida, comida e frutas – jabuticaba, jaca, manga, caju, banana. Nesses momentos os filhos da terra voltavam a ser crianças e contavam as presepadas que aprontaram quando os quinze de Seu Manoel Antônio e Dona Zefinha alegravam a cidade e plantavam café. Havia também os banhos no açude, dividindo as águas enfeitiçadas da nossa terrinha santa com a lavagem de cavalos e carros. Bons tempos, belos dias e uma enorme saudade no coração.
Muitos já partiram para outra dimensão e a família deixou de se reunir por lá. Sempre acalantei o desejo de devolver para aquele pedacinho sagrado de terra o muito que havia nos dado – a mim e a minha família. Até que um dia, há alguns anos, tive a oportunidade de começar a realizar este sonho. Fui convidada para palestras em Panelas, Jurema, Cachoeirinha, cidades que ficam na região. Pedi, então, para me apresentarem alguém de Lagoa dos Gatos que estivesse engajado nesses projetos. Numa manhã em que estava trabalhando na Amupe, Roberto Arrais abre a porta e me apresenta a Secretária de Trabalho e Ação Social, Mille. Agendamos uma palestra e algumas semanas depois estava chegando naquele espaço sagrado para mim. O coração disparou, deu um nó no estômago, fiquei sem respirar, e o tempo não era mais o do relógio. Fui vendo e ouvindo nossas brincadeiras, a prima linda com seu violão, minha mãe, meu pai, meus irmãos, os primos. Voltei aos sítios, chorei, ganhei colo – acho que neste instante Roberto Arrais foi se tornando meu futuro marido -, fui encontrar a juventude deste tempo, que não era mais o tempo da minha família. Adorei poder estar lá, mas fiquei preocupada com a falta de esperança de alguns jovens. Resolvi que iria fazer alguma coisa. Voltei para outras palestras, Roberto se tornou meu marido, organizamos, com filhos e auxiliares, livros na feira, arrecadamos brinquedos. Tudo de forma voluntária.
Agora sou funcionária, ao lado de outras pessoas que sonham e constroem um futuro lindo para os que têm o sangue da terrinha ou que beberam de sua água e não conseguiram mais ir embora. Temos cinema, aos sábados à noite, encontro cultural – a 5ª. na Lagoa. Já estamos organizando um movimento com a juventude, realizamos seminários. Falo na primeira pessoa do plural, nós, porque lá na secretaria há uma equipe muito boa. Mas não posso deixar de destacar que tudo isso só está acontecendo porque um jovem gatense resolveu sonhar e realizar. A minha participação é apenas ajudar a concretizar os sonhos que povoam a lagoa.
Num desses seminários, comecei a falar sobre a questão da sexualidade:
- É, tem muita mulher que transa com o marido mesmo sem sentir vontade. Tem que servir, em troca de casa, comida e roupa lavada. Qual a diferença para uma prostituta que vende o corpo por dinheiro?
- Realizei um trabalho com crianças e uma delas perguntou, ‘tia, você já fez sexo aral?’.
- No trabalho de sexualidade na escola a gente não pode emitir juízo de valor. Por exemplo, se um aluno pergunta ‘tia, é certo transar por trás?’, não se pode dizer nem que sim, nem que não, porque esse é um valor de cada família.
Só que eu não sabia que o microfone estava aberto para toda a cidade!!!!!!! Imagino o que minha mãe estava pensando neste momento.
Descobri há pouco os quilombolas, as cachoeiras, as casas que servem deliciosas comidas. É uma cidade que se revela e que me encanta. Muito potencial para ser um lugar de gente feliz!

10.6.11




O que é preciso para ser feliz?

Lembro que esta pergunta fazia parte da música religiosa que ouvia em minha infância. Lá, a resposta era simples e eu já era feliz. Cá, neste tempo e lugar, a pergunta fica rondando meu juízo, provocando meu coração: o que eu preciso para ser feliz?
As coisas se complicaram e perdi a sabedoria da criança que fui. Toda intelectual, cheia de informações num cérebro cansado, não consigo fazer com que a mente me dê as respostas. Tentei achar minha alma perdida no caminho da vida profissional. Já fui tantas que até perdi a conta. Mudei, mudei, mudei e não me encontrei nestas estradas. Diplomas, cargos, salários, poder, aplausos... tudo isso me jogava num vazio e me deixava mais perguntas que respostas. Também tentei ouvir meu coração, mas ainda não sabia decifrar sua linguagem e segui rumos que entendia como meus, mas que me levaram para dor e sofrimento. Apesar de amar muito, a solidão sempre se fez minha companheira. Vivi a possibilidade de me sentir eu mesma nas relações com os amigos e as amigas que mantive por toda uma vida. Porém, no momento em que mais precisei de um ombro para apoiar meu corpo cansado, vi-me perdida, como num deserto, sem água e sem comida, sem carinho e sem apoio das pessoas que pensava ao meu lado para sempre. Se teve alguma parte de mim que me manteve ligada a quem de verdade sou, foi a maternidade. Ser mãe me tornou plena.
Fui buscando minha alma pela vida afora, procurando em esconderijos que imaginava além. Aos quase cinqüenta anos, para minha surpresa, descobri que desde o início me acompanha, tão perto, tão perto, colada mesmo, que nem dava para ver, porque, de verdade, estava dentro, lá dentro, num lugar que só se ilumina quando a gente entende que a maior viagem tem que ser em direção àquele encontro cara a cara, quando a razão se curva com humildade diante da grandiosidade do sentir.
Começo a achar algumas respostas. Para ser feliz, preciso desacelerar, preciso ficar mais tempo perdendo tempo e, assim, apreciar mais as belezas da natureza, acompanhar o ciclo da vida. Não quero aprender apenas a pensar – isso já nasci sabendo. Delicio-me com o belo, com o simples, com a sabedoria que vem daqueles que caíram na chuva e se deixaram ensopar. Preciso ficar mais na rede ou no banco do jardim, abraçada com meus amantes, os livros, que me levam para mundos fantásticos. Preciso tomar banho quente, ou de chuva, ou de mar. Preciso de café forte, de suco de laranja feito na hora. Preciso ouvir disco na radiola e dançar agarradinha vendo o sol nascer. Preciso sentir cheiro de terra molhada e deixar que meus pés deslizem na grama orvalhada. Preciso ouvir passarinho cantar, árvore balançar e chuva cair no telhado. Preciso traduzir em palavras esse turbilhão de imagens que me fazem sentir que sou artista.
Li uma frase linda que dizia que “a missão de todo artista é não deixar o sonho morrer”. A arte preenche os vazios com significado.
Oxalá consiga ficar assim, vivendo meus presentes em completamente mergulhada na arte!