13.6.08

Sexta-feira, 13, as bruxas andam soltas. Bruxa que sou, resolvi pegar minha vassoura e voar. Lá de cima vi coisas difíceis de acreditar, de tão absurdas, até pareciam coisas de novela.
Era a final do campeonato de vassoura-ball e estava ansiosa para o jogo, assim como meu marido. Fomos logo cedo para o estádio, mas tivemos a maior surpresa quando descobrimos que nossa vassoura havia sido roubada. Entre irmos para a polícia prestar queixa e irmos para o estádio, escolhemos a segunda opção. Ligamos para a seguradora e esta acionou a polícia. Aproveitamos cada segundo do jogo e nosso time foi campeão. Eu e meu marido curtimos a vitória como muitos beijos e carinhos. Parecíamos dois adolescentes. É estranho dar beijo de língua em público. Voltamos para casa exaustos e tranqüilos, já pensando na comemoração do Dia dos Namorados.
Flores ao amanhecer. Caixa com champanhe, taças, chocolates com pimenta, calcinhas, óleos de massagem, pirulitos eu te amo, dadinhos e cremes eróticos, um cartão imenso falando do tesão de fazer amor. Roupa nova, onça na intimidade. Almoço regado à cerveja gelada, sorvete e uma tarde inteirinha sob/sobre lençóis macios. Que delícia!
O melhor de tudo foi que, logo cedinho, descobrimos que nossa vassoura havia sido roubada pela ogre mais feia e má da cidade, pois estava morta de inveja e ciúme do nosso amor e havia planejado a operação com o objetivo de estragar nossa felicidade. Coitada. Ficou com a vassoura e eu espero que tenha feito um bom uso dela pelo menos no Dia dos Namorados, já que não tinha com quem/que se enroscar porque sua maldade afastava todo mundo.
Depois que uma ogre toca um objeto temos que jogá-lo fora e já compramos vassoura nova.
Eu e meu marido continuamos vivenciando o nosso amor. O feitiço saiu contra o feiticeiro. Sai de retro, Satanás! Ah! Ah! Ah!

9.6.08

Há algum tempo escrevi um texto sobre uma festa de casamento em que estavam presentes todos os ex do casal, amigos e familiares. Recebi muitos mails de felicitações pelas mudanças em minha vida e achei aquilo tudo muito estranho, pois o texto era uma ficção do início ao fim.
Por voltas que a vida dá e a gente não sabe explicar, separei-me e me casei novamente, mesmo sem a tal festa. Fui caminhando por outros lugares, conhecendo pessoas e aprendendo muito.
Na semana passada meu ex-sogro faleceu e eu, que estava em pé de guerra com meu ex-marido, o segundo, para especificar melhor, fui correndo ao seu encontro para lhe dar carinho e apoio. Nesse momento todas as desavenças e mágoas ficaram tão pequeninhas. O que eu queria era dar-lhe o colo que tive dele quando fui eu que perdi a minha mãe.
Encontrei-o sentado em uma cadeira, ao lado da sua namorada atual, e dirigi-me para abraçá-lo. Alisei sua cabeça, disse-lhe palavras de conforto, chorei a minha e a sua dor. Ajoelhei-me a seu lado e fiquei alisando e beijando suas mãos, tentando dizer-lhe que tivesse forças e confiasse no tempo como o grande curador. Só podia compartilhar o que tinha aprendido e, também, o meu amor. Não é mais o amor de marido e mulher; é um amor que ultrapassa papéis, situações e o tempo. Sei que estamos ligados por uma energia amorosa e, por isso, quero o seu bem.
Do hospital liguei para sua primeira ex-mulher e avisei do falecimento de seu ex-sogro, pedindo-lhe que comunicasse e apoiasse o filho deles. Quando saí de lá fiquei pensando que no dia anterior havia chorado muito com minha advogada discutindo os detalhes da pensão alimentícia para os nossos filhos e resolvendo a divisão dos bens que adquirimos juntos. Tudo ficou tão ridículo.
Fui ao velório com nossos filhos e minha filha, fruto do meu primeiro casamento. Meu pai foi depois; eram amigos-irmãos e a coroa de flores trazia um trecho da música/poesia de Mílton Nascimento: Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito. Fazia tempo que não via a família do meu ex e foi difícil reencontrar pessoas amadas que agora não eram mais parte do meu círculo familiar. Abraços e lágrimas se repetiram muitas e muitas vezes. Meu ex-marido chegou depois com a namorada.
Na missa de corpo presente, celebrada pelo padre que minha ex-sogra queria graças à intervenção da irmã do meu esposo, olhei muito para meu ex-marido enviando-lhe muito força. Amparei filhos, pai; fui acolhida por amigos. Na hora do caixão seguir para o túmulo, estava do lado de fora com nosso filho mais velho, que chorava muito. Meu ex-marido vinha à frente do cortejo e fez sinal para que nosso filho fosse para junto dele. Dirigi-me com ele. Demo-nos as mãos. Nosso filho caçula chegou com minha filha e também demo- nos as mãos. O filho mais velho de meu ex-marido veio com sua mãe e engrossaram a fileira. Seguimos assim, todos juntos, até o local em que o caixão seria colocado.
Ao final de tudo, mais abraços, mais carinho, mais conforto.
Saí feliz com o exemplo de amor e respeito que havíamos dado. Meu ex-marido, com suas ex-mulheres, seus filhos, minha filha, sua namorada atual, todos juntos contando uma história de amor. Acho que o Grande Espírito também ficou feliz com seus Filhos e meu ex-sogro descansou em paz.

1.6.08

Compra-se tudo?

Estranho essa coisa da gente se fazer presente pelas coisas que compra. Noutro dia uma amiga me contou que a atual esposa do ex-marido dela estava tentando comprar seu espaço. Achei esquisito e pedi para explicar melhor. Falou que ele sempre fora um furão e que havia conquistado muito do que era à custa dos esforços da minha amiga e que ficava se amostrando como se as vitórias fossem dele – este fora um dos motivos da separação. Para todo o círculo de amigos em comum ele se apresentava como um homem simpático e agradável, distribuindo uísque e churrasco financiados pelo bolso de minha amiga. Agora, sua esposa chegava cheia de presentes para as amigas íntimas de minha amiga – mulheres que ela nem conhecera antes – como se já existisse uma intimidade de muito e muito tempo. Também dera para comprar roupas e sapatos para os filhos do marido, como se tivesse assumido a total responsabilidade por eles. Para completar o circo, mandara levar para casa da minha amiga um monte de comida sofisticada porque as crianças adoravam comer aquelas guloseimas todas. Era verdade que a tal esposa tinha uma excelente situação financeira, mas minha amiga achava muito engraçado todas essas tentativas dela de se mostrar como a boazinha e que sempre agradava todo mundo. O que eu achava incomum era que minha amiga não se incomodava com tudo isso e dizia que esses valores não eram os dela, mas que achava que o casal da vez era o par perfeito, pois compartilhavam as mesmas atitudes.
Até que entendi a atitude da atual esposa, já que essa minha amiga é uma daquelas pessoas que são realmente inesquecíveis e não deve ser nada fácil ocupar um lugar que havia sido dela. Duro, muito duro conviver com seu fantasma.

27.5.08

Tim! Tim!

Há 20 anos comprava meu apartamento, financiado pela Caixa Econômica Federal. Meu Deus! Como o tempo voou! Parece que foi ontem que sonhei o sonho de ter a casa própria. Estava grávida, meu marido viajava e fui, com minha mãe, correr apartamentos pelo bairro que sempre fora minha paixão, cheio de árvores e pássaros.
Ao entrar na sala, vi, através da varanda, a copa de uma linda mangueira. Apaixonei-me na hora. Meu coração me disse que aquele seria o meu lar. Só que esse sonho seria impossível. Era caríssimo, o prédio tinha piscina, sauna, parque infantil, sala de computadores. O apartamento tinha até banheira de hidromassagem. Tudo isso era muito além de minha capacidade financeira. Mas, Pessoa já me ensinava que o Universo conspira a nosso favor e, com a ajuda da família, o sonho foi realizado.
Mudei sem armários, o freezer era onde guardavas as toalhas de mesa, sem cortinas, sem piso, sem móveis. O som das vozes ecoava pelo vazio da sala. Arrumei, apenas, o quarto do bebê, lindo, lindo, todo verdinho.
Àquela época, tracei o roteiro de minha vida: teria o bebê, faria mestrado em Ciência da Computação, iria para doutorado na Inglaterra, voltaria para a universidade, seria pesquisadora. O marido topou tudo. E a vida me levou por outros caminhos: tive meu bebê, abandonei o mestrado, não fiz o doutorado, o marido me deixou.
Novas possibilidades me conduziram para outros lugares, outras pessoas. Hoje quitei meu apartamento. Muitos me ajudaram a realizar o sonho. Ergo a taça de champanhe em gratidão a todos eles. Reverencio meus filhos, pois nosso lar é a extensão do meu útero, um local seguro e aconchegante para amar. Brindo, sozinha, a mim, por ter tido a coragem de sonhar e de realizar. Tim! Tim!

20.5.08

A gênia

Quando eu era pequena adorava ver o seriado da televisão Jeannie é um gênio. Sonhava com a possibilidade de realizar desejos só com um cruzar de braços e uma piscadela de olhos. Além disso, a gênia era linda, tinha um amo lindo e tudo para ser feliz, a partir de minha perspectiva infantil.
Peguei-me, outro dia, refletindo sobre o fato de Jeannie ir para dentro da sua garrafa, aprisionada, toda vez que realizava os seus próprios desejos. Ficava lá de castigo porque tinha contrariado a vontade de seu amo, senhor e dono. Muitas vezes ela usava seus poderes para salvá-lo de uma situação delicada e era parabenizada pelo feito. Mas quando usava seu feitiço para conseguir algo para si, as penas surgiam.
Na vida real isso também acontece. As mulheres realizam desejos das pessoas que amam, sejam filhos, maridos, pais, irmãos, amigos e amigas. E quando tentam realizar seus desejos, inclusive os mais secretos, o que acontece? Os maridos reagem se esses desejos não estiverem de acordo com o que pensam que suas companheiras podem realizar e criam mil obstáculos para que se percam ao vento: quer trabalhar? e vai abandonar os filhos e a casa? quer viajar? e vai me deixar aqui sozinho? cuidado com as lobas! vai voltar a estudar? isso é coisa de mulher que está procurando sarna para se coçar. Os filhos também têm dificuldades para perceber que mães também são mulheres e que possuem vida própria: que roupa ridícula! só quer ser a nova! olha a sucota, sucata com cocota! E o rol das observações das pessoas que estão em torno da mulher que sonha e que a colocam para o mundo das impossibilidades é enorme.
O que fazer para usarmos o nosso poder de bruxa a nosso favor e não ficarmos presas na garrafa, sem direito à vida e à liberdade?

Criando um clima

Muitas mulheres comentam sobre seus momentos de intimidade, quando estão a dois, no aconchego de seus ninhos. Todas falam sobre a mesma coisa: o quanto faz falta um pouco de romantismo para criar um clima de amor. Já têm anos de casadas e sentem que muitas vezes a relação sexual é quase que um ato mecânico, tipo bateu tesão, e é algo muito longe de um encontro de amor. Não querem apenas mais uma trepada; querem, sim, fazer amor.
Lembro-me, agora, de uma cena de amor, vivida por duas personagens de uma novela. Eles se amavam muito e tinham sido impedidos durante a trama de viverem essa relação em sua plenitude, já que o homem era casado. Quando finalmente ele ficou livre, foi ao encontro da amada e, louco de desejo, quis tê-la completamente em seus braços. Ela quase sucumbiu à tentação, mas conseguiu controlar a situação e pediu que ele voltasse na noite seguinte. Passou, então, o dia preparando-se e preparando o momento tão esperado. Perfumou-se, passou cremes, separou vinho e taças bonitas, forrou a cama com lençóis macios, acendeu velas e incensos, espalhou pétalas de rosas pelo quarto e colocou uma boa música para encantar ainda mais o ambiente. Quando ele chegou ficou fascinado pelos detalhes e, bem devagar, com muito carinho, foi construindo junto com sua amante, um encontro de amor.
Quando vi a cena também fiquei deslumbrada e me lembrei de como somos responsáveis por tudo que vivemos. Se queremos que nossos encontros na cama tenham mais romantismo, no lugar de ficarmos só na reclamação, podemos fazer a nossa parte e criarmos o clima que desejamos. Aos poucos os amantes irão também aprender. Poderão chegar a comprar uma peça íntima maravilhosa e mandar entregar em casa numa linda caixa com orquídeas; poderão também reservar uma suíte de hotel e mandar um recado para a amada estar lá no momento do encontro; convidarão seus amores para jantar num restaurante super romântico a alguns quilômetros da cidade; poderão... tantas coisas. Não existe uma receita para criar o clima certo, porque cada casal tem suas próprias regras no jogo da sedução. O que importa, de verdade, é que tenhamos o cuidado para não banalizarmos nossa relação de amor. Lutemos por ela agora, porque, às vezes, quando despertamos para os detalhes já é tarde demais.

15.5.08

Ciclos Repetitivos

Às vezes temos a ilusão de que se mudarmos os móveis de lugar, mudaremos de casa; se mudarmos de namorado, transformaremos nossos relacionamentos amorosos; se mudarmos de emprego, faremos sucesso no trabalho. Todas essas mudanças dizem respeito ao que está fora, não fazem transformações no interior da pessoa que está buscando por coisas novas. Precisamos aprender que as verdadeiras e profundas transformações acontecem dentro de nós mesmos. Não adianta trocar de namorado e continuar a repetir o mesmo comportamento, pois o fim da nova história de amor será inevitável; não adianta trocar de emprego e trabalhar até tarde todos os dias, como no emprego anterior, porque daqui a um tempo as novas atividades também serão um peso.
É tão mais fácil projetar para fora de nós as coisas que nos incomodam. O complicado, porque nos clama a responsabilidade pelos roteiros de nossas vidas, é enxergar que precisamos mudar por dentro se queremos que coisas diferentes aconteçam. Se isso não ocorrer, continuaremos repetindo os mesmos ciclos, as mesmas histórias pela vida afora.
Talvez, um período de solidão seja necessário para que possamos descobrir quem somos de verdade. O que queremos da vida? Em que trabalho gostaríamos de nos engajar para que a vida fizesse sentido? Como sonhamos com nosso cotidiano? Que características deve ter nosso Príncipe Encantado? Depois, sim, de conhecermos a nós mesmos, poderemos sair para o mundo e mostrarmos a nossa verdadeira face porque agora ela terá a cara de nossa Alma.

2.5.08

Laços

Estava feliz. Iria para a terra de minha mãe fazer uma palestra para jovens. Ela nascera em uma cidadezinha do agreste pernambucano, uma região cheia de pedras, montanhas e muita água. Adorava ir para lá na minha infância comer manga e jabuticaba, andar de roda gigante na festa do padroeiro da cidade, brincar carnaval à noite no mesmo espaço que durante o dia servira para compra e venda de carne, participar da roda de cantoria com primos e tios assobiando em gargalos de garrafas e marcando o ritmo das músicas com um garfo, assar milho na fogueira e dança um legítimo forró pé-de-serra no alpendre da casa iluminada, ainda, por candeeiros.
A saudade me tomava, pois não visitava o lugar desde a morte de minha mãe. Sabia que o trabalho era o motivo aparente e que o que me deixava com o coração derretido era a possibilidade de reverenciar o meu amor por ela e devolver à sua queirda terra um pouco do muito que havia dado à sua família. Meu avô saiu de lá há muitos anos com a esposa e quinze filhos e veio para a capital para que pudessem estudar e manteve todos com a venda das frutas e verduras da terrinha santa. Agora somos mais de cem com o sangue das jabuticabas nas veias.
Preparei a palestra com cuidado. Queria que tivessem o melhor de mim. Escolhi uma roupa bonita. Levei mala porque iria dormir numa pousada já que ficaria muito tarde para voltarmos pelas estradas perigosas. Iria com um amigo querido, profissional que muito respeitava.
Saímos cedinho. Fiquei mais calada que de costume durante a viagem e completamente muda quando nos aproximamos da cidade. Lágrimas brotavam de forma incontrolada e só ouvia nos ouvidos da saudade as músicas cantadas quando estava com meus pais e meus irmãos e íamos chegando às terras de minha mãe. Meu coração disparou, ou parou, não sei dizer ao certo. Fui reconhecendo os lugares. Quase nada havia mudado nas ruas e casas. Mas eu tinha crescido e minha mãe já estava morta. Pedi para meu amigo me levar logo para a casa do sítio em que ficávamos. Tudo estava destruído e a casa em ruínas. No antigo banheiro crescia a árvore da preguiça. O açude, testemunha de muitos banhos, continuava lindo como se os anos não tivessem passado. Chorei, chorei, meu amigo me abraçou em silêncio, respeitando meu momento de dor, alegria e saudade. Fiquei quietinha por um tempo. Depois fomos ver as plantações de um agricultor e ele nos deu coentro, batata, melancia, mostrou-nos seus porcos, sua vaca, sua casa. Tudo com muito orgulho. Meu amigo me deu um ramalhete de coentro. Sorri com o carinho.
Fomos para a palestra, emocionei-me, chorei de novo ao contar que minha mãe rezava para que o avião que voava lá no alto do céu caísse para que pudesse vê-lo de perto. Transmiti fé, coragem e esperança para os jovens relatando a história da família. Aplausos no final.
Dirigimo-nos para a pousada e, para minha surpresa, meu amigo não quis ficar para dormir, preferindo arriscar-se na estrada. Não entendi, mas não questionei, pois estava completamente fragilizada depois do dia cheio de fortes emoções.
Assim que o celular voltou a funcionar, liguei para meu marido e avisei que estava voltando para casa. A viagem foi longa. Senti que meu amigo tinha me dado um presente inesquecível com aquele abraço. Ele havia compartilhado comigo um dos lugares mais secretos e sagrados do meu coração: o cantinho em que guardo a minha mãe. A partir daquele dia estaríamos ligados para sempre.
- Estou ansioso com essa viagem! Não entendo direito o que está acontecendo, mas sinto que ela mexe comigo. Isso é loucura, só somos amigos. Se ela desconfiar, nossa amizade vai por água abaixo. Fico querendo conversar com ela o tempo todo. Tenho necessidade de vê-la, de ouvir sua voz e sua risada. É melhor não dormir aqui hoje. Estou morto de cansado, mas a estrada vai ser mais segura do que essa pousada.
- Por que fui deixá-la ir nessa viagem maluca? Vejo como seus olhos brilham quando fala nele. Ainda não percebeu, mas está completamente encantada por ele. Devia ter feito valer minha posição de marido. Mas se ela descobre que morro de ciúmes, vou perdê-la. Ela defende tanto sua liberdade e é tão ingênua que não vai entender minha posição. Se eu falar sobre ele posso até espertar algo que nem sabe que sente. O celular fora de área e eu sem comunicação. Trim... Trim... Alô! Ufa! Graças a Deus ela não vai dormir lá. Está voltando para casa.
Três pessoas que conversavam e não estavam se comunicando verdadeiramente. A magia do não-dito é algo muito forte e cria realidades. Pena que só poucos acreditem nisso. Voltei para casa, é verdade, sem saber sobre os ciúmes de meu marido, completamente inocente sobre o que sentia por meu amigo, sobre o que meu amigo sentia por mim. Mas um laço muito forte havia nos unido para sempre. Cônjuge algum deve deixar um vazio desse ser preenchido por pessoas estranhas ao relacionamento do casal. O retorno à minha mãe seria um momento muito especial para mim e a pessoa que estivesse comigo construiria um elo indestrutível. Não demos a atenção devida ao fato. Aprendemos com isso. Voltei para casa, mas não voltei jamais para o meu marido.

28.4.08

Outra versão dessa metáfora do jumento é a febre dos concursos públicos. Investimos dinheiro e tempo em cursos preparatórios para concursos públicos na tentativa de garantirmos um bom emprego para o resto da vida. O que seria um bom emprego? O que seria uma vida boa? Todos os dias o mesmo trajeto, o mesmo cartão de ponto, o mesmo birô, a mesma rotina, o mesmo ritual de olhar o relógio esperando que toque o sino da liberdade? Não importa que a semana seja terrível, temos os fins de semana, temos as férias para fazermos o que realmente nos dá prazer. Essa repetição nos traz a sensação de segurança: não podemos ser jogados fora, pois há estabilidade no emprego; não precisamos dar nosso sangue, pois não estamos no mercado selvagem da competição das empresas privadas. O desconhecido nos assusta. Atrás do imprevisível está a certeza da morte. E tentamos fugir dela, como tentamos. A ilusão de que controlamos a vida, o cotidiano, faz-nos sentir com poderes para ludibriar a morte, o fim de tudo. Assim, voltados para o que está fora, fugimos de nós, fugimos da vida. E perdemos tanto por ficarmos enforcados com a corda do jumento. Como nos ensina Lenine, ‘ninguém faz idéia do que vem lá, do que vem lá’.
Em recentes viagens pelo sertão nordestino, vi muitos jumentos abandonados pelas estradas. Às vezes em grupo, outras vezes sozinhos, comendo capim ou, simplesmente, andando. Estavam soltos, sem corda alguma nos pescoços, sem donos, livres. O fato de não terem donos traduzia o abandono. Não havia alguém que cuidasse deles, que lhes desse comida e água, que lhes proporcionasse abrigo da chuva e do frio noturno. Poderiam seguir sem rumo pelo caminho que desejassem.
Fiquei pensando que algumas mulheres se sentem abandonadas quando não têm um dono – um marido -, para tomar conta delas. A aliança no dedo funciona como a corda no pescoço do jumento. ‘Tenho dono, sim, e ele cuida de mim, dando-me comida, proteção e abrigo’. Não sabem exatamente o que fazer quando estão por conta própria nesse mundão de Deus. Não se sentem com coragem de sair por aí descobrindo o que a vida tem para oferecer. Preferem a certeza do terreno conhecido, passeando apenas por caminhos limitados pelo uso da corda esticada do pescoço do jumento, que no caso das mulheres está transmutada em aliança no dedo, ainda que o preço seja a domesticação e a anulação de seus desejos mais secretos.
Ressalto que não são todas as mulheres que agem assim. Ressalto que não são todos os casamentos que são assim. Mas essa situação é bem mais comum do que se imagina. É impressionante como a liberdade assusta. ‘O que fazer quando sou livre?’

23.4.08

Fundo do mar

Há alguns anos, estimulada por meu marido, fiz um curso de mergulho com cilindro.
Não foi um curso fácil. O instrutor explicava e eu não entendia coisa alguma. Era como se ele falasse outra língua. Antes de irmos para o mar, treinávamos na piscina. Surtei no primeiro dia que pus o cilindro e mergulhei. Achei que iria sufocar, mesmo sabendo que a piscina era rasa e que não me afogaria. Foi horrível. Acho que engatilhei memórias de vidas passadas e do meu parto, já que fui puxada por fórceps. Houve ainda o teste de resistência à pressão, numa torre de 10m de profundidade. Até que este foi mais fácil.
Enfim, chegou o dia do batismo e comecei a me aventurar pelo fundo do mar. O percurso de barco até o ponto do mergulho é uma verdadeira tortura. Enjoei tanto que fiquei verde. Mas o desejo de conhecer o mundo mágico de Netuno me deu forças para resistir. O grupo estava todo muito excitado com a experiência. Finalmente, chegou a nossa hora, minha e do meu marido, de cairmos na água – um mergulhador nunca deve ficar sozinho, pois pode haver algum problema e o companheiro tem a obrigação de ajudar, ainda que tenha que compartilhar o seu próprio ar, na linguagem da turma, cachimbar – e lá fomos nós. Descemos devagar, segurando na corda, ouvindo apenas o barulho das bolhas de nossa respiração. Fizemos o ritual de batismo e ficamos livres para explorar o mar, numa profundidade de 25m. Tivemos 20min. de arrebatamento. O silêncio profundo, a lentidão dos movimentos, o colorido dos peixes e dos corais. Realmente, é um mundo dentro de outro mundo. Tudo é diferente. Um amigo meu, que havia feito mergulho antes, tinha dito ‘eu vi Deus’. Acho que descreveu a sensação de toda pessoa que entra nesse universo. É uma outra dimensão.
Fiz outros mergulhos. Vi um grupo de arraias. Vi naufrágios. Vi o colorido dos peixes e dos corais. Fiz curso de fotografia no fundo do mar. Vi cores mudando à medida que descíamos mais e mais – a realidade não existe, claro.
Num dos meus últimos mergulhos, tive um acidente. Já estávamos saindo do verão, onde as águas são mornas, límpidas e sem correntezas fortes, e o mar não estava lá tão amigo. Eu, que não tenho muita intimidade com a água, não conseguia navegar com desenvoltura, sentindo-me arrastada pela correnteza. Meu companheiro de mergulho não entendeu o que estava acontecendo e achou que eu estava com frescura quando pedia que segurasse a minha mão. Ficou irritado porque queria explorar o naufrágio, já que tinha um módulo mais avançado que o meu, e me soltou por uns instantes para entrar no navio. Fiquei ‘parada’ e percebi que as bolhas de ar estavam muito grandes, um sinal claro de que eu estava próxima da superfície. Logo em seguida vi a luz do sol e descobri que havia subido 25m em pouquíssimos segundos. Entrei em pânico e só ouvi a voz do instrutor na sala de aula ‘temos que subir bem devagar porque senão o nosso sangue vai fazer as bolhinhas da coca-cola e ... bum, explodiremos’. Quando coloquei a cabeça fora da água, tentei tirar o respirador e colocar o snorkel, com o objetivo de economizar ar. Porém, a máscara caiu e comecei a engolir água, pois me esqueci de inflar o colete e o cinto cheio de pesos me puxava para o fundo. Tive a certeza que morreria ali, afogada, e toda minha vida passou como um filme em apenas alguns segundos. Descobri que os relatos da TV eram verdadeiros! Eu havia sido arrastada pela correnteza para cima e para longe do meu barco. Percebi que havia outras embarcações por perto e comecei a gritar por socorro. Os tripulantes me pediam para eu nadasse para junto de suas embarcações, eu me esforçava, mas não conseguia sair do lugar. Pularam na água, para minha sorte eram bombeiros, e me levaram para o barco de um deles. Deram-me água, aqueceram-me e avisaram ao meu barco que haviam me resgatado. Fomos em direção ao meu barco e encontramos o meu instrutor na água, com bóias, pedindo-me para que saltasse e fosse conduzida para o barco onde estava o meu grupo. Eu não conseguia pular, pois na hora da morte só pensei que fora irresponsável, pois tinha três filhos pequenos para criar, e não queria me arriscar de novo. Mas não tinha outro jeito, criei coragem e pulei. Ele me segurou, levou-me para o barco e fui recebida com alegria. Meu companheiro, minha dupla, estava todo sem jeito, pois sabia que não poderia ter me deixado sozinha, isso contrariava as regras dos mergulhadores. Explicou que quando saiu do naufrágio me procurou e não me viu; saiu circulando todo o navio e nada de mim; seu tempo no fundo do mar estava acabando e foi para a corda para subir, pois achou que eu já havia subido sozinha (eu jamais faria isso, jamais subiria e o deixaria sozinho no fundo do mar); quando chegou ao barco e perguntou por mim, ninguém tinha me visto; começou a se preparar para descer novamente e o instrutor falou que quem desceria seria ele; no momento dessa confusão receberam a informação que eu estava em outro barco sã e salva; alívio geral.
Meu ex-marido, que também mergulhava com o mesmo grupo, perguntou-me uma vez, na frente do meu marido, quais as causas do grave acidente. Respondi que o meu marido havia tentado me matar. Sorrimos um sorriso amarelo, cheio de mágoas e constragimentos.
Meu marido nunca tocou no assunto, nunca me pediu desculpas, nunca reconheceu que não teve cuidado comigo. Sinto pior quando tenho certeza de que ele não agiria assim se sua dupla de mergulho fosse uma pessoa estranha. Essa situação foi uma das que mais experienciei o sentimento de abandono e solidão. Talvez, ali, o copo da nossa separação tenha quase transbordado. Hoje somos ex: ex-marido e ex-mulher.

8.4.08

Mundo Encantado

Hoje eu tive um sonho lindo. Estava em um jardim, cheio de flores e de plantas, e tomava uma porção de um líquido que não sabia identificar. De repente, minha percepção ficava alterada e enxergava coisas que outras pessoas não conseguiam ver. Uma enorme alegria invadia meu ser, pois estava vendo fadas, duendes, gnomos, todos os seres encantados da natureza. Lembro que dizia ‘eu sabia, eu sabia que fadas existiam!’. Meus olhos encontravam os de uma fadinha linda, de um verde fluorescente. Ela voava, com doçura, de flor em flor. Era branca, com os cabelos loiros. A princípio pensei que fosse a fada Sininho, mas percebi que era diferente. Única. O êxtase invadiu o meu ser e chorei completamente entregue à magia do momento.
Estava tomando café com minha filha e uma amiga-irmã e elas falaram algo que me lembrou do sonho. Dei um grito de alegria e comecei a chorar de verdade quando entrei em contato com a emoção daquela realidade extraordinária.
Acredito no belo e no bom e acho que precisamos de olhos que consigam enxergar essa energia através de cada coisa que vai acontecendo em nossas vidas. Às vezes nos sentimos na mais profunda escuridão, sem percebermos que precisamos dela para compreender a beleza de um novo amanhecer. É exatamente a Noite que nos possibilita o contato com o mundo dos sonhos, onde habitam nossos medos. Sempre disse aos meus filhos que ‘o medo existe pra gente ganhar dele’. É preciso a coragem da entrega e uma confiança inabalável no Sagrado. Não é fácil esse processo. Remete-nos para o momento do nascimento e estávamos tão quietinhos e protegidos no útero e tivemos que enfrentar aqueles movimentos loucos, aquela passagem estreita e realizarmos a travessia rumo ao desconhecido; se tivéssemos permanecido no ventre teríamos morrido; precisamos passar pelo escuro para encontramos a luz. Esse ciclo vai se repetindo durante a vida e, na minha experiência, sempre que aconteceu foi assustador. A hora da decisão – ficar ou ir – é tenebrosa. Precisamos de muita atenção para que o medo não nos paralise, pois a vida é movimento. E como, como queremos a segurança de uma situação que já conhecemos e temos a ilusão de já dominar. O Paraíso na Terra é para poucos. Só para os corajosos.
E, você, neste momento de sua vida, permite-se ir ou quer ficar? Você decide.