6.1.12

Foi assim. Aqui em casa começou a aparecer uma gata. Comia a comida de Hércules, o cachorro, depois começou a dormir no sofá da varanda. De tanto que insistiu, eu, que tenho medo de gatos, resolvi comprar uma ração específica para ela. Quando descia para colocar sua refeição, enroscava-se em minhas pernas pedindo carinho. Vi quando transou com um gato que também circula pelos jardins e fiquei no aguardo de sua ninhada. A cada dia, mais intimidade criava. Ficou deitada na minha sala de trabalho enquanto eu escrevia, deitava no terraço quando meus filhos estavam com os amigos. De repente era da casa.


Os pavões também vieram comer da sua ração e ela recuava diante da entrada do bando – são em número de dez. Mas aqui era seu território.

Na manhã da última terça-feira, coloquei sua ração e estranhei porque não apareceu. Pensei:

- Ih! Quando um gato some da casa é sinal que seu dono vai morrer. Como ela acha que a dona sou eu...

Logo depois tive a notícia que havia tido seus filhotes na casa vizinha e dei graças a Deus por isso, pois não teria que assumir uma gata e sua ninhada. Mas a gata saiu do seu aconchego e começou a trazer seus filhotes, seis ao total, um por um, para nossa casa, mais especificamente para um local em frente ao meu birô, no cantinho Sagrado onde escrevo, leio, medito. Demorei a acreditar no que estava vendo. Ela comia um pouco, dava de mamar aos que já estavam aqui e corria para ir buscar mais um. Agora estão todos aqui. Eu e a família toda estamos cuidando deles com carinho. Comida, água, leite. Não ligo mais o ventilador, não acendo a luz à noite, não coloco incensos. Tudo para respeitar este tempo / lugar em que a vida mostra sua força e sua beleza.

O jardineiro veio fazer nosso jardim e viu os gatos, os pavões, os tô-fraco, também descobriu uma colméia em uma das árvores daqui e comentou:

- Por que é que os animais só querem viver nessa casa?

Respondi na lata.

- Porque a gente é xamã.

Saiu sem querer; quando vi, já tinha falado. Ele arregalou os olhos, fez um silêncio e disse um “Ahhhhhh!”, sem explicar e compreender muita coisa.

Adoro jabuticaba e colocamos um pé aqui em casa. É difícil comer algum fruto, pois logo que começam a aparecer, os visitantes do jardim chegam e levam tudo. Comentei esse fato com meu marido, reclamando que os animais estavam comendo ‘minhas’ jabuticabas. Sorriu e respondeu:

- Quem disse que são suas?

Frase curta, direta, simples e muito verdadeira. Só porque a plantei, está num terreno de uma casa que aluguei, sou eu quem coloca água nela e tira as folhas de seu caule, não a faz minha. Os animais não conhecem estas regras. A natureza é muito maior que as leis de propriedade.

Sinto-me feliz por ter diminuído a correria do meu dia-a-dia e estar mais conectada com o ritmo da natureza, podendo compartilhar seus ciclos e o brotar da vida em todas as formas Sagradas.











1.1.12

R: É um prazer entrevistá-la. Tenho lido seus textos no blog, também li os livros. São tantos temas! Muitas Patrícias numa só?

P: Claro que sim. Uma parte de mim adora escrever para crianças. Acho que as crianças compartilham comigo a crença nas fadas e nos duendes e, também, o encantamento pela natureza. Os olhos de uma criança ficam deslumbrados com as descobertas que vão fazendo, assim como eu, apesar dos meus quase 50 anos de vida. Nasci no Dia das Crianças... guardarei sempre a criança dentro de mim.

R: Mas há também aquela que escreve para as mulheres.

P: É verdade. Não sei se é ‘só’ para mulheres, mas, com certeza, para dar voz aos mistérios de feminino. Há muito tempo éramos sacerdotisas e nossas habilidades valorizadas pela comunidade na qual vivíamos. Tecíamos, cozinhávamos, trabalhávamos com argila, cuidávamos das crianças, curávamos. Os homens desempenhavam outros papéis, mas ambos os grupos eram respeitados. Mudanças aconteceram e hoje vemos um feminino ferido, com mulheres desprezadas, agredidas e violentadas, tentando assumir uma postura masculina para sobreviver na sociedade que construímos. Trilhei o caminho do masculino para o feminino e vivo feliz porque me reconheço fêmea e me tornei mulher. Nada melhor do que acompanhar o crescimento dos meus filhos, respeitando meu instinto materno, do que sentir os ciclos do meu corpo, regido pela Lua, do que amar meu macho e meu marido. Vivo em paz.

R: Muitas mulheres e muitos homens defenderiam que suas ideias são machistas.

P: Machistas, não; feministas, também não. Defendo que nenhum homem é melhor que nenhuma mulher. Defendo que homens e mulheres não são iguais. Entendo que o processo do viver, ou da individuação, como diria Jung, favorece a integração do feminino (yin) com o masculino (yang) em cada ser humano, permitindo que se construa o a totalidade. Agora, num casal, há um macho e uma fêmea, com energias específicas. Ouvi, muitas e muitas vezes, queixas das mulheres, bem sucedidas profissionalmente, que reclamavam de ter que ser provedoras, de ter que sair para uma reunião de trabalho e deixar o filho com febre em casa, de tomar um remédio para cólica menstrual e colocar um terninho quando queriam ficar recolhidas, curtindo a menstruação. Roger Woolger tem um livro excelente sobre o tema, A Deusa Interior. Ouvi tudo isso de clientes, de amigas e, também, vivi estes conflitos. Não está fácil ser mulher nos dias de hoje. É importante que os homens também conheçam essa realidade feminina e nos ajudem a colocar as coisas no lugar, restabelecendo o equilíbrio yin-yang.

R: E a espiritualidade, veio de onde?

P: Estudei em colégios católicos, minha família era católica, mas tive um tio espírita. Na infância assisti à novela A Viagem e aquilo me pareceu familiar. Brinquei com o copo andando na mesa, participei de grupos jovens e me sentia em êxtase quando estava em oração. Mas não aceitava as Cruzadas, não aceitava a riqueza da Igreja Católica e tantas outras coisas, como a caça às bruxas na Inquisição. Aí, lá pelos meus 16 anos, li Ilusões, de Richard Bach, e resolvi que não me crismaria, pois a fé que tinha no Sagrado não era a que pregava o catolicismo. Mais na frente, tive a oportunidade de conhecer a religião espírita mais de perto, mas não aceito o sofrimento na Terra como uma garantia do Céu. O meu Deus, a minha Deusa, está presente na magia da Natureza, no momento em que sinto meu filho mexendo na barriga, no instante em que faço amor com meu homem. Aprendi outros caminhos com a Psicologia Transpessoal e com o Xamanismo. Adoro saber-me bruxa. A Divindade é para mim algo vivo, pulsante, sempre manifestada nas coisas simples. Já não me importa aprender e, sim, experienciar a Energia Cósmica expressando-se através de tudo, absolutamente tudo que existe. Energias, espíritos... é maravilhosa esta entrega. Vivo uma inabalável fé na Vida. Tento compartilhar, através dos meus textos, a jornada que minha Alma percorreu. A Vida me chama e eu me entrego, ou, como diria um filho meu, me jogo, em absoluta confiança.

R: E as mudanças foram muitas. Profissões, maridos...

P: (risos) Por medo, joguei para baixo do tapete, por muito tempo, a minha verdadeira vocação que era viver plenamente o meu amor pelos livros. Devido a traumas de vidas passadas, receei o êxito, o sucesso, a fogueira. Como era muito inteligente fui direcionada para o mundo da exatidão, mundo masculino, e trabalhei com lógica, bits e bytes. Sentia um vazio enorme, uma vida sem significado. Resolvi seguir outro talento que tinha, mas que ainda me manteria trás das cortinas, longe das luzes do palco e dos aplausos, e fui cuidar das almas feridas, sendo psicóloga. Foi uma época linda de minha vida, onde conheci pessoas incríveis e aprendo que tudo que fazemos tem uma razão de ser. Chegou um momento em que minha Alma gritou, que pedi para ser ouvida e pude, finalmente, ter uma rotina de escritora. É uma vida muito simples e solitária, voltada para dentro. Agora não era mais uma cientista, tornara-me uma artista. Ler, escrever, ler, escrever, ler, escrever, observar o mundo, visitar meu mundo. Dialogar com pássaros, árvores, seres invisíveis; conversar com o mar; banhar-me de lua e estrelas; abraçar-me com o sol. Aos poucos fui me mudando para mundos paralelos. É difícil manter os pés no chão e a cabeça nas nuvens. Moro uns dias perto da mata e outros perto do mar. Adoro esta alternância entre as energias yin-yang. Intui que viveria assim quando li, há algum tempo, o livro Feminilidade Consciente, onde a autora vivia dessa forma. Gosto disso: previsão ou criação do futuro? Não importa, para mim. Repito muito uma canção de São Francisco de Assis que diz que ‘doce é sentir, em meu coração, humildemente, vai nascendo o amor’. Procuro me manter num estado de consciência que me possibilite viver assim. Para contar tudo isso, escrevo.

R: E as mudanças no amor?

P: Ah! O amor! Tenho que estar apaixonada pelas coisas e pelas pessoas que me cercam. O tempo de ser feliz para mim é agora. Amei muito os homens que tive, aprendi com eles a me tronar mais inteira. Sou grata e os honro pela possibilidade de amá-los. Claro que houve dor e sofrimento nas separações que tive, mas viveria tudo de novo. Deram-me filhos lindos, os meus verdadeiros tesouros, o que me deixa plena e feliz. Foram histórias cheias de tesão, mas que acabaram porque nos transformamos e não Havaí mais encaixe. Adoro o poeta Vinicius de Moraes, um home de muitos amores e vida intensa, quando nos ensina que ‘a vida só se dá pra quem se deu’.

R: Por falar em poeta, que autores estiveram em sua mesa e cabeceira durante esses anos?

P: Não sei especificar quais me acompanharam, pois leio e, muitas vezes, não sei o nome do livro, o nome do autor, os nomes dos personagens, e estou completamente arrebatada pelo texto. Fernando Pessoa, Clarice Lispector e, recentemente, Daniel Lima. Cora Coralina, Adélia Prado, Djanira Silva, Cecília Meireles. Li coleções de livros que havia em casa. Machado de Assis é fantástico e seu conto, O Alienista, me colocou em transe por diversas vezes. O que amo mesmo é o cheiro do livro, a textura das páginas, o mistério ainda não revelado pelas palavras não lidas. Reler um poema que toca o coração é algo que deixa o meu aquecido.

R: Como está sendo para você esse sucesso tudo? É duro ser celebridade?

P: Algumas coisas são maravilhosas, outras bem difíceis de conviver. Críticos, invasão de privacidade estão entre as coisas chatas, assim como os compromissos editoriais. Viver da literatura é um presente do Universo para mim, mas o melhor de tudo é meu encontro com o leitor, seja através dos textos ou numa conversa na rua, na praça, num café. Nasci para isso. O sucesso, o que é? Continuo com minha rotina simples, cuidando das pessoas que amo, cercada só do que me interessa. Faço suco, leite, café, asso pão, limpo xixi e coco do meu cachorro, cuido das plantas, medito, caminho, namoro, tomo banho de mar, falo com a natureza e com fadas e duendes, leio, escrevo, ouço música, vejo filme, encontro com meus amigos e minha família. Claro que é bom ter dinheiro para pagar as contas, para comprar os livros que quero, para viajar muito. O importante é que vivo meu Dom, exerço meu Talento. Agora vivo a Paz. Se a Morte chegar, irei tranqüila porque vivi a vida que sonhei para mim.

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A entrevista acima ainda não existiu na minha realidade ordinária, porém si que está próximo o momento de sua realização, onde conversarei com uma repórter sobre a Jornada da Alma que sou. Quando isso acontecer não saberei se fiz uma profecia, criei o futuro, ou, apenas, o vi. Importa?

24.11.11

Estava conversando com minha filha sobre como o livro A Roda da Vida, de Elizabeth Kubler-Ross, havia mexido comigo e comentei as coisas que havia aprendido.


- Mãe, você fica se perguntando sobre o que fazer, sobre quando vai começar sua missão de vida, sobre ir para a África e sei lá mais o que, mas você pode começar agora, aqui mesmo. É só escrever sobre isso, dizer para as pessoas as coisas que está me ensinando com nossa conversa no sofá da sala. Todo mundo quer sentir o Sagrado em suas vidas, todo mundo que descobrir o significado de se estar aqui na Terra. Comece a tocar as pessoas pela escrita. E é pra já.

Simples assim, pelo menos foi como ela viu. Suas palavras tiveram ressonância em meu coração. Aquela bruxinha linda tinha razão.

Quando criança, apesar da infância feliz, a autora desejou ir para a África ajudar as pessoas que sofriam. Eu também. Fez muitos trabalhos voluntários que me mataram de inveja. Aprendeu a acompanhar seus pacientes no momento da passagem para o lado de lá e descobriu que há algo mais que o corpo que habitamos. Viu fadas e guias espirituais. Deu palestras e seminários pelo mundo todo. Defendeu um tratamento mais humanizado nos hospitais. Criou um centro de treinamento numa fazenda para que todos pudessem viver mais em contato com a natureza. Defendeu os pacientes com AIDS quando esta ainda era o novo monstro. Viu seus sonhos destruídos muitas vezes e sempre recomeçou, pois tinha uma fé inabalável na linguagem do Sagrado.

De uma forma que não sei explicar, minha vida e a dela se entrelaçam. Sinto que este caminho me é familiar, que já o trilhei em outras vidas, que tenho que começar a percorrê-lo nesta, mas que não estou disposta a me submeter à perda da convivência com meus filhos e meu marido. Não, de novo, não, e fico tentando fingir que não é comigo a intuição que brota cada vez mais forte no meu coração. Perder o despertar de meus filhos, perder o ombro do meu marido, perder a rotina tranqüila de um lar feliz, e sair pelo mundo sendo canal da Energia, ah! isso não, por favor, não. Haverá outra forma? Já segui os sinais tantas vezes. Saí da informática, um mundo tão sem dor e perfeito, e fui atender ao chamado para cuidar de almas. Anos e anos de amor e dedicação como curadora, numa entrega absoluta. Ainda houve os que necessitavam de cuidados e amor em casa e tudo isso sugou minhas energias de tal forma que tive que dar um basta. Precisei cuidar um pouco de mim. Pensei numa estratégia. Para continuar compartilhando o Amor, poderia escrever – blogs, livros, livros para crianças -, dar palestras, dizer ao mundo o que o Sagrado desejasse, ao mesmo tempo em que teria uma vida mais tranqüila, cercada do que me faz feliz. E assim construí meu reino encantado – com uma casa na praia e outra na mata – onde vivo este Era uma vez...

A Vida até que me deixou quieta por um tempo, mas os sonhos chegaram e me avisaram que estava pronta e que precisa começar; o tarô me disse claramente que deveria trabalhar com cura espiritual; os astros me colocaram no caminho de algo inusitado, ligado à espiritualidade, ‘algo novo, que está no sangue de sua família, mas que ninguém fez antes, e você vai poder trabalhar em casa’. Medito, rezo, oro, entrego-me. “Pai, em Tuas mãos entrego meu destino, mas, por favor, mostre-me qual é”. Não consigo saber.

Lendo o livro, fui tendo acesso às memórias do que combinei antes de vir para cá. As coisas ainda não estão arrumadas coerentemente em minha cabeça, apesar de já começarem a tomar forma no coração, centro de desenvolvimento humano, contato com a natureza, trabalhos de cura espiritual, sítio do meu avô, terra da minha mãe, palestras pelo mundo, literatura como fonte de esperança para crianças, pacientes terminais, foram coisas assim que surgiram enquanto aprendia com Elizabeth que o que importa na hora da morte é a vida que vivemos, não aquela que ficou esperando acontecer, guardada em algum cantinho de nossas almas. “Quanto amor você compartilhou na sua breve passagem pela Terra?”, será esta a pergunta do chaveiro do céu.

E agora?

23.11.11

Estava na rede lendo um livro fantástico, A Roda da Vida, quando meu filho caçula chegou e me entregou um papel:


- Seu último boletim.

Não entendi direito o que estava acontecendo.

- Aprovado. – disse ele.

Comecei a chorar de alegria, pois compreendi que ele estava livre da tortura de um ensino médio completamente descontextualizado. Foram anos difíceis, notas baixas, dificuldades de se manter preso à cadeira na sala de aula. Aliás, a palavra é preso mesmo, pois era assim que se sentia quando tinha que manter a bunda na cadeira, com a cabeça passeando por outros lugares e outros tempos.

Lembro o livro de Gilberto Dimenstein e Rubem Alves, Fomos Maus Alunos, onde relatam as tristezas de suas vidas escolares. Meninos inteligentíssimos que amargaram o fracasso escolar porque não sucumbiam às regras do sistema educacional vigente. Com meu caçula também foi assim. Doía quando o levava para as aulas particulares do final do ano e o professor me chamava no canto e comentava:

- É uma pena que ele esteja com notas baixas. É muito, muito inteligente e não tem dificuldade de aprendizagem alguma.

É, professor, a dificuldade é do sistema que não está preparado para educar os jovens num mundo onde não se aceita mais a submissão ao autoritarismo. Eles perguntam, questionam, lêem muito, discutem nas redes sociais. Não é mais a escola quem determina quais as informações às quais terão acesso. E aí... a insatisfação é geral. Há tanto que aprender, tanto por descobrir, e lá ficam os professores querendo que se decore os nomes das capitanias hereditárias, como denuncia Gabriel, o Pensador, na sua música Estudo Errado.

O que fazer?

Assumo, em parte, a responsabilidade por esse descompasso. Desde pequenos, ainda com fraldas e mamadeiras, meus filhos visitam museus, teatros, cinemas, festivais, livrarias. No carro sempre se ouve música de qualidade – da popular brasileira às clássicas – e, por isso, nenhum deles perguntará se Chico Buarque ainda está vivo, até porque ficamos mais de seis horas na fila para comprar os ingressos do seu último show aqui. No Natal, no Dia das Crianças, são famosos nossos presentes de kit cultural, com cd de música, dvd com filme ou show, e livros. Há ainda histórias com material de desenho e pintura, brincadeiras com água e contato com a natureza.

Uma vez, quando ainda eram crianças, faltou luz. Pegamos uma vela, o livro de Contos dos Irmãos Grimm, uma colcha e nos deitamos no chão da sala para uma viagem pelo mundo dos contos de fadas. Ficamos assim até que a luz voltasse e acabasse a magia do Era uma vez...

Pipoca e brigadeiro, para as sessões de cinema em casa; historinhas contadas na hora de dormir; conversas à mesa, sem tv ligada, nas refeições compartilhadas pela família reunida.

Isso tudo foi formando uma base intelectual sólida, onde aprenderam a não repetir informações como papagaios, mas a assumirem uma atitude reflexiva diante do que encontram pela frente. O caçula, o tal das notas baixas, está terminando de ler o livro Gregório Bezerra, Memórias. Vai fazer Ciências Sociais e Psicologia. O mais velho está fazendo Cinema e Produção Fonográfica. A mais velha conclui jornalismo e vai aprender como se fazem documentários. Nada de Direito, Medicina e Engenharia. E aí, como aguentar uma escola que prepara para o vestibular e não discute nada sobre a vida? Só ouvindo música dos lps de nossa radiola!!!!

19.11.11

Entrou na padaria com uma bolsinha, daquelas para moedas, na mão.


- Bom dia, moça! Por favor, me dê dois reais de pão.

Pegou a sacola e se dirigiu ao caixa. Quando abriu a bolsinha para pegar o dinheiro, contou as moedas, pegou na prateleira do lado um pacote de pão molinho. Contou de novo, pegou um pacote de biscoito de chocolate.

Olhou para mim, na fila do caixa, e comentou:

- É que cada filho gosta de uma coisa e, apesar do dinheiro estar pouco, gosto tanto de fazer um denguinho.

Sorriu, pegou as sacolas e saiu toda feliz.

Paguei minhas compras, sem precisar contar moedas, e fiquei me perguntando:

- Será que sei o que aqueles que amo gostam?




Lançamento do Doida? Feliz! na Fliporto. Muito sol, muito calor e minha inabalável teimosia em me manter fiel àquilo que acredito. Camisas, com a imagem da capa do livro, para a família. Água, refrigerante, bombons, chocolates, pirulitos, pipocas. As toalhas das mesas foram idealizadas por meu coração, metaforicamente representando os pedaços de mim que fui costurando ao longo da vida.



Levei o paraíso da praia na delicadeza do arranjo de flores colhidas no jardim com gosto de sal. Produção da minha filha, apoio do meu marido. Chegaram alguns amigos, faltaram outros. Tinham aqueles que já haviam prestigiado o lançamento do Jardim Encantado dias antes. Não posso avaliar estes momentos como sucesso de vendas, infelizmente para a Editora Coqueiro, mas fatos que ocorreram me deram forças para trilhar com alegria o caminho da profissão de escritora.




No dia do Jardim Encantado presenciei uma criança escolhendo meus livros, também o Trocando de Lugar, completamente fascinada. Pude ouvir o relato de outra que havia lido um deles e me deliciei quando contou que o livro já estava todo rasgado, de tanto que havia sido folheado. Encontrei com uma amiga querida que comentou que adorava os textos que publicava no blog e que não estava gostando do meu silêncio, pois há dias não apareciam novidades por lá. Também falou que sempre dava de presente para as crianças os meus livros e que elas adoravam.



Várias pessoas pararam para ver o Doida? Feliz!, elogiando a capa – obrigada, Luiz Arrais! – e o título. A primeira venda, inclusive, foi para uma mulher que passou, olhou e se apaixonou.

Apesar da rotina da escrita impor solidão, gostei desse contato com leitores. Há troca imediata de energia, além daquela que ocorre quando estes se encontram secretamente com quem coloca o coração na ponta do lápis.




Mais quatro livros infantis estão na fase de ilustração – Gabriela Araujo e Eduardo Souza – e outro, com textos curtos, já começou a ser organizado. No último final de semana, depois dos lançamentos, surgiu, num sonho, a história de Benedicto, o amigo invisível. Mas esta vai ter que esperar um pouquinho.

Só a agradecer...





11.10.11

Sempre acreditei na realização de sonhos. Mas ainda não tinha vivido a experiência de ver acontecer um sonho sonhado dormindo. Foi o que aconteceu aqui em casa, no jardim, com o lançamento do livro infantil Jardim Encantado.

Há algum tempo uma amiga-bruxa me ligou e falou:
- Mulher, sonhei com fadas e duendes e eles me pediam para dizer a você que seu livro tem que ser lançado num jardim porque os elementais querem participar da festa. E no sonho eu vi você numa mesa de madeira, cercada de flores, grama e árvores, autografando os livros para os amigos, muitos amigos.
Fiquei encantada com a mensagem, até porque minha amiga não sabia que o livro que eu iria lançar contava a história de uma menina num jardim, com fadas e duendes. Mas havia os compromissos já assumidos e teríamos lançamentos na Fliportinho, na Letra e Voz e na Bienal.
Esqueci que não podemos lutar contra as determinações do Sagrado. Claro que aconteceram mil problemas e os livros não ficaram prontos para os eventos agendados. As fadas conseguiram o que queriam e tivemos um lançamento recheado de magia, cheio de fadas, duendes, gnomos, bruxas, amigos, parentes. A lua brilhou no céu e nos abençoou com sua luz. Ouvi as estrelas sorrindo. Comemos brigadeiro, pipoca, e doces. A energia foi especial e senti que o Universo estava feliz.
Só a agradecer a todos os seres que estavam aqui, compartilhando nosso Jardim Encantado.












10.10.11

Ao ler a matéria de uma revista sobre a nova linha editorial de uma empresa governamental, fiquei com meu coração apertado. Pensei, então, sobre o que ele estava querendo me dizer, pois, toda vez que fica assim, sei que aí tem coisa. O que me incomodou no texto foi a informação que a editora, na sua produção infantil, iria privilegiar histórias que trouxessem uma reflexão sobre temas que nossa sociedade precisa transformar, como a exclusão social, a educação especial, algo que mexesse com nossa subjetividade e nos desse coragem para agir no mundo. A matéria também falava sobre a importância da valorização da cultura local e que este aspecto seria analisado no momento de escolhas das obras a serem postas no catálogo da editora.


Entendo este cuidado, precisamos valorizar nossas raízes, precisamos transformar a realidade perversa que encontramos nas esquinas da vida e para isso devemos usar de todos os artifícios eticamente aceitos, mas quando penso no universo infantil, não consigo não pensar nos arquétipos, na imaginação, na fantasia que habitam as crianças de todo o mundo, não importando o tempo e o lugar de suas brincadeiras, de seus sonhos e de seus medos.

Ana Maria Machado, no seu livro Silenciosa Algazarra, faz uma análise sobre os pontos de contato entre as histórias recolhidas pelos irmãos Grimm e as recolhidas por folcloristas brasileiros. Em um determinado momento, Ana, para os íntimos, relata o registro de uma contadora de histórias, filha de escravos, que contava histórias aprendidas em sua Mãe África, misturadas com outras iguaiszinhas às encontradas no mundo europeu, e acrescidas das ouvidas nos mitos indígenas. Muito lindo este encontro de culturas!

Por tudo isso, incomodou-me o recorte no mundo da literatura infantil. Estarão banidas da fantasia das crianças de minha terra as fadas, os duendes, os gnomos, as princesas, as bruxas, as madrastas más, os dragões? Não haverá mais pote de ouro no final do arcoíris, a não ser que esteja colocado embaixo do umbuzeiro?As árvores que tocarão nas nuvens do céu terão que ser coqueiros?

Meu coração não fica feliz quando se coloca a literatura a serviço da educação, no que se refere à moral da história. Crianças, escovem os dentes antes de dormir. Crianças, tratem os idosos com respeito. Crianças, crianças, crianças... façam isso, façam aquilo. Temos muitas histórias para usar como instrumento de divulgação das ideias valorizadas por nossa cultura, mas podemos chamar este tipo de texto de literatura infantil? Volto no tempo e paro na época em que a criança era eu e me vejo deitada na rede, no sofá, na cama, lendo historinhas de fadas e de bruxas que tocavam minha alma. Escuto a voz de minha mãe contando histórias de castelos, cavalos brancos, príncipes e princesas. Isso tudo me transportava para o mundo da fantasia.

Gostava da época em que nossa língua tinha estórias e histórias. Talvez hoje essas duas estejam muito misturadas. Lembrei-me do poema de Dom Hélder, Minha Pedagogia, que sempre compartilho nas palestras que faço. Ei-lo:



Não ensine a seu filho que as estrelas não são do tamanho que parecem ter:

maiores que a Terra!

São lâmpadas que os anjos acendem todos os dias

assim que o sol começa a escurecer...

Não diga a seu filho que as asas dos anjos só existem em sua imaginação.

Já vi meu anjo em sonho e posso jurar que

ele tem asas claras que até parecem feitas de luz.

Não encha a cabeça de seu filho ensinando-lhe hipóteses precárias

que amanhã de nada servirão.

Povoe de beleza o olhar inocente de seu filho.

Dê-lhe uma provisão de bondade que chegue para a marcha da vida.

Infunda-lhe na alma o amor de Deus

- e tudo o mais, por acréscimo, ele terá.



Aprendi com ele a não abandonar num canto a criança que existe em mim. Sigo a vida acreditando em fadas, duendes, bruxas, e transformando minha história numa estória cheia de magia onde há ‘era uma vez... e foram felizes para sempre’.

 




3.10.11








Fotos: Roberto Arrais


Ando lendo e pensando sobre a Paz. Será a Paz a ausência da guerra? Poderá a Paz conviver com a fome? E com a destruição de Gaia? Haverá Paz enquanto homens explorarem outros homens?


E aí me lembrei do currículo da educação formal praticado na maioria das escolas do mundo. Que história contamos? Por que apresentamos como herois aqueles que venceram, na nossa perspectiva, guerras contra outros povos e mataram pessoas, destruíram territórios, exterminaram culturas? Serão esses os líderes que queremos como exemplos para as gerações do presente e do futuro? Devemos visitar o passado para aprender com ele e não repetir os mesmos erros.

Tenho um amigo alemão que me contou que lá, no país dele, a história da segunda guerra é contada e recontada durante todo o período escolar para que aquele horror mais nunca se repita. Visitando no Chile um Memorial à época dos anos difíceis, li e ouvi várias vezes, ‘Nunca mais.’.

No Brasil, como anda nosso aprendizado de história? Quase que exterminamos a cultura indígena, destruímos seus territórios, seus costumes, impusemos uma língua e uma religião. Achamos que sabíamos tudo e tentamos domesticá-los. Ledo engano. Descobrimos tardiamente que os mestres eram eles. Vamos às universidades para aprender sobre desenvolvimento sustentável. Já os índios vivenciam a sustentabilidade. É muito diferente.

Agora, depois de reconhecermos que erramos em quase tudo, no que se refere a crescimento econômico e destruição de recursos naturais, estamos vivendo no país um momento de grande retrocesso com a proposta indecente do novo Código Florestal e com a construção da usina de Belo Monte. O cacique chorou e devemos chorar junto com ele.

Será que é impossível para a espécie humana viver em harmonia? Está na hora de aprendermos com as outras formas de existência o real significado da palavra Paz.


27.9.11

Gratidão. Algo gostoso de se sentir e que deixa o coração quentinho. Sempre associo esta sensação a alguma manifestação do Sagrado e reverencio agradecendo as bênçãos que recebo Dele.


Há uns dias li um mail com a informação de que um grande mestre que tive se encontrava com problemas de saúde. Fiquei arrasada. Chorei. Comecei a ver o filminho dos nossos encontros, onde de forma amorosa promoveu tantas curas. Aprendi muito com ele. Muito conhecimento, muitas tradições, muita sabedoria. Apresentou para mim um mundo novo, até então desconhecido, e me colocou no caminho da curadora de almas que hoje sou.

Não sabia que sentia por ele um amor tão grande. Ainda não tinha percebido que sua presença fora um divisor de águas na minha vida, sendo uma antes e outra depois de nossos cursos de imersão. Vidas passadas a limpo. Energias há tempos presas e agora liberadas para a felicidade. Medos e culpas diluídos como que num passe de mágica. Foi com ele que aprendi bruxaria – a forma que encontro para nomear o inexplicável.

E agora, na doença, continua me ensinando muito. Percebo que é real a lei do retorno, pois deu tanto amor para tantos, no mundo todo, que recebe uma corrente de oração e de ação para que fique bem. Ele merece nosso amor, nosso carinho, nosso respeito e, principalmente, nossa gratidão.

Para você, mestre amado, um beijo carinhoso no seu coração lindo.